Em meio a essa rotina encantadora, em março, Ana soube que estava grávida. Agora era uma certeza. Entre empolgados e apreensivos, tirávamos de nossa mente as lamentações que restaram daqueles dias tristes de um mês atrás.
Nova onda de felicidade nos envolveu, e começamos a pensar no novo ser que, meses depois, viria compartilhar o amor que pertencia apenas a nós dois.
Chegou maio e com ele os dias mais frios. Não dispúnhamos de agasalhos. Além de dois paletós, eu possuía uma única blusa de inverno, já velha e surrada, que Ana passou a usar para se proteger. Contudo, ela procurava enfrentar a adversidade com dignidade heroica, sempre confiante no amanhã. Aguardava pacientemente o recebimento dos salários, e eu corria de um lado para o outro tentando encontrar alguma outra atividade que pudesse nos tirar do sufoco financeiro. Já havíamos empenhado o anel de grau e o cordão de ouro de Ana.
Chegou maio e com ele os dias mais frios. Não dispúnhamos de agasalhos. Além de dois paletós, eu possuía uma única blusa de inverno, já velha e surrada, que Ana passou a usar para se proteger. Contudo, ela procurava enfrentar a adversidade com dignidade heroica, sempre confiante no amanhã. Aguardava pacientemente o recebimento dos salários, e eu corria de um lado para o outro tentando encontrar alguma outra atividade que pudesse nos tirar do sufoco financeiro. Já havíamos empenhado o anel de grau e o cordão de ouro de Ana.
Por fim, no início de junho, Ana recebeu os três salários de uma só vez. Foi uma bênção que caiu sobre nós, no momento em que todas as nossas possibilidades de ajuda tinham se esgotado. Pagamos dívidas, retiramos os objetos do penhor, compramos alguns utensílios domésticos e pudemos ter noção de como seria viver com nossos dois salários: um assumindo o pagamento do aluguel e o outro administrando as demais despesas.
A barriga de Ana começou a não entrar nas roupas que ela usava, então ela comprou um corte de tecido de algodão branco com finos riscos azuis, e a mãe de Neuza confeccionou um vestido de gestante que ela passou a usar para ir ao trabalho. À noite, lavava, pela manhã do dia seguinte passava a ferro e tornava a vestir. E assim foi durante toda aquela feliz gravidez.
Ana se sentia bem disposta e fazia o acompanhamento médico no hospital do Iaseg— exclusivo dos funcionários do estado — que ficava próximo de nossa casa.
Naquela época, o sexo da criança só era conhecido no momento exato do nascimento, e Ana se preocupava em compor o enxoval do bebê de maneira racional, sem desperdício. Não podia arriscar e tinha um cuidado exagerado com as cores das peças. Tudo que comprava ou ganhava escolhia nas cores amarelo, verde e branco, nunca azul ou rosa. Lembro-me da noite em que cheguei do trabalho e encontrei Ana revirando, sobre a mesinha, um corte de cambraia pele-de-ovo, amarela, para depois cortar, com uma tesourinha de unhas, duas camisinhas de bebê.
Tia Amélia, nossa vizinha de porta, e Neuza presentearam-nos com algumas roupinhas e fraldas. Assim, nosso bebê já podia vir ao mundo.
Em que pesem tantos revezes, Ana conservava um porte de nobreza e dignidade. Quando caminhava, sentia-se orgulhosa de sua barriga. Ser mãe era o seu sonho. E agora, vivendo essa realidade, sentia-se mais segura, apoiada por uma grande determinação. O mistério da maternidade não a aterrorizava e ela se preparava a cada amanhecer, junto com as modificações do seu corpo.
O tempo passava. Sentia que amava Ana mais do que tudo. A despeito de todas as dificuldades que atravessávamos, a gravidez de Ana era extremamente bela, esclarecia-me e parecia que só agora eu começava a viver. Todas as maravilhas do mundo pareciam concentradas nela. No meio da noite, enquanto Ana dormia, eu admirava o seu rosto miúdo, pálido, e orava pedindo a Deus que nos amparasse, que não nos deixasse esmorecer diante de tantos obstáculos. Acreditava, e acredito ainda, com toda a convicção, que alimentar a alma com sentimentos nobres propicia tranqüilidade para a mente e recompensas para o corpo.
