segunda-feira, 11 de maio de 2020

4ºCapítulo - 2º Episódio: "a certeza da fuga..."








      No final de 1965 Ana concluiria seu curso normal. Aos sábados, ela deveria comparecer ao Instituto de Educação para aulas de Didática. Durante a semana, cumpriria o estágio obrigatório, lecionando na Escola Rotary, na Freguesia.


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      Diariamente, às 9 horas, ela saía para o estágio. A única maneira de nos encontrarmos durante a semana era no percurso casa-escola-casa. Então, eu lhe fazia um sinal, saía pela rua dos fundos de minha casa e a esperava num ponto de ônibus mais à frente. 

Acervo familiar
Chegando próximo da escola, seguíamos a pé até a Praia Guanabara, na Freguesia, onde ficávamos namorando enquanto esperávamos o início da aula. Às vezes, eu conseguia escapulir do serviço e a esperava na saída.

        Aos sábados, 6 horas da manhã, encontrávamo-nos na esquina da Rua Alaska com Ipiru, seguíamos a pé pela Rua Carmem Miranda e atravessávamos o morro até a Estrada do Galeão, no Guarabu, onde pegávamos o ônibus para a Tijuca. 

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          Era uma caminhada feita no horário em que a rua ainda dormia, testemunhada apenas pelo entregador de pães, que com seu cesto de palha sobre a velha bicicleta cruzava por nós naquelas manhãs. Sabíamos que seria impossível nos encontrarem por aquelas paragens, àquela hora.
            Ana deveria chegar ao Instituto às 7 horas, e muitas vezes se atrasou ou não compareceu. Sua amiga Marília respondia presença por ela e pegava as matérias que precisava estudar. E, assim, tirávamos os sábados para passeios mais distantes: Copacabana, Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Cristo Redentor. 


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  Eram sempre passeios bem planejados, interessantes, aproveitando a natureza e permitindo que Ana conhecesse o Rio. Quem nos visse, em meio aos turistas, fotografando tudo e todos, poderia pensar que estávamos em lua-de-mel, tal a felicidade estampada em nossos rostos.  
Não posso esquecer quando, num daqueles sábados, resolvemos visitar o Cristo Redentor. Optamos por subir a pé por um caminho estreito, sinuoso, de paralelepípedos,  que permitia acesso ao Silvestre, onde havia uma estação do bondinho do Cristo. 

Avistava-se uma ou outra residência, no meio da mata. Aquele cenário bucólico, nesse dia, teve sua paz quebrada por um enorme bode, de chifres enrolados, cavanhaque longo, que, surgindo do nada, caminhava apressado e decidido em nossa direção. Quando o avistei, senti um frio arrepiante. Segurei forte na mão de Ana e começamos a correr caminho acima. Atrás de nós, vinha o bode, arrogante. Por fim, ele estancou e ficou a nos contemplar. 
Parecia só querer nos expulsar do seu território. Continuamos fugindo e, sem olhar para trás, alcançamos a estação. Ofegantes, pegamos o bondinho, sãos e salvos. Já descansados, rimos muito da corrida forçada e Ana exclamou:
      — Nem quero imaginar o que teria acontecido se aquele animal enfurecido nos alcançasse!
— Nem eu! Esses bichos de chifre enrolado têm uma força descomunal!   
Os nossos encontros eram cada vez mais freqüentes. Havia dias de nos vermos de manhã, de tarde e à noite. A família de Ana parecia, mais uma vez, tê-la deixado em paz, já que não seguia seus passos como antes. À noite, se lhe perguntassem, ela dizia que ia visitar a amiga Lilia, que residia na rua de trás. Às vezes, seu pai a acompanhava até o portão, sem, entretanto, passar daí. Chegando à porta da amiga, Ana parava, observava cautelosamente as silhuetas que surgiam à distância, e seguia até a esquina onde eu já me encontrava à sua espera. Às vezes, circundávamos o quarteirão pela Rua Alaska e íamos para a praia, outras, ficávamos por ali mesmo, na esquina, sentados numas pedras amontoadas na beira da calçada. Era um trecho da Rua Arriba, deserto e pouco iluminado, à margem de um loteamento, e, à noite, poucas pessoas circulavam por lá. Outras vezes, ainda, subíamos a ladeira da Rua Arriba que levava até a igrejinha de N. Sra. de Nazaré. O horário limite era 22 horas, quando Ana retornava para casa sem nunca ter sido questionada ou seguida por seu pai.
Foram momentos de muito isolamento, acalentados pela solidão da noite e, embora nossos desejos aflorassem, a nossa intimidade não ultrapassava os limites do bom senso. E, assim, dávamos asas à imaginação, sonhando com o dia em que não precisaríamos mais reprimir a nossa paixão. O afrouxamento da vigilância dos pais de Ana dava-nos a impressão de que haviam desistido de nos perseguir e tudo parecia diferente.


