segunda-feira, 11 de maio de 2020

4ºCapítulo - 3º Episódio: "... enfim, o início de uma vida a dois..."







Dali, ainda desorientados, atravessamos a avenida Presidente Vargas, próximo a Candelária, e caminhamos até encontrar um banco de praça para descansar e pensar no rumo que deveríamos tomar. 


O sol começava a se esconder. Lembrei do meu amigo Reginaldo e rumamos, a pé, para a sua residência, na Rua Riachuelo. Ana demonstrava cansaço e eu tive medo de estarmos nos precipitando. Talvez devêssemos esfriar a cabeça e, depois de uma noite de repouso, tomar uma decisão mais racional. Na casa de meu amigo ela encontraria proteção, pensei.
Regina, também professora, três anos mais velha que Ana, seria a companhia ideal para aquela noite, mas, ao contar para o casal o drama que estávamos vivendo, não fui suficientemente claro no meu propósito, e eles, naturalmente temerosos, não se ofereceram para nos dar o apoio esperado. Apenas nos serviram um lanche. As horas passavam e Ana, tentando sair daquela situação constrangedora, disse:
— Já está tarde e eu ainda vou para a casa do meu irmão, em Jacarepaguá. Obrigada por tudo.
  Sem entender o que se passava na cabeça dela, despedi-me do casal. Deviam ser 21 horas quando, desiludidos, chegamos à rua. Eu estava confuso e Ana, percebendo, falou:
— Eu não vou para casa de irmão algum. Se você não se sente seguro para ficarmos juntos agora, então eu vou procurar uma amiga. Voltar, eu não volto!
— Não, pelo contrário, pensei que você tivesse desistido ao dizer que ia para a casa do seu irmão. Vamos em frente. Deus nos orientará!
Caminhamos desnorteados, por ruas desertas e escuras do Centro do Rio, naquela noite de domingo, até que, exaustos e cheios de incertezas, paramos diante de um hotel simples. Sem muito pensar, ali nos hospedamos, esquecendo todas as dificuldades e todos os medos. Tomamos posse do nosso próprio mundo. E nos tornamos um só. Era, na verdade, o nosso primeiro  e verdadeiro momento de entrega mútua.   
No dia seguinte, à luz do sol, percebemos que aquele hotel não era condizente com o momento que estávamos vivendo, além de ser um prédio antigo, feio e sem conforto, mas isso não maculou a nossa entrega e nem tirou a magnitude da nossa primeira noite de liberdade. 
Procurei então o meu amigo Djalma, que morava e trabalhava nas redondezas. Ele nos acompanhou até o Hotel Cruz de Ouro, próximo à Praça Cruz Vermelha, onde, por seu intermédio, alugamos um quarto pagando uma diária de CR$ 5,00. Naquela época, vários casais idosos e famílias com crianças ali residiam em caráter permanente. No amplo quarto com banheiro encontramos uma cama de casal, um guarda-roupa e uma pequena mesa com duas cadeiras. A televisão ficava na recepção, onde os hóspedes se reuniam, no final do dia, para assistir à programação noturna.
Adicionar legenda