Domingo, às 15 horas, eu era o primeiro na fila do elevador para as visitas na maternidade. A enfermaria era um grande salão com várias camas dispostas lado a lado, em duas fileiras. Assim que entrei, meu olhar localizou Ana no meio das outras parturientes. Foi grande a emoção de vê-la amamentando a nossa filha. Ao contemplar de perto aquele quadro — o mais sublime da vida feminina — senti a grande pobreza da minha linguagem para expressar o meu sentimento diante de tão grandiosa visão e lembrei-me de uma definição de um certo filósofo: “A mulher como filha é uma promessa, como noiva um ideal, e como esposa um complemento da vida.”
Para mim, a paternidade significava uma dádiva divina, que vinha confirmar que eu havia encontrado a companheira ideal para dividir comigo os momentos de lutas e de vitórias, coroados agora com a chegada de um novo tempo e de uma nova realidade. Passados tantos anos de isolamento forçado que prenunciaram um resto de vida solitário, agora eu sentia a necessidade de mostrar para todos que havia saído do casulo, readquirindo novas energias, vislumbrando dias promissores.
Preocupava-me seriamente com a ida diária de Ana a Inhoaíba; com a alimentação simples que levava, em uma marmita; com a sua longa viagem de trem parador; com seus enjoos constantes; com o tumulto que enfrentava quando o trem chegava, na hora do rush, na Estação da Central, e ela ficava espremida, empurrada pela multidão que invadia o vagão disputando melhor acomodação. Foi um período difícil, principalmente porque eu me sentia incapaz de diminuir o seu sofrimento. Finalmente, em 15 de outubro, Ana entrou em licença maternidade.
O bebê estava previsto para nascer até 15 de novembro. Esse dia chegou, mas Ana ainda não sentia sinais do parto. Sua barriga havia crescido assustadoramente e, mesmo com dificuldades, fomos à Ilha para que Ana cumprisse suas obrigações eleitorais. Era a sua estréia nas urnas e havíamos esquecido de transferir o domicílio eleitoral.
O cansaço já a incomodava, limitava os seus movimentos. No dia 18, comparecemos ao hospital para uma consulta. O médico, depois de examiná-la, anunciou que ia interná-la, pois já estava em trabalho de parto.
Meu coração cambaleou e, à medida que ela me dava instruções de como proceder em casa, abateu-se sobre mim um profundo mal-estar, por saber que ficaríamos distantes por alguns dias. Esforcei-me para me controlar, fitei-a nos olhos e nos despedimos com beijos. Antes que eu traísse o meu íntimo, murmuramos umas poucas palavras de amor um para o outro e, em seguida, Ana tomou o elevador para a enfermaria. Não havia quarto particular, e mesmo se houvesse não poderíamos pagar. Aos esposos, não era permitido acompanhar as parturientes, e as visitas só ocorriam às quintas e aos domingos, das 15 às 16 horas. Era sexta-feira, e saber que só a veria dois dias depois aumentou a minha angústia e antecipou a minha saudade.
Voltei em casa e separarei as camisolas, as roupas do bebê e outros objetos que ela necessitava para permanecer no hospital. Eram 12 horas quando pedi ao cabineiro que entregasse a Ana o que ela havia pedido. Fiquei aguardando, na esperança de que ele retornasse com notícias dela ou de poder furar o cerco para vê-la, mas ao retornar ele falou:
— É uma branquinha, né?
— É, sim, você a viu? Como está?
— Já estava na maca, sendo levada para a sala de parto. Volte mais tarde. Terá boas notícias!
As palavras do cabineiro soaram como badaladas de uma estridente sineta. Senti que não podia ficar ali sem fazer alguma coisa. Meus nervos exigiam atividade. Saí do hospital e dei uma volta pela redondeza. Retornei logo depois. Precisava estar seguro quanto ao êxito do parto. Tornei a pedir ao cabineiro que subisse à maternidade para obter notícias. Ele me atendeu e, na volta, falou:
— Ainda está na mesa de parto. Mas não vá embora. Fique por aí. Já, já, teremos novidades.
Fiquei preocupado: “O que terá acontecido?”, pensava.
Agostinho, o cabineiro, jovem simples e educado, com seu jeito fraterno, conseguia me tranquilizar e eu acreditava nas informações que ele trazia.
Cada vez que ele subia, conduzindo o elevador, falava com alguém da maternidade, e, ao voltar, trazia sempre notícias. Numa das vezes, trouxe a notícia que eu aguardava:
— Nasceu. É uma menina. Eu a vi. Parabéns!
— Como estão elas?
— O senhor está muito ansioso. Fique calmo, está tudo bem com elas.
