segunda-feira, 11 de maio de 2020

3ºCapítulo - 1º Episódio: "Rio de Janeiro, a grande cidade grande..."


          
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ERAM 19 HORAS QUANDO O AVIÃO começou a voltear nos céus do Rio de Janeiro para pousar.



foto retirada da internet, meramente ilustrativa


       A visão da Baía de Guanabara era realmente indescritível. Eu estava deslumbrado com a primeira imagem da Cidade Maravilhosa. O velho DC-3 sobrevoou várias vezes a cidade, como se quisesse me mostrar toda a sua beleza. Milhões de luzes acesas formavam um lindo colar brilhante ao redor da grande baía. Um espetáculo que meus olhos nunca tinham visto.
Enfim, o avião taxiou no Aeroporto Santos Dumont. Eu estava no Rio de Janeiro, pisando o solo da Cidade Maravilhosa!
foto retirada da internet








Trazia todos os meus objetos em uma única mala, comprada na véspera da viagem. Não foi difícil reconhecê-la no aeroporto, em meio a tantas outras. Destacava-se pela simplicidade.  Recebi-a e, por algum tempo, fiquei parado junto a uma coluna, na entrada principal, meio desorientado, observando o grande movimento de pessoas. 
 (foto retirada da internet)
Não sabia como chegar à casa do meu tio e temia ser enganado por algum desconhecido.  Escolhi, entre os taxistas, um de meia idade, que me pareceu mais confiável. Perguntei-lhe se havia, por ali, algum hotel onde eu pudesse me hospedar. Amavelmente o motorista me conduziu a um, na Rua Cândido Mendes, na Glória.
As minhas primeiras impressões foram ótimas: o motorista, simpático e o hotel, agradável.
Na manhã seguinte, às 8 horas, o café da manhã tinha o sabor da certeza: muitas novidades estavam por acontecer em minha vida. 
      Depois do café, procurei saber como chegar à Diretoria Geral dos Correios, na Praça Quinze.
        Fui bem orientado.

 (foto retirada da internet)


     Segui pela Praça Paris impressionado com a beleza de seus chafarizes, suas estátuas gregas e seu jardim bem cuidado. Depois de atravessá-la totalmente, o caipira aqui se viu contemplando o grande obelisco, na extremidade da Avenida Rio Branco, sob o impacto da sua majestade, encarando-a de frente, tendo-a a seus pés.  Parei extasiado na frente do Teatro Municipal. Meus olhos não conseguiam se desprender da sua fachada cinza, tão magnificamente edificada. 
foto de Augusto Malta, retirada da internet

Tentei me soltar daquele encantamento, mas fiquei amarrado, pelo deleite, a mais dois outros monumentos — Biblioteca Nacional e Escola Nacional de Belas Artes — 
formando assim um triângulo de maravilhas arquitetônicas que com grande esforço consegui deixar para trás.
Misturei-me na multidão que caminhava preocupada em obedecer aos sinais de trânsito, a cada quarteirão. Nunca tinha visto algo tão esplendoroso! Prédios monumentais emendados um a um, gente por todos os lados em todas as direções, automóveis e ônibus em profusão, tudo se manifestando através de um barulho que eu não ouvira antes. Maravilhoso! 


 (foto retirada da internet)
     Contudo, eram os sinais o que mais me impressionava. Parecia uma voz de comando silenciosa: Pare! Ande! Pare! Ande! E assim comecei a andar no ritmo da cidade grande. Além dos sinais, eu tinha ainda uma outra preocupação: ler todas as placas nas esquinas e localizar a Rua da Assembléia. Sabia que quando isso acontecesse teria que dobrar à direita e seguir em frente até o seu final.
     Não demorou.
    Vi a placa e dobrei à direita, como me ensinaram. Era uma rua arborizada, mais estreita que a anterior, e também movimentada. Suas calçadas apertadas obrigavam-me a desviar cuidadosamente das pessoas que andavam apressadas para todos os lados, sem sorrisos, nem cumprimentos. Fiquei pensando quanto tempo eu levaria para conhecer algumas delas a ponto de cumprimentá-las ao caminhar, como fazia em João Pessoa. Finalmente, logo adiante, na esquina com a Rua Primeiro de Março, vi, à minha frente, o antigo e respeitável prédio do Paço Imperial, de tanta história, que abrigava a Diretoria Geral dos Correios, onde eu seria recebido para começar ali a minha nova vida.
 (foto retirada da internet)