E foi dessa forma que a minha vida deu uma feliz cambalhota.
Agora eu sentia que Ana era minha realmente.
Naquele primeiro dia  não fui trabalhar, nem no outro. Telefonei para Carmelita, minha chefe, contando o drama que estávamos vivendo, e ela me alertou que o pai de Ana estava lá embaixo, na porta de entrada dos funcionários, de tocaia, aguardando a minha chegada, e que eu deveria tomar cuidado. Diante disso, ela me aconselhou para que eu permanecesse afastado até que ele desistisse. E assim fiz: por conta própria faltei ao serviço durante dez dias, tempo suficiente para que ele concluísse que eu já não trabalhava naquele lugar. Após esse período, consegui férias, para  ficar perto de Ana, não a deixando só no hotel, pois era essa a minha maior preocupação.
Havíamos saído com a roupa do corpo. Para mim, seria mais fácil resolver essa dificuldade. Naquele primeiro dia, liguei para D. Assunção pedindo que me trouxesse algumas peças de roupa. Marcamos um encontro na Igreja de Santana. Além do que pedi, ela trouxe um vestido novo, de jérsei azul, para Ana e também um delicioso bolo. Mas Ana necessitava de roupas. Eu só receberia salário na semana seguinte e precisei pedir dinheiro emprestado a um amigo.
Nesses primeiros dias de adaptação à nova vida, ficamos motivados por uma paz interior tão intensa que nem nos permitia sofrer com pequenos detalhes. Contudo, logo na segunda semana, percebemos que corríamos o risco de não ter como pagar o hotel no final do mês.
Soubemos, por D. Assunção, que os pais de Ana viviam em vigilância permanente, observando quem entrava ou saía da casa dela, preocupados com a possibilidade de meus pertences serem retirados.
Regina sensibilizou-se com a nossa precariedade e prontificou-se a correr o risco. Apanhou o resto das minhas roupas, o meu equipamento fotográfico e uma máquina de escrever portátil.
Colocamos a máquina Rolleiflex no penhor e pagamos o primeiro mês de hotel, restando-nos ainda uma pequena quantia. Como objetos de valor, tínhamos: a máquina de escrever, um relógio Mido com pulseira de ouro, o anel de grau de Ana e um cordão de ouro que ela usava.
Fazíamos as refeições na pensão Glória, do Sr. Antônio, na Rua Mem de Sá. Por brincadeira, dizíamos que almoçávamos no Hotel Glória. Éramos dois pobres coitados, porém ricos em ironia e felicidade!
Na pensão, comíamos à vontade. O sabor e a qualidade das refeições fez com que nossa freqüência fosse diária e em apenas uma semana ficamos conhecidos pelo casal de portugueses, donos da pensão, e seus três filhos, responsáveis pelo atendimento. O ambiente era limpo e frequentado por pessoas educadas. Quase sempre chegávamos por último para o nosso almoço/jantar. O café da manhã, média e pão com manteiga, tomávamos na lanchonete da esquina. À noite, distraíamos o estômago com biscoito, pão ou frutas, no quarto do hotel. Algumas vezes, íamos para a casa de Reginaldo assistir televisão e “descolar” um lanche mais reforçado.
O meu salário nos Correios não cobria as despesas com hotel e alimentação. Havia um grande déficit mensal, que nos levou a repetir algumas ginásticas: empréstimos e penhores.
Ana deveria receber do Governo CR$ 111,00, correspondentes a dois meses de salário do seu estágio de professoranda no ano anterior. Essa perspectiva nos animava. 
Sua posse como professora do Estado da Guanabara era aguardada para o início de março. De repente, verificamos que ela não possuía documentos, pois na hora da fuga não atinou para essa necessidade. Seus pais, na esperança de que ela retornasse a casa, haviam trancado o quarto com todos os seus pertences, de forma que suas irmãs, nossas cúmplices, nada conseguiram retirar. Mesmo questionada por vizinhos, D. Fernanda preferiu seguir à risca as determinações do marido. Então, Ana precisou recorrer à ajuda de sua amiga Aparecida, de São Vicente, onde nasceu, pedindo-lhe que conseguisse, no cartório da cidade, uma 2a via da certidão de nascimento. Com esse documento, pôde tirar a carteira de identidade, o título de eleitor, e aguardar a posse.
Aqueles dois meses em que moramos no hotel foram de grandes dificuldades. Estivemos, muitas vezes, à beira de uma catástrofe financeira. Todos os meus pertences de valor foram penhorados na Caixa Econômica, restavam apenas o anel de grau e o cordão de ouro. Sabíamos que teríamos que viver, unicamente, do salário do Correio, até que Ana começasse a receber o salário de professora, previsto para o mês de junho.
Mesmo com todas essas dificuldades, não perdíamos a oportunidade de passear, principalmente à noite, quando íamos a pé até a Cinelândia, principal centro de diversão noturna, com seus cinemas luxuosos, bares repletos e teatros fascinantes. 


