quinta-feira, 7 de maio de 2020

4ºCapítulo - 7º Episódio: "O início do retorno..."


CERTO DIA, ANA FICOU sabendo por Neuza que, depois de uma briga escandalosa, sua mãe deixou a companhia de seu pai. Foi uma notícia que nos causou espanto. Quem diria? Aquela mulher submissa, anulada pelas decisões do marido, por fim conseguira quebrar as algemas que a prendiam àquele amor louco! Preferiu ficar do lado da filha, Helena, após uma grande discussão, talvez para evitar que ela tomasse a decisão que Ana tomou. E ficam aqui duas perguntas para reflexão: “Encontraria Helena um companheiro bem intencionado?” “Teria ela a mesma determinação e força de vontade de Ana?” Certamente D. Fernanda deve ter despertado para essa realidade.
A festa dos os 15 anos de Helena, irmã de Ana, em 1968, ainda na Estrada da Bica. Da esquerda para a direita, o irmão Carlos, a cunhada Nice, a sobrinha Cristina, Helena, o irmão Manoel João e a cunhada Neuza. Ana não compareceu.










       Ana me contava que passara a maior parte do tempo de sua vida presenciando ou vivendo conflitos familiares internos ou com vizinhos, protagonizados por seu pai, em decorrência do vício do álcool e do seu gênio esquisito.
Na realidade, todos na família sofriam com aquela desagradável situação. Contudo, admitiam sempre a possibilidade de mudança e, por isso, se sujeitavam, aguardando o grande milagre da recuperação.
Em todos os lugares onde moraram ficaram marcas do comportamento violento do chefe da família, que sempre arranjava encrenca. Esperançosos, acompanhavam, pacientemente, a marcha do tempo, mudando de casa, de bairro, e após cada “cena de horrores” se perguntavam, num misto de cansaço e expectativa, se aquele não seria o último ato da última tragédia.
A casa da Estrada da Bica, dizia Ana, foi onde permaneceram mais tempo... O lugar era calmo, de bom clima, próximo ao mar. Quando a família chegou ali, alimentava a esperança de que, à sombra daquele pé de acácia, naquele jardim florido com canteiros em forma de estrelas, iria acontecer o milagre redentor: a mudança de comportamento daquele homem, esperada por todos. Mas foi exatamente ali onde ele praticou os maiores desajustes de sua vida, criou as maiores confusões e extraviou o resto da família.
Já havia perdido a companhia de alguns filhos, Ana fora a última. E, agora, voltava-se contra a mais jovem, sem se preocupar em perdê-la também. A singular desconfiança que Ana lhe inspirava ele transferiu para Helena, com redobrada força.
Sua visão de mundo só lhe permitia ver as coisas de maneira prismática e, no fundo, ele classificava as pessoas tal como via a si próprio. Então, como a sua mente deformada só produzisse monstros, talvez reflexos de seu passado, para ele não havia pessoas de comportamento reto.
Ele era muito esquisito! Sempre justificou seus atos pregando preocupação com o futuro dos filhos e a união da família, mas duvidava dos afetos sinceros, desinteressados, via a mulher e os filhos apenas como seres subservientes.  
Ana o analisava dessa maneira, e nos momentos de nostalgia falava: “Não seria uma deformação própria da época em que viveu, das dificuldades e dos problemas que teve na mocidade, das limitações por que passou, dos cacoetes da sociedade daquele tempo?” Talvez nessas perguntas estivessem as respostas.
A saída de Ana, é claro, produziu grande ferida no coração de seu pai, mas nem por isso quebrou a muralha que lhe bloqueava o raciocínio, e parecia ter causado nele um  descontrole ainda maior,  prejudicando o relacionamento com as duas filhas que ainda ficaram em sua companhia.
Tantas vezes foram magoadas, inclusive a esposa, que a secreta ferida da alma de cada uma foi aos poucos se inflamando, a ponto de num determinado momento, levadas pelo pavor, decidirem responder a tanta violação com um inesperado abandono da casa. Desta vez ele ficou cuidando sozinho das suas chagas.
Helena tinha 17 anos.
Elas passaram a residir com o irmão Mário, casado, que tinha uma filha, um ano mais velha que Claudinha, também chamada Helena.
O pai de Ana, logo depois da separação, uniu-se a outra mulher.