— Posso vê-las?
— Isso eu não consigo. As regras do hospital são rigorosas.
Saí do Iaseg ainda agitado, as palavras do cabineiro se repetiam em meus ouvidos.
No nosso apartamento, tudo parecia vazio, silencioso, quieto e, por alguns momentos, tive a impressão de estar enclausurado. Corri o olhar vagarosamente por todos os recantos daquele cômodo pobre, que logo abrigaria a nova hóspede. Sabia que a riqueza dos nossos sentimentos não permitiria que ela pudesse, um dia, reclamar da pobreza nem do desconforto do nosso lar.
Sufocado por todo tipo de pensamentos, saí e fui orar na Igreja de N. Sra. de Fátima, pela chegada de nossa filha. E o fiz com verdadeiro fervor. Só então me senti tranqüilo, acalmei a minha agonia. Fui, então, tomado por uma força superior que me permitiu enfrentar a quietude e a solidão de minha primeira noite sem Ana.
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Na manhã do dia seguinte, acordei preocupado com a fragilidade de Ana. Precisava saber notícias e voltei ao hospital. Antes de sair, escrevi-lhe um bilhete onde falei da falta que ela me fazia. Não consegui vê-la mas enviei o bilhete junto com a revista Claudia. E assim, aflito, passei o sábado aguardando o domingo chegar.
Domingo, às 15 horas, eu era o primeiro na fila do elevador para as visitas na maternidade. A enfermaria era um grande salão com várias camas dispostas lado a lado, em duas fileiras. Assim que entrei, meu olhar localizou Ana no meio das outras parturientes. Foi grande a emoção de vê-la amamentando a nossa filha. Ao contemplar de perto aquele quadro — o mais sublime da vida feminina — senti a grande pobreza da minha linguagem para expressar o meu sentimento diante de tão grandiosa visão e lembrei-me de uma definição de um certo filósofo: “A mulher como filha é uma promessa, como noiva um ideal, e como esposa um complemento da vida.”
Então, eu tive a doce sensação de ver, pela primeira vez, o rostinho rosado e rechonchudo da minha filha. Num rápido rebuscar da mente, vi alegorias românticas nas imagens de contos de fadas, nos sentimentos bíblicos, nas inspirações poéticas, fazendo-me compreender melhor o sentido da maternidade, e vi na mulher a síntese da própria vida. Ana surgia, aureolada, incrivelmente bela, justificando aqueles mistérios.
Acerquei-me de seu leito e perguntei:
— Então? Como é que foi, hem?
— Foi uma luta — disse Ana. — Senti muito a sua falta!
Ana parecia fraca, muito fraca.
— Passei por maus momentos. Sofri muito do princípio ao fim do parto — disse ela, emocionada. — Foi preciso muito esforço para a criança nascer: a enfermeira ajoelhou-se sobre o meu estômago, forçando meu ventre, enquanto o médico já se preparava para uma cesariana de emergência. Felizmente, com ajuda de fórceps e vácuo, deu-se o nascimento de nossa filha.
Ana continuou dizendo que, apesar do seu estado deplorável, manteve os ouvidos atentos, aguardando o primeiro choro da criança, e como demorasse perguntou ao médico: “Ela não chorou?”
E Ana prosseguia no seu relato:
— O médico respondeu: “Chorou, sim, você é que não ouviu.” Ao mesmo tempo em que falava isso para me acalmar, vi que ele colocava uma máscara de oxigênio no bebê. Nesse momento, ouvi o choro da nossa filha pela primeira vez e pude relaxar.
Eu tinha apenas uma hora para ficar ao lado delas. Pouco tempo para tanta saudade. Não sabia se consolava Ana ou se tentava fixar na memória o belo quadro que estava à minha frente.
Nossa filha era uma criança linda, robusta, de pele muito alva, como Ana. Todos na maternidade comentavam a sua vivacidade. Naquele terceiro dia de vida, encontrei-a com os olhos bem abertos.
No hospital, Ana recebeu a visita de D. Assunção.
No fim do dia, mais tranqüilo, fui trabalhar. A chefia, vendo que eu estava nas nuvens, cedo me dispensou, e eu retornei para casa.
Conhecera nesse dia o êxtase do amor. Era agora um verdadeiro homem, realizado como pai, e não podia mais temer coisa alguma. Ansiava pelo momento em que Ana, com a criança nos braços, transporia a porta do nosso lar.