Adicionar legenda

Seguíamos pela Avenida Mem de Sá, Arcos da Lapa e Passeio Público e, ao voltarmos pelo mesmo caminho, após as 22h, nos deparávamos com uma outra face do centro do Rio de Janeiro — a vida noturna daquela época: as ruas se tornavam passarelas de prostitutas e homossexuais,  tidos como pessoas de “moral pouco recomendada”. Tudo para Ana era novidade, e dávamos  muitas gargalhadas quando víamos a polícia correndo atrás deles, com cassetetes nas mãos, tentando prendê-los ou espantá-los da convivência com as pessoas “de bem” que transitavam pela via pública.
Apesar de presenciarmos esse tipo de vida tão complicada, não nos sentíamos incomodados por ninguém, assim como muitas outras pessoas que faziam o mesmo trajeto. Era cada um “na sua”. Assalto? Nem se falava! Quanta diferença para os dias de hoje!
Nesse ano, o carnaval aconteceu no início de fevereiro. Aguardávamos com ansiedade esses dias. Para Ana, seria mais uma novidade. A Avenida Rio Branco e a Cinelândia eram os locais de maior efervescência durante os dias de momo.
Já conhecíamos a liberdade e o carnaval veio no momento certo, injetando a euforia necessária que nos daria ânimo e coragem para enfrentar as angústias que cresciam em nós, decorrentes do isolamento e das dificuldades.
Na Avenida Rio Branco, quase não se podia caminhar. A movimentação de foliões e curiosos era constante nos três dias de folia. A avenida se enfeitava com glamour e em cada esquina um coreto destacava uma pequena banda de música que animava os foliões com famosas marchinhas carnavalescas. A alegria contagiava a multidão. Bailarinas, colombinas, índios, palhaços, políticos e todo tipo de fantasias exóticas desfilavam comungando alegria e espontaneidade. O riso era a máscara mais comum, com a certeza de que tudo acabaria na quarta-feira.
Ana se deslumbrava!
Na segunda–feira, à noite, nem conseguimos nos aproximar do Teatro Municipal, onde aconteceria o tão badalado baile de fantasias de luxo. Desde cedo as pessoas se acotovelavam nas proximidades para ver a entrada dos artistas, turistas e pessoas da alta sociedade com seus smokings ou fantasias luxuosas. De qualquer maneira, só em visualizar, à distância, aquele espetáculo de luzes, luxo e elegância, já nos dava a ideia exata da grandiosidade do Baile de Gala no interior do teatro.


Adicionar legenda
Eu já havia presenciado outros carnavais no Rio, mas aquele teve um significado único, pois Ana se mostrava fascinada com tudo que via. Encantei-me também com um outro aspecto, que até então eu não havia percebido: o lado simples e ingênuo das pessoas que, mesmo desconhecidas, sorriam e se davam as mãos para pular ao ritmo das marchas tocadas com tanta empolgação, ou quando formavam um pequeno bloco que aumentava  e aumentava à medida que seguia algum músico solitário.


Adicionar legenda
Para nós, ficou na memória um show, na terça-feira, com grandes artistas, cujo palco foi armado na Cinelândia. As cantoras Marlene e Emilinha atraíam, com suas marchinhas, gente aos turbilhões.


Adicionar legenda
Quem nos observasse não entenderia por que chorávamos quando Zé Kéti cantou: 
Adicionar legenda
“Quanto riso, oh quanta alegria/Mais de mil palhaços no salão...”. Olhos nos olhos, braços erguidos, cantávamos um para o outro, transbordando alegria. Para nós, os versos daquela música tinham um significado especial. Nossa alma ria e nossa emoção extravasava. 
E, em seguida, para prolongar os momentos de euforia e encantamento que nos invadiam, ouvimos da saudosa e querida Dalva de Oliveira: “Bandeira branca, amor/Não posso mais/Pela saudade/que me invade/eu peço paz...”, que entoamos alto, como um hino de vitória, liberdade e paz.
Naquelas duas apresentações, vimos refletido todo o nosso interior e escancaradas todas as nossas mágoas. Foram momentos de verdadeira catarse.    
         
