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NA ILHA, EU NÃO PROCURAVA diversões. À noite, ao retornar do trabalho, quando não me entregava à leitura, ficava no portão vendo as pessoas que passavam. Nos finais de semana, pela manhã, dava uma caminhada na praia, tomava um drinque no Bar do Martins, no Jardim Guanabara, depois entrava para o meu quarto e retornava aos livros.
A Ilha do Governador era a minha “Ilha de Elba”(*). Esse bairro tranqüilo do Rio de Janeiro passou a ser o meu refúgio. Podia, agora, dedicar-me à meditação e deixar o tempo passar.
D. Assunção tinha um relacionamento cordial com as pessoas da vizinhança, e sua casa era muito visitada, talvez por ser a única com telefone; os vizinhos o utilizavam em situações de emergência.
Certo dia, em outubro de 1963, conheci Ana. Apesar de morarmos na mesma rua, separados apenas por três casas, eu ainda não havia reparado naquela moça.
Ela foi à casa de D. Assunção telefonar para o Hospital Souza Aguiar, onde sua irmã estava internada. Depois do telefonema, ficamos conversando.
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| Acervo familiar |
No dia seguinte ela retornou.
Ana passou a usar o telefone com mais freqüência e eu passei a aguardar esses momentos. Sua juventude e espontaneidade me atraíam. Ao mesmo tempo, percebia que ela também demonstrava interesse por mim, pois suas ligações só aconteciam na parte da manhã, quando eu ainda estava em casa.
Na rua, quando passava para a praia, ela sempre dirigia o olhar para o jardim de nossa casa e eu sempre estava lá para responder ao seu cumprimento matreiro. Depois de andar mais alguns passos, virava-se para trás, insinuante, como se me convidasse a acompanhá-la.
Outras vezes, no horário da missa de domingo, quando tomava o caminho à esquerda, na direção da igrejinha de Nossa Senhora de Nazaré, seu olhar permanecia voltado na minha direção até o fim da curva. Ela não conseguia dissimular o interesse adolescente que começava a alimentar por mim.
Ana era ainda muito jovem, tinha apenas 17 anos. Alta, magra, de cabelos castanhos, curtos e lisos. Fala mansa e olhar tranqüilo, porém provocante. Eu comecei a me assustar quando percebi que não conseguia tirá-la do meu pensamento. Sua imagem aparecia-me em todas as horas e eu procurava motivos para estar no portão ou no jardim da casa esperando uma oportunidade de vê-la. Recusava-me a admitir o que estava acontecendo comigo, pois até então eu não sentira igual interesse por nenhuma moça que conhecera.
A casa de D. Assunção ficava num terreno elevado e, da calçada, uma escada de poucos degraus conduzia para o jardim e para a varanda, que ficavam totalmente visíveis para quem passasse na rua. Naquele trecho, a Estrada da Bica fazia um pequeno aclive, em curva, o que permitia que, do portão ou do alto do jardim, eu pudesse acompanhar todo o movimento de saída ou entrada de Ana em sua casa ou o seu caminhar pela calçada, e isso já se tornara uma obsessão para mim. Seguindo a rua, alguns poucos metros depois de passar pelo meu portão, chegava-se no ponto mais alto dessa ladeira, que, a partir daí, descia íngreme em direção à praia. Era maravilhoso vê-la desaparecendo, aos poucos, ou vê-la voltando do mar, queimada do sol, cabelos molhados, ofegante, depois de uma manhã de praia.
Às vezes, nas tardes de domingo, ela pedalava uma bicicleta pela redondeza e, sempre que chegava bem defronte de nosso portão, fazia a volta, numa atitude provocadora, esticando assim, intencionalmente, o tempo de permanência sob o meu olhar. Eu me deliciava e entendia o seu gesto sedutor, mas me reprimia.
Lembro que, certa vez, diante de mim, a bicicleta derrapou no chão de terra e ela caiu, machucando o joelho. Corri em sua direção e perguntei:
— Machucou-se? Posso ajudar?
E ela, com um sorriso suave, tranquilizou-me, dizendo que estava bem.
Esquecendo o sangue que lhe brotava do joelho, arrisquei um olhar deslizante por suas pernas bem torneadas, sem conseguir disfarçar o meu interesse pelo seu corpo bronzeado. Na ocasião, ela usava uma blusa sem mangas, branca com bolinhas azuis, e uma bermuda grená, justa no corpo, que a tornava ainda mais atraente, destacando a forma perfeita de seus quadris adolescentes.
Embora percebesse que já era tempo de sair do cárcere a que eu mesmo me impunha, sentia muita dificuldade em libertar minhas emoções para corresponder aos sentimentos que transpareciam nas atitudes daquela jovem. Contudo, crescia em mim a vontade de ir ao seu encontro e conhecê-la melhor. Um sentimento muito estranho começou a me inquietar, motivando-me para voltar à vida.
Aos poucos, começamos a nos revelar um ao outro. Eu já me atrevia a lançar-lhe um olhar ousado, cumprimentos insinuantes e a deixá-la perceber que a acompanhava com os olhos quando descia a ladeira.
