segunda-feira, 11 de maio de 2020

3ºCapítulo - 2º Episódio: "a volta a JP e a certeza de que meu destino estava no RJ"







NO “COLIS-POSTAUX”, CONHECI REINALD BRUM, um autêntico alemão: alto, forte, de olhos e cabelos claros. Ele tinha uma livraria na Av. Rio Branco, que importava livros por aquele serviço dos Correios. No balcão de atendimento, sempre conversávamos. Certa vez, confidenciei-lhe que estava precisando de uma atividade extra que me rendesse algum dinheiro, pois as minhas condições financeiras não eram boas. Então, dias depois, ele me convidou para trabalhar em seu escritório. Passei a ter duplo ordenado. Pagava o aluguel do quarto e fazia as refeições no restaurante dos Correios ou no Calabouço, restaurante dos estudantes. O que sobrava era suficiente para satisfazer os meus desejos no novo mundo que surgia para mim.
      Pude viver mais tranqüilo financeiramente, e passei à fase da ostentação.
Minha aparência mudou.
Sentia-me carioca.
Acervo familiar











     Os conhecidos que vinham da Paraíba, quando me encontravam, admiravam-se do meu aspecto elegante e do bom relacionamento que eu tinha. Ao regressarem, divulgavam essas impressões aos quatro ventos. Era o que eu queria. Eu agora fazia questão que muitos vissem, e outros tantos soubessem, que eu estava feliz. Vivia a plenitude dos meus dias, tinha amigos e namoradas, frequentava bares badalados, cinemas e teatros, completamente integrado à vida carioca. Vestia roupas de tecidos importados, feitas sob medida, e já não me preocupava tanto com o passado. Eu estava vivendo, definitivamente, o presente.
Foram bons momentos, devo reconhecer.
     Hoje, me dou conta de que esse comportamento, por vezes excessivo naquele tempo, revelava uma vaidade interior acumulada desde o tempo de rapaz, em Jatobá, e que, até então, eu não conseguira extravasar.
 A “5a Avenida”, uma loja de roupa popular na esquina da Rua Sete de Setembro com a Av. Rio Branco, foi uma das primeiras a lançar o sistema de vendas a crédito. Os salários eram baixos e o novo jeito de comprar se expandiu rapidamente. Eu aproveitei essa facilidade e, assim, conseguia acompanhar a moda, entremeando o luxo comprado à vista com a simplicidade comprada a prazo.


NO PAÍS, QUERIAM O FIM DA HEGEMONIA política de Getúlio. 







Estávamos no ano de 1954, em meio a um dos mais acirrados momentos políticos de todos os tempos. De repente, foi desferida uma violenta batalha verbal pela imprensa, tendo à frente o jornalista Carlos Lacerda.
   No dia 5 de agosto, com a intenção de calar Lacerda, elementos da guarda pessoal de Getúlio atingiram mortalmente um oficial da Aeronáutica que dava proteção ao jornalista, sendo este atingido por um tiro no pé. 

Os militares mostraram-se revoltados com o atentado. Os ânimos se inflamaram. O sistema político, que caminhava com passos cambaleantes, depois do atentado, se decompôs e ninguém mais acreditava na ação das autoridades.
Na madrugada do dia 24 de agosto o Presidente Getúlio suicidou-se.




Cortejo fúnebre de Getúlio

Era inimaginável aquele trágico desfecho. Agora, todos temiam uma revolução.
No Correio, o ambiente era de intranquilidade. Naquele dia, depois do trabalho fui diretamente para casa. À noite, não saí. A cidade inteira estava em grande rebuliço, e diziam que era muito perigoso ficar na rua.
   No dia seguinte, compareci ao trabalho com a mesma preocupação do dia anterior. Havia inquietação por toda parte.
Pouco a pouco, estabilizou-se a situação. As lamentações, as explosões de cólera e o rumor de um movimento foram perdendo consistência e começaram a ceder à razão.
Levaram o corpo do presidente-suicida para São Borja/RS, sua terra, em tal clima de amadurecimento político, que eu fiquei meditando: “Será que somos, de fato, um povo pacífico?”
O vice-presidente assumiu.
Aos poucos, a vida nacional foi se normalizando.


DESDE QUANDO CHEGUEI DE JOÃO PESSOA e fui morar no apartamento de D. Assunção, estabeleceu-se entre nós um excelente e respeitoso relacionamento, que me levava a vê-la como amiga e protetora. O convívio com seus familiares tornava-me confiante e seguro. O tratamento que me era dispensado não se diferenciava daquele recebido pelo meu amigo Djalma, que ocupava outro quarto no mesmo apartamento. D. Assunção era uma pessoa extremamente humana e amiga. Quando a conheci, devia ter 65 anos. Ficara viúva com 21 anos e, sem filhos, foi obrigada a administrar  sozinha os bens deixados por seu esposo: uma padaria e alguns imóveis.
Em 1957, ela resolveu vender o apartamento e mudar-se para a casa da Ilha do Governador, onde residia sua mãe, bem idosa.
Eu deveria procurar outra residência, mas eu não queria me afastar do convívio familiar a que já estava acostumado e resolvi alugar um dos dois apartamentos que havia nos fundos de sua casa, na Ilha.
acervo familiar











Assim, numa manhã de primavera daquele ano, mudei-me para a Ilha do Governador, vendo nisso algumas vantagens: ocuparia um apartamento independente e não apenas um quarto; não me desvincularia da amizade e da dedicação daquela senhora; conheceria um novo local para viver no Rio; teria chances de fazer novas amizades. Como desvantagem, apenas o fato de ter que pegar transporte para o trabalho, cerca de uma hora de ônibus, na ida e na volta, diariamente.  
       O meu apartamento ficava no primeiro andar, anexo à casa, com razoável conforto. 