A vida seguia seu curso e não era, pois, surpreendente que as pessoas da família de Ana, libertas do poder dominador de seu chefe, começassem a cair em si e vissem que já era tempo de se redimirem pelos anos de desprezo que tiveram por nós, principalmente porque a nossa situação já não podia desagradar-lhes. De vez em quando, eu comentava isso com Ana. Embora a minha previsão estivesse correta, Ana não confiava e dizia: “Eles nunca se modificarão.”
Não demorou muito tempo e Ana soube que a esposa de Mário havia dado à luz uma criança no Hospital do Andaraí e gostaria de receber a sua visita. Ana demonstrou entusiasmo e desejo de atender ao pedido da cunhada. Depois de um momento de hesitação, concordei que ela fosse. Eu temia um reencontro de Ana com sua mãe. Por outro lado, admitia que já não havia motivos para novos escândalos. Para nós, o que existia era uma difusa lembrança de um passado de lutas que tendia a se recompor, aos poucos, nos reencontros.
Na volta, assim que entrou, Ana foi dizendo:
— Vi minha mãe, ela estava lá.
— Eu estava prevendo que esse encontro ia acontecer. Como ela recebeu você?
— Conversamos naturalmente, sem emoção. Parecia que nos vimos, pela última vez, na semana passada...
 Ana passou alguns dias pensativa, parecia reviver grandes dores.
Depois desse encontro, na maternidade, ela procurou sua irmã Helena, na Casa Mattos, onde trabalhava, e então ficou sabendo que aquele encontro fora proposital, pois os irmãos entendiam que não havia mais motivos para continuarem divididos.
Como Ana reagira positivamente, sua irmã propôs que houvesse um segundo encontro, desta vez em nosso apartamento.
E assim, num domingo de junho de 1973, à tarde, recebemos, pela primeira vez, em nossa casa, a visita de D. Fernanda acompanhada de suas duas filhas. As crianças ficaram espantadas e, ao mesmo tempo, felizes diante da avó.
Considerando as dificuldades iniciais, podíamos dizer que vivíamos com relativo conforto e não havia motivos para nos escondermos nem para impactos nesse encontro.
 Conversamos esquecidos das ofensas e dos momentos sofridos que vivemos. Era chegado o momento das reconciliações.
E eu me surpreendi com a nossa incrível capacidade de perdoar.
Sua mãe já não intimidava. Era agora uma mulher envergonhada, acabrunhada, que esquecera os ódios e os desejos de vingança. Separada do marido a quem se dedicou com abnegação, a ponto de esquecer sua condição de mãe para apoiar o temperamento colérico e por vezes desumano daquele homem, não escondia a sua imensa decepção, sua dor sem tamanho. Cansada de tanta submissão, trazia na face essa marca. Em razão de tanto que presenciara em sua vida, já não via escândalo algum em nossa história. Já não podia nos condenar. Só lhe restava agora curtir sua desventura, aceitar os caprichos do destino e submeter-se a eles.
A partir desse encontro, Ana passou a ter notícias constantes de seus familiares. E soube, um dia, que seu pai pleiteava a volta da esposa, sem as filhas. Porém todos estavam cansados de seus maus-tratos e de suas arruaças. Elas, quando deixaram a casa, estavam decididas a não mais voltar. Sabiam que não podiam acreditar no seu arrependimento. Ele tentava a reconciliação, mas seu comportamento abrira feridas tão profundas e dolorosas que D. Fernanda preferiu a solidão.
Na casa de Mário a vida foi difícil, mas os outros irmãos contribuíam. Helena concluíra o curso colegial e se preparava para um emprego.
Com o passar do tempo, o pai de Ana começou a aparecer na casa do filho Mário, quando aproveitava para fazer refeições. Estava em dificuldades financeiras. Nessas ocasiões indagava a nosso respeito, e D. Fernanda lhe dizia que vivíamos felizes, que eu era um bom pai, bom companheiro e que nada nos faltava. Falou-lhe que, por minha indicação, Helena já havia feito testes para o Correio e sua contratação era esperada. Como retorno de suas conversas com o marido, D. Fernanda apenas dizia que lastimava o fim de vida que lhe estava destinado. Dizia ainda que ele se mostrava arrependido de tudo que fez, mas que lhe era difícil admitir.
Enquanto isso, no pequeno apartamento em que vivíamos, não havia tempo para devaneios, continuávamos a mil por hora. 


