quinta-feira, 7 de maio de 2020

5ºCapítulo - 1º Episódio: "o regresso ao passado..."





                                5




CHEGOU, PELO CORREIO, UMA INTIMAÇÃO do Poder Judiciário da Paraíba para que eu comparecesse a uma Audiência de Conciliação e Julgamento, no dia 1o de fevereiro de 1976, em João Pessoa. D. Mara pleiteava aumento da pensão alimentícia. Não é fácil explicar como fiquei. Já descontavam 33% do meu salário bruto desde a época da separação e, mesmo com Eliane formada e casada, nunca pleiteei redução da pensão que tantas vezes fez falta a minha subsistência. “Agora vem essa senhora com pretensões mais abusivas?!” — falei, revoltado, ao tomar ciência da intimação.
Eu precisaria de ajuda profissional. Lembrei-me de Eslu Eloy, advogado, velho amigo e companheiro, que conhecia de perto toda a minha história em João Pessoa. Então, naquele mesmo dia, entrei em contato com Ruy de Assis e pedi que o localizasse. No mesmo dia, Ruy levou-o ao seu gabinete e, após um rápido diálogo através do aparelho de “Gentex”, eu o constituí meu advogado.
Começava o regresso ao meu passado. Uma onda de pavor tomou conta de mim, naquele período. Vi que teria que abrir a pesada porteira que um dia fechei. Talvez não fosse fácil; a ferrugem do tempo, por certo, encarregara-se de  emperrá-la.
Ana quis me acompanhar, receosa pelo que me pudesse acontecer. Viajamos durante três dias, de ônibus, pela Itapemirim. Para nossos filhos, que ficaram com a avó, dissemos que seria uma viagem rápida, de trabalho, achando que eles não entenderiam os motivos.
Em João Pessoa, eu não conseguia enxergar a cidade com os olhos da saudade. Só conseguia pensar no motivo de minha presença ali.


Praça João Pessoa

       Hospedamo-nos no Hotel Aurora, um hotel simples, na Praça João Pessoa, próximo ao Tribunal de Justiça, a duas quadras do escritório do Dr. Eslu Eloy. 

Hotel Aurora, hoje demolido
















No dia seguinte, pela manhã, na ante-sala do escritório do Dr. Eslu, ficamos alguns minutos conversando com sua secretária até que ele nos pudesse atender. Eu estava visivelmente nervoso, e Ana pediu que eu me controlasse. Quando a jovem anunciou que o Dr. Eslu estava nos aguardando, senti um tenso calafrio misturado à alegria de estar reencontrando o velho amigo. 