Sua passagem pela minha porta me deixava um enorme bem-estar. Eu me sentia da mesma idade de Ana e às vezes me censurava por não ter serenidade para reagir a esse sentimento que evoluía assustadoramente. Foram dez semanas de amor silencioso, à distância.
Até que chegou a noite de Natal de 1963.
Quando voltava da missa do galo, na Capela de Nossa Senhora de Nazaré, acompanhada de sua mãe e de suas irmãs, Ana parou diante do portão de minha casa para me desejar feliz Natal. Eu percebi, em suas poucas palavras e em seu olhar congelado no meu, que a magia que nos envolvia tornaria aquela data inesquecível. Retive suas mãos frias e trêmulas entre as minhas por alguns segundos e pareceu-me que, naquele momento, o mundo fora feito para nós dois, apenas. Elas desceram a rua e eu fiquei ali, na calçada, hipnotizado, acompanhando-a com o olhar, até que entrasse em casa. A partir dessa noite, eu senti que não precisava mais do autoflagelo a que me entregara durante tanto tempo.
Para coroar esse entendimento, como num rito de passagem, logo depois eu viveria outro momento inesquecível: a festa de Ano Novo na Praia da Bica. Por aquele tempo, no último dia do ano as areias das praias do Rio eram tomadas pelos adeptos do candomblé, que desde cedo se organizavam em terreiros para executarem os seus rituais de despedida do ano velho e de saudação ao novo ano, homenageando Iemanjá, a Rainha das Águas. Aquela cerimônia se tornava um espetáculo de fé, luzes e cânticos que atraíam os que reverenciavam as suas divindades como também os não adeptos, apenas curiosos adoradores da manifestação espontânea dos indivíduos.
Naquela noite, vi quando Ana passou para a praia acompanhada de sua mãe e de suas irmãs, e as segui. Acompanhei seus passos de longe, no princípio evitando ser visto, mas depois, não me contendo, posicionava-me de forma que, ao parar para apreciar o ritual de algum grupo, ela pudesse me localizar no lado oposto dos círculos formados com flores, velas, homens e mulheres dançando ao ritmo marcante dos cânticos e dos tambores. Lembro que sua face alva se tingia de um tom dourado e ganhava manchas oscilantes provocadas pelo balançar das chamas das velas acesas na areia, aos seus pés.
E foi com essa expressão que vi Ana me localizar na multidão. A partir desse instante ficamos alheios ao burburinho daquele ritual, amarrados por um fio invisível que se movimentava e nos conduzia. Até que fomos despertados pelo espocar dos fogos de artifício anunciando a chegada de mais um ano.
Começava ali o ano mais inquietante e feliz da minha vida.
E foi com essa expressão que vi Ana me localizar na multidão. A partir desse instante ficamos alheios ao burburinho daquele ritual, amarrados por um fio invisível que se movimentava e nos conduzia. Até que fomos despertados pelo espocar dos fogos de artifício anunciando a chegada de mais um ano.
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| fotos ilustrativas, retiradas da internet |
Começava ali o ano mais inquietante e feliz da minha vida.
ANA, DE FÉRIAS NO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO, todas as manhãs passava em direção à praia. Eu ficava aguardando esse momento para, só então, sair. Sentia-me tentado a desvendar o mistério que se escondia por trás daquele sorriso sedutor e insistente. Afinal de contas, qual seria o verdadeiro desejo de Ana? Uma ordem imperiosa ergueu-se do mais profundo de mim, e eu resolvi aceitar o desafio.
Então passei a criar “encontros casuais” na praia. Conversávamos como bons amigos, sem intimidades, embora percebêssemos que, quando estávamos juntos, nossas faces coravam e nossos corações batiam descompassados. Ela falava de seus estudos como normalista e eu do meu trabalho e da situação política por que estava passando o país. Quase sempre lhe emprestava algum livro, principalmente romance, que ela lia com avidez, propiciando, na devolução, uma manhã inteira de comentários. Ana estava sempre acompanhada de suas irmãs Luísa e Helena, crianças ainda, e, às vezes, de suas amigas Maria e Lilia.
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| Acervo familiar |
Encontrei-a tranquila, sentada na areia, recostada a uma pedra, no trecho onde habitualmente conversávamos. Aproximei-me, sentei-me ao seu lado e, depois de alguns minutos, manifestei a minha intenção. Ela gostou da ideia e se dispôs a posar para mim. Não perdi tempo, sugerindo determinadas poses com a intenção de realçar seu belo corpo.
Numa delas, ela se pôs de pé sobre a pedra, segurando com grande delicadeza, com as pontas dos dedos, um lenço rosa, de seda, esvoaçante. Tinha a cabeça ligeiramente inclinada, ar petulante, olhos meio fechados por causa do sol e, nos lábios, um sorriso sensual. Parecia uma artista. Vi logo que havia feito uma bela foto e encontrado a “modelo” que durante muito tempo eu procurei.
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| Acervo familiar |
Havia, finalmente, chegado o momento de me encher de coragem, de esquecer o passado, ainda que isso pudesse trazer-me alguma intranquilidade.