Na tranqüilidade da noite, deitado com o rosto voltado para a janela, contemplava as estrelas que pareciam mais radiantes em sua beleza. Nessa última noite, sem Ana, dormi um sono sem sonhos, que passou como o risco cintilante de uma estrela cadente, contrastando com as duas noites anteriores, que foram longas e tormentosas.
Segunda-feira, logo cedo, comprei algumas frutas. Ao lado de nossa cama, um berço tosco, de pinho, aguardava a nossa filha. Nós o havíamos comprado dias antes em uma pequena movelaria, na Rua de Santana, esquina com Irineu Marinho. Lembro que o próprio dono da loja, um senhor de idade, o transportou em seus ombros e o armou em nossa casa.
Voltei ao hospital, pela manhã, para saber se Ana teria alta, e fui informado que ela e a criança seriam liberadas depois do almoço.
Às 15 horas fui autorizado a subir. Ana se movimentava vagarosamente, arrastando os pés, e eu manifestei minha preocupação:
— Vejo que você não está bem...
— Quero ir embora. Não quero mais ficar aqui — respondeu Ana, angustiada.
Apesar das dores que sentia, ela lutava desesperadamente para mostrar boas condições físicas, reafirmando seu desejo de ir para casa. De nada adiantariam os meus conselhos para que permanecesse no hospital por mais tempo. Eu também ansiava pelo seu regresso.
Fomos liberados. Claudinha era um bebê lindo que encantou todos na maternidade, e eu, orgulhosamente, a peguei no colo. Agora éramos três. Fomos a pé. Eu levava a criança e Ana caminhava devagar ao meu lado, apoiada em meu braço. Nosso apartamento ficava próximo do hospital e, além disso, o dinheiro que dispúnhamos era pouco e não sabíamos quanto iríamos gastar na farmácia, com a enorme lista fornecida pelo médico. Naquele dia, levamos vinte minutos para fazer um percurso que normalmente levaria cinco!
Assim que chegamos em casa a campainha tocou. Tia Amélia veio visitar nossa filha. Era a primeira visita, em casa. Muito observadora, ela rodeou o berço, olhou com carinho, e disse:
— É a cara do pai!
Orgulhoso, dei um sorriso.
No início, logo que nos mudamos, Tia Amélia procurou manter-se distante, mas com o passar do tempo aproximou-se. Era uma senhora de meia idade, morena, meio gorducha, de riso fácil e olhar triste. De pouca instrução, porém possuidora de uma grande virtude: prestar auxílio a quem necessitasse. Jovem ainda, tivera decepção com o casamento e desquitara-se. Falava pouco de sua vida, tinha poucos amigos, mas sabíamos que contávamos com o seu carinho. Trabalhava parte do dia vendendo cosméticos da Avon, de porta em porta. Vivia para cuidar do filho único, com quem residia; ele trabalhava durante o dia e estudava à noite. Descendente de italianos, sabia, como ninguém, preparar uma deliciosa macarronada, cujo aroma invadia os andares, denunciando o tempero forte de manjericão. Além de amiga, tornou-se o nosso único apoio em muitos momentos difíceis.
Ana, embora afirmasse que estava bem, sentia-se fraca e com muitas dores devido ao parto difícil. Os vários pontos externos necessitavam de cuidadosos curativos que ficaram sob a minha responsabilidade. Por outro lado, um enorme desejo de assumir os deveres da casa impunha-lhe forças para andar de um lado para o outro, amamentar e cuidar da criança. Eu, zonzo, tentava acompanhar seu ritmo incansável, ajudando nos afazeres domésticos. Ninguém aparecia para nos socorrer.
Ana era completamente inexperiente. Sozinha, descobriu os segredos de ser mãe. Temerosa com o umbigo do bebê, usava algodão embebido em água morna para a higiene diária da criança. Finalmente, na sexta-feira, dia 25, quando o umbigo de Claudinha caiu, Ana ganhou coragem para dar-lhe o primeiro banho. Coloquei água no fogão para esquentar, pus a banheira com água fria sobre a nossa cama e, enquanto Ana despia o bebê, fui buscar a chaleira na cozinha. Até hoje não sei explicar o que aconteceu. A panela, talvez movida por uma mão inimiga, desequilibrou-se e derramou sobre a minha perna esquerda toda a água fervente que continha, produzindo dolorosas e profundas queimaduras. Gritando, corri para debaixo do chuveiro, enquanto Ana, atordoada e com a criança nua em seus braços, nada podia fazer. Foi horrível!