O artesanato que Ana fazia tinha boa aceitação. Alguns cursos no Centro Educacional Calouste Gulbenkian permitiram-lhe aperfeiçoar-se e, com minha ajuda, dava asas à imaginação.
Porém, as condições para produzir eram as piores possíveis, não havia espaço adequado e por toda a parte via-se material entulhado. As crianças, naqueles reduzidos metros quadrados do conjugado, estudavam, brincavam, engatinhavam embaixo da mesa, pulavam por cima da cama e dos móveis, escondiam-se dentro do guarda-roupa e do gabinete da máquina de costura e até subiam pelas paredes...
Aproximava-se o Natal e as encomendas se multiplicavam.
Helena havia deixado a Casa Mattos e estava aguardando sua contratação nos Correios. Enquanto isso não acontecia, ela ia para a nossa casa nos ajudar.
No dia 21 de dezembro de 1973, por volta do meio-dia, Ana recebeu um telefonema de sua mãe comunicando que seu irmão Carlos encontrava-se internado em estado grave, em coma diabética, e que, a qualquer momento, o pior podia acontecer. Helena, ao tomar conhecimento da notícia, foi acometida de forte crise nervosa, e, a partir desse momento, não houve mais clima para trabalho. À noite, Ana foi despertada pela campainha. Era sua mãe, acompanhada do  filho Mário, trazendo a notícia do falecimento de Carlos.
No cemitério, aconteceram cenas indescritíveis. Foi um quadro horrível. Choros, desespero e inconformismo. Ninguém podia aceitar que um rapaz de apenas 33 anos, aparentemente sadio, morresse daquela forma.
Ali, Ana deparou com seu pai, que permanecia do lado de fora da capela, evitando contemplar o filho morto. Afinal, todos sabiam que aquele era o seu filho mais querido, com quem mais se identificava. Ana sabia da possibilidade desse encontro, mas achava impossível que, naquelas circunstâncias, houvesse, da parte dele, qualquer reação negativa ao vê-la.
No interior da capela, Nice, a viúva, estava em estado deplorável. Sua fisionomia era de uma mulher aniquilada, sua face lhe dava uma idade que não tinha. Embora sua vida também fosse marcada por momentos difíceis, ela amava o esposo loucamente. Além disso, Carlos deixava três filhos, ainda crianças.
Ana precisou de coragem para contemplar o irmão morto. Helena, ao seu lado, agitou-se, atirando-se ao chão, dando urros como se estivesse possuída por alguma entidade. Sua reação impressionou os presentes. Foram necessários quatro homens para retirá-la do local. Pensaram em levá-la para um hospital, mas, de repente, ela voltou ao estado normal e o ambiente retornou à calma.
Na hora de fechar o caixão, o pai se aproximou do filho e passou-lhe a mão sobre a face gelada, num gesto carinhoso. A seguir, levou a mão aos olhos ocultando o pranto. Houve um momento de grande silêncio. Toda a família estava ali, unida pela mesma dor. E ele, humilhado, triste, sozinho, chorava também a sua própria solidão, tornando o quadro mais triste e desolador. Só os filhos e a mulher sabiam traduzir a intensidade do seu sofrimento.
Quando o sacerdote entrou para encomendar o corpo, ficaram separados, como que por ironia do destino: de um lado do caixão, o pai de Ana; do outro, a mãe e os filhos.
Iniciou-se o cortejo, vagarosamente. O pai caminhava cabisbaixo, ao lado do esquife e, de vez em quando, lançava olhares indefinidos, como se ele próprio vagasse no infinito.
O corpo baixou à sepultura. Nenhum dos filhos se aproximou do pai para trocarem palavras de saudade ou de conforto. Ele parecia perceber que ali se deparava com as conseqüências dos atos de seu próprio passado; ali se confrontava consigo mesmo e só lhe restava caminhar sozinho.