     A igrejinha de Nazaré passou a ser, então, o local preferido. Afinal, desde os tempos em que apenas nos observávamos, era durante a missa que eu a admirava rezando e ela correspondia aos meus olhares.
      Essa capela fica no alto de uma colina, no centro da pequena e arborizada Praça Amazônia. Na época, a praça era circundada por uma floresta densa, onde apenas duas luxuosas residências davam sinais de que não estávamos distantes da civilização. De dia, do alto de um pequeno mirante, e abrigados pela sombra de uma frondosa árvore, podíamos contemplar a bela curvatura da Praia da Bica, em toda a sua extensão. A paisagem espetacular se projetava à nossa frente, descortinando um imenso mar calmo, como um espelho refletindo o azul infinito. 

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À noite, o lugar se tornava paradisíaco, o profundo silêncio era quebrado apenas pelo farfalhar das folhas das árvores. Dois bancos de pedra completavam o cenário. E foi ali que, em uma noite de novembro, envoltos por aquela paz suprema e premidos pelo desejo que nos impulsionava, Ana prometeu ser minha para sempre. 
Naquela noite, eu não consegui dormir, ora invadido por uma imensa felicidade, ora por uma sufocante inquietude que trazia à minha consciência a precipitação irresponsável dos acontecimentos, e por isso eu me culpava.
       No dia seguinte não fui trabalhar. Acompanhei Ana à escola e fiquei por ali perambulando até a sua saída. Era certo que ela entraria em definitivo na minha vida. Nada mais devia ser temido. Só faltava tomar uma atitude mais ousada e selar nosso destino.
 Ana se mostrava mais otimista e decidida, o que eu esperava. Eu, apesar da certeza de um amor que não admitia recuos, pensava no peso da responsabilidade que assumiria. Em casa, D. Assunção indagava sobre o meu nervosismo e a minha inquietação. Eu mesmo me sentia estranho e preocupado. Na casa de Ana, a calmaria apenas estava nos confundindo.
 Ana já não dependia financeiramente de seu pai. Desde março ela recebia um salário simbólico como professoranda, somado a míseros cruzeiros recebidos por aulas particulares. As despesas com a formatura acumulavam-se e eu precisei ajudá-la. Seu pai não lhe dava atenção e sequer se falavam. Sua convivência naquela casa tornava-se cada dia mais difícil. 
Certa noite, Ana mandou-me um bilhete:

“Houve uma grande discussão aqui em casa por nossa causa.
Preciso falar com você, urgente. Aguardo-o dentro de meia hora no morrinho.
Estou desesperada e acho que teremos que tomar uma atitude.
Não aguento mais tanta pressão.
Preciso dos seus conselhos.
 Amo você!”