A Praia da Bica sempre foi de um mar sem ondas nem correntezas, parecendo-se com um imenso lago tranqüilo. Naquele tempo, suas águas eram tão cristalinas que podíamos caminhar por elas catando conchas e estrelas.
Dias depois, 17 de janeiro, eu e Ana entramos no mar, conversando, até ficarmos com a água acima da cintura. De repente, fomos envolvidos por um magnetismo que neutralizou o meu pensamento e aproximou os nossos corpos. Abracei Ana com ternura e tentei beijá-la, mas ela repeliu-me. Fiquei desolado, não esperava essa reação, e deixei escapar algumas palavras que revelaram o forte sentimento de rejeição que sempre me acompanhou:
— Eu sabia que você não me aceitaria!
Refiz-me e tentei outra vez. Ana, desperta da surpresa que lhe causei, correspondeu ao contato dos meus lábios, e nos beijamos pela primeira vez, e várias outras vezes, selando assim, sem palavras, um compromisso que estava traçado, pelo destino, em nossas vidas.
Naquele dia voltei para casa com o coração vibrando além do normal, sentia-me rejuvenescido e com uma força interior desconhecida. Porém, precisava ser honesto e revelar àquela jovem ingênua o meu grande segredo, o meu passado.
Durante três dias seguidos experimentamos as mesmas emoções; declaramos, um ao outro, a grande paixão que nos invadia. No quarto dia, ganhei coragem e contei-lhe:
— Não posso te enganar. Sou um homem separado, há 11 anos, de um casamento realizado em João Pessoa.
— Dessa relação desfeita, ficou uma filha que vai fazer 14 anos. Eu não a conheço, pois me mudei para o Rio quando ela ainda era bebê — falei, com muito cuidado, observando as reações de Ana.
— Isso eu não sabia. De qualquer forma, sei que minha família não vai aceitar o nosso namoro, principalmente pela grande diferença de idade que existe entre nós. Enfrentaremos dificuldades, mas saberei enfrentar o que vier.
Fiquei feliz, embora temeroso.
Desapareci por três dias, dando tempo para que ela meditasse sobre aquela revelação e se afastasse de mim, mas parece que essa estratégia surtiu um efeito contrário. Quando nos reencontramos, Ana parecia decidida a escrever uma história comigo.
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| Acervo familiar |
Eu percebia que ela temia algo, como se vivesse sob os efeitos de uma conspiração. Às vezes, parecia vacilante, preocupada; outras vezes, sentia-se vigiada, disfarçando o olhar para um ou outro ponto da praia. Sem entender sua atitude, eu procurava interpretá-la à minha maneira. Nessas ocasiões, eu me via invadido por uma forte onda de ciúmes. E isso me causava insegurança.
Não demorou muito e ela confessou que se sentia prisioneira de seu próprio pai. Ele era repressor, e ela, muito vigiada.
Ela e seus irmãos cresceram em meio a constantes brigas motivadas pelo gênio forte e possessivo daquele homem de pouca instrução, dominado pelo alcoolismo e sacrificado pela vida dura de imigrante, agravada pela obrigação de criar sete filhos.
Pouco a pouco, fui tomando conhecimento da vida triste daquela quase menina. Ela sofria terrivelmente. Em casa, isolava-se dos irmãos mais velhos e da própria mãe, dedilhando o seu acordeom, dedicando-se aos estudos e às leituras.
Passava o tempo que podia na casa da amiga Lilia para fugir do ambiente conturbado do lar, evitando, assim, ser alvo das manias e implicâncias do pai. E só quando eu soube desses detalhes tão íntimos foi que consegui entendê-la. não percebi que um de seus temores era que ele se voltasse contra mim. Com o passar dos dias e a evolução do nosso relacionamento, passei a entender a dimensão do seu medo.
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| Lilia (Acervo familiar) |
Eu já não conseguia evitar a manifestação da paixão que me invadia e me via dividido entre ouvir a voz da razão e saborear o doce sorriso de Ana. Ele acendeu em mim uma chama que eu julgara apagada.
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| Praia da Bica década de 60 ( retirada da internet) |
Aquele final de verão, na Ilha, estava colorido, movimentado, ou talvez eu assim o visse por estar vivendo um momento esplendoroso, não sei. Contudo, eu pressentia que, a qualquer momento, enfrentaria dificuldades, mas estava disposto a não fraquejar, e essa consciência aumentava à medida que os dias passavam.
A praia estava lotada, naquele domingo. Escolhemos um local na areia, um pouco mais distante que o habitual, no Jardim Guanabara. Entramos no mar, alheios a todos os olhares. Contagiado pela juventude de Ana, naquela manhã beijei-a várias vezes. Nadamos, brincamos e depois, na areia, nos despedimos com mais um beijo. Ana seguiu na frente e avistou seu pai, na rua, parado, nos observando. Despistando, ele montou em uma bicicleta e seguiu em outra direção como se não se importasse com o que vira. Porém, ao vê-lo afastar-se, Ana intuiu que o desfecho que nós tanto temíamos iria acontecer. De fato, quando cheguei à esquina de nossa rua, lá estava ele, sem bicicleta, caminhando decidido na minha direção. Eu nunca havia conversado com aquele senhor, e agora, olhando para o seu semblante crispado e sem saber o que se passava na sua mente, estendi-lhe a mão para um cumprimento, mas ele repeliu meu gesto de forma rude e violenta, desferindo-me um forte tapa na face, ao mesmo tempo em que me ofendia em altos brados, com palavras chulas, chamando a atenção de toda a vizinhança.