Imediatamente, fui à farmácia na tentativa de encontrar um medicamento que aliviasse as fortes dores que eu sentia. O farmacêutico me vendeu pomada Johnson, garantindo que ia resolver. De fato, as dores passaram, porém, durante a madrugada, Ana me despertou, apavorada, quando percebeu que eu ardia em febre. E, tão logo amanheceu, ela procurou se aconselhar com um velho médico, aposentado, que residia no mesmo andar. Pelos sintomas, ele fez ver a necessidade de eu ir urgente para o pronto-socorro do Hospital Souza Aguiar, explicando que a febre sinalizava infecção. Sozinho e com grande esforço fui, a pé, até lá. O médico me aplicou uma injeção antitetânica, raspou toda a pele queimada que se misturara com a pomada, derramou sobre a grande ferida um líquido amarelo e enfaixou a minha perna. Advertiu-me que era queimadura grave e que eu devia seguir rigorosamente a medicação prescrita, além de permanecer em repouso absoluto por, no mínimo, cinco dias.
Ana ficara em casa, aflita. E eu, mais aflito ainda, saí do hospital. “Como ficaremos agora?” “Quem cuidará de Ana e da criança?”
Fui visitado pelo médico do Correio que me concedeu 30 dias de licença.
Para Ana não restou alternativa senão considerar a fatalidade, tornar o impossível possível e assumir a rotina que deveria ser minha.
No dia 26, oito dias depois de ter dado à luz, ela foi à feira, na Praça Cruz Vermelha. Eu fiquei em casa com a criança. Lá, por acaso, encontrou a esposa do meu amigo Reginaldo, que estranhou vê-la. Ana relatou o acidente comigo e na despedida ouviu um simples “melhoras para ele”.
Devagar fui melhorando e Ana também. Não havia tempo para tristezas nem lamentações. Tínhamos que seguir em frente. Ana amamentava, e os cuidados com a criança nos tomavam todo o tempo. Eram 60 fraldas de pano para lavar e secar, diariamente. Fralda descartável não existia.
As atitudes de Ana eram instintivas, legítimas e sinceras, como se quisesse injetar-me uma grande dose de coragem e otimismo. Sua desenvoltura e obstinação significaram muito para que eu não me deixasse esmorecer em nenhum instante, e assim nos revezávamos em todas as tarefas com grande disposição.
Quando Claudinha completou um mês de vida, Neuza, acompanhada de sua mãe, apareceu. Seu marido não subia. Demonstrava não acreditar, ainda, nas minhas boas intenções para com sua irmã e fechava os olhos para a nossa difícil situação. Parecia que não fazíamos parte de suas preocupações.
Nossa vida prosseguiu em seu ritmo natural.
Terminada a licença-gestante, Ana ainda se beneficiou da licença-amamentação, o que lhe permitiu dar assistência à nossa filha até ela completar oito meses.
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Depois disso, Ana conseguiu amparo na Escola Celestino da Silva, na Rua do Lavradio, próximo de nossa casa, e, em agosto, voltou a lecionar, no horário da tarde. Ela deixava a mamadeira pronta, e eu ficava com Claudinha até o seu retorno, no fim da tarde.
Claudinha completara dez meses quando, certo dia, ocorreu um episódio marcante e tão temido. Ao chegar para o trabalho Ana viu seu pai na esquina da Rua do Senado, quase em frente à escola. Ela não o via desde que saíra de casa. Ana imaginou um grande escândalo na porta da escola, diante de pais e alunos e, na iminência desse perigo, ignorou-o, entrou apressadamente na escola, e, pedindo ajuda à diretora, D. Yvone, confidenciou-lhe todos os lances dramáticos que pontilharam nossa vida até aquele instante.
De modo compreensivo e carinhoso, ela acatou as preocupações de Ana e se prontificou a falar com seu pai, fazendo-o ver a inconveniência, naquele momento, para encontrar-se com a filha. Aconselhou-o a voltar por ocasião da saída, advertindo-o que não aceitaria discussões naquele local. Durante toda a tarde, da janela da sala de aula, no 2o andar, Ana avistou seu pai, no bar da esquina, aguardando o término do expediente.
D. Yvone, vendo a persistência daquele homem sisudo, convidou-o a entrar em seu gabinete, tomando antes algumas precauções: pediu ao guarda que permanecesse na porta e proibiu a entrada de outras pessoas para não atrapalhar o diálogo entre pai e filha.