 (foto retirada da internet)


      Atravessei, entrei e perguntei ao porteiro onde ficava o gabinete do sr. diretor geral.
O funcionário orientou-me para que subisse ao 2o. andar, o que fiz sem demora. Pulsava em mim uma energia diferente, como se só agora eu estivesse nascendo, conhecendo o mundo. Era um momento ímpar, repleto de expectativas.
Identifiquei-me e fui conduzido à presença de um outro funcionário, que, por coincidência, era João Câmara Dornelas Neto, velho conhecido, que chefiou a Seção de Pessoal na Diretoria da Paraíba. Era, agora, assessor do diretor geral e, quando me viu, veio ao meu encontro, abraçou-me e foi dizendo que ficara sabendo que Zé Pereira quis atrapalhar a minha transferência.
— Agora está tudo resolvido. Parabéns!
        — Ótimo! Assim fico mais à vontade — respondi.
Cordialmente, conduziu-me ao gabinete do Coronel Gerardo e ao entrar foi dizendo:
— Pronto, coronel, eis o funcionário Francisco Nunes!
O Coronel Gerardo apertou minha mão e, educadamente, mandou que me sentasse. Então, eu falei:
— Agradeço o que o senhor está fazendo por mim e peço desculpas por não ter sido ético...
— Quem não foi ético foi o seu diretor — tranquilizou-me.
Depois de ouvir a minha explicação quanto ao envio do telegrama, ele recomendou ao Sr. Câmara que providenciasse a minha apresentação ao Sr. Braz Balthazar, diretor regional dos Correios do Distrito Federal, recomendando que minha lotação fosse, se possível, no Setor Internacional, já que eu era professor de inglês e poderia ser útil ali. 
E, assim, fui lotado e me apresentei dois dias depois no “Colis-Postaux”, na Rua do Mercado, no 49, no Centro.
      No dia seguinte, procurei meu tio.
     Sua residência ficava na Rua Senhor de Matozinho, no Catumbi, cujo número não me recordo. Era uma vila de casas simples, onde residiam ele e a esposa, D. Belina, na casa 3. Quando me viram, ficaram espantados, entreolharam-se, e meu tio perguntou o que eu estava fazendo no Rio de Janeiro. Respondi que havia deixado João Pessoa, que tinha me separado, que conseguira transferência para a Diretoria dos Correios do Distrito Federal e que estava lotado no Setor Internacional. Eu falava sem pontuar, sem dar tempo para perguntas ou recriminações.
Depois de saber onde eu estava hospedado, meu tio se apressou em afirmar que não tinha espaço para me receber em sua casa. O único apoio que poderia me oferecer era almoço ou jantar. Eu já esperava uma reação desse tipo e não fiquei decepcionado. Durante a curta conversa, na sala de jantar, ele me aconselhou a procurar, nos classificados do Jornal do Brasil de fim de semana, um quarto para alugar. Disse que pediria ao seu cunhado, Benito, para sair comigo nessa busca e no sábado seguinte, com o JB na mão, saímos à procura de um quarto. Dei preferência à região do Centro, por ser nas proximidades dos Correios.
O primeiro endereço visitado foi o da Rua Riachuelo, no 252, Centro. Ali havia um quarto para alugar no apto. 305. A proprietária do apartamento, D. Assunção, uma senhora portuguesa muito educada, não fez exigências e, imediatamente, colocou o quarto à minha disposição. Sem pensar duas vezes, voltei ao hotel, fechei a conta, peguei a mala e levei-a para o quarto, onde passei a residir.
Dias depois, apareci na residência de meu tio para agradecer a sua orientação e dizer-lhe que estava satisfeito com a nova moradia. A partir daí, nos vimos poucas vezes. A nossa curta relação de parentesco foi se desfazendo com o tempo.
Meu expediente no “Colis-Postaux” era das 12 às 17 horas.
Durante o primeiro mês, meu relacionamento com as pessoas limitava-se ao ambiente de trabalho. Devagar, fui assimilando as peculiaridades do serviço e fazendo novas e valiosas amizades. Aquele ambiente internacional enriquecia o meu inglês.
Trabalhavam no “Colis” cerca de 30 funcionários dos Correios e 3 ou 4 servidores da Alfândega. Estes tinham por missão fiscalizar e liberar as mercadorias vindas do exterior, inclusive as destinadas às Embaixadas. Já aos funcionários postais — minha equipe — competia abrir as malas, conferir os conteúdos e extrair o aviso, comunicando ao destinatário que a mercadoria se encontrava pronta para ser desembaraçada e retirada. 
 foto retirada da internet