      Os móveis do quarto eram os mesmos que eu já utilizava, acrescidos de uma mesa com cadeiras, na sala.
   Morando ali, entrei, então, numa fase de introspecção, depois de ter experimentado a euforia da liberdade na cidade grande. Sentia-me mais atraído pela leitura de bons livros e brincava com a máquina fotográfica, até mesmo sozinho, no interior do apartamento.
        A velha Kodak foi substituída por uma Rolleiflex. 


acervo familiar
Ela passou a ser a minha paixão e eu a levava para todos os lugares aonde ia e a ostentava como uma verdadeira joia. Mergulhei num mundo fascinante e encontrei um novo caminho para estudo e dedicação. Entrei para a Associação Brasileira de Arte Fotográfica e participei de palestras e orientações sobre essa arte.


CERTO DIA, ENCONTREI por acasono Centro do Rio, Zito, irmão de Olívia, e sua jovem esposa Elisa, que estavam em lua-de-mel. Desde a minha saída de João Pessoa que não nos víamos. Zito mostrou-se feliz com o nosso encontro, trocamos algumas palavras, e ele demonstrou curiosidade em saber onde eu estava morando. Falei-lhes da minha mudança recente para a Ilha do Governador e mostraram-se interessados em conhecer aquele local. Então, eu os convidei para lá se hospedarem. Prontamente aceitaram.
Ocuparam o apartamento por três dias, enquanto eu me transferi para o outro, menor, que estava vazio. Durante esses dias, fiz questão de proporcionar-lhes uma boa recepção. Era verão, e foi uma excelente oportunidade para sua esposa, que, pela primeira vez, visitava o Rio. Durante todo o tempo, e com a ajuda imprescindível de D. Assunção, tiveram toda a assistência. Fizemos alguns passeios e visitas a pontos turísticos da cidade, patrocinados por mim.

