JANEIRO DE 1968. Ana soube que estava grávida novamente. Ficamos preocupados, a princípio, mas logo nos alegramos com a esperança de ganharmos um menino.
Depois das férias escolares, Ana voltou a trabalhar na Escola Celestino da Silva.
Um dia, ela chegou em casa entusiasmada com uma ideia:
— Vou revender roupas. Conversei com uma colega que tem um bom lucro com essa atividade.
Meio descrente, eu disse:
— Não temos capital para empatar em algo que pode não dar certo.
Percebi que Ana desanimou por alguns segundos, mas logo reagiu:
— Precisamos encontrar uma saída para as nossas dificuldades financeiras que tendem a aumentar. Quero arriscar.
A conversa com sua colega lhe deixou uma certeza, e Ana resolveu conferir. Visitou a pequena fábrica de roupas Capri Confecções, num sobrado na Av. Passos, e comprou algumas peças, todas no seu próprio manequim, prevendo que, se não desse certo a revenda, ela ficaria com as peças para seu uso.
No mesmo dia conseguiu vendê-las na escola, para pagamento em duas vezes, o que lhe possibilitou voltar à fábrica e fazer novas compras.
A partir desse dia, Ana visitava a fábrica diariamente e, dada a frequência com que aparecia, a Capri passou a lhe vender em consignação. Com isso, ela expandiu as vendas e depois de um mês os lucros começaram a aparecer.
Mais alguns meses e nossa vida já se parecia com a de qualquer casal bem estruturado. Agora, pensávamos em ter uma geladeira e uma TV, ainda que de segunda mão. A geladeira era prioridade, pois os alimentos se estragavam com facilidade e éramos, por isso, obrigados a fazer compras diariamente.
Ana conseguiu um empréstimo no Instituto de Previdência, e compramos à vista uma geladeira nova, vermelha — cor da moda —, e ainda sobrou o suficiente para comprarmos uma mesa de copa com quatro cadeiras. Nossa saleta ganhou ares de casa organizada. Já podíamos ver cada coisa em seu lugar.
Ana tinha razão quando disse que nossa vida ia melhorar e que não devíamos temer o futuro. Quando falávamos sobre conforto, ela dizia:
— O próximo passo será um aparelho de TV para que nossas noites sejam mais agradáveis.
Desde que saímos da Ilha, somente vimos televisão na casa do meu amigo Reginaldo, naquelas primeiras semanas de hotel. Vivíamos isolados das notícias. Apenas as acompanhávamos pelo jornal “Diário de Notícias”, comprado de vez em quando. Nem mesmo um rádio possuíamos.
Assim, num início de mês, quando recebemos nossos ordenados, atraídos por um classificado de jornal, combinamos comprar uma TV usada, ainda que fosse modelo antigo. Bastava que estivesse funcionando, tal o desejo que tínhamos de ver um programa musical, um noticiário ou acompanhar uma novela.
Depois de algumas pesquisas, compramos um aparelho Telefunken usado, bastante antigo, que funcionou apenas duas semanas, sendo logo enviado para conserto, para nossa decepção. Percebemos que não havíamos feito um bom negócio, mas o que adiantava discutir? Nossas condições não permitiam ter uma TV nova, por que lamentar? Muita gente, certamente, já havia passado por isso.
No País a vida política estava bastante tumultuada, mas não tínhamos tempo nem interesse no que se passasse fora daquelas nossas 4 paredes.
No País a vida política estava bastante tumultuada, mas não tínhamos tempo nem interesse no que se passasse fora daquelas nossas 4 paredes.
Ana estava nos últimos meses de gravidez e começou a sentir-se cansada por ter que fazer longas caminhadas carregando sacolas de roupa.
Um dia voltou para casa com uma outra novidade: montagem e venda de bijuterias, que lhe parecia um ótimo negócio. Ela se considerava com habilidade manual suficiente para criar brincos, broches, cintos e outras peças, e acreditava que essa atividade proporcionaria bons lucros. Então, sugeriu:
— É um trabalho que podemos executar juntos. Amanhã, comprarei material para fazer alguns brincos.