Lá, tive a oportunidade de conhecer Flávio Cavalcante, apresentador de programas da extinta TV Tupi, que fez parte, por algum tempo, da equipe aduaneira. Um de seus programas mais famosos foi “Um Instante, Maestro”, que batia recordes de audiência. Como não lembrar?  Flávio era uma pessoa vaidosa e polêmica, às vezes expansivo e outras muito reservado e distante.
 Terminado o expediente, eu ficava algum tempo na Cinelândia ou no Passeio Público, locais preferidos, na época, para o “footing” de todos os dias. 
foto retirada da internet









       Depois, eu procurava um restaurante de prato simples, comia  uma refeição e seguia, a pé, pela Rua Riachuelo, até o edifício onde estava residindo. Essa era a minha rotina.
Durante esses primeiros dias, eu andava pelas ruas observando todos os rostos, todas as fisionomias, ansiando encontrar algum conhecido da Paraíba.
    Certo dia, por acaso, encontrei Ruy de Assis, que estava chefiando a Agência dos Correios do Jardim Botânico. Paramos em um bar e, entre os goles de um chope, ele me contou que um de seus grandes êxitos no Rio foi ter conseguido cantar na Rádio Nacional. Relembramos, com saudade, algumas passagens de nossa vida na Paraíba. Ruy me falou que, no Rio, casou-se com Lílian, fez grandes amizades, conheceu generais e políticos influentes.
Tempos depois, ele foi designado diretor regional em uma cidade do interior de São Paulo. Dali, retornou para João Pessoa, nomeado diretor dos Correios da Paraíba, função que exerceu por 13 anos. 

        Custei a me adaptar.
     Era grande o contraste entre viver numa cidade pacata como João Pessoa, onde todos se conhecem, e viver no Rio, com tantos rostos desconhecidos. Gostava muito quando encontrava alguém com quem eu pudesse dividir essas impressões, o que era difícil.
      Certo dia, no final do expediente, às 17 horas, quando saía do “Colis-Postaux”, avistei Gelda esperando por mim, na calçada. Decorria mais de um ano de sua partida de João Pessoa, sem que eu tivesse qualquer notícia dela.
Surpreso, cumprimentei-a cordialmente. Ela disse que ficara sabendo, por uma amiga, funcionária dos Correios, da minha transferência para o Rio de Janeiro e não foi difícil me localizar. Apesar de eu não entender o motivo de seu interesse por mim, depois de tanto tempo, senti prazer em revê-la.
     Ali mesmo na calçada, conversamos sobre nossas atividades atuais e falamos das  dificuldades que enfrentam os emigrantes nordestinos nas grandes cidades. Ela contou que trabalhava em um hospital e estava bastante satisfeita com a vida no Rio, embora tivesse encontrado alguns obstáculos no início. Já passava das 18 horas, quando ela me convidou a acompanhá-la até sua casa, no Méier, a fim de que eu conhecesse o caminho para quando quisesse conversar.
Jardim do Méier (foto retirada da internet)
     Tomamos um ônibus e, cerca de 30 minutos depois, descemos em uma grande praça, arborizada, perto de uma estação de trem, em cujo centro via-se um coreto onde, aos domingos à noite — disse-me ela —, uma orquestra abrilhantava, com ritmos alegres, todos os seus recantos. Suas palavras adquiriram um tom sedutor. Atravessamos a praça,  passamos pelo quartel do Corpo de Bombeiros, pelo quartel da Polícia Militar e chegamos a uma vila de casas antigas, pobres e malcuidadas. A que ela residia, com uma amiga, pareceu-me mais pobre ainda. Na sala, observei pouquíssimos móveis, paredes nuas e um forte cheiro de umidade.        Senti o ambiente triste, deprimente, e as palavras de empolgação que ela demonstrara com a vida no Rio começaram a me soar falsas. Tinha agora, na voz, uma intencionalidade disfarçada que transparecia em seus gestos provocantes.
Percebi, naquele momento, que havia deixado me conduzir sem refletir sobre as conseqüências dessa minha atitude. A aceitação daquele convite poderia resultar em um envolvimento que eu não desejava.
    Sabia, muito bem, que Gelda tinha vivido comigo a vergonha do momento que me libertou de um casamento desastroso, mas eu não podia transigir com alguém, apenas por ter sido, casualmente, a mola propulsora da minha libertação. Eu nada lhe devia e a sua presença trazia de volta aflições que eu tanto me esforçara para esquecer. Percebia, agora, que não nutria nenhum desejo de viver uma história que se prenunciara naqueles dias de conflito em João Pessoa. Tive certeza disso e, rapidamente, procurei me despedir com um simples aperto de mãos, convicto de que não mais voltaríamos a nos encontrar. Ela deve ter entendido, pois, mudando de atitude, respondeu secamente ao meu gesto.
Saí, certo de que me deixara iludir. Ela tinha o propósito de estabelecer uma relação íntima, que eu não desejava para mim naquele momento. Culpei-me por ter ido até lá, por ter, possivelmente, alimentado suas esperanças por algumas horas, e procurei esquecer para sempre aquele encontro. Ela nunca mais me procurou.
   Sete anos mais tarde, na Esplanada do Castelo, quando eu aguardava, na fila, um ônibus para a Ilha do Governador, ouvi, atrás de mim, uma voz que me chamava. Era Gelda. Aproximamo-nos e eu lhe perguntei como estava a sua vida. Ela respondeu que estava feliz. Havia se casado com um antigo namorado de João Pessoa e já tinha quatro filhos. O ônibus chegou. Despedimo-nos. Nunca mais nos vimos.


DEPOIS DAS PRIMEIRAS SEMANAS DE DESLUMBRAMENTO com a liberdade encontrada no Rio de Janeiro, passei a viver momentos de isolamento e solidão. À noite, não sentia desejo de sair do quarto. Entre aquelas paredes brancas, com móveis simples e poucos livros na estante, meu pensamento vagava melancólico, como se ali estivesse o meu mundo.
    Vivia sem dar notícias a quem quer que fosse, embora, no íntimo, soubesse que era um absurdo esse procedimento, já que deixara para trás grandes amigos.
Foram dias penosos e difíceis aqueles. Às vezes, tornavam-se um perfeito martírio. Eu sabia muito bem o peso da cruz que carregara durante os últimos anos e permanecia retraído, com medo.
        Havia dias em que me sentia tão dominado pela melancolia que mal conseguia concentrar-me no trabalho, tendo pedido, algumas vezes, para sair antes do horário. Durante algum tempo vivi sem rumo, sem encontrar um tônico para a minha alma. Os dias passavam lentamente, pesados. Hoje, eu sei que passei por um longo período de depressão.
       O trabalho era o meu medicamento homeopático e a afeição dos companheiros o meu lenitivo. A rotina disciplinada e as leituras a que me impus, dentro de algum tempo, foram alterando o meu ânimo, e, sem que eu percebesse, passei a sentir mais interesse pelas pessoas e pelo que elas faziam e pensavam. Operava-se em mim uma metamorfose. Aos poucos, as lembranças dos amigos que deixei em João Pessoa foram sendo substituídas pela convivência com outros amigos que muito ajudaram a expulsar a indolência que me invadia a alma e o corpo.
Acredito que o fim dessa sensação de vela apagada foi em janeiro de 54, no dia do meu primeiro aniversário no Rio. 

Quando cheguei à repartição, fui rodeado pelos colegas que cantando “parabéns pra você” me presentearam com um relógio Mido, frente de ouro. Doze anos depois, repetia-se o mesmo gesto de carinho de minha mãe. Outra vez eu ganhava um valioso relógio carregado de tão boas intenções. Senti como se minha mãe voltasse para me dizer: “Recomece! Agora você já é adulto. Saberá tomar decisões e vai encontrar a felicidade.”
Ganhei vida nova. 
Habituado à solidão, esforçava-me, agora, para acostumar-me às multidões, meter-me no meio do povo, acotovelar-me com as pessoas, tomar o meu lugar, retomar o meu sonho e esquecer a parte triste do meu passado.
A tensão nervosa que eu continha há tanto tempo cedeu e eu passei a viver uma tranquilidade valiosa.

       À medida que os dias se sucediam, eu me tornava consciente do que tinha acontecido comigo. É claro que havia ainda resquícios de culpa, arrependimento, ressentimento e sensação de injustiça. Mas o meu espírito, assim como a minha fisionomia, adquiria um novo vigor. A centelha de animosidade que antes me inundava a alma se dissipava, e minha própria voz ganhava um tom mais seguro.  
Praia do Flamengo  (foto retirada da internet)


Praia de Copacabana  (foto retirada da internet)


       O verão no Rio estava só começando naquele janeiro e, embora chovesse de vez em quando, o sol surgia abrasador, num céu sem nuvens, e o calor nos convidava aos prazeres da mais linda estação no Rio. As praias do Flamengo,  Botafogo,  Leme, Copacabana e Leblon enchiam-se de banhistas, muitos deles turistas. O Rio ganhava cores vibrantes, tornava-se alegre e agitado. Os domingos me atraíam e passaram a me proporcionar momentos de tamanha euforia que eu os aguardava como aqueles domingos em que eu ia para a Fazenda Pilões, do meu padrinho.
“Oh, que alívio, bendito instante aquele em que vesti a camisa da liberdade” — repetia para mim mesmo.
Vivia, agora, a plenitude de uma vida de adulto, independência que eu nunca conhecera.
Diante dessa paisagem maravilhosa, com tantas mulheres bonitas espalhadas na areia, gente dourada e sorridente por todos os lados, sentia necessidade de fixar cada momento, como se quisesse provar, a mim mesmo, que havia me integrado completamente.
Adquiri uma máquina fotográfica Kodak, 35 mm, e mesclei-me à multidão das praias, vaidoso e com ar de turista, fotografando tudo e todos. Isso me dava uma sensação de leveza muito grande, além da oportunidade de fazer novos amigos. Busquei-os sempre. A possibilidade de não ter com quem trocar idéias sempre me afligiu.
Num domingo de sol, na Praia Vermelha, conheci Augusto, paraibano, quase da minha idade, solteiro, estabelecido no ramo de farmácia. Vivia no Rio há muitos anos e, graças à sua simpatia, tornamo-nos amigos e, aos poucos, em sua companhia, aprendi a ser mais seguro.     
Durante a semana, ele trabalhava na farmácia, em Botafogo,  até 22 horas, e eu, depois do trabalho, perambulava sozinho, na Cinelândia, até tarde. Este era o lugar mais badalado do Centro do Rio, na época. 
Por ali transitavam artistas, compositores — lembro-me de Villa-Lobos e Pixinguinha — e muita gente famosa que frequentava os teatros: Municipal, Dulcina, Serrador... Eu observava, fascinado, o vai-e-vem das pessoas que enchiam as calçadas, entrecruzando-se no coração da cidade, e sentia-me contemplado, com a felicidade de quem encontrou o que procurava.
Em um outro domingo, na Praia Vermelha, eu e Augusto conhecemos Circe e Carmen, duas irmãs judias. Circe era esquiva, inteligente e ambiciosa. Via-me como um playboy, possuidor talvez de grandes latifúndios lá “pras bandas” do Nordeste. Eu nunca reagi aos seus comentários burgueses a meu respeito e até estimulava para que ela fizesse uma ideia fantasiosa da minha pessoa. Quando nos encontrávamos, aos domingos, eu procurava demonstrar boa situação financeira, fazendo pouco caso das pequenas despesas na praia. Mostrava-me atrevido com as mulheres, escolhendo as poses que elas deviam fazer para serem fotografadas por mim. Percebi que uma máquina fotográfica seria uma grande aliada para provocar aproximações, além de permitir levar para casa a beleza das imagens. Tudo dependia da perícia do fotógrafo. 

foto retirada da internet, Jornal O Globo.



