Dr Eslu Eloy, famoso e competente advogado de João Pessoa












Após um cordial e demorado abraço, recuperei a calma. Falei da minha grande aflição em ter que enfrentar D. Mara, depois de tantos anos, e ele com a sua naturalidade jocosa disse:
— Como é que você, Nunes, se deixou amarrar por aquela mulher?
— Você sabe que até hoje eu também não sei — respondi.
Ouvi risos. Esse diálogo inesperado me descontraiu um pouco e, depois de algumas recordações de nossa mocidade, combinamos como seria o meu comportamento na  audiência. 
Eu e Ana retornamos para o hotel, almoçamos e, às 15h, encaminhamo-nos para o Tribunal. Ana estava elegante, vestia um terninho preto e uma blusa branca. Como complementos: bolsa e sapatos de verniz preto. Eu me sentia orgulhoso em entrar naquele tribunal de braço dado com ela. Dr. Eslu já se encontrava no interior da sala de audiências e veio me receber no corredor, enquanto Ana permanecia sentada na ante-sala, me aguardando.
Quando entrei, senti que todos os olhares convergiam em minha direção. Talvez não esperassem que eu comparecesse. Intencionalmente, fixei meu olhar no juiz. Ele, como se quisesse dizer que ali eu não seria humilhado, cumprimentou-me cordialmente e deu início à audiência. Seu gesto elegante ficou na minha lembrança.
Dr. Eslu fez uma breve defesa, ressaltando que, apesar da vida difícil que eu levava no Rio, ali estava atendendo à convocação daquele tribunal. Continuou destacando que, mesmo passando por algumas privações, eu jamais descuidei do cumprimento da lei com relação à pensão alimentícia, embora a achasse indevida, pois a beneficiária da pensão, minha filha, já estava casada, formada em Medicina e trabalhando, ressaltando ainda que sua mãe era funcionária pública do Estado. Parecia-lhe, portanto, imprópria a permanência da pensão e pedia, àquele juízo, que considerasse o pedido de cessação do desconto.
Imediatamente houve a recusa do advogado da parte contrária em aceitar os argumentos do Dr. Eslu, e a audiência foi suspensa. O juiz ficou de marcar uma outra data, quando seria então julgada a ação. Não foi fácil engolir o adiamento da decisão e aceitar que aquela mulher, que me impingiu tantos ultrajes, impusesse, mais uma vez, a sua presença na mesma sala, respirando o mesmo ar, tentando um entendimento, ainda que judicial. Atenuava, no entanto, saber que, lá fora, me aguardando, estava Ana, que me reconfortava, me completava e sabia tão bem compreender-me nas horas difíceis.
Voltamos para o hotel. Minha cabeça fervia, pensando no próximo capítulo desta novela.
Naquela mesma noite, entrei em contato com Edna, filha de Olívia e amiga de Eliane, pedindo que a procurasse e lhe fizesse saber que eu gostaria de vê-la, à noite, no Hotel Aurora.
Em vez de Eliane, recebemos a visita de seu esposo, que nos disse:
— Ela mandou avisar que só aceita vê-lo sem a presença de Ana.
Achei sua exigência absurda. Então, pelo mesmo portador, disse-lhe que Ana era minha esposa e minha companheira para todos os momentos. Disse ainda que, na manhã seguinte, estaríamos viajando para Patos e, na volta, eu esperava que ela  mudasse de ideia. Queria muito vê-la antes de regressar ao Rio.
Ana, embora contrariada com essa imposição, dizia que o importante era a minha reaproximação com Eliane. Não concordei e mantive o meu posicionamento.
No dia seguinte, madrugada ainda, viajamos de ônibus para Patos. Foi uma viagem, cansativa,  mas o desejo de rever meus familiares, depois de 36 anos, não permitia que eu me abalasse.
O sertão, que ainda vivia na minha imaginação, estava me esperando em sua simplicidade, sua paz e  pureza, como nos duros tempos de minha infância.
Depois de sete horas de viagem, ainda dentro do ônibus, avistei rabiscada no amanhecer do horizonte a sinuosa Serra do Teixeira, tão cheia de lendas.
    Verdade ou não, talvez fantasia produzida pela mente dos habitantes da região, meu avô contava que da enorme Pedra do Jabre, visível ao longe, no cume da serra, saía um “carneiro de ouro” que se deslocava, lenta e misteriosamente, por uma grande distância. Esse era um dos mistérios da região. Eu me lembro que, certa vez, avistamos, na serra, exatamente naquela parte do Jabre, uma enorme tocha (quem sabe uma queimada), e meu avô apontando para o foco de luz disse:
— É o “carneiro de ouro”!
Naquele ônibus estava eu, feito criança, sentado na ponta da poltrona, corpo esticado, cabeça erguida, olhos arregalados, a espreitar pela janela, quase esquecido da presença de Ana que cochilava ainda, na pouca claridade do nascer do dia. Minha atenção foi então desviada para outra direção, para o lado das terras dos Anselmos e, evocando o passado, pude distinguir, ao longe, o lendário Serrote do Espinho Branco, monstro de pedra, impoluto, misterioso, guardando, feito sentinela, a paisagem agreste dos espinheiros, como nos dias de minha meninice.
O sol já manchava algumas partes da cidade. Na estação rodoviária de Patos, numa pequena lanchonete tomamos café com pão e queijo-manteiga, aguardando a hora mais apropriada para localizarmos a residência dos César, por onde eu pretendia começar a visita.
Perguntando aqui e ali, não foi difícil encontrar a casa de D. Ameriquinha, dona da Fazenda São Pedro. Batemos. Logo sua filha, Lígia, minha amiga de infância, apareceu e, sem dificuldade, me reconheceu. Ela dava assistência às minhas tias, inclusive auxiliando Inocência a ler e responder às minhas cartas.
— Chiquinho! Você é igualzinho na foto! — disse, ruborizada pela surpresa.
Nos conduziu à sala de jantar, onde pude ver D. Ameriquinha, velhinha, noventa e dois anos, cega, sentada em uma cadeira de balanço junto à janela. Estava pensativa, quase imóvel, e eu custei a reconhecer nela a mulher saudável e generosa que nos recebia com carinho, poucas palavras e mesa farta. Ligia, sem citar o meu nome, disse:
— Veja, “mãinha”, se conhece essa pessoa.
Ao dizer isso, levou minhas mãos às da velhinha que, suavemente, as deslizou, espalmadas, flácidas e frias, pelo meu rosto, apalpou o meu nariz, subiu para a testa, voltou para as orelhas, circundou o meu pescoço e, com muita tranqüilidade, perguntou:
— Não é Chiquinho?   