— Ana, eu não entendo nada disso, mas, se você acha que posso ajudar, vamos em frente — concordei sabendo que ela não tiraria da cabeça as suas novas ideias.
Na manhã seguinte ela saiu cedo e, quando retornou, trouxe um pequeno embrulho contendo uma porção de bugigangas. Olhei para tudo aquilo espalhado pela mesa e, meio descrente, pensei: “Ana, desta vez, vai levar na cabeça!”
À meia noite, ao voltar do trabalho, vi expostos sobre o aparelho de TV vários pares de brincos e me surpreendi com o resultado de sua criatividade, aproveitando aquelas simples pecinhas que havia comprado. Gostei muito!
As primeiras bijuterias estavam prontas para serem mostradas na escola.
Fiquei orgulhoso e acreditei no sucesso. Seria um trabalho menos cansativo, feito em casa, a quatro mãos. Além disso, não era tão volumoso nem pesado para ser transportado, como as peças de roupa.
Ana sorriu empolgada e confiante.
Na manhã seguinte, ela aguardou ansiosa o horário de ir para a escola e, na volta, misteriosamente, indagou:
— Sabe quantos vendi?
— Quantos? — perguntei.
— Todos!!!
Sua voz expressava grande contentamento. Comemoramos.
Nós já nos revezávamos nas tarefas domésticas e nos cuidados com Claudinha, por que não nessa nova empreitada?
Não nos atraía a ideia de colocar uma empregada nem nos sentíamos em condições para isso. Pela manhã, juntos, arrumávamos a casa; Ana dava banho em nossa filha; e eu saía para fazer alguma compra enquanto ela preparava o almoço. À tarde, quando ela ia para o trabalho, eu lavava a louça do almoço e brincava com Claudinha. No início, Ana deixava pronto o mingau do lanche, mas depois eu mesmo aprendi a fazer. No final da tarde, quando ela chegava, eu saía para o Correio, ela terminava as tarefas da casa e antecipava alguma coisa para o dia seguinte. Ana aguardava a minha volta do trabalho, à meia-noite, vendo televisão e fazendo suas bijuterias.
Em frente ao prédio em que residíamos havia um outro também de apartamentos conjugados. Mesmo que evitássemos, chegar à janela significava entrar na vida de muitos daqueles moradores.
Lá, no sexto andar, morava um rapaz que nos parecia nordestino. Nós o observávamos discretamente. Um dia, passou a residir com ele uma moça, também de aparência nordestina. Durante o dia ela fazia as atividades domésticas e à noite ficava debruçada na janela, solitária, esperando o rapaz que, às vezes, chegava muito tarde.
![]() |
| Adicionar legenda |
Ana começou a cumprimentá-la. Ambas ficavam na janela durante alguns minutos, à noite. Claudinha já lhe fazia acenos sorridentes quando estava em nosso colo. E assim foi se criando uma simpatia à distância. Logo, Ana percebeu que ela também estava grávida. Um dia se encontraram no açougue da esquina, trocaram algumas palavras e fizeram amizade. Uma passou a frequentar a casa da outra e se tornaram amigas íntimas. Geralda tinha vindo de João Pessoa.
Com essa amizade entre elas, acabei conhecendo seu marido, José Ramalho, um paraibano tradicional, com conceitos arraigados, amante da família que, como eu, tinha vindo para o Rio de Janeiro, há alguns anos, tentar a sorte na cidade grande. Era gerente de uma das lojas Imperatriz das Sedas.
Com o passar do tempo, ficamos conhecendo a história do casal: um dia, visitando a terra natal, ele conheceu Geralda e por ela se apaixonou. Conversaram durante alguns dias e, após retornar ao Rio, trocaram cartas e ficaram noivos por correspondência. Foi marcado o casamento, e ele voltou à sua terra apenas para a cerimônia. E ela veio morar no Rio, em sua companhia.
Geralda era calma, tranquila, ingênua. Mostrava-se triste e, depois, confessou que sofria com saudades da família, mas evitava que seu marido percebesse. A forma repentina com que se casara trouxe-lhe dificuldades de adaptação. Tudo era novo. A cidade, o tipo de residência, o marido, enfim a vida que passou a levar. E ela encontrou em Ana a pessoa em quem podia confiar. Por outro lado, Ana também era uma pessoa isolada de amigos e parentes e encontrou na jovem triste a sua confidente ideal.
Um dia o casal nos convidou para uma reunião em sua casa. Eu ainda não me sentia à vontade com a nova amizade que Ana fizera, mas não quis decepcioná-la e fomos. O apartamento deles era pequeno, menor que o nosso, e os poucos convidados que já haviam chegado dividiam os espaços. Depois de recebidos pelo casal, ficamos, meio deslocados, sentados junto à porta de entrada. Pensávamos em fazer uma visita rápida, visto que Claudinha tinha horário para dormir. De repente, vimos algumas crianças entrando no apartamento. Eram todas muito parecidas. Ana, curiosa e achando graça naquela algazarra infantil, começou a contar: um, dois, três... sete meninos seguidos por uma senhora baixinha, sorridente, sem contudo deixar de mostrar a sua preocupação com a agitação da meninada. Enquanto apreciávamos a alegria que se instalou no ambiente, deixei de olhar para a porta e, súbito, ouvi, por cima de meus ombros, uma voz masculina dizer, bem alto: “Ih! Esse bosta está aqui?” Tomando para mim aquele “elogio”, assustado, levantei a cabeça, para ver a face daquele homem que agora ria de maneira espalhafatosa. Só então reconheci Durval Trigueiro. Como um raio, meu pensamento voou para João Pessoa e o vi, jovem ainda, fazendo parte do grupo de amigos que tanto marcou os meus dias naquela cidade. Grande figura! Conheci-o ainda estudante. Tinha boa lábia e utilizava-se disso para jogar conversa fora e fazer gozações com os companheiros. Costumávamos chamá-lo de Garganta, devido ao seu jeito alegre de contar vantagens. Vivia com um sorriso estampado na face, sempre de bem com a vida. O bom humor e a risada fácil eram as suas características principais. Era um tipo que, até pelo seu porte físico, se fazia notar: alto, magro, com o pomo-de-Adão destacando-se em seu pescoço. Um terno cinza-claro completava a imagem de um homem elegante, sempre barbeado e com o cabelo bem penteado.
As gargalhadas de todos encheram o apartamento, e eu saí dos meus devaneios. Ana me observava, boquiaberta. Ramalho veio em nossa direção e perguntou: “Vocês se conhecem? De onde?” E eu, jocosamente, respondi: “Já nem me lembro mais...” Novas risadas e eu fui engolido pelo abraço forte e espalhafatoso do meu antigo companheiro. Ele me apresentou a sua esposa, Doninha, irmã de Geralda. Depois, refeitos, passamos a falar de nossas vidas, relembrando a velha amizade. “Quão pequeno é este mundo!”, pensei. A partir daquele encontro, a nossa relação de amizade com aquela família ganhou força e permanece até os dias de hoje. Tempos depois, Doninha daria à luz à única filha do casal, Elisa.
EM AGOSTO, INOCÊNCIA me comunicou o falecimento de meu pai, em Guabiraba, Pernambuco. Fui tomado por uma tristeza profunda. Desde 1958 que não nos correspondíamos. Pensei no isolamento que nos impusemos e lamentei muito a grande distância que nos separou. Dele, eu só tinha uma pequena foto, acompanhado de Eulália.
Tinha também uma outra foto, datada de 1953, na qual Eulália aparece ladeada pelos meus dois irmãos, Hamilton e Ailton, ainda crianças. Mandamos rezar uma missa em sua intenção na Igreja de São Crispim e São Crispiniano, perto de nossa casa.
Tinha também uma outra foto, datada de 1953, na qual Eulália aparece ladeada pelos meus dois irmãos, Hamilton e Ailton, ainda crianças. Mandamos rezar uma missa em sua intenção na Igreja de São Crispim e São Crispiniano, perto de nossa casa.
Nosso segundo filho chegaria com o mês de setembro. Não pude deixar de refletir sobre o grande mistério da morte e da vida, meu pai partindo e meu filho chegando, dois acontecimentos simultâneos, carregados de emoções tão opostas.
Ana tivera uma gravidez tranquila, como a anterior. Desejávamos agora que o parto fosse mais fácil, mais natural.
No dia 3 de setembro, como já havia passado do dia previsto para o nascimento sem que Ana sentisse absolutamente nada, fomos ao Iaseg para uma consulta. O exame, desta vez, foi no pavimento de internação e ela subiu sozinha. Fiquei muito tempo esperando, sem notícias. Por fim, encontrei Agostinho, que confirmou que ela ficara internada. Ele mesmo a levou de maca para a sala de pré-parto. Soube depois que Ana, quando chegou, já estava em trabalho de parto, como da primeira vez.
Desta vez, Ana foi preparada. Levou a sua pequena maleta.
À noite, estive na repartição com Claudinha. Meus colegas ficaram encantados com sua graciosidade e a trataram como alguém muito importante. Distribuiu beijos e despediu-se de todos com desembaraço e personalidade. Cedo, voltei para casa, duplamente preocupado: era a primeira vez que ela se separava da mãe e eu teria que atendê-la em todas as suas exigências.
Às 19h30min, Agostinho, o ascensorista da maternidade, ligou para a casa da tia Amélia chamando-me ao telefone e transmitiu a grande notícia:
— Seu filho acabou de nascer.
Fiquei exultante. Meu sonho estava realizado, eu agora tinha um casal de filhos.
Na casa da tia Amélia, Claudinha viu a Neca sobre a cama e quis porque quis pegá-la. Eu, meio sem jeito, tentei dissuadi-la, mas tia Amélia, vendo a minha dificuldade, emprestou a boneca para Claudinha, que mal conseguia segurá-la, de tão grande.
Em casa, conversamos demoradamente, e eu lhe expliquei que aquela boneca não era sua e que devia devolver. Eu temia que a boneca quebrasse em nossas mãos. Claudinha olhou-me indecisa e, com a Neca nos braços, encaminhou-se para a porta, dizendo:
— “Aba”!
Eu abri a porta e ela foi direto para o apartamento de tia Amélia, bateu e entregou-lhe a boneca, sem nenhuma relutância. Ao mesmo tempo, olhava para mim e repetia o seu gesto habitual de quem dá pouca importância às coisas, com a mãozinha direita espalmada balançando no ar, sobre a cabeça. Tia Amélia e uma outra vizinha que presenciavam a cena ficaram abismadas com o desprendimento com que ela devolveu a boneca. Voltamos para o nosso apartamento e não se falou mais na Neca.
Enquanto ela dormia, veio-me à lembrança a história da boneca.
No dia de Nossa Senhora da Glória, no Outeiro, em agosto do ano anterior, fomos os três assistir à missa e participar da festa no pátio da igreja. Em uma barraquinha, anunciava-se a rifa daquela enorme boneca. Claudinha, que estava no colo de Ana, apaixonou-se pela “amiguinha”, de cabelos longos e acinzentados. Ana comprava a rifa de no 17 quando apareceu, ao nosso lado, tia Amélia, que gostou da ideia e comprou o bilhete de no 18. Ela porém, não podia esperar a hora do sorteio e deixou o seu bilhete com Ana. Eu também me retirei, para o Correio. Ana e Claudinha aguardaram o sorteio e, para surpresa de todos, o no sorteado foi o 18. Ana, que estava com o tíquete premiado, recebeu a boneca e precisou voltar para casa de táxi porque a tão desejada boneca era maior que nossa filha.
![]() |
| Retirada da internet |
No dia de Nossa Senhora da Glória, no Outeiro, em agosto do ano anterior, fomos os três assistir à missa e participar da festa no pátio da igreja. Em uma barraquinha, anunciava-se a rifa daquela enorme boneca. Claudinha, que estava no colo de Ana, apaixonou-se pela “amiguinha”, de cabelos longos e acinzentados. Ana comprava a rifa de no 17 quando apareceu, ao nosso lado, tia Amélia, que gostou da ideia e comprou o bilhete de no 18. Ela porém, não podia esperar a hora do sorteio e deixou o seu bilhete com Ana. Eu também me retirei, para o Correio. Ana e Claudinha aguardaram o sorteio e, para surpresa de todos, o no sorteado foi o 18. Ana, que estava com o tíquete premiado, recebeu a boneca e precisou voltar para casa de táxi porque a tão desejada boneca era maior que nossa filha.
No táxi, Claudinha se agarrava àquela “amiguinha” plástica e sem vida, enquanto Ana tentava convencê-la de que a boneca não lhe pertencia. Mas, como qualquer mortal, achava que tia Amélia iria dá-la de presente a nossa filha. Não poderia ser diferente, já que tia Amélia lhe devotava um grande carinho e não tinha netos nem sobrinhos.
Ao chegar a casa, Ana foi imediatamente entregar a boneca, e a tia, ao saber que fora contemplada, deu pulos de alegria, recebendo, tranquilamente, a “amiguinha” das mãos de Claudinha, que, relutante, a entregou chorando. E foi um custo para que ela entendesse a situação. Nós também ficamos frustrados, e a boneca ficou para sempre, sentada, dura, de pernas abertas, adornando a cama da felizarda senhora.
Pensando nisso, adormeci. Na manhã seguinte, escrevi para Ana uma longa carta relatando todos os nossos passos no dia anterior, desde a hora em que a deixamos internada, até a hora de dormir, inclusive a história da Neca.
Às 15 horas, fui com Claudinha ao hospital. Ali, fiquei sabendo que Ana e o bebê estavam passando bem. Mas o hospital mantinha a mesma política de não permitir visitas fora dos dias e horários estipulados. A minha esperança era que isso já tivesse mudado.
Pedi, então, ao cabineiro para entregar a carta e a revista Claudia do mês de setembro.
Na resposta, Ana dizia que escrevia com dificuldades. Contou o sofrimento por que passou durante o parto, compensado ao saber que dera à luz um menino. Recomendou-me calma e orientou-me com relação à alimentação de Claudinha. Se tudo corresse bem, teria alta no dia 7.
Na resposta, Ana dizia que escrevia com dificuldades. Contou o sofrimento por que passou durante o parto, compensado ao saber que dera à luz um menino. Recomendou-me calma e orientou-me com relação à alimentação de Claudinha. Se tudo corresse bem, teria alta no dia 7.
Eu estava revoltado com o radicalismo da maternidade, e Agostinho tentou explicar os motivos que levavam a direção do hospital a disciplinar os horários das visitas, mas, vendo que não atenuava o meu nervosismo, prontificou-se a me conduzir, rápida e disfarçadamente, ao andar da maternidade para ver Ana e a criança. Então, através do vidro do berçário, eu vi Marcos pela primeira vez, levantado pelas mãos de uma enfermeira. Foi grande a emoção! O bebê era realmente lindo, conforme Ana descrevera em sua carta. Fiquei aliviado. O ardente ressentimento que crescia dentro de mim, pela intransigência da administração do hospital, subitamente arrefeceu.
Em seguida, Agostinho me levou até Ana, e pudemos conversar e acariciarmo-nos. Ela, então, contou-me que no momento de sua internação teve um mau pressentimento, que acabou se confirmando. O bebê resolveu nascer exatamente na hora da troca do plantão de médicos e enfermeiras. A má vontade das pessoas que ali estavam, já se embelezando para a saída, causou-lhe preocupação. O médico responsável pelo plantão estava ausente e a enfermeira chefe, vendo a sua aflição, disse que não se preocupasse, pois ela própria poderia fazer o parto, ao que Ana reagiu dizendo que queria um médico, pois seu primeiro parto tinha sido muito difícil. Apavorada, Ana implorava que chamassem qualquer médico, e já estava na mesa de parto quando apareceu uma médica sem as vestes profissionais, que retornava do refeitório, ainda com um palito de dentes no canto da boca. Calmamente tomou conhecimento da urgência e só então se vestiu adequadamente para realizar o parto. Todo o tempo ela resmungava e reclamava da ausência do médico responsável. Finalmente, a criança nasceu sem dificuldades e, quando ela se preparava para fazer as suturas externas, o médico de plantão chegou, havendo nesse instante uma troca de palavras malsoantes com mútuas repreensões. Ana aguardando... Quando o médico, enfim, assumiu sua tarefa, a anestesia já tinha perdido o efeito e ela sentiu as terríveis dores dos pontos, mas preferiu não reclamar para acabar logo com aquilo.
Quando eu soube o que acontecera, voltei à revolta esquecida. Como podia alguém passar por tantos momentos de aflição sem direito a ter algum familiar por perto?!
Mesmo assim, Ana apresentava boa fisionomia. Sentia ainda muitas dores, mas falava com naturalidade e com uma ternura que impressionava. Beijei-a com carinho e nos despedimos.
Depois voltamos, eu e Claudinha, para o nosso apartamento. Um céu cinzento prometia chuva. A sala parecia cheia de sombras. Entretanto, invadia-me uma sensação de alívio, de tranqüilidade, e eu me sentia iluminado pela impressionante imagem de Ana que ainda permanecia em mim. Ao meu lado, deitada no sofá, segurando um cachorrinho de borracha, com o olhar perdido no teto, estava Claudinha, mordendo distraidamente o brinquedo. Foi um fim de tarde extremamente calmo.
Durante alguns momentos ficamos assim. Depois eu lhe preparei um lanche, que ela aceitou com facilidade. Naturalmente, minhas habilidades maternais estavam se revelando muito bem e isso me animava. Pelo menos, sentia que me desincumbia tal como havia prometido a Ana. Estava apto para o “emprego”.
Chegou a noite, e Claudinha adormeceu. Lá fora, na rua, a agitação era a mesma de sempre: o ronco dos motores, a insistência das buzinas, a estridência do apito do guarda, mas dentro de mim a calma e o silêncio faziam germinar um profundo senso maternal.
Ainda sem conseguir dormir, naquele apartamento vazio da presença de Ana, rememorei várias passagens de nossa vida, detalhadamente: as humilhações que eu e ela sofremos e as dificuldades para chegarmos até aquele instante. Mas consolava-me saber que tudo era passado, muito havia mudado. Tínhamos dois filhos e era preciso varrer da mente tudo que fosse ressentimento e mágoa. Por que cultivar ódios?
Adormeci. Caí em sono profundo.
Dia 6 de setembro foi dia de visita normal. Embora a cunhada de Ana estivesse avisada, não apareceu. Pela segunda vez, Ana foi para a maternidade sem que ninguém da família se preocupasse com ela.
Nenhuma visita!
No dia seguinte, Ana teve alta. A cidade inteira se movimentava para o grande desfile militar de 7 de setembro que acontecia perto de nossa casa.
![]() |
| Adicionar legenda |
Antes de ir ao Iaseg, levei Claudinha para assistir à Parada na Avenida Presidente Vargas. Às 11 horas, fomos para o hospital receber Ana e Marcos, que, já liberados, nos aguardavam. Lembro-me ainda do olhar surpreso e feliz de Claudinha quando viu o bebê enrolado na manta branca de fustão. Pulava de felicidade e euforia. Durante alguns minutos Ana precisou ficar sentada, na sala de espera do hospital, aguardando que ela acariciasse as mãos do irmão.
De novo seguimos a pé, vagarosamente, até o nosso apartamento. Desta vez, eu carregava a bolsa e segurava Claudinha pela mão, e Ana nos acompanhava, levando Marcos em seus braços.
O desfile militar tinha terminado. A movimentação de pessoas nas ruas era intensa e tivemos que ficar algum tempo parados no sinal, na Avenida Mem de Sá, vendo passar a nossa frente os soldados montados em seus cavalos, retornando para o quartel da PM. Enquanto esperávamos, Ana dizia, orgulhosa:
— Este menino, um dia, será alguém muito especial. Depois de tão admirado na maternidade, agora vemos todo esse aparato homenageando a sua presença. Vê a cavalaria! Vê quantos soldados!
Exultávamos!
Agora, éramos quatro.
Tia Amélia veio logo visitar o recém chegado.
— Que garotão, lindo mesmo, é a cara do pai!
Geralda também veio visitar Marcos. Seu bebê estava previsto para nascer no final de dezembro, e ela ficou emocionada ao ver o nosso.
Meus amigos do Correio nos deram de presente um carrinho de bebê e assim ficou mais fácil sair com os dois.
Na política os ânimos continuavam bastante acirrados:
Meus amigos do Correio nos deram de presente um carrinho de bebê e assim ficou mais fácil sair com os dois.
Na política os ânimos continuavam bastante acirrados:
Em dezembro, como estava previsto, na véspera de Natal, Geralda deu à luz uma linda menina: loura, de olhos claros. Fomos visitá-la quando chegou da maternidade. O casal vivia momentos de extrema felicidade, com a chegada de Andréa, sua primeira filha.
No início do ano terminou a licença de Ana e ela voltou a lecionar na Escola Celestino da Silva, onde já era conhecida.
Continuávamos evoluindo na fabricação de bijuterias. Pela manhã, Ana visitava outras escolas, vendendo e aceitando encomendas, ou ia comprar material; à tarde, dava aulas. Enquanto sua freguesia aumentava, os deveres domésticos se acumulavam. Como fazer? Então, eu passei a me dedicar às tarefas que eram exclusivas de Ana: finalizava as refeições que ela deixava adiantadas e zelava pela limpeza da casa. Nossos salários não davam para pagar uma empregada, e, além disso, o apartamento era muito pequeno, sem privacidade. Tudo tinha que ser feito por nós mesmos. Precisávamos ajudar um ao outro. Aos domingos, além de preparar as suas aulas, ela dedicava-se à faxina e às roupas acumuladas. Nem sentíamos o tempo passar, com tantas atividades. Mesmo assim, não nos poupávamos a uma pequena caminhada na calçada, diariamente, com as crianças, para um banho de sol, e nos finais de semana um passeio pelo Campo de Santana.
Nossa vida, pouco a pouco, melhorava. O amor que nos unia não diminuía nem quando nos sentíamos cansados. Éramos muito felizes. Um completava o outro e até nos sentíamos invencíveis, tal a confiança que tínhamos em nós mesmos.
POR ESSA OCASIÃO, RECEBI um convite para chefiar um setor, à noite. Estimulado pela gratificação, aceitei. Alguns meses depois, houve determinação da Administração Central dos Correios para que as chefias fizessem um curso rápido sobre Reforma Administrativa, que se iniciaria nos últimos dias de fevereiro, durante o dia.
Diziam que aquele curso poderia abrir caminho para uma melhoria funcional. Decidi inscrever-me. Com isso, além de estar atendendo à exigência da empresa, preparava-me para uma função de maior responsabilidade que poderia surgir de um momento para o outro. O único problema era: “Quem ficará com as crianças no período em que Ana estiver na escola?”
Diante disso, Ana foi visitar sua cunhada Neuza, que não via há muito tempo, a quem relatou as dificuldades que estávamos enfrentando. Ela, assumindo uma atitude compreensiva, mostrou-se interessada em nos ajudar e decidiu que sua mãe, D. Aída, ficaria em nossa casa, com as crianças, durante aqueles dias. Ana voltou para casa mais tranquila. E eu poderia fazer o curso.
Era natural que eu ainda não tivesse apagado da mente o perverso esquecimento a que Ana fora relegada pela família e por sua própria cunhada. Porém, aquela atitude aliviou a minha mágoa. Ana foi lá em busca de apoio e conseguiu.
Cedo, no dia do início do curso, D. Aída chegou. Seu bom-dia, naquela manhã, soou como um toque de alvorada. Senti nos gestos daquela bondosa senhora, de cabelos grisalhos, de voz suave e olhar triste, protegida por um casaco azul, a possibilidade de eu sair, finalmente, em busca da minha melhoria profissional. Às 13 horas, quando eu retornava, ela se despedia. Ana trabalhava pela manhã e à tarde ficávamos juntos.
A minha euforia com relação ao curso logo diminuiu e veio a decepção. A frieza e a superficialidade didática me fizeram entender que aquilo não me acrescentaria muito e não passava de uma simples arregimentação: todo mundo reunido numa sala grande, sob a orientação de um coordenador, que outra coisa não fazia senão exibir cartazes mal confeccionados, ilustrando princípios de Organização e Método com frases copiadas sem nenhum sentido prático. Mas, mesmo assim, concluí o curso e recebi o certificado.
NO FINAL DE 1969, O DEPARTAMENTO de Correios e Telégrafos (DCT) foi transformado em Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), e uma nova filosofia empresarial começou a ser planejada. Vários grupos de trabalho foram criados para estudar a organização e a funcionalidade da empresa dentro de padrões modernos.
No início de 1970, as mudanças propostas se iniciaram pela minha seção. Lembro-me dos inconvenientes que tivemos que enfrentar com a convivência de funcionários de uma firma francesa contratada para propiciar a implantação da nova estrutura.
O serviço noturno na 5a Seção era formado por duas turmas, uma das quais eu chefiava. Essas turmas funcionavam em noites alternadas. E agora, com a nova estrutura, cabia à chefia executar a extinção do sistema de dois turnos, passando os funcionários a trabalhar todas as noites. Contornar os protestos do pessoal não foi tarefa fácil para a chefia da seção, bem como para nós, chefes de turmas. A insatisfação dos funcionários foi geral, mas acabaram vendo que não havia outra saída e se conformaram.
Na minha turma havia um médico, um dentista, um crítico de arte do Municipal, dois advogados, um gerente da Coca-Cola, um supervisor da Telerj e até uma maestrina. Todos manipulavam, expediam e ensacavam correspondências, sem qualquer distinção.
Além das mudanças administrativas em marcha, anunciava-se alteração na estrutura de pessoal: a empresa passaria a contratar pela CLT e os funcionários estatutários teriam que optar pelo novo regime, o que causou insegurança, principalmente para os mais antigos.
Eu passei a trabalhar todas as noites, chefiando a turma dentro da nova organização, oportunidade que eu nunca ousara sonhar.
Para ler outros episódios deste capítulo, clique em "Postagens mais antigas”, aí embaixo.









Muito emocionante os relatos da vida desse casal, as lutas,as dificuldades e os tristes acontecimentos não deixaram morrer o amor entre os dois. Com a maternidade, nasceu a força e a coragem de enfrentar a vida com mais esperança. Chorei em alguma vezes pois me remeti ao meu passado lembrando também das minhas dificuldades em João Pessoa, sem ninguém para me ajudar. Lembrei-me de uma senhora que me ajudou dando-me todas as noites uma sopinha de feijão para eu sobreviver. Eassim passaram os tempos e eu consegui vencer as batalhas!
ResponderExcluir