Ana já estava no interior do carro que a levaria de volta a casa quando viu, através do retrovisor, que seu pai caminhava dolente na calçada do cemitério, em sentido contrário, com as mãos nos bolsos, acabrunhado, como se refletisse sobre a inutilidade de suas ações violentas, seus arraigados conceitos de moral e sua permanente desconfiança no ser humano. Seguia assim seu caminho, sozinho, desesperado, sem ter com quem dividir sua dor. Ana me relatou, detalhadamente, tudo que presenciou quando retornou no fim da tarde.
As crianças ficaram em casa, comigo.
Na missa de sétimo dia, na Igreja São José, no Largo do Tanque, Ana novamente se juntou à família, levando consigo nossos filhos. Todos se encontraram no adro da igreja e, a um canto, estava seu pai conversando com os familiares da viúva.
As crianças, ao verem os primos, alheias ao significado daquele encontro, puseram-se a correr e a brincar no pátio. Ana percebeu que seu pai, de onde estava, observava curiosamente os netos. Então, chamou sua irmã Isa e disse:
— Leve as crianças para o pai conhecer.
Luísa tomou as crianças pela mão, levou-as à presença do pai e disse:
— Estes são os filhos da Ana.
Ele abraçou Claudinha num gesto carinhoso e chorou.
Claudinha tinha 7 anos e Marcos 5 e meio. Ambos olhavam espantados, procurando, talvez, reter na memória o rosto do avô. Alan só tinha 3 anos, não podia compreender e jamais se recordará do que viu e ouviu. Claudinha, entre assustada e curiosa, perguntou:
— Você é meu avô, pai da minha mãe?
— Sim, sou seu avô.
— Por que você não mora com a vovó?
 Ele, embaraçado, respondeu:
— Eu viajo muito, estava em Portugal e só vim para a missa de seu tio. Amanhã eu viajo de volta.
— E quando o senhor vem outra vez?
— Só voltarei no dia do seu casamento... — respondeu ele, visivelmente emocionado.       
Na semana seguinte, Ana soube que seu pai fora internado, às pressas, no Hospital Getúlio Vargas, com problemas cardíacos.
Logo depois, veio a notícia de que ele havia falecido vítima de infarto. Morreu nos braços do filho Mário.
Apesar da dor por saber que seu pai seria sepultado nesse dia, Helena não podia esconder a sua alegria, naquele 3 de janeiro. Deveria comparecer à Gerência de Pessoal dos Correios, como fez, para a contratação. Eu, então, pedi que deixassem para o dia seguinte a sua apresentação no setor onde iria trabalhar.
Na Rural do Projeto Eco, seguimos eu, Ana e Helena. Agora, finalmente, eu me reunia à família de Ana, sem qualquer ressentimento. Vi seu pai de perto, pela primeira vez, desde os tempos da “arena”. Ali não estava mais aquele homem violento, de linguagem ferina, temido por todos, incompreendido pela família, mas aquele vencido pela segadeira inexorável da morte, inerte, sem ódios nem palavrões, igual a todos os seres finitos, merecedor do mais profundo respeito, até daqueles a quem causara grandes danos.
“O fim é assim mesmo: Somos iguais na volta ao pó”, pensei.
Eu e os três filhos homens carregamos o caixão até a sepultura.
A morte de Carlos produzira uma devastação no coração daquele homem. E, à medida que os dias passavam e a imagem do filho se atenuava no tempo, firmava-se em seu interior, envolto em uma névoa, um turbilhão de emoções, que pouco a pouco o destruía. A falta do filho e a luta para reter a sua imagem, somadas à solidão provocada pelo desprezo da família, obrigaram-no a uma profunda introspecção que contribuiu, sem dúvida, para que passados quinze dias da partida do filho também sua vida fosse ceifada.
Com seu desaparecimento, uma súbita mudança ocorreu na vida de cada um da família. A separação, e agora a morte, permitia sentir o efeito da estação de verão que  prometia dias mais claros e quentes. Para ele, uma libertação; para os seus, um alívio. Agora podiam, livremente, experimentar a sensação de uma vida sem sobressaltos e esquecer os maus-tratos que lhes infligira o desaparecido.