Com dificuldade, contive as lágrimas. E por longo tempo fiquei a afagar-lhe as mãos e a face, percorrendo com a mente momentos longínquos da minha infância entre aquela gente. Esta cena ficou como um enigma entre as minhas lembranças. Pressentira aquela mulher o meu retorno? Ou havia uma linha telepática entre mãe e filha?
      Tínhamos conosco dois grandes pacotes contendo roupas e sapatos para as minhas tias. Ligia prontificou-se a nos levar à casa de Hercílio, seu irmão e meu amigo de meninice, para que ele nos conduzisse, de carro, até Jatobá, ao encontro de Inocência.



     Ainda não eram 7 horas da manhã. A luz de um sol rasteiro inundava os campos com sua cor dourada e o vento soprava fresco. Numa rural, dirigida por Hercílio, seguimos para Jatobá acompanhados por Ligia. Tomamos uma estrada de barro, empoeirada, cheia de pedras arredondadas, uns 3 km talvez, que a partir de Jatobá se estica indiferente, até Teixeira. Durante o trajeto, procurávamos reter cada detalhe da paisagem.
Nossos olhos vagueavam, fascinados pela beleza da natureza agreste que nos circundava. Uma visão maravilhosa que eu voltava a contemplar acompanhado de Ana. Era como se ela já vivesse ao meu lado desde aqueles tempos. Olhávamos em todas as direções, e eu me sentia dominado por forte emoção. Ali vivi a minha inocência caipira enquanto não conhecia os encantos e as armadilhas da cidade grande.    
    Submersos na magia da paisagem, aos poucos fomos nos aproximando da casinha branca que um dia mandei construir para o sossego das últimas filhas do velho Ezequiel, em Jatobá. 
Inocência e Eufrozina residiam sozinhas. Bá já havia falecido.
Chegamos. As tias ainda dormiam. O sol já se mostrava inteiro e podíamos apreciar, lá distante, a silhueta dos Montes Mares e Vapor. Na Serra do Teixeira, ele, o sol, destacava as inúmeras pedras brancas que pontilham o seu corpo exuberante, fazendo-a projetar-se no azul iluminado, compondo um espetáculo indescritível. Não resistindo a tanta beleza, Ana  caminhava no meio da vegetação agreste; ora se maravilhava com o desenho dos cactos eretos, adornados por botões encarnados, ora com a forma das pedras que se fundiam com a terra seca e poeirenta. Uma rústica carroça que por ali passava deu movimento ao cenário estático ao qual nos incorporamos. Tudo era singelo e a máquina fotográfica trabalhou muito naquele dia.
Hercílio, então, decidiu acordá-las. Bateu e chamou por Inocência, que, ainda sonolenta, estranhou a sua visita àquela hora da amanhã, sobretudo acompanhado de Lígia. Eu e Ana, afastados, aguardávamos o desfecho da encenação que o meu amigo havia preparado. Depois de sondar a possibilidade de dar-lhes um susto, ele nos chamou para o interior da casa, dizendo:
— Inocência, este senhor é do INPS e  veio falar sobre sua aposentadoria! Não vai ter jeito, parece que você vai perdê-la.
Inocência, valendo-se de sua inteligência matuta, franziu o cenho, levou a mão à boca entreaberta, entrefechou os olhos, olhou-me cuidadosamente e exclamou:
—  Não é não!... É Chiquinho!!!
Não me contive. Trinta e seis anos nos separavam. Trinta e seis anos para poder sentir a maravilhosa sensação daquele abraço e estar ali, de volta, vendo minha gente. Ao meu lado, Ana, comovida, não conseguia falar. Seus olhos marejavam. A pequena distância, estavam Hercílio e Lígia, testemunhas da minha infância e agora testemunhas do meu regresso, comovidos ante a cena que eles ajudaram a produzir. Eufrozina, assustada, veio ao nosso encontro e ampliou aquele momento de emoção. Hercílio e Lígia regressaram à cidade e, a nosso pedido, enviaram um táxi para nos acompanhar durante todo o dia.
Sentados em tamboretes na sala da casa simples, com poucos móveis, pude apreciar o desfile garboso de um galo de penas avermelhadas que circulava, empertigado e indiferente, pelo piso de cimento grosso do interior da casinha. Quanta simplicidade!