Saí de casa para o local combinado, preparado para alguma eventualidade, visto que já antevíamos a possibilidade de uma fuga a qualquer momento. Mas ela queria apenas me prevenir de que a situação em sua casa voltara a ficar preocupante.
Porém, ao sair, não percebeu que fora seguida por sua mãe e por seu irmão Carlos, que, depois de verem a direção que Ana tomara, se separaram: Carlos caminhou pela rua da praia e a mãe pela Rua Ipiru, surpreendendo-nos no morrinho, um mirante improvisado na esquina da Rua Carmem Miranda, de onde se via a praia. Iniciou-se aí uma cena de lances chocantes e, ao mesmo tempo, caricatos: Ana, ao nos ver cercados e às primeiras exclamações grosseiras de sua mãe, acrescidas de comentários irreverentes dirigidos contra mim, desvencilhou-se das mãos de seu irmão, que já a segurava pelo braço, e correu em disparada pela Rua Carmem Miranda com o propósito deliberado de se livrar para sempre das amarras que a prendiam à família.
Seu irmão, desesperado, aos gritos, pedia-lhe que parasse enquanto corria para alcançá-la. Eu também o fiz, mas ela não atendia. No alto da escadaria que liga a Rua Conquista à estrada da praia, conseguimos, por fim, fazê-la parar. Ela, visivelmente cansada, debatia-se tentando se livrar da mão forte do irmão, reafirmando que ia embora e que ninguém a faria voltar para casa. Eu, com a mente perturbada, caminhava ao seu lado sem saber qual o desfecho a que se chegaria naquele momento. Assustado com aquela reação inesperada, pedi-lhe:
— Calma, Ana. Vamos conversar!
— Sim, belo conselho, conversar! Isso prova que você se acovardou à última hora, falava, irada. — Jamais voltarei, ainda que tenha que assumir sozinha o ônus de minha atitude, bradava, como se estivesse me dando um ultimato.
    Assustado, eu procurava tranquiliza-la, mas suas palavras soavam acusatórias e eu insistia:
 — Não fale assim. Volte para sua casa...
A minha intenção era apenas dissimular diante do irmão dela para que ele não percebesse os nossos planos, mas ela, no desespero, não me entendia. Eu acreditava que seria melhor deixar passar aquele momento de conflito, mas quando percebi que Ana jamais me perdoaria se eu hesitasse e a abandonasse a tanta vergonha, prometi:
— Ana, estaremos juntos, não vai demorar. Eu a amo. Não deixarei que nada lhe aconteça.
— É isso que eu quero ouvir — falou, ofegante.
Então, seu irmão fez-me uma ameaça reticente:
— Veja bem o que você está fazendo!  Minha irmã é uma criança e você é um homem de 40 anos...
Nessa altura, já havíamos descido a escadaria, um local escuro e deserto, e caminhávamos pela estrada, os três, na direção do Jardim Guanabara. Em princípio, não entendi por que ele tomou o caminho oposto ao que deveria, mas notei que Carlos se preocupava com os meus movimentos, achando, talvez, que eu estivesse armado, e acabei concluindo que ele apenas me levava para um local mais movimentado. No Bar do Martins, na esquina da praça, lá estavam sua mãe e suas duas irmãs. Só então entendi que havia um local combinado para o encontro final. A mãe de Ana,  assim que nos avistou, assumiu uma atitude violenta e, com veemência incontida, mostrou um comportamento grotesco que se propagou como um incêndio contagiando até os frequentadores do restaurante.
Estávamos junto à grade do bar. Eu, segurando a mão de Ana, relutava em deixá-la sozinha, com eles. Dois homens que estavam em uma mesa próxima, ao verem aquela mãe em desespero, imputando-me sérios impropérios, avançando sobre mim com o indicador em riste, agarraram-me pelo lado de dentro, imobilizando-me contra a grade, facilitando que o irmão de Ana me esmurrasse, atiçado pelos brados da mãe. Eu, no esforço para me libertar, terminei com três costelas partidas, cuja dor quase me neutralizou. Mesmo assim, reagi e desvencilhei-me dos meus detentores, trocando com Carlos alguns socos.
Enquanto isso, Ana era amparada por suas irmãs em razão de uma forte crise nervosa e, trêmula, parecia ter interrompido seu intento de fuga. Afastei-me quando percebi que Ana prometia voltar para casa com eles.
Eu tinha certeza dos sentimentos que nos uniam, não admitia mais viver sem ela, mas não permitiria que cometesse tolices agora. A partir dali, seria só uma questão de tempo, nossa fuga deveria ser definitiva, sem cenas estúpidas, sem o envolvimento de outras pessoas. Prometi então, a mim mesmo, que logo atravessaríamos a fronteira das prerrogativas familiares, penetrando, para sempre, no mundo em que haveríamos de viver em mística unidade, por todos os nossos dias.
Éramos, agora, duas vidas preparando um único plano para a libertação. Nossos encontros passaram a ser mais cautelosos.
 Houve um pequeno silêncio na casa de Ana, eles acreditaram no desinteresse que ela passou a demonstrar pela vida. A tristeza e o olhar sem brilho lhes davam a entender que tinha havido uma ruptura definitiva entre nós. Enquanto isso, ela, com sua peculiar tranqüilidade, planejava, diariamente, a fuga.
Embora o incidente daquela noite tivesse lhe deixado um pequeno sentimento de decepção, criando uma tênue imagem de desconfiança nas minhas intenções, ela continuava incansável, procurando motivos para desfazer suas suspeitas e exorcizar o fantasma que  povoava a sua mente.
Dizia frases otimistas:
— Como eu gostaria que fosse logo!  Não importa o que nos esteja reservado. Será difícil no início, eu sei, mas depois tudo se acertará.
E eu sempre respondia:
 — Você está certa Ana, mas não podemos nos precipitar...
Eu precisava prolongar a decisão por mais algum tempo. Na realidade, eu tinha a cabeça pesada, confusa, cheia de dúvidas. A enorme dedicação e aquele sublime amor talvez não representassem tudo que ela esperava de mim na ilusão dos seus 19 anos. Eu era um quarentão pobre e emocionalmente abalado. Olhava-me no espelho e preocupava-me com as primeiras grandes rugas que davam sinais de estar a caminho e  alguns fios de prata que se destacavam dos cabelos escuros. Meu salário era pequeno. Os pouquíssimos móveis que eu possuía impossibilitavam a estrutura mínima para montar um lar. “Ana suportaria uma vida de privações? Não teria saudades dos seus familiares?” Em delírio, eu imaginava o dia em que ela, arrependida, me trataria com indiferença. “Ou será que eu estou sendo injusto? Ou covarde?” Todas essas interrogações atormentavam-me e eu até admitia que, um dia, decepcionada, Ana pudesse chegar ao extremo de uma separação, responsabilizando-me por sua tragédia pessoal.
No íntimo, eu sabia que minha alma estava em conflito, lutando contra algo que eu não dominava. Era como se o eco de mil vozes soassem em meus ouvidos, repetindo nossas brigas, minhas irreverências e desentendimentos despropositados. Por outro lado, o desejo de tê-la em minha vida era muito forte, verdadeiro e honesto.
Os dias, assim, foram passando.
Ana se fortalecia criando condições para quebrar os grilhões da tirania de seus pais. Certa tarde, reafirmando o seu propósito, tranquilamente, me preveniu, perguntando:
— Não aguento mais o clima na minha casa. Estou decidida a sair. De um momento para o outro eu lhe darei o sinal. Você irá ao meu encontro?
— Claro, Ana! Juro que vou ao seu encontro em qualquer lugar deste mundo! 
Aquelas palavras ingenuamente pronunciadas por ela foram carregadas de decisão e calaram profundamente em mim, mas, na verdade, eu ainda não me sentia preparado.