No terceiro dia, Zito me confidenciou que gostaria de dar uma esticada até São Paulo, mas suas finanças já não permitiam. Ofereci-lhes a quantia desejada e eles partiram para a capital paulista, onde ficaram três dias.
Ao regressarem, ele disse:
— Quando eu chegar em João Pessoa, enviarei a quantia que você me emprestou.
—  A viagem a São Paulo é o meu presente de casamento. Você não me deve nada. —  respondi, percebendo a alegria do casal.
     Eu precisava mostrar que estava recomposto financeiramente, decidindo as minhas próprias ações e de bem comigo mesmo. E isso me envaidecia.
Antes de regressarem, convidaram-me para que eu voltasse a João Pessoa. Relutei, mas houve insistência do casal, que demonstrava ansiedade para retribuir a atenção que lhe dediquei.           Retornar a João Pessoa, ainda que por um dia, custava-me um esforço infinito. Apesar da grande saudade que eu sentia de Eliane, dos amigos e da paisagem, o retorno ao cenário da minha tragédia pessoal contrastaria com a alegria de uma vida liberta a que eu já me acostumara. Mas foi tão grande a insistência, que um sentimento de audácia me envolveu e acabei concordando em viajar, num futuro próximo, na condição de seu hóspede.
     O convite reacendeu a ideia de conseguir o desquite, por ocasião da minha visita. Os meus hóspedes se ofereceram para encaminhar o diálogo com D. Mara no sentido de convencê-la a assinar amigavelmente a carta de alforria, e eu contava com essa preparação psicológica antecipada. E, assim, eles partiram levando essa missão e a certeza de que eu jamais voltaria a viver em João Pessoa. Era o apoio que eu esperava há muito tempo. Resolvido esse primeiro impasse, seria mais fácil. Eu acreditava que ao chegar à Paraíba tudo já estaria conversado, e teria apenas que acionar a Justiça. Confiava na tranquilizadora intermediação que o casal me prometera e considerei certa a minha ida a João Pessoa.
Poucas semanas depois, entrei de férias. Comprei uma passagem aérea para Recife e, de lá, viajei de ônibus até João Pessoa. Durante todo o tempo, no avião, em meio ao barulho infernal das turbinas, fazia mil reflexões e já sentia a vertiginosa sensação de mal-estar por ter que encarar aquela senhora. Mas a esperança de ver atendida a minha pretensão me impulsionava a enfrentar o que fosse. Sentia-me como um estudante que ia se submeter a uma difícil sabatina.
Eliane já estava com sete anos. Eu não tinha a menor ideia do gosto ou preferência da minha filha, nem sabia como impressioná-la no nosso primeiro encontro. Decidi, por intuição, levar-lhe de presente um vestido cor-de-rosa. Comprei o mais caro que vi na vitrine da melhor casa de artigos infantis do Centro do Rio. Saí da loja orgulhoso, carregando aquele presente embalado com papel de seda e acondicionado em uma bela caixa amarrada com um laçarote de fita de cetim. Imaginava, de todas as maneiras, a expressão de seu rostinho quando o recebesse de minhas mãos. Estava certo de que Zito e Elisa trariam Eliane à minha presença, conforme prometeram.
Cheguei a João Pessoa no final da manhã. Apesar de ter avisado, por telegrama, não encontrei ninguém à minha espera na rodoviária. Um sentimento repentino de decepção se apoderou de mim, e foi como um sinal de que alguma coisa falharia. Tomei um táxi e, indeciso, rumei para o endereço que me haviam dado, em Jaguaribe. O casal me recebeu de forma gentil e alegre. Falei da cansativa viagem e, em seguida, conduziram-me para o quarto de hóspedes. Tomei um banho, troquei de roupa, e foi servido o almoço. Estávamos apenas eu, Elisa e Zito, que se desmanchavam em gentilezas, tudo fazendo para que eu me sentisse à vontade.
Antes que nos sentássemos à mesa, Zito me chamou reservadamente e disse que a proposta de D. Mara, para assinar o desquite, era de Cr$ 10.000,00. Uma pequena fortuna! Representava mais de um ano de trabalho no Correio!
Espantado, reagi:
— Essa importância é muito alta e eu não disponho dela, assim, à queima roupa. É definitivo esse valor? 
— É, sim! Inegociável! Ou concorda ou nada feito, fica tudo como está — respondeu ele, categórico.
Abaixei a cabeça desiludido e resolvi não voltar ao assunto. Nesse exato momento, eu me arrependi de ter mostrado ostentação por ocasião da visita dele ao Rio.
Percebi que a missão diplomática dos meus amigos havia falhado. E vi caírem por terra todas as minhas esperanças. Nem bem havia chegado, já estava querendo voltar, restava-me, apenas, o encontro com Eliane. 
Então, durante o almoço, perguntei:
— E Eliane, quando poderei vê-la? Desejo entregar-lhe, pessoalmente, o presente.
Como resposta, um enigmático silêncio. Eu também me calei, mas esperava que ela aparecesse de surpresa a qualquer momento. No dia seguinte, logo cedo, insisti no encontro com minha filha e, então, ouvi do casal que D. Mara não permitiria que eu visse a menina. Senti meu corpo arder. Minha mente se indignou com perguntas: “Eu estou afastado há tanto tempo e aquela senhora ainda não acalmou a sua fúria contra mim?” “Agora que volto a João Pessoa ela continua me negando o direito de ver minha filha?” “Ou estou pagando pelo crime de ter encontrado a minha liberdade?”
Era um sábado. Acompanhado de Zito, fui até a casa de Celina e apelei para que ela tentasse levar Eliane até mim. Ela prometeu que o faria no dia seguinte, domingo. Acreditei em sua promessa e fui, ainda com Zito, para o Cassino da Lagoa, onde tomamos alguns tragos. A paisagem me trazia muitas recordações boas, mas logo eu senti uma agonia me corroendo por dentro e desejei que aqueles dias passassem depressa e eu pudesse regressar. Apenas quatro anos haviam se passado e eu já me sentia um estranho na cidade. 


