quinta-feira, 7 de maio de 2020

5ºCapítulo - 2º Episódio: "e a nossa vida ia se modificando..."






NOSSO APARTAMENTO já não comportava tanta bagunça. O espaço tornara-se insuficiente, não havia mais condições de comprar nem um pequeno objeto.



Arquivo familiar

     Ana reclamava muito. Então, começamos a pensar em um apartamento maior, onde as crianças pudessem ter os seus quartos e nós pudéssemos recuperar a intimidade que estávamos perdendo com o crescimento deles. Decidida, Ana saiu em campo. Precisávamos encontrar um lugar onde pudéssemos expandir nossos limites e criar novos sonhos.
 Eu sempre desejei morar na Zona Sul, gostava da Rua Paissandu, no Flamengo. Suas palmeiras me atraíam e me faziam lembrar o Nordeste. Fomos ver alguns apartamentos por lá, mas logo desistimos: o valor do aluguel não estava ao nosso alcance. No Centro também não, e Ana mudou o foco para a Zona Norte. 
Por fim, conseguimos um apartamento no bairro do Riachuelo, e em maio de 1976 nos mudamos.
As crianças ficaram eufóricas. Lembro ainda quando foram ver o imóvel pela primeira vez. Vazio, parecia imenso. Eles corriam por todos os cômodos, gritando, brincando com seus próprios ecos, numa agitação que nos emocionou. Pareciam bichinhos enjaulados fazendo reconhecimento do lugar onde seriam soltos. Alan se perdeu em um dos três quartos e começou a gritar pelos irmãos. Sentiu medo.
Outra vez estávamos com pouquíssimos móveis para preencher um grande espaço. 



     
Foram dez anos morando naquele minúsculo apartamento da Rua Marquês de Pombal, mas foi ali que consolidamos a nossa vida; foi ali que pudemos mostrar para todos que o sentimento que nutríamos, um pelo outro, era verdadeiro e grande; foi ali que nos conhecemos de fato; foi ali que tivemos as maiores emoções com o nascimento dos nossos três filhos. 


Marcos completando um aninho

Marcos aos dois anos

Alan aos dosi anos






































        
      Agora, fortalecidos e multiplicados, podíamos prosseguir em outro lugar, porém aqueles dias vividos no “nosso palácio” são lembrados até hoje com um carinho especial e uma grande saudade, porque lá começou o futuro e terminou o passado. Como numa caixinha de jóias, guardamos ricas recordações vividas entre aquelas paredes.

   No apartamento 102 da Rua Paes de Andrade 56 passamos a viver com mais tranquilidade, sobretudo porque ganhamos espaço.

Nossa vida foi construída em cima de arrojos e sonhos, e agora podíamos ampliá-los. O objetivo maior seria, então, arregaçar as mangas, expandir nossas atividades e chegarmos à compra da casa própria.
  Passamos a desejar isso seriamente. De imediato, a mudança nos permitiu substituir alguns móveis velhos, que possuíamos desde os tempos de dureza, por outros mais modernos, mais vistosos, possibilitando uma arrumação ordenada e ao nosso gosto.
       E a primeira aquisição foi para o nosso quarto: uma cama, um colchão e uma penteadeira, que Ana escolheu criteriosamente. Durante dez anos de nossas vidas, tivemos que abrir e fechar, diariamente, um velho sofá-cama desconfortável, e agora eu via Ana feliz diante de uma cama nova e bem arrumada. Aos poucos, também, nossos filhos foram contemplados.


UMA NOVA VISÃO DE FUTURO estava diante de nós. Com a universidade, Ana começava a ter outra percepção da vida e, aos poucos, passou a se contar entre a multidão dos que acreditam que fazer um curso superior é fazer jus a um espaço na grande constelação dos vitoriosos. Eu via Ana fazer progressos admiráveis e me sentia orgulhoso, ao mesmo tempo em que me censurava por ter abandonado pelo meio do caminho parte do meu grande sonho: o estudo.
 Ela, agora, acreditava em suas próprias potencialidades, sentia-se mais segura, mais falante, mais especulativa, mais envolvida com os acontecimentos sociais e políticos. E eu  me sentia recompensado por ser parte do seu mundo íntimo no qual eu representava, ao mesmo tempo, o esposo e amante, o colaborador e amigo, o confidente, sempre disposto a aplaudir, de pé, as suas vitórias.
Por essa época, houve uma grande alteração em nossas rotinas. O artesanato perdia o vigor e já era difícil vender o que produzíamos. Qual seria o próximo passo? Em que direção? Muitas idéias fervilhavam em nossas cabeças.


EM 1977, VOLTAMOS A JOÃO PESSOA para a segunda audiência de conciliação e julgamento, quando seria proferida a sentença que confirmaria, ou não, a continuidade da pensão alimentícia. Era agosto. Outra vez, Ana me acompanhou. Consegui uma passagem de cortesia pela Transbrasil e Ana comprou a sua.