Chegou o Natal. Como era normal, na casa de Ana houve grande movimentação. Durante a tarde e no início da noite, todos comeram e beberam. Ela sabia que aquele seria o último Natal com a família, sentia-se perturbada, marginalizada e com a alma aflita, diante do espírito da data. Achava que tudo poderia ter sido diferente, mas, como isso não aconteceu, não lhe restou outra saída senão transformar a data religiosa em festa de despedida. A princípio, quis confundir todos com um comportamento fora dos seus hábitos, nos últimos tempos, juntando-se alegremente aos familiares. Fosse qual fosse o humor que apresentasse, sabia que seria motivo de preocupações. Durante a ceia, Ana se comportou como se não houvesse mágoas. Embora não se dirigisse ao pai, demonstrava uma felicidade misteriosa. Todos se impressionaram com a sua transfiguração repentina. Faltava pouco para ela mudar de vida e saberia esperar o momento certo, sufocando a ansiedade que lhe invadia. Naquela noite, intencionalmente, abusou do vinho. De nossa casa ouvíamos o som da festa e eu, informado por uma vizinha, acompanhava surpreso as reações inesperadas de Ana e  tudo o que acontecia por lá.
Interior da Igrejinha
À hora da missa do galo, na nossa igrejinha, vi sua chegada com a mãe e as irmãs, mas durante todo o tempo elas não se separaram. Embora me dirigisse olhares furtivos, Ana  demonstrava indiferença à minha presença. Por duas vezes saí da missa e fui até o banco do jardim, mas ela sabia que não podia nem devia seguir-me.
Terminou a missa, desci a ladeira na frente de todos, só para ter a oportunidade de vê-la passar. Logo depois, a vizinha apareceu com os olhos arregalados, dizendo que Ana voltara a beber, e que sua aparência de alegria desaparecera. Agora, dizia coisas incoerentes, chorava muito e se referia a mim com ternura. “Pronto! Está criada a possibilidade de conflito!”, pensei.
Embora parecesse absurda a súbita mudança em suas atitudes, ninguém se alterou, mas seu pai ficou convicto de que Ana não havia rompido comigo. Parecia que o prazo que ele próprio se dera para pôr fim ao nosso romance estava por se esgotar. E, a partir daquele dia, passou a tratá-la com mais rancor.
Ana começava a se despedir do Instituto de Educação. Assim que se formasse passaria a ser Professora efetivada do então Estado da Guanabara. Ela ansiava por esse momento pois estaria completamente emancipada.