Logo depois do carnaval, foi marcado o tão aguardado dia para o recebimento da quantia referente ao estágio de Ana, no ano anterior. 
Naquela época, os salários eram pagos por um agente-pagador que percorria, de carro, num único dia, todas as repartições de uma determinada região, devendo os servidores estar presentes para receber o envelope com o pagamento, mediante recibo.  E, assim, os funcionários ficavam reunidos na escola, muitas vezes, até tarde da noite, aguardando o pagador, que quase sempre se atrasava.
A mãe de Ana sabia que ela teria que comparecer à Escola Rotary, e, ainda impelida pela inconformidade da decisão pessoal da filha, “bateu ponto” e permaneceu o dia inteiro na porta principal da escola. Pressentindo sua presença, Ana antecipou-se e telefonou para a sua amiga, Diana, também professora da escola, a quem pediu ajuda. Esta, assumindo todos os riscos, recebeu por Ana o envelope e correu para os fundos da escola,  apesar dos poucos minutos que dispunha. Utilizando-se de um buraco que havia no muro, Diana entregou o dinheiro a Ana cujo recibo, assinado, foi devolvido ao pagador.
Na porta da Escola, D. Fernanda continuou esperando a filha sem perceber a estratégia utilizada. Eu acompanhava Ana, em grande expectativa. Sabíamos que era uma  operação arriscada que não podia falhar, dada a necessidade que tínhamos do dinheiro.
Além disso, um possível encontro com a família seria trágico e desnorteante, já que estávamos, até aquele dia, ocultos na cidade. Sabíamos que os pais de Ana nos farejavam por toda parte como cães policiais. Suas verdadeiras intenções, ninguém conhecia. E temíamos escândalos.
Foi um momento de suspense, cheio de lances cinematográficos e, depois de tudo,  Ana, ironicamente, disse que se sentiu personagem principal do filme Tom e Jerry.
Aquele dinheiro foi uma feliz escapatória da difícil situação em que nos encontrávamos.  
Em meio a essa mistura de felicidade e inquietação, eu adoeci. Foi o primeiro fantasma que nos apavorou, fazendo com que Ana se agitasse, entrando em contato com  Reginaldo. Ele veio ao nosso encontro, no hotel. Sentou-se à beira da cama, conversamos longamente e, quando ele nos deixou, senti que a febre alta começava também a me abandonar. Na despedida, meu amigo pronunciou aquela sua célebre frase:
— Bola pra frente, campeão!
Suas palavras soaram forte e carregadas de uma extraordinária magia, cujo significado transcendia o entendimento comum.
Na farmácia, Ana foi orientada sobre a medicação e logo me recuperei.
Dias depois, foi a vez de Ana. Ela tinha febre alta e fortes dores abdominais. Desesperado, levei-a a um médico particular que, ao examiná-la, nos fez perguntas pouco esclarecedoras. Quis saber a nossa idade e nos olhava de forma dúbia e misteriosa. Depois de alguns segundos de testa franzida, em aparente reflexão, chamou uma enfermeira e pediu-lhe que aplicasse uma injeção em Ana, garantindo que ela iria melhorar a partir daquele momento.
Mal deu tempo de chegar ao hotel. Ana começou a sentir uma espécie de torpor paralisante, uma reação que ela logo atribuiu à injeção que lhe fora aplicada. À noite, observou que algo estranho fora expelido de seu corpo, quando estava no banheiro, semelhante a uma hemorragia de sangue grosso, o que muito nos preocupou, porém sem atentar para o que poderia ser. Mesmo assim, conforme o médico havia previsto, Ana melhorou.             
      No dia seguinte, ao encontrar uma amiga e relatar o acontecido, concluíram, de maneira surpreendente, que teria ocorrido um aborto e não um simples mal-estar. Ana não apresentava mais febre nem sentia as fortes dores. Se, por um lado, ficamos aliviados, por outro, lamentamos a perda de um ente que seria o primeiro companheiro de nossa caminhada. Ana chorou durante alguns dias e sonhava com um menino de cabelos lisos, vestido com um pijama, subindo uma colina verde, ao mesmo tempo em que olhava para trás e acenava sorridente.
   Havia dois meses que estávamos naquele quarto de hotel e sabíamos que nossa situação financeira não suportaria continuarmos ali por mais tempo. A suposta gravidez de Ana nos deu sinal de alerta e começamos a procurar um apartamento.
A essa altura, já havíamos conquistado um pouco de tranquilidade para tomar decisões. Conseguir um segundo emprego passara a ser uma necessidade, e, para isso, mudei meu horário no Correio, que passou a ser das 18 às 24 horas, dia sim, dia não.
Procurei o dono do Livro Técnico e falei da minha situação, mas ele argumentou que o momento não era propício, já que, por contenção de despesas, alguns funcionários tinham sido dispensados. Percebi que não adiantava insistir, pois os jornais noticiavam que essa situação era vivida por todo o comércio.
Recorri, então, a dois irmãos maçons que tinham condições de me ajudar, mas eles, sem rodeios, disseram que nada podiam fazer por mim. Fiquei decepcionado.    
Descobrimos um apartamento que nos agradou. Seu aluguel: CR$ 110,00. Sabíamos que passaríamos por um período de sacrifícios até que Ana fosse nomeada e recebesse salário, mas não havia outra saída. Um amigo do Correio se ofereceu para ser o fiador e dias depois recebemos as chaves. Finalmente nos instalamos. Mas, e os móveis? Não nos preocupamos muito com isso, inicialmente. O que mais importava era saber que um primeiro passo fora dado e que estávamos em nossa casa, o resto viria com o tempo.
O pequeno apartamento ficava no sexto andar de um prédio de onze, na Rua Marquês de Pombal, esquina com Frei Caneca. Era um conjugado de frente para a rua. Ao entrar, nos deparávamos com uma pequena saleta para onde davam as portas do banheiro e da minúscula cozinha, onde só cabia uma pessoa. Tinha uma pia e, sobre ela, ao lado, um fogão a gás, de duas bocas, sem forno. O banheiro era mais espaçoso e completo. Não havia área de serviço e a roupa teria que ser lavada em baldes ou bacias. Seguindo-se à saleta, encontrávamos uma grande sala-quarto, limitada por um janelão de vidro que ocupava toda a extensão da parede e deixava entrar uma claridade esplendorosa, mas, por outro lado, tornava o ambiente completamente devassado. Mesmo assim, e com tudo isso, o nosso júbilo era total. Ali ergueríamos o “nosso palácio”, a partir daquele dia.
Compramos uns poucos utensílioscomo pratos, panelas, filtro para água e toalhas, e nenhum móvel.
Fretamos um pequeno caminhão e conseguimos retirar do meu quarto, na Ilha, o pouco que ali deixei: um sofá-cama de casal, uma mesinha de canto, uma mala com roupas e muitos livros. Assim, preenchemos os espaços vazios do pequeno apartamento. Os livros ficaram empilhados no chão, junto à parede da sala, por falta de estante. Alguns deles eu consegui revender para Francisco Laissue, o livreiro que os importou.
Pronto! Tínhamos onde dormir e uma mesinha para as refeições. Para encobrir a nudez ambiental, um lençol branco, esticado na janela, servia de cortina. Estávamos felizes. Podíamos sonhar e os sonhos eram muitos: desde uma simples vasilha de plástico a uma TV usada, o último item da lista das necessidades.
Eu devia favores ao meu amigo Reginaldo e decidi ofertar-lhe grande parte da minha biblioteca, composta de livros raros, muitos dos quais importados de sebos internacionais, cujo valor superava o de algumas obras comuns: “Pistis Sophia”, “Kabalah”, “Secret Teaching of all Ages”, “The New Testament Appocriphal”, “The Book of Deads of Ancient Egipt”, “El Ancoran”, “The Book of Manú”, “The Gospel of Budah”, “Ísis sem Véu” e vários outros livros importantes, abrangendo filosofia maçônica e esoterismo. Ninguém melhor do que ele para guardar esse tesouro secreto de valor infinito que durante anos enriqueceu a minha mente e preencheu a estante que decorava a parede do meu quarto.
Os olhos de meu amigo brilharam, emocionados. Recuperado, vagueou o olhar pelo ambiente e, tomando as paredes como testemunhas, falou:
— Seus livros ficarão guardados comigo, conheço o valor que você atribui a cada um deles.
Não consegui palavras para continuar o diálogo.
Algum tempo depois, ganhamos um guarda-roupa, duas cômodas e duas cadeiras, usados. Assim, nosso “palácio” adquiria aparência de residência. Os poucos móveis dispostos desordenadamente combinavam com a nossa situação.  E nossa grande realização estava ali, no meio de tudo aquilo. Sentíamo-nos incapazes de reclamar da vida.
      Ana, algumas vezes, visitou sua cunhada, Neuza, esposa de seu irmão Manoel, o único dos quatro irmãos que não se uniu aos pais para interferir no nosso romance. Nessas visitas, a que eu nunca compareci, ela, além de saber notícias de seus familiares, aproveitava para trocar idéias sobre a administração do lar.