Inocência, eu e Lígia

Eufrozina e Inocência
Depois que pusemos em dia uma boa parte dos assuntos, fiz questão de percorrer alguns lugares da minha infância. 






E aí me deparei com as marcas do tempo: a casa em que residíamos em Jatobá não mais existia; um enorme açude, construído por imposição do progresso, cobria, com seu imenso lençol d’água, as sepulturas de minha avó e de meu tio; a estrada que ligava Jatobá à cidade fora desviada. 



Ana e Inocência
Só alguns juremais,  marmeleiros e  faveleiras permaneceram, como antes, à minha espera, preocupados em não me decepcionar com as imagens que eu guardara na memória. Não consegui localizar o Jatobá que  plantei, um dia. Como eu, deve ter crescido entre outras árvores. Precisaria de tempo e paciência para achá-lo. 
Fui à Fazenda Jatobá rever a escola da qual fui expulso. Estava fechada. Por fora, continuava do jeito que deixei, resistindo às deformações do progresso e me aguardando como testemunha silenciosa das minhas frustrações com a Matemática.
Eu me sentia saldando uma dívida para com a gente da minha terra e com a minha própria história. Aqueles momentos de emoção que eu compartilhava com Ana tornaram-me, de repente, um homem privilegiado.
A estrada de Patos a Teixeira, em Jatobá, antes do asfalto. Ao fundo o Serrote do Espinho Branco
Ficamos juntos toda a manhã. Eufrozina, que já não aguentava grandes caminhadas, voltou para casa. Ao meio-dia, continuamos o passeio com Inocência.
Visitamos a Cruz da Menina, palco do sacrifício de uma criança no início do século passado, transformado em santuário milagroso e venerado pelo povo crente da região. Muitas vezes lá estive com meu avô e minhas tias.
Na cidade, paramos num restaurante popular para o almoço. Relutante, Inocência nos acompanhou. Ocupamos uma mesa junto à porta e, depois de alguma demora, apareceu um jovem sertanejo, com jeito de garçom, muito desajeitado, que mais parecia um ajudante de pedreiro, perguntando o que queríamos. Não existia cardápio nem lista afixada na entrada. Entendi que a encomenda devia ser à viva voz. Pedimos carne-de-sol, arroz, feijão-verde, salada e farofa. O jovem colocou garfos, facas e três pratos vazios, empilhados  sobre a mesa à nossa frente e desapareceu na cozinha. Depois de algum tempo, em várias travessas, trouxe o pedido, avisando:
— Podem servir.
Fizemos os pratos e eu percebi que Inocência, envergonhada, hesitava em pegar os talheres, e, então, perguntei-lhe:
— Você não gosta de carne-de-sol?  Prefere outra coisa?
E ela, baixinho:
— Não é isso, Chiquinho. Gosto sim. É que eu não sei “cumê” com garfo e faca.
     Pedi uma colher ao garçom e, na tentativa de deixá-la mais à vontade, perguntei:
    O que você quer beber? 
Ela nos lançou um olhar confuso, levantando os ombros num gesto de indecisão. Pedi guaraná. Insisti para que o tomasse. Levou o copo à boca, provou o refrigerante e teve uma reação de susto com a efervescência do líquido. Depois, com mais cuidado, saboreou-o dizendo:
— Hum! É bom! Nunca bebi esse refresco. É de quê, hem?
   Não conseguimos segurar uma boa risada. Visivelmente encabulada, confessou-nos que nunca em sua vida havia entrado em um restaurante.
Foi um momento muito marcante.
Como eu havia me distanciado das minhas origens!
Só então entendi que, quando parti, estava fugindo de uma simplicidade estagnada que, na minha visão, não conduz os indivíduos a lugar algum. Concluí que a vida só tem valor se tivermos chance de evoluir, senão corremos o risco de ser apenas alguém que nasceu e morreu sem ter vivido. Inocência contribuiu, e muito, para que eu crescesse, mas lamentei a vida que ela levava tão sem significados. Sem sonhos.