As duas residiam no Méier. Quando nos encontrávamos, na praia, ficávamos conversando até o final do dia. Depois, tomávamos o bonde para o Centro da cidade e nos despedíamos. Augusto ficava no meio do caminho.
      Com poucos encontros, as duas “gringas” começaram a demonstrar interesse para que nos encontrássemos durante a semana. Augusto caiu fora, alegando que fechava sua farmácia às 22 horas e era impossível encontrar-se com Carmen. Restou ao noviço, aqui, acompanhá-las ao cinema, por duas ou três vezes, pois ainda me faltavam argumentos para me desvencilhar delas. Depois do cinema, eu as conduzia até o Méier, onde moravam.

 (foto retirada da internet)

 (foto retirada da internet)

Na última vez, Circe disse que seus pais gostariam de me conhecer. Acendeu em mim o sinal vermelho...






  










    Percebi que estava em perigo e mudei de rota no domingo seguinte, quando passamos, eu e Augusto, a freqüentar a Praia de Copacabana. Nunca mais as vimos. Durou menos que um verão...
            Esse rápido envolvimento com Circe, e o receio que eu tinha de que descobrissem o meu passado, despertou em mim o desejo de me livrar, legalmente, de D. Mara. Comecei, então, a pensar em encontrar um caminho para o desquite. Reconhecia que seria o mesmo que ultrapassar uma grande muralha, dada a resistência que imaginava encontrar por parte daquela senhora.   
        Escrevi uma carta a Humberto, falando da satisfação que sentia por estar me integrando, mais rápido do que esperava, na vida do Rio e relatei o perigo pelo qual passei, ainda no início da carreira de solteiro, quase caindo na mão de outra “Circe”. “Senti-me, disse, como Ulisses desembarcado na ilha habitada pela feiticeira. E, antes que ela me segurasse junto de si e fizesse uso de seu licor encantado, que transforma todos em porcos, caí fora! Preferi continuar na minha forma humana. Deixei Circe na mão!”
             Falei, ainda, da minha intenção em conseguir o desquite e pedia que ele me ajudasse.  
     Na semana seguinte, recebi uma carta de D. Regina, mãe de Humberto, dizendo-se feliz por saber que eu estava bem. Mais adiante, abria um tópico onde me dirigia um estranho pedido: que eu intercedesse no noivado de Humberto com Carmen, pois ela havia chegado à conclusão de que aquela união não seria duradoura. Fiquei muito confuso sem saber o que responder, mas, em consideração à maneira afetuosa como sempre fui tratado pelo casal Sobral, tentei dissimular uma resposta, aconselhando-a a ter paciência, pois  Humberto e Carmen talvez não fossem almas gêmeas, e, no momento próprio, decidir-se-iam pelo melhor. Lembrava ainda à D. Regina que para tudo existe um tempo certo e que nada podemos fazer para abreviar ou alongar esse tempo.
               Logo eu, que tanta dificuldade tivera para encontrar soluções para a minha vida pessoal em João Pessoa, estava agora sendo convocado para ajudar a resolver a vida amorosa do meu amigo-irmão?! 
                  Ao ler minha carta, ela exultou e mostrou-a ao filho, que, apaixonado, não se conteve e disparou na minha direção uma carta-bala que me feriu mortalmente. Suas palavras eram cheias de mágoa, dizia-se indignado por eu ter invadido a sua vida pessoal com comentários levianos, simplesmente para agradar a sua mãe. E rompeu com a nossa velha amizade, de forma irreversível e incondicional, com as seguintes palavras: “Não me procure, nunca mais!” Fiquei com a carta nas mãos, estático, congelado, convencido de que eu havia cometido um dos maiores despropósitos de minha vida.
                Jamais esperei receber uma carta como aquela. O efeito produzido em mim foi tão funesto, que fiquei vários dias acabrunhado. Dessa forma, cessou a correspondência entre mim e Humberto, mas me correspondi com seu pai, algumas vezes ainda.


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