A família completa, no final de 53, antes da ida para o Rio de Janeiro.  Ana iria completar 8 anos de idade.

     Logo todos se reorganizaram. As duas filhas conseguiram emprego e se mudaram, com a mãe, para uma casa simples na mesma rua onde morava o irmão. Um novo otimismo em relação ao futuro aqueceu-lhes o sangue e, a partir de então, a viúva e os filhos jamais se separaram.
       Até eu e Ana nos sentimos aliviados. As desajustadas reações daquele homem nos causavam pavor e não sabíamos até que ponto ele nos odiava. Todo o tempo, até àquele dia, vivemos em permanente sobressalto. Temíamos seus momentos de violência.
Agora não era preciso temer ninguém.


NO CORREIO, MINHA SITUAÇÃO teve sensível melhora. A gratificação, que eu recebia, somada ao artesanato, nos permitia um pouco mais de conforto.
A moça que tomava conta das crianças resolveu ir embora e ficamos sem saber o que fazer. Por força da função que ocupava, eu tinha que estar no Correio às 8 horas e Ana às 7, na Escola Conde de Agrolongo, na Penha. Claudinha já estava na primeira série e a acompanhava, e lá permaneciam até às 14 horas. Ana conseguira uma “dobradinha”, o que lhe rendia mais alguns cruzeiros. Marcos frequentava o Jardim de Infância no Campo de Santana e Geralda o levava, junto com Andréa, sua filha. Precisávamos de uma pessoa que chegasse antes das 8 horas e ficasse até Ana voltar, às 15. Ana, então, conseguiu outra moça, mas ela maltratava as crianças, não tinha paciência com a agitação delas no pequeno espaço de nosso apartamento. Novamente, ficamos sem ajuda. 
Então, D. Fernanda ofereceu-se para ir diariamente, pela manhã, até que outra solução fosse encontrada. Mas a viagem era longa e, àquela hora da manhã, muito desgastante.
D. Amélia, sabendo das nossas dificuldades, indicou-nos uma moça que conhecera na igreja e que precisava de trabalho.
 Ana aceitou, e Ivonete começou a trabalhar em nossa casa. Era uma moça muito rude, nascida no interior do Piauí, que nunca havia trabalhado, e desconhecia a rotina dos serviços de um lar.   
Com paciência, Ana ensinou-lhe a cozinhar, passar, lavar e a cuidar das crianças. Não sabia ler, não conhecia dinheiro e era enganada facilmente, por qualquer um.
      As crianças se afeiçoaram a ela, pois sua idade mental estava muito próxima da deles. Lembro-me do dia em que ela ligou a enceradeira, sem colocá-la na posição certa. Esta saiu girando, em velocidade, como se corresse atrás de Ivonete, e ela... fugindo do aparelho. Ana não sabia se segurava uma ou outra. Outro grande susto foi quando ela ligou o liquidificador: apavorou-se com o barulho, quase desmaiou. Mesmo assim ela passou a cuidar das nossas crianças e a integrar a família.