A hora da despedida.


No final da tarde, despedimo-nos das tias com a promessa de levarmos, um dia, nossos filhos para que elas os conhecessem, sem saber que, pouco tempo depois, Eufrozina também nos deixaria, fazendo com que eu repetisse as palavras de meu avô: “Lá se foi mais um...
No ônibus, de volta a João Pessoa, dei vazão à minha fraqueza e chorei copiosamente por um bom tempo. Ana me reconfortava.
Foi uma visita de saudades melancólicas e recordações felizes.
Eliane se correspondia com Inocência e nessas correspondências enviava-lhe fotos. Então, na despedida, Inocência mostrou-me as  fotos e ao perceber que eu não as possuía, entregou-me o envelope.


Eliane aos sete anos, com o vestido que lhe presentei.
Eliane aos 10 anos com o acordeom que não pude lhe dar.


Eliane aos 10 anos



Eliane na sua formatura de medicina em dez de 1974.




EM JOÃO PESSOA, FALTANDO apenas três dias para o nosso regresso, fomos à casa de Olívia para obter notícias de Eliane, já que Edna havia prometido convencê-la a mudar de ideia. Ela disse que Eliane não confirmara um encontro. Entendi como uma maneira delicada de dizer “não”.



No mesmo dia, visitamos o casal Sobral, que nos convidou para um almoço no dia seguinte. Eu não sabia que eles me preparavam uma surpresa: a presença de Carmem e Humberto.
— Viu como você estava enganado? — falou Humberto de forma jocosa, ao me ver, referindo-se àquela carta escrita por mim, para sua mãe.
E eu, metido numa “saia justa”, concordei:
— É verdade! Vocês não imaginam o tamanho do meu arrependimento por ter emitido aquelas considerações inconsequentes, na época. Hoje, peço perdão! Reconheço que fui leviano. Mas tudo passou e espero que possamos esquecer. 
Abraçamo-nos e nunca mais tocamos nesse assunto. Fiquei exultante. Havia recuperado a amizade que já me fazia tanta falta.
Durante todo o tempo que estivemos em João Pessoa, aproveitei para rever lugares que me traziam boas lembranças e para mostrar a cidade a Ana. 
      Destinamos o dia seguinte para nós dois, apenas. Após o café, em trajes de banho, fomos para Tambaú. 


o fundo Hotel Tambaú


A praia nos convidava para um passeio por suas areias, e caminhamos para o norte. O imenso amor que nos unia e a sensação de liberdade dos últimos dias nos transformaram em dois adolescentes desligados e inconsequentes. Não sentíamos o calor do sol nem os olhares de curiosos. Ríamos dos troncos de coqueiros que nasceram tortos naqueles trechos desertos da praia. Estávamos à disposição do tempo. 


Ao fundo Tambaú e cabo Branco

Não nos importava aonde chegaríamos, apenas caminhávamos, abraçados calmamente, ou corríamos um atrás do outro, numa provocação infantil e ingênua. 