anos 60
Ao sairmos, comprei um Old Parr para brindar com eles o meu reencontro com Eliane no dia seguinte. Depois, haveria um almoço com uns amigos, conforme prometera Elisa.
   No domingo pela manhã, iniciou-se a consumação do litro de uísque, em meio a grande alegria. Zito, Elisa, um casal de amigos deles e eu bebemos todo o uísque, empurrado por lascas de queijo-coalho,  antes mesmo do almoço.
E Eliane? Nada!
       Pensei que ela poderia estar na casa de Celina, aguardando-me, e, como o almoço já estava servido, planejei para depois essa visita. À mesa pude admirar a fartura e o cuidado que me dispensaram naquela refeição. Não consegui, porém, aproveitar. Tão  logo iniciamos o almoço, senti um forte calafrio correr pelo corpo, como se houvesse ingerido alguma substância estranha cujo efeito, aos poucos e progressivamente, começava a me dominar, dando a sensação de que minhas forças, rapidamente, começavam a fugir. Esforcei-me para acompanhar meus anfitriões, pedindo desculpas por não estar me sentindo bem. Permaneci à mesa, apenas, por consideração.
Mesmo naquelas condições fui à casa de Celina e, ao chegar, espantei-me com a irritante notícia de que D. Mara insistia na decisão de não permitir que Eliane me visse. Pude, naquele momento, ter a dimensão exata da maldade. Também, ninguém se mostrou solidário com a minha decepção nem tampouco sugeriu uma alternativa para que o meu deslocamento a João Pessoa tivesse valido a pena. Eu estava desnorteado, sem idéias, sem nenhuma noção dos meus direitos e sentia medo. E, mais uma vez, me senti só.
       Passaram-se dois dias da minha chegada e eu não conseguia vê-la! A caixa com o vestido se encontrava em cima de uma mesa, tal qual a deixei quando cheguei.
Embora eu tentasse despistar, meu estado de saúde piorava e, na segunda-feira pela manhã, bem cedo, desci à cidade para procurar uma farmácia ou um médico. Talvez fosse uma indisposição qualquer e uma injeção resolvesse, pensei. Mas o senhor de cabelos grisalhos que me atendeu na farmácia, quando lhe falei dos sintomas, olhando-me fixo por cima dos óculos, perguntou:
— O senhor é da cidade?
—  Sou, sim, mas moro no Rio, há anos.
— Vou aplicar-lhe uma injeção para tratamento de fígado, mas aconselho o senhor a retornar para o Rio, caso não melhore até o fim do dia — falou o velho farmacêutico com voz preocupada.
Saí da farmácia arrepiado da cabeça aos pés.
Ao passar pelo Ponto Cem Réis, vi Humberto, mas ele desviou o olhar, fez que não me viu. Percebi, pelo seu desinteresse, que eu havia perdido o maior dos meus amigos. Na minha mente, todavia, continuava acesa a chama de nossa velha amizade, que, mais cedo ou mais tarde, eu esperava ver recuperada. Naquele dia, porém, eu não tinha ânimo para mais nada e nem aguentaria mais um embate.
Voltei à casa de Zito. Devia almoçar com o casal, mas era tão visível e comprometedor o meu estado de saúde que eu só pensava em voltar para o Rio, imediatamente. Ainda queria visitar o meu amigo Arlindo Brito, conforme havia prometido a ele quando de sua vinda ao Rio. Cumpri essa visita com muita dificuldade. O meu estado de saúde, mais e mais, se agravava. Doía-me o corpo todo e eu tremia sem estar com febre. Sem entender o que se passava, não via outra saída senão retornar ao Rio.
A minha viagem tinha sido em vão.
Nenhum objetivo tinha sido alcançado.
Até mesmo os amigos não consegui rever.
Fui ao correio, passei um telegrama para D. Assunção avisando que estaria viajando doente, pelo voo das 8 horas da manhã seguinte, partindo de Recife. Fiz as malas, despedi-me dos meus anfitriões sem muito reclamar e tomei um táxi de João Pessoa para Recife.
Aquele presente, que eu considerava um marco no reencontro com minha filha, ficou lá, abandonado sobre a mesinha do quarto. Não sei, até hoje, se ele foi entregue.
       Com muitos tremores pelo corpo, pernoitei em um hotel em Recife e, muito cedo, fui para o escritório da Companhia de Aviação. Expliquei para a recepcionista o que estava se passando comigo. Ela informou que só teria vaga para o voo do dia seguinte. Insisti dizendo que meu estado de saúde recomendava cuidados urgentes, e eu precisava regressar ao Rio, o mais rápido possível. Houve inquietação geral. O gerente ia autorizar a minha transferência para outra companhia quando uma desistência permitiu que me incluíssem na lista de passageiros do voo das 8 horas.
 Nem senti a viagem. Apaguei. Cheguei ao Aeroporto Santos Dumont às 12h15min. Naquele momento, percebi que os meus verdadeiros amigos estavam no Rio de Janeiro. Aqui eu me sentia protegido.
    Quando o avião aterrissou, levantei-me da poltrona com dificuldade. Desci a escada  apoiado no corrimão e caminhei cambaleante, amparado por um estranho, até a porta, onde D. Assunção me aguardava. Eu já não me sustentava em pé. Tomamos um táxi e rumamos para a Ilha. Durante todo o percurso eu mal podia falar. Pálido e abatido, saí do táxi ajudado pelo motorista. Tremia que nem vara verde. Fui colocado na cama de D. Maria, mãe de D. Assunção, enquanto era chamado o Dr. Cícero, médico de confiança da família. Ele chegou rápido. Sentou-se ao meu lado, tomou meu pulso, examinou-me meticulosamente, fixou-me um olhar preocupado e disse:
    — Temos que agir imediatamente, o rapaz parece que está envenenado!  
Soube mais tarde que o médico recomendara extrema urgência no uso da medicação porque o caso poderia ser fatal em questão de um dia ou dois.
Eu já tinha lapsos de consciência.
Foi iniciado o tratamento.
Logo após as primeiras doses da medicação, como que por efeitos mágicos, eu, o quase moribundo, comecei a sentir grande alívio. Dois dias depois, meus lábios azulados tornaram-se vermelhos e um vigoroso calor invadiu o meu corpo. Pela primeira vez na vida, eu lutara contra a morte.
     E para sempre ficou em mim uma pergunta sem resposta: “O que teria, de fato, me acontecido naqueles quatro dias de volta ao passado?” Passaram-se os anos e, até hoje, ninguém quis saber como consegui sair da difícil situação em que me encontrava quando deixei João Pessoa. 
    Alguns meses depois, tive uma surpresa: recebi uma pequena carta de Eliane, quase um bilhete, onde ela me pedia um relógio de ouro. Era uma carta de criança, sem muitas palavras. Não fazia nenhuma referência ao vestido que eu havia deixado para que lhe entregassem. Comprei o relógio e mandei pelo correio.