   GERALDA E RAMALHO SE MUDARAM para um apartamento maior, na Tijuca, e lá nasceu Eduardo, o segundo filho do casal. Eduardo tornou-se um menino agitado e esperto. Como a irmã, tinha cabelos claros e encaracolados que lhe conferiam um aspecto angelical. Nos primeiros dias da mudança, Ana sentiu um grande vazio, já que Geralda era o seu ponto de apoio nas aflições e interrogações do dia-a-dia. Mas, aos domingos, compensávamos sua falta visitando-os, permitindo que os nossos filhos crescessem dividindo brincadeiras e conhecimentos com outras crianças. Foi uma convivência fraterna e sadia aquela que se estabeleceu entre nós.
     Da mesma forma que os nossos amigos, também nos preocupava o pouco espaço do nosso apartamento, e pensávamos em uma vida mais organizada, com mais conforto. À medida que as crianças cresciam, as dificuldades também aumentavam. Nosso relacionamento íntimo começava a sofrer restrições e constrangimentos. Brinquedos, livros e cadernos escolares se misturavam com peças e mais peças de couro; o cheiro da cola de sapateiro muitas vezes invadia o ambiente. Nem imaginávamos que, mais tarde, aquele produto seria utilizado, pelos jovens, como droga perigosa. As crianças até brincavam com bolinhas feitas com restos de cola ressecada.


EM 1975, EU FUI DESCOMISSIONADO da função de adjunto, permanecendo no Gabinete da Gerência de Operações Postais. 
Tivemos que intensificar o nosso artesanato.
Aquele ano foi, como os anteriores, de muita luta. Todavia, surgiu uma nova perspectiva para Ana. Ela havia feito o vestibular e aguardava o resultado com grande expectativa. Chegava o momento da virada, tão esperado.
     Recordo da imensa euforia que tomou conta da Rua Irineu Marinho, na sede do Jornal “O Globo”, quando foi publicada a relação dos aprovados. Eram 9 horas da manhã. De nossa janela, Ana assistia à grande confusão, sem querer tomar parte, embora, no íntimo, esperasse pertencer à legião de aprovados. De repente, Ana se viu tomada pelo espírito dos tempos de escola e disse:
—  Vamos até lá, saiu a lista!
Descemos e nos juntamos ao espetáculo formado pela multidão. Abraços e lágrimas se misturavam, confundindo as reações de cada um. Mas o que me marcou, como mero espectador, foi a expressão de Ana ao se localizar na lista de aprovados para a Escola Nacional de Belas Artes da UFRJ. Seus olhos cintilantes, fixos na listagem, demonstravam toda a sua perplexa alegria. Agora, em meio àquela euforia de vencedores e lamentos de vencidos, Ana parecia ter recuperado o entusiasmo dos tempos de estudante. Pulava e ria, surpresa consigo mesma, como se tivesse a certeza que, a partir daquele instante, abria-se o caminho para outras vitórias.
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Em março começaram as aulas na “Belas Artes”, na Ilha do Fundão. Ela agora dividia o seu dia entre o magistério e as aulas na Faculdade, restando-lhe pouco tempo para o artesanato. Na faculdade, Ana conheceu Fernanda Imperial, uma moça de classe média alta, que morava em Laranjeiras, e que, diariamente, logo cedo, em seu carro, pegava Ana na nossa porta e a trazia no final da manhã. Se não fosse a ajuda dessa grande amiga, Ana, talvez, não tivesse conseguido terminar seu curso, devido à distância e à dificuldade de condução.   
Eu sempre estimulei o seu progresso e prometi que me empenharia em dar continuidade ao artesanato, ainda que à custa de algum sacrifício, para que não houvesse prejuízo nos seus planos.
— Você sabe que eu sempre quis vê-la brilhando como uma estrela! — disse-lhe, certa vez.
E, assim, o artesanato ficou para os fins de semana.

Tudo parecia calmo em nossa vida, quando, de repente, veio o inesperado.




 Fim do 4o. capítulo.

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