Ana ficou a sós com seu pai e este, implacável, atacou, dizendo que ela estava com aspecto de doente e que parecia estar passando fome. Exigia que voltasse para casa com ele, deixando a criança comigo.
Surpresa e indignada com a proposta que considerou indecorosa, Ana chamou-o de louco por sugerir que ela abandonasse a filha. Ele, então, mostrou-se compreensivo, aceitando que ela levasse a menina. Certa de que aquele homem não sabia o que falava, Ana, entre confusa e perplexa, finalizou, dizendo:
— Não vou voltar, não estou passando fome e sou muito feliz ao lado do homem que amo!
Seu pai enrubesceu e, percebendo que havia falhado no seu intento, retirou-se sem palavras, furioso, retornando para o balcão do bar na esquina.
Ela conhecia bem o pai. Sabia que ele era um tipo possessivo, obstinado, que não admitia derrotas. Quando estava sob o efeito da bebida, tornava-se irresponsável e violento. Em seu estado normal, podia-se até esperar dele algum lampejo de humanidade e compreensão, porém não foi essa a impressão que ele lhe causara, naqueles poucos minutos, mas, sim, uma evidente contrariedade revelada por seus olhos vermelhos e esbugalhados.
O guarda também o observava à distância e entrou na escola, duas vezes, para prevenir Ana de que ele estava bebendo muito, e ela deveria ter cuidado ao sair. Diante da situação, uma colega se ofereceu para levá-la de carro até a nossa casa. A diretora, preocupada, pediu ao guarda que as acompanhasse.
Assim que saíram, seu pai chamou um táxi e os seguiu, acompanhado por um desconhecido, sugerindo que estava mal-intencionado. Propositadamente, a motorista amiga de Ana avançou um sinal no Campo de Santana, deixando para trás o táxi que o conduzia.
Em casa, ela me contou a confusão. Tinha a fisionomia transtornada e a alma em conflito. Temia que aquele episódio fosse o prenúncio de novas lutas. Agora, tudo voltava a ser preocupação e receio de novas perseguições, que pareciam ter se diluído na distância de quase dois anos. Pela primeira vez vi Ana temerosa. Qualquer toque de campainha era suficiente para muitos cuidados. Não abríamos a porta sem antes subir em uma cadeira e verificar, através de um basculante que dava para o corredor, quem batia. Andar na rua passou a merecer excessiva cautela, apavorando-nos com a nossa própria sombra.
Nossa situação não era das melhores, mas o nosso apartamento já apresentava algum conforto. Uma cortina nova substituía o lençol branco da janela; móveis de sala de jantar, de boa qualidade, comprados em uma antiga loja de móveis usados, na Praça Onze, completavam o espaço vazio.
Agora, já podíamos receber alguns amigos, mas eles nunca chegavam.
Apesar dessa ilha deserta, Ana permanecia confiante, e, quando eu esmorecia, ela dizia:
— Não há razão para tristezas nem para temores. Lembre-se que as coisas já foram piores.
Ela tinha razão. Em menos de dois anos conseguíamos enxergar, à nossa volta, as melhorias conseguidas com trabalho e persistência.
Claudinha começou a andar com onze meses. Para o seu primeiro aniversário, Ana encomendou um bolo branco decorado com um palhacinho no centro, fez um prato de brigadeiros e arrumou a mesa. Pensávamos que alguém apareceria, mas, nada!
Comemoramos os três apenas, mas com a alegria de quem estava com a casa cheia. Fiz muitas fotografias e Claudinha posou graciosa, deliciando-se com os docinhos e com o bolo. De presente, demos-lhe a primeira boneca: pequena, de vestido xadrez e cabelos ruivos presos por duas trancinhas.
Nossos domingos eram alegres e passeávamos por vários parques e jardins.
Os preferidos eram o Parque do Flamengo, devido aos brinquedos, e o Campo de Santana, onde Claudinha podia correr atrás das cotias e apreciar os marrecos no lago.
Os preferidos eram o Parque do Flamengo, devido aos brinquedos, e o Campo de Santana, onde Claudinha podia correr atrás das cotias e apreciar os marrecos no lago.
No verão, íamos às Praias de Copacabana ou do Flamengo. Desde cedo, Claudinha se acostumou com o mar e não o temia. Era uma criança sadia e nos trouxe muitas alegrias, o que foi determinante para vencermos as dificuldades iniciais da escolha que fizemos.







Muito emocionante em ver as lutas que tiveram de enfrentar para viver um lindo amor!
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