Foto do nosso arquivo familiar

Arquivo familiar










Viajamos de avião até Recife. Depois, de ônibus até João Pessoa. Ficamos hospedados no Hotel Aurora, pela segunda vez. 

Praça João Pessoa, hotel Aurora ao fundo.













No dia seguinte, pela manhã, fomos ao escritório do Dr. Eslu. Lá, ele orientou-me para o momento da audiência, simulando determinadas situações. Eu tive a sensação de já ter vivido aquele momento. Preveniu-me para não esperar a suspensão da pensão, já que o advogado da parte contrária não concordava com a argumentação que foi apresentada, o que certamente conduziria a uma decisão por acordo, obtendo-se, quando muito, uma redução. De qualquer forma, nem tudo estaria perdido.
Eu estava tenso e, para descontrair, falamos de outros assuntos. E logo nos despedimos.
A manhã estava clara, com temperatura agradável. 
Praça 1817, foto retirada da internet.


Enquanto caminhávamos pela calçada da Praça 1817, fervilhava em minha mente o “papo” objetivo do Eslu. Desconfiei que ele já conhecia o desfecho da audiência, que se realizaria à tarde. Mas Ana, sempre otimista, disse:
      — Você precisa ficar calmo e confiar na Justiça. Não é possível que, depois de tanto sacrifício, a Justiça não reconheça que você também tem direitos.
— A Justiça é cega! — rebati meio pessimista.
Ana calou-se.
Chegou a hora. Subi as escadas do tribunal com a mente queimando. E Ana sempre ao meu lado.

Tribunal de Justiça de JP, década de 70. Foto retirada da internet

No tribunal, eu fiquei perdido em meio a tantos corredores, sem saber como encontrar Dr. Eslu. Ao mesmo tempo, preocupava-me deparar com quem eu não queria. Eslu me encontrou e me conduziu à sala da audiência. Ana ficou no corredor, preocupada.
No interior da sala, todos já me esperavam. O juiz deu a palavra para Dr. Eslu, que discorreu sobre a minha defesa, solicitando que ele examinasse os documentos juntados ao processo, comprovando minhas dificuldades financeiras. Pedia-lhe uma decisão justa. O juiz, depois de folhear o processo, num vai e vem que aparentava estar analisando os documentos, perguntou:
— Concordam com 14%?
— Minha cliente concorda com 15%, meritíssimo — afirmou o advogado da parte contrária.
O juiz:
        —    Concorda, Dr. Eslu?
E ele concordou.
Parecia um diálogo ensaiado.
Eu preferia discutir os 14%, mas Eslu, em voz baixa, pediu-me que aceitasse. Então, o juiz, dirigindo-se a mim, repetiu a pergunta. E eu respondi afirmativamente.
Ao sair daquela sala, suava por todos os poros de tanta indignação, apesar de saber que tínhamos vencido parcialmente. Tentei me conformar e esquecer.
Procuramos Eliane, mas ela trabalhava e residia em uma cidade no interior do Estado. Sabia que eu estava em João Pessoa, mas não veio  me ver.
       No dia seguinte, iniciamos o caminho de volta. Ana não estava em férias e não podíamos ficar mais do que 3 dias. 

  
  Eu estava mais tranqüilo, sem a ansiedade e a hesitação de quando cheguei, embora não estivesse convencido da decisão proferida pelo juiz, achava-a inflexível demais, meio evangélica. De qualquer maneira, consolava-me o fato de saber que não seria chamado, mais uma vez, àquele tribunal. Nada mais tinha a fazer  em João Pessoa.


  




      PARAMOS EM RECIFE para apreciar a cidade. A tensão havia diminuído. 

Praia de Boa Viagem, Recife, década de 70

      Hospedamo-nos no Hotel Quatro de Outubro. Um hotel simples.
 Aquele trecho de Recife, recheado de casas antigas, remanescentes do passado colonial, contrastava com prédios de arquitetura moderna. Visitamos a Ponte Buarque de Macedo e nos deliciamos com a pamonha vendida aos turistas. Os hotéis da orla da Praia da Boa Viagem impressionaram-nos pelo luxo e pela preocupação em mostrar as tradições da terra.
  No dia seguinte, retornamos ao Rio. 




Voltamos à realidade e aos nossos filhos, que já nos faziam muita falta.
          Mais uma etapa vencida.
      Apesar de achar que eu fora convocado para  exumar um passado há muito sepultado, essa oportunidade despertou-nos o desejo de viajar e conhecer outros lugares. Serviu, também, para que eu reencontrasse velhos amigos e pudesse me alegrar com suas trajetórias.


NA ESCOLA DE BELAS ARTES, ANA conheceu a arte fotográfica. Encantou-se. Novas idéias começavam a nascer em sua cabeça.
    A profissão de fotógrafa  parecia-lhe menos cansativa e mais rendosa, além de lhe proporcionar mais entrosamento com a arte, mas sentia necessidade de ampliar seus conhecimentos de iluminação, efeitos e técnicas de laboratório. Então, matriculou-se no Curso de Fotografia do Senac, e recebeu, no final de dois anos, o certificado que a habilitava para aquela profissão.
    