ESTÁVAMOS EM 1958 E EU JÁ HAVIA me acostumado com a vida pacata da Ilha do Governador, quando  D. Assunção retomou, por falta de pagamento, o apartamento da Rua Riachuelo. Após o despejo, ela, por determinação judicial, voltou a ocupar o imóvel. Resolvi acompanhá-la na volta para a cidade, mesmo porque eliminava o único inconveniente de morar na Ilha: o transporte de ônibus. Eu acabava de me recuperar do “envenenamento” ocorrido no ano anterior e me sentia, ainda, fisicamente debilitado.
Reginaldo era nosso vizinho no prédio da Rua Riachuelo. Ele era casado com D. Luz, uma portuguesa de fisionomia severa, e tinham uma filha ainda muito jovem.
      Visitávamo-nos constantemente e ficávamos até tarde da noite conversando sobre vários assuntos, principalmente ciências ocultas.       Naquele período de reclusão na Ilha, além da fotografia, esse era o meu tema preferido para estudo e adquiri várias obras importantes. 
De repente, um surto de sarampo se espalhou pela cidade e Regina, filha do meu amigo, contraiu a moléstia. Ele entrou em pânico como se o caso fosse irreversível e um sentimento de desgraça dominou-o inteiramente. Diante do seu desespero, vendo sua única filha às portas da morte em plena juventude, uni-me à dor daquele casal e, sempre que eu chegava do trabalho, ia reconfortá-los.
      Nesses contatos diários, contraí o sarampo ao mesmo tempo em que a filha deles dava sinais de recuperação. Em uma semana fui jogado na cama, tal qual Regina, e fiquei um trapo, chegando ao ponto de não reconhecer as pessoas que me visitavam. Levantava-me da cama com grande dificuldade. Por fim, nem isso eu conseguia. O meu amigo, que antes se angustiara com o sofrimento da filha, agora se preocupava comigo. 