Ana é a terceira da fila





















A missa de formatura de Ana acontecera no dia 22, no Maracanãzinho, e no dia 27, foi realizada a colação de grau, no Teatro Municipal. 
O anel, Ana ganhou em um sorteio realizado pela Joalheria Jaguarê, na TV Tupi. Assisti às duas solenidades, emocionado, no meio da multidão. Ana facilmente me localizava pela comunicação gestual que tão bem havíamos desenvolvido. Eu não podia me aproximar para comemorar com ela, pois sua mãe estava presente, vigilante. Porém, em meio ao silêncio que se fez em determinado momento da solenidade, a minha presença foi denunciada pelo canto solitário de um bem-te-vi acuado! 


Aqueles momentos foram de muito orgulho e felicidade para mim. O pai de Ana preferiu não prestigiar a sua vitória.
Dois dias após a formatura, Ana, ao acordar, foi surpreendida com a presença dele em seu quarto, dizendo, ameaçadoramente:
    — A partir de agora vamos colocar um ponto final nessa história! Você não sairá deste quarto enquanto eu não acertar as contas com aquele sujeito. Vou aguardar no portão até que ele apareça.
    — Mas o senhor não pode fazer isso! — disse Ana, entre assustada e desafiante.
— Posso, sim! — respondeu ele, mostrando um revólver que trazia na cintura.
 Depois passou um cadeado na grade corrediça da janela e, sem mais nada dizer, foi para o portão da casa, montar guarda, como prometera. Assim ele passou todo aquele dia, e os outros que se seguiram e Ana ficou mantida em cárcere privado, em seu próprio quarto. Dentro de casa, sua mãe vigiava seus movimentos quando se deslocava por alguma necessidade.
        No segundo dia, a amiga Lilia, estranhando sua ausência, foi procurá-la. Ana aproveitou e contou-lhe com detalhes o que se passava, pedindo-lhe que me prevenisse, pois a fuga iria acontecer a qualquer momento. A notícia do aprisionamento de Ana rapidamente se espalhou na vizinhança, gerando grande curiosidade em torno da casa de no 144.
Lilia, com passe-livre e inquieta, passou a visitar a amiga insistentemente, preocupada com o seu estado emocional. Ao mesmo tempo, mantinha-me informado da evolução dos acontecimentos. Ela foi o nosso pombo-correio naquele momento tão cruel. Através de bilhetes, Ana pedia que eu mantivesse a calma, não tomasse nenhuma atitude, pois no momento certo as coisas aconteceriam.
Ana também mandara um recado, por Lilia, para a vizinha do lado, pedindo ajuda para o momento da fuga, caso precisasse passar pelo seu terreno. A vizinha concordou, embora temerosa, pois conhecia o gênio daquele pai, agora piorado pelo desespero.
       Chegou a noite de Ano-Novo. Nascia 1966 e com ele a certeza da nossa liberdade. Enquanto todos comemoravam alegremente na praia e nas casas, eu sofria, sabendo que Ana estava aprisionada. Sua alimentação lhe era levada no quarto. Seu pai havia tomado a firme decisão de ir às últimas conseqüências.
    As horas passavam sem que eu soubesse qual o verdadeiro estado de ânimo de Ana. Queria vê-la e, no dia 2, pela manhã, me posicionei em frente ao meu portão em atitude provocadora, olhando na direção de sua casa. Eu em meu portão e seu pai no dele. Parecia a preparação para um duelo entre dois gigantes. Eu sabia que se um fosse ao encontro do outro, o choque seria fatal. Mas lembrei-me das recomendações de Ana e, sem querer dar espetáculo, recolhi-me. Fiquei aguardando alguma notícia, trazida por alguém. Assim, fui prevenido, por um outro bilhete:

“Pode ser ainda hoje.
Esteja preparado.
Amo você.”

     Minha cabeça mais parecia um emaranhado de pensamentos ziguezagueantes. Fazer o quê? Como? Ir para onde?
Eram 14 horas quando atendi ao telefone:
— Consegui! Aguardo você no ponto final do ônibus 322, na cidade — disse Ana com a voz embargada, desligando o telefone em seguida.
      Estranhei. Para tomar essa condução eu teria que caminhar uma grande distância. De qualquer forma, não perdi tempo. Peguei o pouco dinheiro que tinha, documentos, escova de dentes e aparelho de barbear. Vesti um paletó, abracei D. Assunção e, utilizando-me de uma passagem no muro dos fundos de nossa casa, alcancei a Rua Arriba. Segui por ela em disparada e fui ao encontro de Ana, como um adolescente.
Como todo episódio trágico tem sempre o seu lado cômico, ao chegar nas proximidades do cemitério do Cacuia, vi-me no meio de um cortejo fúnebre que, moroso, ocupava toda a rua.  Não fiz por menos, atravessei a massa humana, driblando aqui e ali, desconsiderei as lágrimas e o silêncio, as flores e a tristeza, e ultrapassei tudo e todos. Só tinha um objetivo na ocasião: encontrar-me com Ana o mais rápido possível. A sorte me ajudou. Ao entrar no primeiro ônibus que passava, deparei-me com ela, em pé, junto ao cobrador. Havia tomado o ônibus uma parada antes. Foi grande o nosso alívio ao percebermos que o destino estava escrevendo com rapidez e precisão a nossa história.
— Ana!?
— Eu não disse que ia fugir? — falou-me com ar triunfante.
Olhei para aquele rostinho risonho e assustado, com uma emoção indescritível. Enquanto seu espírito sofria a tensão eufórica da fuga, eu me revestia da tranqüilidade necessária para encarar o futuro que começava ali, de maneira tão original. Lembrei da quantia que tinha no bolso: CR$50,00 e tive a noção exata das muitas dificuldades que teríamos de enfrentar a partir daquele momento.
       Durante a viagem, Ana me contou, em detalhes, toda a odisseia que vivera nos últimos dias. Falou que, aproveitando-se de um cochilo de sua mãe, naquela tarde, fez que ia ao banheiro, mas encaminhou-se para o quintal e de lá para o terreno da vizinha, que, assustada, facilitou sua saída. Seguiu pela rua dos fundos, parou na casa de sua amiga Lilia, pegou uma sacola com algumas peças de roupa, despediu-se, e, mais adiante, na casa de outra amiga, Gizelda, de onde me telefonou. Com o coração martelando no peito, fez esse caminho confuso para dificultar a ação de seus pais quando sentissem a sua ausência.
Dominados pela sensação de liberdade e pela emoção de estarmos juntos definitivamente, saltamos do ônibus em um ponto qualquer da cidade e, sem que percebêssemos, fomos guiados até à Igreja de Santa Rita de Cássia, no Largo do mesmo nome, onde oramos com fervor. 

foto retirada da internet

       Ajoelhados diante do altar, pedimos a Deus que abençoasse a nossa união.  


foto retirada da internet



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