Com excessivo cuidado para não perder o equilíbrio moral, sofri a fúria daquele homem, sem esboçar qualquer reação, reconhecendo que eu havia infringido as leis da sua casa. Envergonhado, disse-lhe apenas:
— Esse tapa vai lhe custar caro...
E ainda ouvi dele:
— Eu tenho dinheiro para gastar!!!
Humilhado, entrei em casa enquanto o pai de Ana, rosnando como um leão, também se recolhia. Ana acabara de chegar e, do seu jardim, pôde presenciar aquela cena humilhante e inesperada.
D. Assunção e algumas pessoas que a visitavam, naquele domingo, ficaram escandalizadas. Eu me senti um canalha, um covarde. “Por que não reagi?” — intimamente me questionava. Mas, de que lado estava a razão? Até hoje não sei...
Minutos depois, ouvia-se de nossa casa o barulho e os impropérios do pai de Ana, dominado por uma fúria incontida. Seu amor possessivo pela filha revelava-se e assumia proporções inconcebíveis, erguendo-se aí uma enorme barreira entre mim e Ana, e eu tinha que me conformar com tudo que estava acontecendo, sem poder tomar a defesa daquela criatura inocente agora tão humilhada por minha causa.
Arrependi-me por ter relutado em procurar aquele senhor para uma conversa civilizada a respeito de meus encontros com sua filha. Mas acabei me convencendo que teria encontrado o mesmo resultado desastroso.
Ana, embora abatida e temerosa, procurou-me dois dias depois para tentar se desculpar pela inconsequência de seu pai e reconfortar-me. Os nossos sentimentos estavam agora ameaçados por outras violências daquele homem. Toda aquela alegria, toda a confiança que tínhamos um no outro se viram abaladas, de repente, por aquele ato agressivo.
Então, pensamos em recuar, mas nossos corações já não atendiam aos comandos da razão e voltamos a nos encontrar, às escondidas, em outros locais da Ilha. Na Praia da Bica se tornara impossível.
Às lamentações de Ana agora se juntavam o que eu ouvia e tudo que eu tomava conhecimento, por vizinhos, sobre a vida tumultuada naquela casa: as explosões de cólera de seu pai, os excessos do álcool, os gritos, o barulho de objetos quebrados, as palavras de afronta entre pais e filhos, enfim, uma difícil e conflituosa vida familiar. Para mim, tudo era obscuro e desconcertante. Cada movimento diferente, cada tumulto vindo daquela casa, provocava-me horror e repulsa, e eu imaginava Ana agredida, prisioneira da fúria descontrolada de seu pai, sem conseguir ter a dimensão do que se passava ali, intramuros. Em sonhos, durante algum tempo, eu via Ana, ora como um pequeno canário, ora como um bem-te-vi, debatendo-se contra as grades de uma gaiola.
Incapaz de tomar qualquer atitude, sentia-me limitado pelo direito de seus pais de procederem como quisessem dentro de sua casa e sofria culpa, angústia e incertezas.
Após cada cena de horror, eu aguardava o dia seguinte para certificar-me do que houve. Sempre achávamos um jeito de nos encontrar e, nesses instantes, as nuvens negras se dissipavam e nos aquietávamos, nosso sangue se aquecia e o próprio mundo parecia nos dar novo crédito de confiança.
Tivemos que nos valer de senhas para os nossos encontros: passar a mão no cabelo significava que iria sair; olhar para o céu significava que o encontro seria na Praia do Galeão; colocar a mão direita no ombro esquerdo era cinema em Bonsucesso; passar a mão na face era impedimento para sair. Eu aguardava, com ansiedade, essa comunicação através de sinais. Com ela eu tomava conhecimento do clima em sua casa. Assim que recebia a informação completa, eu partia. Algum tempo depois, Ana saía, sempre acompanhada de suas irmãs, e nos encontrávamos, no lugar convencionado.
Seu pai, preocupado, passou a acompanhá-la até o Instituto de Educação. Às vezes também aparecia na hora da saída, sem avisar. Para burlar essa vigilância acirrada, Ana entrava uniformizada pelo portão lateral do Instituto e, em seguida, saía à paisana pela portaria principal, e passávamos uma tarde inteira namorando em algum lugar. No final da tarde, ela fazia o caminho inverso: entrava pela porta principal, vestia o uniforme que guardara na bolsa, e saía junto com as colegas no término das aulas.
Quando ela tinha certeza de que seu pai não apareceria, telefonava para a minha repartição avisando-me e eu ia ao seu encontro, na saída, sem que ela precisasse perder aulas. Nada nos detinha, e assim criávamos a nossa fortaleza.
Num desses fins de tarde, descobrimos um cantinho discreto na Praia do Galeão, que passamos a chamar de “nossa praia”. Para chegar até ela, tínhamos que seguir por um caminho de terra, no meio de um capinzal alto e ralo, de um terreno baldio da Estrada do Galeão, limitado, em um de seus lados por um extenso muro branco, onde hoje existe a EAPAC – Escola de Aperfeiçoamento de Profissionais da Aviação Civil.
A “nossa praia”, na verdade, eram duas pequenas praias, separadas por um amontoado de pedras que avançava pelo mar, permitindo passagem somente nos horários de maré baixa.
Na primeira, ficávamos a maior parte do tempo. Era maravilhoso ver Ana sentada nos degraus de um pequeno dique, às vezes, matando aula.
Seu uniforme de normalista, contrastava com a cor da vegetação rala e rasteira. Tranquila, não parecia desobedecer a seu pai, mas podia, assim, quebrar aquela horrível incomunicabilidade que nos era imposta por ele.
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| Acervo familiar |
Seu uniforme de normalista, contrastava com a cor da vegetação rala e rasteira. Tranquila, não parecia desobedecer a seu pai, mas podia, assim, quebrar aquela horrível incomunicabilidade que nos era imposta por ele.
Nos primeiros meses, não fazíamos planos, não tínhamos sonhos. Para nós, bastava o momento presente; o passado não existia e o futuro, muito menos. Ficávamos uma hora, ou mais, sentados na areia deserta, onde o maior movimento que se observava era o de um ou outro pobre pescador que passava deslizando lentamente seu pequeno barco, ou de algumas gaivotas que, sobrevoando o mar, buscavam, em vôos verticais, o alimento no fundo das águas. Permanecíamos, ali, apreciando o miúdo vai-vem das ondas, isolados de todos, mergulhados em nosso mundo.
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| Acervo familiar |
Na segunda praia, escondida por uma curva litorânea, a nossa permanência era limitada pela vontade da maré. A faixa de areia se estreitava, e, ao caminhar por ela, sentíamos sob os pés o chiado dos inúmeros caquinhos e farelos de conchas que se concentravam no local. Ficávamos ali o tempo que desse, envoltos na brisa fresca e tranquila de nossas esperanças. Aquela parte da praia se tornou o recanto das maiores confidências, o repositório de nossas confissões mais íntimas, e, com o passar do tempo, o lugar onde começamos a arquitetar o futuro.
Apesar de serem lugares desertos e escondidos, que éramos obrigados a frequentar, nossas carícias eram as normais de um casal apaixonado, por vezes observadas pelos predadores da tranqüilidade, que se valiam de artifícios como uma vara de pescar ou um passeio disfarçado. Poderia ser um curioso, talvez um malfeitor, ou até um investigador contratado pelo pai de Ana. Como saber?
Devo confessar que não só de alegrias vivemos nesse período. Esses locais foram cenário de muitas desavenças entre nós. O ciúme e a dúvida, que tanto me feriram a alma em João Pessoa, tomaram conta de mim, e eu feri Ana, com palavras duras, muitas vezes. Premidos pelo medo e pelo isolamento, nossas emoções oscilavam intempestivamente, o que servia, na verdade, para testar e renovar o nosso amor.
Ana viveu momentos de profunda depressão. De um lado, pressionada pelo temor ao seu pai e, de outro, por essa atitude de descontrole que me invadia. Para aliviar a sua aflição, ela escrevia cartas que exerciam em mim um poder mágico e redentor, por sua paixão assumida e pela beleza da linguagem, cada vez mais conciliadora.
Esse ano de 64 foi cheio de peripécias. Eu me sentia um adolescente, burlando as proibições da família. Alguma coisa dentro de nós dizia que devíamos resistir. Embora o nosso destino parecesse sombrio, eu — como um personagem homérico ameaçado — procurava enfrentar com coragem os golpes morais que desferiam sobre mim, pois sabia que o meu desejo de tê-la devia, a cada dia, submeter-me a martírios ainda maiores. Seu pai, na tentativa de fazê-la desiludir-se, inventava calúnias a meu respeito. Porém, nem mesmo as ameaças de morte, que Ana ouvia dele contra mim, conseguiam deter-me.
Ana tinha o cerceamento de sua liberdade intensificado a cada dia. Mas, à medida que crescia a hostilidade em relação a nós, aumentava também o sabor estimulante do desafio e uma coragem excepcional que, por nada deste mundo, éramos capazes de desprezar.
Seus pais, vigilantes e inacessíveis, não nos davam folga. No dia que desconfiavam de nossos encontros, seguiam-se horas de juízo a que Ana sempre se submetia com firmeza e dignidade.