FINALMENTE, AO INICIAR-SE o ano letivo, em março, Ana tomou posse como professora primária, sendo lotada na Escola Alba Canizares, em Inhoaíba, nos confins da linha férrea. 


Cedo, pela manhã, eu a acompanhava até a Central do Brasil, onde ela tomava o trem. Aguardava o seu embarque e retornava para casa ou caminhava sem rumo pelas ruas da cidade até às 17 horas, quando me postava à sua espera, até que a porta do trem se abrisse e ela aparecesse entre a multidão. 






A emoção de vê-la fazia-me esquecer a nossa pobreza, as horas de solidão, e tomava-a pelo braço, com intensa felicidade. Éramos dois amantes apaixonados, cruzando a Avenida Presidente Vargas, ansiosos por chegar a casa e entrar em nosso mundo real.
Tínhamos pouquíssimos amigos e ninguém nos visitava, a não ser Neuza, que raramente aparecia. Mas era uma solidão que nós mesmos propiciávamos e nos sentíamos bem em vivê-la.
Pela manhã, o sol invadia, através da janela, metade da sala. Era a hora do banho  de energia, da renovação, da paz, e por alguns momentos ficávamos debruçados no parapeito, contemplando a paisagem de um Rio antigo, genuíno, onde ainda existiam barracões com telhado de zinco em permanente contraste com alguns edifícios de arquitetura moderna que surgiam, impondo nova fisionomia e novos hábitos àquela parte da cidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário