EM MAIO, ANA SOUBE QUE estava grávida outra vez. Ficamos muito preocupados. O nosso dia-a-dia, que já era difícil em um apartamento tão pequeno, nos parecia impossível com a chegada de mais uma criança. Mas, como sempre, Ana disse que tudo se resolveria no momento certo. E, assim, relaxamos. E outra vez Ana se empenhou no novo enxoval.
Quando se aproximava o fim do ano, Neuza veio nos convidar para passarmos a noite de Natal em sua casa. Manoel, irmão de Ana, até então, parecia não querer intimidades. Era um tipo vaidoso, com ares de superioridade. Eu sentia que, em nenhum momento, seria visto com bons olhos por ele; mostrava-se preconceituoso com relação a mim. Se não demonstrava agressiva antipatia por mim, também não se mostrava interessado na minha aproximação. Quando a esposa e o filho apareciam lá em casa, para nos ver, ele sempre ficava na rua, aguardando dentro do carro. Aquela atitude arredia parecia-me desprezo. Ele devia alimentar alguma revolta com a nossa união. Era a conclusão a que eu chegava e que, de certo modo, desagradava a Ana.
![]() |
| Ana, com 6 meses de gravidez, fazendo o enxoval na casa da Neuza |
Um dia ela argumentou:
— Ele jamais se intrometeu na nossa vida, devemos entender que é difícil para ele, por formação, aceitar a maneira como nos unimos, apesar de sua vida também ter sido marcada por desajustes de meu pai. Talvez suas estranhas atitudes sejam consequência dos momentos que viveu.
Aceitar o convite para o Natal seria um teste a que iríamos nos submeter e, conforme o tratamento que nos fosse dispensado, poderíamos voltar ali outras vezes ou nunca mais.
Fomos bem recebidos. Além disso, aquele Natal era o primeiro que passávamos fora do nosso lar, os outros havíamos passado sozinhos, isolados, sem visitas, nem qualquer glamour natalino. Este era, portanto, diferente.
Claudinha e Marcos mostravam-se entusiasmados com o que viam e ouviam pela primeira vez: outras crianças, árvore enfeitada, músicas natalinas, mesa com muitas iguarias, um ambiente alegre, enfim, um mundo de coisas diferentes. Bebemos e nos confraternizamos de forma tão íntima naquela noite que toda a impressão desagradável se dissipou. E aquele reencontro nos pareceu um marco nas nossas relações.
Claudinha ganhou uma linda boneca e Marcos um carrinho em formato de melancia que, orgulhosos, levaram para casa.
Depois desse dia, Ana passou a visitar a casa de seu irmão com mais frequência.
Eles tinham um fusca na cor vinho, e Ana alimentava o desejo de um dia possuir um carro igual ao deles, pois facilitaria muito os nossos passeios com as três crianças. Era um sonho impossível, naquela época. Mas sonhar não custava nada e nisso nós éramos experts.
FEVEREIRO DE 1971. NA MANHÃ do dia 11, quando acordou, Ana sentiu que deveria ir para a maternidade. Como das outras vezes, fomos a pé. Desta feita, éramos quatro caminhando juntos. Durante o percurso, Ana já sentia as contrações. Assim que chegamos ao hospital ela foi imediatamente internada.
Eu não me conformava em ter que deixá-la sozinha novamente.
À tarde, quando voltei, soube, na portaria da maternidade, que ela acabara de dar à luz um menino, e que ambos passavam bem. Saí dali, levando Claudinha e Marcos pela mão, e fui a pé até o trabalho do irmão de Ana, que ficava numa rua esquisita, por trás da Central do Brasil. Ele me recebeu friamente e, quando dei a
notícia do nascimento de Alan, fez algumas perguntas de praxe e um único oferecimento:
notícia do nascimento de Alan, fez algumas perguntas de praxe e um único oferecimento:
— Se você quiser, deixe as crianças lá em casa com a Neuza...
Agradeci, justificando que até aquele momento não havia motivos para incomodar ninguém; os dois estavam se comportando bem. Ele não insistiu e nos despedimos.
Saí meio decepcionado com a falta de empolgação que percebi em Manoel. Caminhávamos vagarosamente pela calçada apertada e esburacada, quando notei que ele vinha atrás de nós, na mesma calçada, conversando com um amigo. Com passos largos nos ultrapassou sem nos olhar, sem nos dirigir a palavra e nem sequer fez um afago nas crianças. Aquela atitude desinteressada produziu uma implosão na imagem que eu já havia construído sobre ele e vi desmoronar a montanha de boas intenções demonstradas na noite de Natal.
Na tarde do dia 12, fui ver Ana. O hospital havia mudado suas normas e, agora, as visitas eram diárias.
Esperava que, nesse dia, Neuza aparecesse para visitá-la, mas ela não foi. Outra decepção!
E, assim, perdi a esperança de ver Ana. Não tinha com quem deixar as crianças.
Aflito e pensando que ela estranharia a minha ausência, redigi, ali mesmo, na portaria, um bilhete cheio de saudade e preocupação, e o enviei acompanhado da Revista Claudia.
Aflito e pensando que ela estranharia a minha ausência, redigi, ali mesmo, na portaria, um bilhete cheio de saudade e preocupação, e o enviei acompanhado da Revista Claudia.
Agostinho mais uma vez serviu de pombo-correio. Ao retornar, disse que Ana e o bebê estavam bem e que ela queria que eu me preocupasse apenas com Marcos e Claudinha. Mas eu, inconformado, olhava ao redor, na esperança de encontrar algum conhecido, no vai-e-vem de visitantes. Diante de minha evidente inquietação, o porteiro-amigo ofereceu-se para olhar as crianças enquanto eu fosse ver Ana e conhecer o meu filho.
Subi e, ao entrar na enfermaria, com facilidade localizei o seu leito. Ele estava num canto do salão, próximo à janela. Era a única parturiente sem visitantes. Encontrei Ana pálida, presa a uma transfusão de sangue, com a aparência de pessoa profundamente enferma. Como me impressionei! Só então fiquei sabendo das dificuldades e do perigo por que ela passou.
— Após o nascimento do nosso neném, senti-me muito enfraquecida e sonolenta — disse ela — e a enfermeira, ao transferir-me da maca para a cama, na sala de pós-parto, constatou uma forte hemorragia e, rapidamente, reconduziu-me à mesa cirúrgica.
— Mas, Ana, como pode acontecer uma coisa dessas sem que o marido seja avisado? E depois?
— Outro médico constatou a grande ruptura que havia no meu útero, providenciando a tempo a reparação da falha médica — falava Ana, com as lágrimas rolando por sua face descorada —, foram muitos pontos internos. Disse o médico que o meu organismo não resistiria por muito tempo a tão grande hemorragia.
Ana não parava de chorar. Abracei-a comovido. O destino nos pregara um enorme susto. Visivelmente debilitada, ela ficou sob rigorosos cuidados médicos, recebendo alimentação especial e transfusão de sangue. Seu estado impossibilitava alta após o quarto dia, como era costume em partos normais.
Quando ela acabava de me contar o ocorrido, e eu ainda sob o impacto da notícia, a enfermeira trouxe o nosso neném. Pela primeira vez Ana o tinha nos braços e o amamentava, em razão do seu estado de saúde. Era um bebê lindo, porém diferente dos outros dois: moreno, cabeludo, olhos grandes. Comentei orgulhoso:
— Agora são três!
Peguei-o no colo para que Ana se ajeitasse e o acariciei. Senti uma enorme vontade de descer para mostrá-lo aos irmãos, já que as apresentações iam demorar alguns dias.
Maravilhoso, o milagre da maternidade! Tão logo Ana teve o filho em seus braços e ele começou a sugar seu seio intumescido, a palidez fugiu de sua face, o brilho voltou para o seu olhar e a fraqueza começou a se despedir.
Voltei para casa obrigado, e à noite quase não dormi. Foi uma noite de pesadelos entremeados com momentos de insônia. Só pensava em como dar aos meninos a assistência necessária quando saíssem do hospital.
Depois desse dia, para visitá-la, eu deixava as crianças com tia Amélia ou na casa de Geralda, ou, outras vezes, com o porteiro da enfermaria. O bom comportamento delas contrastava com a aflição que havia em mim.
Passaram-se oito dias sem que Ana pudesse voltar para casa devido ao seu delicado estado de saúde. Não obstante a saudade, ela percebia que não suportaria sequer caminhar. Só lhe restou aguardar os efeitos positivos do tratamento a que estava submetida.
À medida que o tempo passava, aumentava a minha responsabilidade com as crianças: alimentação, lavagem da roupa e outros cuidados para os quais eu não me sentia preparado. Enquanto isso, Ana implorava ao médico que lhe desse alta. Precisava dar atenção aos meninos. O médico, por fim, concordou em liberá-la, fazendo, porém, uma série de recomendações.
E Ana deixou o hospital sem receber uma só visita de seus familiares.
Em casa, tia Amélia repetiu o ritual:
— Que lindo! É a cara do pai!
Geralda e D. Assunção nos visitaram, alguns dias depois.
Alan nasceu no período de carnaval e, pela primeira vez, não levamos Claudinha e Marcos para a avenida, como aconteceu nos anos anteriores.
Ana improvisava havaianas, piratas, baianas, malandrinhos, índios e tudo o que fosse fácil, cômodo e barato, e eles saíam orgulhosos e felizes, desfilando pelas ruas. Pela manhã, após o desfile das escolas de samba, na Avenida Presidente Vargas, e depois na Praça Onze, aproveitávamos os carros alegóricos, abandonados, como cenário para fotografá-los fantasiados, encenando os personagens cantados em verso e samba no grande desfile. No ano seguinte, Alan se incorporou aos irmãos e os dias de carnaval passaram a ser aguardados com muita expectativa.
Ana improvisava havaianas, piratas, baianas, malandrinhos, índios e tudo o que fosse fácil, cômodo e barato, e eles saíam orgulhosos e felizes, desfilando pelas ruas. Pela manhã, após o desfile das escolas de samba, na Avenida Presidente Vargas, e depois na Praça Onze, aproveitávamos os carros alegóricos, abandonados, como cenário para fotografá-los fantasiados, encenando os personagens cantados em verso e samba no grande desfile. No ano seguinte, Alan se incorporou aos irmãos e os dias de carnaval passaram a ser aguardados com muita expectativa.
Decorrido um mês, Ana recebeu a visita de sua cunhada Neuza, seu filho Nelinho e D. Aída, sua mãe. Foi uma visita rápida, fria, desanimada, que Ana recebeu com uma frase irônica:
— Puxa! Quase que o menino completava um ano sem que vocês aparecessem.
E Neuza, com ar de aparente preocupação, justificou-se:
— Desculpa, Ana, mas não deu para vir antes. O trabalho da casa me toma muito tempo... E a distância é grande...
TUDO PARECIA ESTAR BEM QUANDO, aos três meses de idade, o neném adoeceu. A princípio, os sintomas sinalizavam uma gripe, mas logo o seu estado de saúde se complicou, adquirindo aspecto de bronquite com terríveis crises. Embora medicado, a doença evoluía, e arrastou-se por alguns dias. Percebemos que algo muito grave, além da bronquite, acontecia em seu organismo: chorava convulsivamente, mostrava-se febril e tinha vômitos constantes. Nossa presença na emergência do hospital já se tornara rotina, quando ficou confirmado tratar-se de uma pneumonia que carecia de internação imediata. Para nosso desespero, não havia vaga no hospital e o próprio médico nos aconselhou a voltar para casa e aguardar até que houvesse condições para a internação.
Acalmou-nos dizendo:
— Vocês moram perto. Voltem para casa e deem os remédios.
— Ele vai melhorar? — perguntou Ana.
— Se não melhorar em 24 horas, tragam-no imediatamente!
No dia seguinte, bem cedo, voltamos, porque ele não aceitou a medicação por via oral e a partir daí ficamos numa ida e vinda que se repetiria por mais quatro dias.
Estávamos, eu e Ana, exaustos e tensos. Revezávamo-nos diuturnamente, pois o neném sentia fortes dores e só conseguia parar de chorar quando acalentado no colo. Queríamos confiar nos médicos, aguardar o efeito da medicação, aliás, não nos restava alternativa, porém algo nos dizia que coisa pior estava por acontecer.
Na segunda-feira pela manhã, o neném não mais chorava, suas forças extinguiam-se rapidamente, pois já se passavam quatro dias que ele não aceitava alimentação e nem dormia. Era visível a sua debilidade e Ana, em desespero, vestiu-se e saiu porta afora, levando o neném, sem esperar por mim.
No hospital, procurou o Dr. Pasqualino, que, desde o nascimento de Claudinha, fora sempre o pediatra que nos assistiu. Frequentemente levávamos as crianças ao seu consultório particular e, sendo ele o chefe do Serviço de Puericultura, acreditávamos que, por seu intermédio, conseguiríamos a internação. Quando ele viu o nosso neném, sem mesmo examinar, disse que o caso parecia grave e que a criança precisava ser internada. Ana, então, implorou a sua ajuda. Porém ele, meio indiferente, disse que nada podia fazer. Havia uma discordância pessoal entre ele e o diretor do hospital que não lhe permitia interceder em nosso favor. Sugeriu, então, que Ana procurasse o Souza Aguiar ou o Hospital Jesus, com urgência, pois a criança mostrava-se bastante desidratada.
Ana saiu em desespero. Depois de tantos dias de angústia, quando pensava que finalmente conseguiria uma ajuda do pediatra em quem tanto confiava, via-se atordoada, sem saber que rumo tomar. Atravessou o pátio do hospital em prantos, ninguém parecia notar, quando ouviu uma voz que lhe chamava. Ao virar-se, reconheceu a enfermeira do Dr. Pasqualino que, percebendo seu atordoamento e a gravidade do estado da criança, aconselhou-a a não sair do hospital:
— Procure o diretor, faça um escândalo, grite, esperneie até que alguém a atenda.
Essas palavras foram recebidas por Ana como a mensagem de um anjo, devolvendo-lhe o domínio sobre si mesma.
A sala de espera do gabinete do diretor era luxuosa, atapetada, com sofás de couro, revistas sobre a mesinha de centro, dando ao ambiente um ar de calma e tranqüilidade que em nada se assemelhava ao estado de espírito de Ana. Uma secretária veio atender e ela, entre lágrimas, suplicou que o diretor a recebesse.
Em atitude complacente a moça entrou e, ao retornar, conduziu Ana à presença do Dr. Call. Sentado atrás de uma grande mesa coberta de papéis, livros e vários outros objetos, ele a viu entrar e com um gesto de cabeça mandou-a sentar, enquanto encerrava um diálogo ao telefone. Foi um período muito curto, mas o suficiente para que Ana se acalmasse.
Interrogativo, olhou para Ana que, em lágrimas, lhe contou a peregrinação dos últimos dias. Imediatamente, ele pediu que colocasse o bebê sobre sua mesa, desenrolou a manta e ali mesmo o examinou. Alan já tinha os lábios azulados, sua face não exprimia vida e a cabeça pendia para o lado. Não havia dúvida: era grave o seu estado! Rapidamente, por telefone, ele ordenou ao chefe da internação, Dr. Israel, que comparecesse ao seu gabinete. Ao chegar, ele recebeu ordens de internar a criança de qualquer jeito. O médico pegou Alan no colo e caminhou porta afora, esquecendo para trás Ana, que o seguiu em passos acelerados. Na enfermaria, ele submeteu o nosso menino a exames mais cuidadosos e confirmou a gravidade: estava em alto grau de desidratação, além da pneumonia intersticial.
Ana pôde verificar que não havia nenhum leito vazio. A enfermaria estava lotada de crianças de todas as idades e a movimentação de médicos e enfermeiras era intensa. Dr. Israel não titubeou, providenciou uma pequena maca e o nosso filho ficou internado ali mesmo, no meio do corredor. Despiram-no e entregaram suas roupinhas para Ana: um macacãozinho de linha, amarelo, e a camisinha branca, pagão, que ele usava sempre para ir ao médico. Por alguns momentos, Ana permaneceu ao seu lado enquanto finalizavam a arrumação da maca, colocando-lhe algumas amarras para que não caísse. Depois empurraram-no para o interior de uma sala e, pela porta entreaberta, Ana pôde ver que o médico e as enfermeiras tentavam em vão encontrar uma veia até que resolveram dar um pequeno corte na sua perna esquerda, perto do calcanhar, por onde introduziram o soro.
Não permitiram que Ana permanecesse ali. Ela deveria voltar para vê-lo somente no horário de visitas. O neném ficou internado e Ana voltou para casa entre desolada e confiante, levando em suas mãos apenas aquelas roupinhas vazias do nosso filho. Lembro-me ainda de sua expressão desanimada, ombros derrubados, andar arrastado, ao entrar em casa e se jogar exausta em uma cadeira que ficava logo na entrada. E, sem forças para explicar tudo que acontecera, chorou, chorou muito. Pela primeira vez, vi Ana fraquejar. Mas foi só por alguns minutos, logo ela reagiu.
Nessa mesma semana, a licença maternidade terminou e Ana teve que voltar ao trabalho na Escola Celestino da Silva, no horário da tarde. Para visitar o bebê, diariamente, fora do horário de visita, precisava de uma permissão especial da direção do hospital. E conseguiu.
Por sorte, a escola ficava próxima e ela aproveitava o horário do recreio dos alunos para uma fugidinha rápida ao hospital na parte da tarde. Assim, Ana acompanhava o tratamento dispensado ao Alan pela manhã, com mais calma, e, à tarde, rapidamente, ou até mesmo à noite.
![]() |
| Uma das turmas de Ana na Escola Celestino da Silva |
Pouco a pouco, o nosso neném começou a reagir. Dias antes, ele parecia desfigurado, seus movimentos eram lentos e seu olhar quase parado. Uma semana depois, mostrava que havia superado os maiores perigos e já seguia com o olhar quem se aproximava do seu leito. Aliviado das dores causadas pela enfermidade que o ameaçara, parecia readquirir rapidamente as energias, dando-nos a certeza de termos salvo aquela pequenina vida. A súbita mudança de fisionomia, o vigor progressivo de seus movimentos, sua face corada, sinalizavam que sua permanência ali seria apenas uma questão de dias.
Lutamos entre o desespero e a esperança durante 23 dias.
Diariamente, eu e Ana íamos ao hospital. Nosso pensamento, dia e noite, estava em nosso filho, e, pior que tudo, sentíamos que estávamos a ponto de sucumbir. Além das noites de sono interrompidas por preocupações com ele, não conseguíamos afastar o temor de uma recaída, e Ana dava a impressão de ser um capataz, sempre preocupada, perscrutando, em horas incertas, os cuidados que deveriam ser dispensados ao neném no hospital. Talvez fosse excesso de precaução de nossa parte, pois as enfermeiras demonstravam muito carinho pelas crianças e se desincumbiam de suas tarefas com profissionalismo.
O tempo para nós deixara de ter qualquer significado, mostrava-se lento, triste e confuso. Ana brigava com o cansaço e eu com o desânimo. Eu sabia que ela só descansaria quando os nossos três filhos estivessem reunidos em casa.
De qualquer forma, incorporamos aquelas visitas à nossa rotina incansável. Sabíamos que, a cada dia, ele melhorava e que o dia da alta se aproximava. Por outro lado, tínhamos que dar atenção a Claudinha e Marcos, que, na inocência própria da infância, diariamente, nos cobravam o retorno do neném. Sempre que íamos ao hospital, eles queriam falar com o “doutorzinho para deixar o neném voltar para casa”.
Num desses dias de visita, Ana subiu primeiro e eu fiquei no pátio do hospital com eles. De repente, avistei Carlos, irmão de Ana, a quem eu não via desde aquele triste episódio, quando travamos uma luta corporal no Jardim Guanabara. Ele, acompanhado da esposa, Nice, e do filho, Carlos, aproximou-se de mim, e Nice perguntou:
— Nunes, o que você está fazendo aqui?
— Nosso filho, Alan, está internado. Esteve muito mal.
— Onde está Ana?
— Ela subiu para vê-lo. Fiquei aqui com as crianças, quando ela voltar eu subo.
Nice fez uma rápida carícia em Marcos e Claudinha e foi encontrar-se com Ana. Carlos, fingindo esquecer tudo que houve entre nós, entabulou conversa. Contou-me que também estavam com uma filha internada, aguardando alta para aquele dia. Demonstrava ter esquecido a antiga desavença, e eu procurei agir da mesma maneira, até que a tensão inicial do nosso encontro deu lugar a uma conversa educada.
Enquanto estávamos ali reunidos, meus pensamentos voaram de súbito para a Praia da Bica, onde eu e Ana havíamos trocado beijos e juras de amor, e ele quisera, um dia, interromper com tanta violência.
Na saída, Ana, ao saber da minha atitude, esquecendo as mágoas envelhecidas, lançou-me um olhar sereno, pincelado de gratidão, e eu pensei: “Não poderia ser de outro jeito... principalmente no meio de uma batalha como a que estamos vivendo.”
Percebi que ela ficara satisfeita naquela tarde. Pelo tom de sua voz e pela expressão de seu rosto, penetrei no seu interior e senti que uma emoção retida se libertava. Por que não admitir isso? Por acaso teria eu o direito de manter a tristeza interior de Ana pelo exílio forçado que vivera nos últimos cinco anos?
Decorridos 23 dias de internação o neném recebeu alta e retornamos para casa felizes, sem palavras. Parecia que levávamos nos braços um valioso e delicado troféu.
Ao chegarmos, sentamo-nos lado a lado, como dois heróis que retornam de uma longa batalha, pensando apenas em largar as armas, descansar o corpo e acalmar os nervos. Olhei carinhosamente para Ana, que deixava escapar duas lágrimas lentas, enquanto acariciava Marcos e Claudinha, e agradeci:
— Conseguimos... Oh!, Senhor todo poderoso! Terminou afinal o nosso sofrimento!
Os dias subsequentes foram muito difíceis e, como sempre, ninguém apareceu para nos ajudar. À noite, eu saía para o trabalho com o coração nas mãos por ter que deixar Ana só com as três crianças. Chefiando a turma da noite, eu não podia me afastar da seção, mesmo momentaneamente.
O campo das bijuterias começava a perder importância.
Vivíamos em contenção total de despesas. Comprávamos apenas o necessário, as crianças eram a prioridade.
Todos os nossos gastos foram sempre muito bem pensados e discutidos. Mas Ana era uma mulher jovem e era justo que tivesse desejos de usar roupas e acessórios da moda. Nas vitrines e nas cinturas das jovens mulheres, cintos largos, de couro artesanal, com enormes fivelões chamavam a atenção, e ela pensou em adquirir um, mas, pelo alto preço, protelava essa decisão. Certo dia, andando pela Rua da Alfândega, viu, no interior de uma loja de artigos de couro, grande movimentação de clientes. Todo aquele interesse das outras pessoas por material para a confecção de peças artesanais despertou em Ana a curiosidade necessária para que, após algumas conversas com fregueses e vendedores, ela saísse da loja com um pequeno pacote contendo: uma tira de couro, um fivelão de metal, tinta marrom, verniz, cola, um furador e uma faca fina para o corte.
Chegando em casa, eu a ajudei a montar um cinto e, no dia seguinte, Ana saiu para o trabalho desfilando orgulhosa a sua nova criação. Não deu outra, voltou com inúmeros pedidos do mesmo cinto. Foi um sucesso! Não preciso dizer que, a partir daí, foi só criatividade e trabalho. Muitos modelos novos de cintos masculinos e femininos, de várias cores e larguras, foram confeccionados. Chegou a ponto de, em apenas um fim de semana, transformarmos em cintos uma peça inteira de couro.
Dos cintos, passamos para bolsas e carteiras de vários modelos. Ana fazia a modelagem, eu cortava e pintava, depois ela montava, arrematava e finalizava com alguma arte. Perdemos a conta da quantidade de peças que fabricamos.
Nossa condição financeira tornou a melhorar. O artesanato em couro deu um resultado tão expressivo que não nos sobrava tempo para mais nada. Todas as nossas horas eram para atender às encomendas, principalmente quando se aproximavam as datas festivas, como Natal, Dia das Mães, dos Pais, dos Namorados etc... E, com isso, continuamos melhorando a nossa casa e a nossa vida. Compramos uma televisão nova, uma bonita estante, sofá-cama para os meninos e um novo para nós. As crianças andavam com roupas melhores, apesar de sempre aproveitarmos as roupas de um para outro.
As melhorias se tornaram visíveis e nos sentíamos orgulhosos, apesar do cansaço físico que muitas vezes não conseguíamos aliviar.
Aos domingos, à tardinha, levávamos os meninos para passear, pois durante o dia sempre tínhamos encomendas para adiantar. Não descansávamos, nem podíamos.
Aos domingos, à tardinha, levávamos os meninos para passear, pois durante o dia sempre tínhamos encomendas para adiantar. Não descansávamos, nem podíamos.
Enquanto isso, as crianças cresciam. Claudinha já frequentava o Jardim de Infância Campos Sales, no Campo de Santana, e eu tinha como tarefa levá-la, após o almoço. Marcos me acompanhava a pé, ajudando a empurrar o carrinho com Alan. Era uma difícil mão de obra dar almoço para os três e prepará-los para sair. Ana dava aulas numa escola na Penha, das 10 às 15 horas, e, na volta, pegava Claudinha na escolinha. Às vezes, eu ia com os meninos encontrar com elas na saída do Jardim de Infância, e aproveitávamos para deixá-los brincar no Campo de Santana, até anoitecer. Marcos adorava ir ao encontro da irmã e sempre dizia:
— Quero estudar na escolinha da “Caudinha”.
![]() |
| Campo de Santana com o quartel dos Bombeiros ao fundo. |
![]() |
| Pátio da Escola Campos Salles |
Ela ficava eufórica quando os irmãos chegavam e, toda orgulhosa, levava-os para perto de seus amiguinhos e da tia Satiko, sua professora japonesa.
NESSA ÉPOCA, HELENA E LUÍSA, irmãs de Ana, conseguiram nos visitar, pela primeira vez. A visita foi rápida, mas o suficiente para que percebessem que a vida simples que levávamos nos garantia momentos de satisfação e tranqüilidade.
Anteriormente, algumas vezes, Ana fora ao encontro de sua irmã Helena no Ginásio Mendes de Morais onde ela estudava. Sua mãe não concordava com a aproximação das filhas. Com isso, os raros encontros ocorriam sempre de uma maneira precavida, sob tensão, como se a nossa união fosse um ato vergonhoso.
Enfim, fora uma briga feia. Não nos perdoavam, ainda que eu demonstrasse que não era o canalha que eles julgavam. Por outro lado, isso pouco nos importava. A simples lembrança da fisionomia deles nos produzia um terrível mal-estar, e tínhamos que administrar esse conflito interno.
EM 1972, ESTAVAM CRIADAS as condições para embalar a nova ECT.
Foi contratada a Somepost francesa para reorganizar a empresa nos moldes do Correio francês, considerado o melhor serviço de correio e telégrafo do mundo. Quarenta e três técnicos vieram da França, escolhidos para a missão de crescimento e modernidade da empresa. Foi então criado o Projeto Eco.
No embalo do Projeto Eco, eu fui designado Adjunto de Controle de Qualidade, a quem competia verificar e acompanhar a qualidade dos serviços de todas as agências no âmbito da DR/Rio, além de participar diretamente da Coordenação Regional do Projeto, como elemento de ligação, na área postal. Só então percebi a importância do convite que me fora feito, um dia, para chefiar a turma da noite e atentei para o reconhecimento da minha dedicação ao trabalho.
Foi contratada a Somepost francesa para reorganizar a empresa nos moldes do Correio francês, considerado o melhor serviço de correio e telégrafo do mundo. Quarenta e três técnicos vieram da França, escolhidos para a missão de crescimento e modernidade da empresa. Foi então criado o Projeto Eco.
No embalo do Projeto Eco, eu fui designado Adjunto de Controle de Qualidade, a quem competia verificar e acompanhar a qualidade dos serviços de todas as agências no âmbito da DR/Rio, além de participar diretamente da Coordenação Regional do Projeto, como elemento de ligação, na área postal. Só então percebi a importância do convite que me fora feito, um dia, para chefiar a turma da noite e atentei para o reconhecimento da minha dedicação ao trabalho.
Nesse período, em contato com aqueles técnicos, pude evoluir nas áreas administrativa e operacional. Participar das reuniões da diretoria com os gerentes de áreas permitia que eu tivesse uma visão da complexidade das atividades da DR. Representei em vários momentos a Gerência de Operações Postais. Senti-me valorizado e respeitado no exercício de minha função e fiz muitos amigos.
Recebia uma gratificação compensadora que permitia tirar Ana da correria em que vivia, possibilitando que ela se dedicasse mais aos nossos filhos e ao magistério. Foi uma pausa de mais de dois anos para respirarmos. Vimo-nos obrigados a contratar uma ajudante para cuidar das crianças e auxiliar Ana nas tarefas da casa.
POR ESSA ÉPOCA, OLÍVIA, de João Pessoa, nos visitou, pela primeira vez. Fazia muito tempo que não nos víamos. Lamentei com ela o fato de não ter visto minha filha quando estive em João Pessoa, e ela me disse que, desde pequena, Eliane fora ensinada a dizer, para quem lhe perguntasse por seu pai: “Ele morreu debaixo das rodas do bonde.” Outra vez, uma onda de revolta cresceu dentro de mim. Era mais uma maldade que se somava a tantas outras e só então entendi por que naquela minha visita a João Pessoa não deixaram que eu me aproximasse para conhecê-la, nem tampouco para entregar-lhe o presente que eu havia levado. Como explicar, de uma hora para outra, a uma criança de 7 anos, que o pai morto estava vivo e queria vê-la?
Ela, então, me comunicou que Eliane iria se formar em medicina no final de 1974. Há muito que eu não tinha notícias da minha filha e isso me perturbava.
Olívia viera ao Rio acompanhada de sua filha Edwiges e no dia do embarque para voltar a João pessoa eu, Ana e as crianças fomos nos despedir delas.













Nenhum comentário:
Postar um comentário