Ele tinha um táxi, trabalhava na praça, mas seu pensamento permanecia em mim. Várias vezes durante o dia ele aparecia para saber das minhas necessidades. Era ele quem me conduzia ao banheiro e me sustentava em outros deslocamentos. Comprava os remédios, trazia o médico para as consultas, o enfermeiro para aplicar injeções, levava notícias para os colegas do Correio e do Livro Técnico.  Sua dedicação por mim foi incansável.
   Certo dia, quando chegou à beira de minha cama, viu-me desfalecer. Acometido de um mal súbito, minha pulsação se foi. Lembro que me senti envolvido por uma névoa e apaguei. Depois de alguns minutos, voltei a mim. Estava coberto com um lençol branco, e D. Assunção e Reginaldo choravam ao meu lado. Para eles eu havia falecido, pois era essa a expectativa do médico.
Eu e meu amigo Reginaldo estudávamos religiões e, nos últimos tempos, vínhamos frequentando uma Ordem Espiritualista na Rua Aristides Lobo, no Rio Comprido, então, pedi a ele que comunicasse à direção da Ordem que eu necessitava de apoio espiritual. E assim, na sessão daquela noite, ele transmitiu à entidade dirigente, Mãe Maria Joana, o meu pedido.
      No dia seguinte, logo cedo, vestida de branco como se estivesse em atividade na Ordem e acompanhada de seu assistente, Mãe Maria Joana, a expressão viva de uma maga branca, chegou e, ali mesmo, no pequeno espaço do meu quarto, através de um brusco movimento de seu corpo franzino, lançou no ar um longo suspiro, ergueu os braços em forma de cálice, cerrou os olhos, pronunciou palavras ininteligíveis e, em seguida, curvou-se sobre o meu ventre, fazendo deslizar sua mão macia por toda a região do meu abdome, ao mesmo tempo em que o apalpava. Houve um momento de silêncio interrompido por uma fala firme e grossa:
        — Você está podre!
Ao ouvir o que a entidade dizia, D. Assunção esboçou um movimento de humildade, unindo as mãos junto ao queixo, ao mesmo tempo em que, preocupada, perguntava:
— É grave?
— Ele vai viver — disse a entidade, acariciando-me na cabeça. — Você vai ficar bom. Amanhã será outro — reforçou, olhando-me nos olhos.
Depois disso, estremeceu bruscamente e, em movimento involuntário, libertou-se do transe, retornando ao seu estado normal.
Com um gesto carinhoso e quase natural, Mãe Maria Joana despediu-se de mim e partiu.
Dormi calmamente toda a tarde e, à noite, tive a sensação de já estar melhor, acreditando no trabalho realizado pela entidade que me visitou. Na manhã seguinte, quando acordei, contei para Reginaldo o sonho que tivera:
— Eu estava deitado, doente, sobre uma cama, cercado de médicos vestidos com roupas muito alvas, com máscaras no rosto, debruçados sobre mim, como se estivessem me operando...
Não consegui terminar de contar o sonho. Tive um súbito e inexplicável enjoo, seguido de golfadas de um líquido amargo, escuro, que encheu imediatamente uma bacia de bom tamanho. Sentado na beira do leito, com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça apoiada entre as mãos, esforçava-me para suportar as terríveis náuseas causadas por aquela profusão de vômitos. Sentia-me terrivelmente mal, ofegante, extenuado, incapaz até de derramar lágrimas. Esgotada aquela malcheirosa substância escura, expelia agora uma outra, de cor esverdeada, mais amarga e com insuportável gosto de mastruço. Em seguida, finalmente, expeli uma outra grande quantidade de um líquido amarelado, também muito amargo e fétido, que foi a última etapa do meu sofrimento. Pararam os vômitos. Ficou apenas um grande mal-estar acrescido de palpitação e sensação de enfraquecimento que, aos poucos, foi desaparecendo. Meu amigo, durante todo o tempo permaneceu sentado ao meu lado, e ao se despedir, disse:
— Bola pra frente, campeão!
      No outro dia, amanheci melhor e, a partir daí, rapidamente me recuperei. Sentia vontade de me alimentar e de ingerir muito líquido.
   D. Assunção não descurava da medicação nem da minha alimentação. Assim, dez dias depois eu estava completamente recuperado e em condições de retornar ao trabalho, depois de 40 dias de licença médica.
   Entretanto, por precaução, e atendendo à recomendação do médico para que mantivesse repouso, pedi dispensa do emprego no Livro Técnico, ficando apenas com as atividades do Correio.  
A minha situação financeira piorou, claro.
O dinheiro só dava para as despesas.
Nesse meio tempo, recebi outra carta de Eliane. Ela me pedia um acordeom. Respondi lamentando não ter condições de atendê-la naquele momento.
     Alguns meses depois, chegou pelo correio a terceira, e última, carta dela. Era um desabafo extemporâneo, cheio de revolta e despropósito. Referia-se com orgulho ao nome de família da mãe e desconsiderava o sobrenome Nunes, dizendo que este não tinha tradição nem qualquer importância na Paraíba. Eliane ainda ia fazer dez anos e só podia estar sendo envenenada por alguém. Percebi que as palavras que utilizava não eram suas, e  que aquela carta era resquício de uma retaliação que jamais poderia estar partindo dela. Vi como sendo mais uma perversidade, dentre tantas que conheci, e que agora era repetida, utilizando os sentimentos daquela criança. Revoltado, num gesto brusco, rasguei a carta e fiquei deprimido por algum tempo. 

SEMPRE DESEJEI SER MAÇOM. Desde muito, via a Maçonaria com respeito e admiração. Embora desconhecesse suas práticas secretas, sentia um desejo oculto de me tornar um daqueles homens serenos e respeitáveis, como tantos que eu já conhecera.
O advogado de D. Assunção, Dr. Leonel, era um desses homens formidáveis. Por formação, era um homem probo e de notável saber jurídico. Devotava grande parte de sua vida à causa dos menos afortunados, defendendo-os com abnegação e honestidade, cobrando honorários só dos que podiam pagar.
Numa visita ao seu escritório, em 1958, confessei-lhe o meu desejo de ingressar na Maçonaria. E, naquela mesma ocasião, ele me sugeriu que fizesse um requerimento solicitando o meu ingresso na Ordem. Disse-me que haveria uma rigorosa sindicância sobre a minha vida e que demoraria de três a sete meses para ser convocado. Se aceito, eu seria convidado para um banquete, no qual a Maçonaria comemoraria o meu ingresso no quadro de irmãos.
Algum tempo depois, minha residência foi visitada por três pessoas, uma de cada vez, em datas diferentes, parecendo estarem em missões específicas. E, assim, levantaram minha vida em casa e no Correio, sem que eu os visse.
O tempo ia passando. Parecia-me injustificável a demora em me chamarem, mas havia lido que não adiantava pressa, pois a porta da Maçonaria jamais se abriria para alguém que batesse antes do tempo.
De repente, fui convidado para um banquete. Recomendaram-me que fosse vestido com terno preto ou azul-marinho. Era uma terça–feira e, no horário marcado, lá estava eu, todo empertigado no meu terno azul-marinho. Chegava, assim, à realização de um grande sonho.
Reginaldo ficou muito feliz. Ele agora podia dividir comigo momentos de estudo das obras maçônicas e outras do gênero.
Todas as noites ficávamos juntos, um na casa do outro. Lembro que chegamos a traduzir Teaching of Secret Philosophy of All Age, de Palmer, obra que encerrava todos os ensinamentos esotéricos conhecidos pela Humanidade. Eu traduzia e Reginaldo datilografava, até às 22 horas. Esse trabalho era, antes de tudo, uma terapia, que alimentava o nosso espírito e nos aproximava cada vez mais.
Reginaldo tornou-se meu irmão, meu amigo, meu confidente. Sabia de todas as minhas angústias e conhecia o meu interior.