     Usando a minha velha Rollei, ela começou fotografando turmas de alunos na escola Mário Cláudio, na Tijuca, na qual lecionava. Eram fotos em preto e branco, reveladas num laboratório improvisado no quarto da área de serviço.
Ana adquiriu segurança no uso da câmera e rapidamente se tornou uma excelente profissional.
A velha Rollei, que havia saído do baú das grandes relíquias, agora voltava para o mesmo baú por se tornar obsoleta para o trabalho de Ana. Foi substituída por equipamentos mais modernos: duas Nikon, uma Hasselblad e outros equipamentos profissionais, para dar conta dos muitos contratos e melhorar a qualidade do trabalho.
Seu progresso profissional foi tanto que, muitas vezes, precisou contratar outros colegas para auxiliá-la. Nessas ocasiões, eu também entrava no esquema, o que me deliciava, pois a fotografia fora sempre uma grande paixão.  
Como fotógrafa exclusiva de um tradicional colégio de freiras, de excelente nível sócio econômico, ela pôde ampliar seu campo de atuação e ganhar maior prestígio. A recompensa financeira veio a reboque. Quando pouco se falava em  “marketing”, Ana já o fazia com eficácia junto aos familiares dos alunos daquele educandário. Ressaltava a importância da fotografia como registro da história dos indivíduos, e eles, motivados, compravam a sua arte. Ela não cansava de repetir: “Quando tudo terminar, a foto provará que tudo existiu.” Sentia prazer na atividade que exercia e exultava por conseguir vender a sua verdade. Vivíamos um clima de reconhecimento e grandes vitórias.


AGORA, A NOSSA CASA ERA frequentada pelos familiares de Ana, que passaram a participar dos nossos Natais e aniversários ou churrascos e feijoadas realizados aos domingos. Tudo, aos poucos, havia mudado. Até nos perguntávamos: “Foi uma questão de tempo ou  foi  porque o pior já passou?”
No primeiro Natal em família, tivemos a ideia de, no ano seguinte, incorporar a figura de Papai Noel. E assim foi. 

Na noite de Natal de 77, O Bom Velhinho tocou, pela primeira vez, a nossa campainha. Vestido a caráter, com cajado branco na mão direita e saco vermelho pendurado no ombro esquerdo, cheio de presentes, entrou pela porta da sala ao som de “Noite Feliz”, emocionando crianças e adultos. Um momento mágico!
Ana confeccionara a roupa, em cetim vermelho, tal como exigia o personagem. Longas barbas brancas, botas e  cinto preto com uma bela fivela de camurça, que eu, caprichadamente, idealizei, complementavam a caracterização. Para ser mais real, só faltavam o trenó e as renas.
            Eu fui o escolhido para viver o Velho Noel.
     Faltando poucos minutos para a meia-noite, eu e Ana recolhíamo-nos ao quarto para que ela me caracterizasse. E pasmem, saía-me tão bem que até eu mesmo ficava ansioso para saber o que ele trazia no saco para mim. A sensação que eu sentia quando via crianças e adultos com olhos cravados na minha performance fazia com que todos os anos eu assumisse esse compromisso com a maior seriedade.
 As crianças iam crescendo e não admitiam desmistificar aquele personagem natalino. Não aceitavam sair da fantasia que os embalava durante os outros 364 dias do ano.
Outros Natais assim se sucederam. Agradáveis e felizes.
      Nesse clima de tanta alegria, nossos filhos passaram a colaborar para que os filhos dos irmãos de Ana pudessem viver esse sonho natalino que era alimentado o ano inteiro. Ninguém mais se lembrava que, um dia, alguém na família tentara interromper o nosso destino, mudar a nossa história. 
     D. Fernanda tornou-se uma mulher sem rancores, compreensiva, amável, participativa. Aquela bravura de mãe acuada, disposta a enfrentar valentemente quem ousasse ameaçar os seus domínios, de repente cedeu à candura e tornou-se incapaz de manifestar reprovações ou descontentamentos, ainda que justificáveis. Tornou-se avó-símbolo para nossos filhos. Sua convivência constante no nosso cotidiano fez apagar toda aquela avalanche de desajustes do passado. Sua partida, anos mais tarde, nos deixou tristezas e saudades.


            Ana havia participado de um concurso interno, promovido pela Secretaria de Educação, para promoção ao ensino de 5a a 8a série, e foi aprovada. Passou a trabalhar apenas três vezes por semana.
            Nesse ano, 1979, eu me aposentei na ECT, no cargo de supervisor postal, com 37 anos de serviço, porém não experimentei nem um dia do tão sonhado descanso, pois  a empresa me acenou com uma recontratação e, como nós já estávamos negociando a compra do apartamento onde morávamos, achei melhor aproveitar aquela oportunidade que eu sabia não ser para sempre. Trabalhei por mais nove anos e meio, quando me afastei da empresa, em definitivo.



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