Ao fundo, na casa baixa, o Bar Caravelle, plantado na areia.
A paisagem rústica era, em alguns pontos, enriquecida pela presença de pescadores e suas embarcações. As ondas, em conluio, sussurravam um convite para um mergulho, aqui e ali.
    Quando percebemos, estávamos na frente do Bar Caravelle, extasiados com a beleza selvagem da Praia do Poço. A sensação de desconforto no estômago nos avisou que o tempo não havia parado  e que, dali, deveríamos voltar. O sonho chegava ao fim.  


      No restaurante, pelo cardápio, pedimos uma feijoada carioca. O som de um piano enchia o ambiente com músicas românticas. Ana dirigiu-se  ao toalete e, na volta, parou junto ao pianista. Este, ao notar a sua emoção, dedicou-lhe a música “Além do Horizonte”, de Roberto e Erasmo. Feliz, ela retornou à mesa e, a partir daí, essa música passou a ter para nós um significado especial, pois resumia todas as emoções vividas por nós naquele dia.

O sargaço, na areia, característico das praias daquela região.

       Voltamos a pé, pelo mesmo caminho, e chegamos ao hotel no fim do dia. Era hora de preparar a volta.      
       No dia seguinte, deixaríamos João Pessoa no final da tarde. Eu estava inconformado com a dificuldade que Eliane encontrava para me perdoar. Nenhum recado, nenhuma palavra. Aquele dia seria decisivo.
       Antes do almoço, enquanto eu arrumava as malas, Ana foi à rua comprar frutas para a longa viagem de volta. Almoçamos com tranqüilidade, descansamos um pouco no hotel e já passava das 16 horas quando fechamos a conta e fomos para a rodoviária.


Antiga rodoviária de João Pessoa, foto retirada da internet.


      Lá, em meio a muita confusão de gente, malas e pacotes, tomamos lugar em uma fila para embarcar a bagagem. De repente, Ana divisou uma jovem que vinha em nossa direção e, espantada, disse:
       — É Eliane!
       Eu estava de costas para ela e, ao virar-me, ouvi:
       — Bênção, papai!
       Percebi que ela me reconheceu. Soube, tempos depois, que ela ficava me observando de longe quando eu saía do hotel com Ana. O mesmo que eu tentei fazer, algumas vezes, na esquina de sua casa, sem sucesso. Coloquei o braço sobre seus ombros e deslocando-a alguns passos daquele lugar tumultuado, perguntei:
        — Como está você?
       Ela, com dificuldades, pronunciou as palavras que sempre tive medo de ouvir:
        — Por que você foi tão ruim comigo? Por que me abandonou?
        Não havia tempo para as minhas justificativas nem para mais alguns de seus desabafos. Simplesmente, eu disse:
        — Um dia lhe explicarei por que tive que ir embora.



        O ônibus, com o motor ligado, preparava-se para partir. Os passageiros acomodavam-se nas poltronas. O motorista deu um último sinal. Tivemos que nos despedir, apressadamente, sem concluir o difícil diálogo. Parti com as palavras agarradas na garganta e o seu olhar preso no meu.  Certamente, a mesma sensação teria ficado com Eliane. Durante toda a viagem não consegui me livrar da força daquele encontro que poderia ter acontecido de outra maneira, com tempo para confidências. 
         No ônibus, Ana revelou: 
         — Pela manhã, quando saí para comprar as frutas, fui à casa de Eliane e, como não a encontrei, deixei um recado com uma senhora, avisando-a de que hoje, à tarde, estaríamos partindo da rodoviária, de volta ao Rio, e que talvez não voltássemos mais a João Pessoa. Disse ainda que o seu maior desejo era vê-la antes de partir. Voltei para o hotel e nada lhe contei, mas tinha certeza que ela apareceria.
       Ana me surpreendeu mais uma vez e me fez sentir uma grande emoção. Senti que uma nova perspectiva surgia entre mim e minha filha. Fora derrubada a muralha do ressentimento.
        Desta vez, eu saía de João Pessoa tendo o cuidado de deixar a porteira entreaberta. Sentia agora a dor de tê-la fechado drasticamente, um dia. Eliane seria o motivo de meu retorno.

 


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