 ASSIM CORRIA O TEMPOEu já esquecera da minha fase de deslumbramento e, cada vez mais, me identificava com a introversão. Passei a conhecer outros valores e a perseguir outros objetivos e, confesso, me senti melhor comigo mesmo. 
 Nessa época, D. Assunção iniciou a construção de uma casa na Ilha, gerando gastos inesperados. As dívidas se avolumaram levando-a a perceber que estava caminhando para um grande baque financeiro. Para resolvê-lo, ela não titubeou. Vendeu o apartamento no Centro do Rio que acabara de recuperar e voltou a morar com sua mãe na Ilha do Governador.  Eu precisava, então, procurar outro quarto para morar ou arcar, sozinho, com o aluguel de um apartamento.
Vendo a minha preocupação, D. Assunção insistiu para que eu voltasse a morar no mesmo apartamento, na Ilha, estipulando um aluguel que correspondia à metade do que eu pagaria por qualquer espelunca no Centro do Rio.
Assim, voltei a morar na Ilha do Governador.


Certo dia, num fim de tarde, quando eu caminhava pela Rua da Carioca, distingui entre os passantes, vindo em minha direção, o Dr. Aurélio. Aquele mesmo que, em 1939, “sacramentou” a minha expulsão da escola de D. Luisa, sua esposa. Pensei ser um engano, fazia mais de 20 anos que não o via, mas arrisquei. Parei à sua frente, fitei-o firmemente, e disse:
— O senhor por aqui, Dr. Aurélio?! Jamais poderia imaginar que depois de tantos anos eu o reencontraria em pleno Centro do Rio de Janeiro!
Ele me olhou, surpreso, sem entender a minha admiração, e perguntou:
— E você, quem é?
— Sou Chico Nunes, neto do velho Ezequiel de Jatobá, lembra? Fui expulso da escola de D. Luisa por ter rido de um gato.
— Ah, meu filho! Claro que lembro... E o que faz você aqui?
Nesse momento, eu percebi que havia remexido em suas lembranças; sua face se ruborizou, seus olhos brilharam. Expliquei que morava no Rio e que era funcionário dos Correios.
— E D. Luisa, como está?
Ele, sem responder a minha pergunta, passou os dedos pelo rosto, disfarçou uma lágrima e, imediatamente, acrescentou que estava aposentado, a passeio no Rio.
— Foi um prazer vê-lo com saúde, doutor.
Despedimo-nos, e no aperto de mão nos identificamos como irmãos. Saí dali tentando entender o que o destino quis provar ao me proporcionar aquele encontro. Hoje sei que esses momentos acontecem em nossa vida para nos fazer refletir sobre acontecimentos que foram determinantes em nossa caminhada, embora nos tenham causado sofrimento e decepção. 



MARÇO DE 1960. FALAVA-SE DAS PROEZAS de Jânio Quadros, discutia-se sua campanha, sua eleição. Meu amigo Reginaldo sentia-se em estado de graça, pois confiava no governo do seu conterrâneo. Todos os dias, entremeávamos nossas traduções esotéricas com comentários sobre aquela figura esguia e agressiva que falava “desatravancadamente” sobre os problemas da nação: assistência social, direitos das classes operárias e organização do sistema econômico. Usando uma vassoura como símbolo de campanha do seu futuro governo, prometia varrer tudo de ruim no país; prometia lutar contra o alto custo de vida; prometia, até, o uso da força contra os enganadores do povo. Seu discurso parecia corresponder aos anseios da imensa massa que, cansada de promessas, esperava o desfecho desse jogo de palavras. Reginaldo era seu fiel escudeiro. Acreditava que ele não falharia. E Jânio foi eleito com grande maioria, tomando posse em janeiro de 1961.



Em agosto desse mesmo ano, Jânio renunciou por não suportar as pressões políticas. João Goulard assume a presidência.




CASA QUE D. ASSUNÇÃO CONSTRUÍA começou a causar-lhe prejuízos e ela necessitou hipotecar a outra onde morávamos. Vimo-nos, outra vez, ameaçados de mudança. A pobre senhora estava num despenhadeiro, perdendo seus bens um a um. Precisou vender dois terrenos que ainda possuía, mas mesmo assim a situação persistiu. Eu me sentia angustiado por não ter condições de ajudá-la. Intimamente, analisava que ela, apesar de, nos bons tempos, ter ajudado vários familiares, agora, sozinha, administrava sua decadência.
“Se eu tiver que deixar a Ilha será para sempre!” — pensava sem saber que essas palavras proféticas traziam surpresas do destino que mudariam, em definitivo, a minha trajetória.     
D. Assunção vendeu a casa em construção. Não lhe restou alternativa. Perdera todos os seus outros bens, mas conseguiu liquidar a hipoteca da casa onde morava, que passou a ser seu único e modesto patrimônio.