À noite, às 22 horas, antes de nos recolhermos, sempre nos despedíamos: ela ia até o canto do muro de sua casa e, por entre as ramagens de bertalha, esticava o braço para o lado de fora, simulando um aceno para mim. E eu, da mesma forma, respondia, recolhendo-me em seguida. Porém, não conseguia permanecer acordado no quarto que outrora fora um retiro tão querido, ele agora era um lugar sem atrativos, palco de inquietações, e eu voltava ao jardim para contemplar a rua e o portão da casa dela, iluminado pela luz de um poste, onde tantas vezes a vi tagarelando com a amiga Lilia. Mas sua silhueta não aparecia, as luzes de seu jardim se apagavam e, na incerteza do que estaria de fato acontecendo na sua casa, finalmente eu desistia e me aquietava, ansiando pelo dia seguinte para vê-la ou apenas para ouvir a sua voz ao telefone. Assim, eu adormecia todas as noites, revivendo, com avidez, cada minuto do dia transcorrido.
A partir de setembro daquele ano, seus pais, percebendo que os nossos encontros continuavam, a despeito de todos os riscos, pararam um pouco com a hostilidade a minha pessoa, e optaram por uma estratégia de relaxamento na vigilância, o que denotava uma aparente compreensão. Ficamos confusos.
Eu trabalhava à tarde e pela manhã ia à praia. Ao meio dia, via quando Ana passava no ônibus 324 indo para o Instituto. Era o sinal. Então, eu voltava para casa, almoçava e deixava que seus pais me vissem seguindo para o trabalho. Assim, perceberiam que naquele dia nossos horários se desencontraram.
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| Acervo familiar |
Mas os minutos eram minuciosamente calculados por nós e, logo assim que eu chegava na repartição, Ana telefonava de uma loja de roupas, na rua em frente ao Instituto, para combinarmos as coordenadas para o nosso encontro daquela tarde. Esses encontros ocorriam em um ponto qualquer da cidade, para uma sessão de cinema ou para um simples passeio pelas ruas do Centro, ou ainda, para o ponto de ônibus que nos levaria de volta à “nossa praia”, na Ilha. Quem nos descobriria ali?
Sentíamo-nos parte daquela paisagem simples. Éramos, talvez, os únicos visitantes fiéis daquele lugar. O nosso comparecimento ali se tornou obrigatório, principalmente nos finais de tarde, como se os últimos raios de sol contassem com a nossa presença para se despedir. Algumas vezes nos esquecíamos do tempo e ficávamos até que a penumbra do anoitecer nos despertasse.
Nosso amor era tão forte que não podíamos admitir, sequer, a presença de algum malfeitor naquelas paragens. E hoje me pergunto: eles não existiam ou éramos invisíveis para os profissionais da maldade?
Muitas vezes, para poder estar com Ana, à tarde, eu me ausentava do trabalho antes do horário permitido, contando com a proteção de meus colegas e da minha chefe Carmelita, que entendiam a importância do momento que eu estava vivendo.
Eu, “um funcionário relapso”, Ana, “uma normalista irresponsável”. Bem poderia ser esse o epíteto dado por quem nos visse. Mas não tínhamos tempo para analisar o nosso próprio comportamento, e a liberdade que nos era negada pelos seus familiares era, assim, recuperada. Dizem que todo amor proibido se transforma em amor pecaminoso. No entanto, o nosso era um amor virtuoso e consequente.
No final do ano a pressão na casa de Ana retornou. Seus pais planejaram para ela uma viagem a São Vicente/SP, sua terra natal. Pretendiam que fosse uma boa idéia para separar-nos: hospedada na casa de uma amiga de infância, afastada de mim, vivendo com outras pessoas, outro tipo de vida, talvez Ana refletisse sobre a situação que teimava em manter. Então, apesar da angústia que lhe impunham, Ana não se mostrou indiferente aos encantos daquele oferecimento e partiu.
Entre nós havia promessas e a certeza de que todo esforço para nos separar seria inútil. Nossas convicções estavam ajustadas de tal forma que valiam como um pacto. De nada adiantariam os ultimatos ou as formas de exílio. Eu desconfiei de tanta benevolência e fiquei atento, prevenido.
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| São Vicente , década de 60 ( retirada da internet) |
Entre nós havia promessas e a certeza de que todo esforço para nos separar seria inútil. Nossas convicções estavam ajustadas de tal forma que valiam como um pacto. De nada adiantariam os ultimatos ou as formas de exílio. Eu desconfiei de tanta benevolência e fiquei atento, prevenido.
De São Vicente, recebi, durante seis dias, cartões-postais em que Ana falava da linda paisagem de sua terra e da enorme saudade que sentia de mim. No sétimo dia, ela retornou. Na manhã seguinte nos encontramos. O planejado afastamento só contribuiu para fortalecer os nossos sentimentos, em definitivo.
O verão chegava soberbo e convidativo. Após o café, diariamente, eu me encaminhava para o mar e ficava encostado na nossa pedra que, como eu, ficaria solitária, sem a presença de Ana.
Aquela pedra me compreendia.
Eu sempre levava para junto dela um livro. Com ele eu falava, discutia, e, algumas vezes, até nos incompatibilizávamos sobre a verdade procurada. Quando eu voltava para casa, ele também voltava para a estante, e eu já convidava um outro para ir à praia comigo, na manhã seguinte. Foram tantas as desavenças entre mim e os livros que, um dia, queimei alguns deles. Hoje lamento o que fiz.
Agora, nas manhãs de praia, eu e Ana permanecíamos à distância, na tentativa de confundir seus pais e dissolver a vigilância. Para amenizar o desejo de estarmos juntos, dialogávamos por meio de sinais ou pela imitação dos gestos e posições do nosso corpo, traduzindo, dessa forma, que estávamos cuidando um do outro, permanentemente. E isso nos bastava. Se as condições de segurança permitissem, Ana dava uma corridinha até à pedra, trocávamos algumas palavras, breves carícias, e ela retornava ao seu lugar.
Seus irmãos não nos davam trégua. Dos quatro, três moravam na casa de seus pais e eram orientados a nos seguir por toda parte. Quando saíamos, havia sempre alguém controlando nossos passos. Aquilo nos irritava e punha à prova, de forma dolorosa, a nossa paciência.
A mãe de Ana começou a ter atitudes mais ousadas, pois o marido, vendo-se incapaz de impedir os nossos encontros, responsabilizou-a e cobrou soluções definitivas para o que vinha acontecendo, e ela, que já acompanhava dentro de casa os movimentos da filha, por fim, lançou-se pessoalmente à ofensiva, sem qualquer reserva.
Depois de violar o diário que Ana escrevia, a circunspecta senhora, que nunca saía de casa, nos seguiu um dia, acabando por nos flagrar no jardim da igrejinha de N. Sra. de Nazaré. Foi um momento embaraçoso. Sua mãe, depois de descarregar sobre mim palavras de ódio e revolta, mudou o tom e implorou-me, num gesto patético, para que libertasse, de uma vez por todas, a filha. Em seguida, reassumindo a atitude violenta inicial, tentou agredir-nos fisicamente aos berros de “vagabundo, homem casado, sem-vergonha”, acrescidos de outros adjetivos que somente Bocage sabia usar tão bem.
No dia seguinte, seus irmãos, Mário e José, procuraram-me para, em tom ameaçador, advertir-me que eu me afastasse, imediatamente, de Ana, caso contrário...
Separamo-nos por alguns dias. Eu deixei de passar em sua porta. Quando eu saía para o trabalho, seguia agora em sentido contrário, pela praia. Assim, apesar de aumentar meu percurso, evitava ouvir insultos, que me obrigariam a revidar.
Tivemos também que abandonar a “nossa praia”. Temíamos que já conhecessem aquele nosso refúgio e descobrimos então uma outra praia, atrás do Iate Clube Guanabara. Para chegarmos a ela, descíamos do ônibus na esquina de uma padaria, perto do Iate, seguíamos por uma rua que contornava os jardins do clube e passávamos debaixo de um velho dique de madeira.
Era uma caminhada gostosa, sobretudo porque tínhamos que atravessar um capinzal que mais parecia um canavial. Chegávamos, então, a uma faixa de areia de praia deserta, povoada por alguns coqueiros, alguns arbustos e uma pitangueira, à sombra da qual ficávamos durante horas, observados apenas por passarinhos curiosos. O grande número de cocos secos e os restos de pitangas apodrecidas salpicados na areia evidenciavam a pureza do lugar. Ocultos pela floresta de capim, ficávamos o tempo que desse, e isso nos causava uma enorme sensação de aventura. Ali, começamos a intensificar nossas carícias.
Era uma caminhada gostosa, sobretudo porque tínhamos que atravessar um capinzal que mais parecia um canavial. Chegávamos, então, a uma faixa de areia de praia deserta, povoada por alguns coqueiros, alguns arbustos e uma pitangueira, à sombra da qual ficávamos durante horas, observados apenas por passarinhos curiosos. O grande número de cocos secos e os restos de pitangas apodrecidas salpicados na areia evidenciavam a pureza do lugar. Ocultos pela floresta de capim, ficávamos o tempo que desse, e isso nos causava uma enorme sensação de aventura. Ali, começamos a intensificar nossas carícias.
Esses encontros eram, portanto, difíceis, perigosos, mas também cheios de poesia. Quanto mais avançava o tempo, e aumentavam os rigores contra nós, tanto mais nos prometíamos.
Quando chegávamos em nossas casas, dávamos a impressão de que um não mais se interessava pelo outro, o que só era desmentido pelo costumeiro aceno de mão, às 22 horas, no muro. A extrema fragilidade de Ana e a brancura de sua pele sobressaíam por entre os galhos de bertalha. Até mesmo os seus ombros estreitos pareciam alargar-se quando ela se inclinava e eu sentia uma profunda satisfação ao ver que ela se arriscava, toda noite, por mim.
COM ANA, EU CONHECI O CIÚME. A aparição extemporânea de um ex-namorado que morava em frente a sua casa levava-me, algumas vezes, a supor que ela ainda não se desligara emocionalmente daquela antiga relação e, confesso, tive para com ela muitas atitudes grosseiras, fazendo com que nos separássemos algumas vezes, por alguns dias. Por outro lado, eu tinha dificuldade em entender o que se passava comigo, talvez pelo desprezo que sentia por parte de seus familiares.
Certa vez, num desses dias de rompimento, com o intuito de revidar, pus-me a conversar de maneira provocante com uma jovem cantora que havia chegado na Praia da Bica, em férias. Eu sabia que estava assumindo uma atitude imprudente. A veranista não despertava em mim nenhum interesse. Eu, simplesmente, procedia daquela maneira para provocar Ana.
Ela, coitada, ao ver-me em aparente intimidade com a cantora, apesar de estarmos brigados, lançou-se em nossa direção, visivelmente nervosa. Confuso e arrependido, deixei a moça cantando sozinha, e fui ao encontro de Ana. Tentei me redimir ante a sua mágoa dizendo que a moça era apenas uma conhecida. Ana não acreditou. Com rubor na face, ela insistia em suas desconfianças. Por um momento, esqueci os perigos e permaneci ao seu lado, na areia, tentando reavê-la. Naquele instante, sua fisionomia endurecida revelava que a minha atitude havia produzido mais um fracasso em minha vida e senti que poderia perdê-la. Pouco me importava se eu fosse visto por seus pais ao seu lado, pela última vez. Mesmo assim, admitia ingenuamente que contornaria o incidente ainda naquela manhã ou no dia seguinte. Acreditava no nosso grande amor.
Naquele domingo, nos despedimos de maneira incomum e mordendo os lábios, cabeça baixa, olhos fixos nos meus passos indecisos, segui para casa. Ao passar pelo barracão de pescadores que ficava a pouca distância de onde ela se encontrava, avistei o antigo namorado que olhava em sua direção. Por que estaria ele ali, àquela hora? Um tremor estranho correu pelo meu corpo e, com o interior agitado por fantasmas, parei e voltei-me para Ana com olhar suplicante. Preocupava-me saber se, em razão daquela minha atitude, haveria uma reaproximação entre ela e o rapaz ou se ela me perdoaria e voltaríamos a ser felizes. Ana, porém, permanecia imóvel, na areia, sentada, queixo apoiado sobre os joelhos dobrados, olhar congelado no horizonte, remoendo a sua decepção.
Passei o resto do dia envolto na mais profunda tristeza, porém, aliviado, com a agradável sensação de esperança, quando vi Ana passar em frente à minha casa, logo depois que cheguei da praia. Naquela tarde não a vi no portão como de costume, nem ouvi o som do seu acordeom. Parecia-me que tudo se diluíra. A noite chegou, trazendo a profunda escuridão da nostalgia e um longo silêncio, interrompido, algumas vezes, pelo piado agoureiro de uma coruja que se aninhara na palmeira, da esquina, anunciando, talvez, que algo chegara ao fim. Tudo era motivo de inquietação. Algumas vezes, com o coração apertado, fui ao jardim, debrucei-me no muro, olhei na direção da casa de Ana, na ânsia de vê-la, mas só via a noite e raras pessoas que passavam na rua indiferentes à minha agonia. Pela primeira vez Ana não apareceu no muro...
Na manhã seguinte, escrevi-lhe um bilhete com frases bem pensadas, que não tardou a fazer efeito. Consegui que ela se encontrasse comigo, à tarde, no Museu de Arte Moderna, no Aterro da Glória.
Andamos um ao lado do outro, calados e distantes durante alguns minutos, depois iniciamos um diálogo sério e dramático, sobre o que havia acontecido. Por uma escada, chegamos a um exótico jardim, no alto, de onde podíamos contemplar a Baía de Guanabara.
Pareceu-me que naquele instante a paisagem tornou-se minha aliada, fazendo com que Ana se desanuviasse e pudesse me ouvir com compreensão. Sob juramento de que nada havia entre mim e a cantora, voltamos para a Ilha bem antes da hora de costume. Ana permanecia apática, sem a sua espontaneidade natural, e pedi-lhe que parássemos na “nossa praia”. Lá permanecemos por algum tempo nos refazendo daqueles momentos tensos. Era, de fato, um lugar mágico. Logo tudo se recompôs. A tempestade passou, os danos foram reparados e nossa vida voltou ao que era.
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| foto retirada da internet |
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| foto retirada da internet |
Pareceu-me que naquele instante a paisagem tornou-se minha aliada, fazendo com que Ana se desanuviasse e pudesse me ouvir com compreensão. Sob juramento de que nada havia entre mim e a cantora, voltamos para a Ilha bem antes da hora de costume. Ana permanecia apática, sem a sua espontaneidade natural, e pedi-lhe que parássemos na “nossa praia”. Lá permanecemos por algum tempo nos refazendo daqueles momentos tensos. Era, de fato, um lugar mágico. Logo tudo se recompôs. A tempestade passou, os danos foram reparados e nossa vida voltou ao que era.
Todo aquele ano foi assim, cheio de tensão, causada principalmente pelas limitações que enfrentávamos. Diante de incidentes desse tipo e de diálogos duros ou inseguros, corremos o risco, muitas vezes, de nos perder um do outro para sempre, mas logo o destino nos fazia reconsiderar as decisões tomadas sob fortes emoções.



















Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirQue linda história! Vou intitula-la de " O caipira nordestino com a deusa do mar"
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