Junho de 63.
Eu trabalhava à tarde nos Correios da Rua Primeiro de Março. Havia quatro anos que eu deixara o “Colis”. Desempenhava atividades relacionadas às correspondências que circulavam apenas na cidade do Rio de Janeiro.
Na política, estava em efervescência o movimento de apoio a João Goulart. Só se falava em greves de operários, em tumulto estudantil, nas agitações de Brizola e em movimentos sutis no seio das Forças Armadas. Vivíamos um clima de inquietação. Era imprevisível o destino da nação. Pelegos e comunistas lutavam, lado a lado, com os mesmos argumentos. Oferecia-se o que o país não tinha e nem podia dar.  
Na via pública se promovia a discórdia, pregando a greve e a desagregação; na caserna, alguns já haviam perdido a noção de disciplina, de respeito à autoridade, com o intento de implantar o caos.
O deputado Carlos Lacerda, diante da ameaça de caos social, procurou atrair para si a responsabilidade de restaurar o caráter nacional das instituições, desencadeando, com discursos violentos, um combate sem trégua à subversão e à corrupção em marcha. O brilhantismo de suas palavras, não demorou muito, conseguiu mobilizar o povo a fundamentar uma nova consciência nacional, sedimentada nos princípios democráticos.
A empolgação dominou a nação, o espírito de luta foi para as ruas, a revolta contra o estado de coisas reinante aconselhava a deposição do governo, enquanto outros defendiam o parlamentarismo como fórmula conciliadora.
Mas o que o povo queria era o fim da anarquia. E venceu o lado conciliador, com a implantação, pela primeira vez, do parlamentarismo na república brasileira, sendo escolhido para primeiro-ministro o mineiro Tancredo Neves.
Jânio fora eleito com a promessa de um governo liberal. João Goulart, ao substituí-lo, prometia um governo sensível às reivindicações das classes trabalhadoras. Nesse clima confuso, o parlamentarismo acabou sendo derrubado em janeiro de 1963.
Os discursos inflamados do Presidente João Goulart, nesse período, incentivavam as lutas de classe e preocupavam as Forças Armadas. Em 31 de março de 1964, eclodiu a revolução sem tiros. As tropas se confraternizaram no meio do caminho e a batalha esperada não aconteceu. O presidente foi deposto.


Lembro-me do dia em que, em plena efervescência, ao sair do trabalho, constatei que não havia transporte para qualquer lugar da cidade. As pessoas seguiam a pé, pelas ruas, com destino às suas casas. Eu mesmo fui um dos caminhantes. Saí da Rua 1o de Março, tomei a Avenida Presidente Vargas na direção da interminável Avenida Brasil, segui por ela e, antes da entrada para a Ponte da Ilha do Governador, deparei-me com uma coluna de tanques do Exército, que se deslocava em direção às instalações da Aeronáutica, no Galeão. 



Marchávamos, eu e muitos outros, ao lado das viaturas militares, apavorados com o buzinaço dos tanques. Atravessei a ponte e vi soldados da Aeronáutica entrincheirados, atrás de sacos de areia, com suas armas voltadas para os tanques que surgiam imponentes. Continuei a pé e, mais adiante, vi que os fuzileiros navais se deslocavam de sua unidade no interior da Ilha, na direção dos tanques. O pavor que senti não me permitiu perceber o cansaço daquela caminhada, mas foi suficiente para que eu me sentisse transportado no tempo e me visse, outra vez, ao lado de meu avô, sob o barulho das tropas na estrada de Teixeira, em 1930.
O Presidente João Goulart fugiu para o exílio e Pascoal Mazzilli, presidente da Câmara, foi empossado como presidente, e depois de alguns dias uma Junta Militar indicou o General Castelo Branco para a Presidência da República. Começou, então, um longo período de ditadura militar no país. 
Enquanto a vida da nação se normalizava, eu me sentia um exilado na Ilha do Governador. Embora ainda se falasse na possibilidade de um outro movimento revolucionário, eu aguardava o desfecho dos acontecimentos e não me amedrontava. Limitava-me à leitura dos jornais e a conversar, todas as noites, sobre o que lia e ouvia, com o meu amigo e vizinho Walter Sartori, professor, economista, filósofo e devorador de livros. Ele possuía uma das melhores bibliotecas particulares que conheci, com cerca de 8.000 livros, recheada de excelentes coleções de obras dos melhores autores sobre os mais variados assuntos, além de ser profundo conhecedor dos problemas nacionais e internacionais, a respeito dos quais discorria com tal firmeza que me empolgava ouvi-lo.



POR ESSA ÉPOCA Ana já havia surgido para revolucionar os meus pensamentos e a minha vidinha pacata.






Fim do 3o. capitulo

Um comentário:

  1. Nessa época eu tinha meus 11 anos, e me lembro nitidamente dos acontecimentos,e quando Castelo Branco assumiu todos pensavam que iria iniciar uma guerra. Presenciei muitas colegas minhas chorando porque diziam que os pais iam para guerra. Eu não chorava porque não tinha meu pai presente.Mais uma vez esse capítulo que fez me remeter ao passado. Excelente!

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