GELDA ERA UMA DAS PESSOAS com quem eu conversava quando encontrava.
Eu a conheci numa aula de legislação postal, de que participamos como candidatos a um concurso de postalista, em 1946.
No curso, sentávamos um ao lado do outro e, ao término da aula, caminhávamos juntos até o Ponto Cem Réis. Nossas conversas durante essas caminhadas eram triviais. Ela era protestante, e eu percebia que em suas palavras havia quase sempre um sentido evangelizador, tentando atrair-me para a sua religião, como é próprio de todo protestante. Por fim, ela entendeu que religião não era o meu assunto preferido e os nossos diálogos passaram a ser sobre o nosso cotidiano. Passou a confidenciar-me detalhes de sua vida em família. Queixava-se que tinha desavenças com seus familiares, por ter uma maneira liberal de viver a vida. De fato, ela não se importava de ser vista conversando com pessoas comprometidas ou não. Afirmava que era uma pessoa livre e que detestava dar satisfações sobre o que pensava ou fazia. Dizia-se moderna.
Naquela época, a minha vida conjugal já anunciava um temporal. Trovejava e ventos fortes sopravam ameaçadoramente. Decepcionado com o casamento, desabafava com ela sobre as dificuldades que eu enfrentava em casa, agravadas pelo fato de eu estar desempregado. A partir dessas confidências, estabeleceu-se entre nós uma relação de confiança mútua que fazia com que, sempre que nos encontrávamos, dedicássemos alguns minutos de conversa um ao outro. Embora nos tratássemos com intimidade, eu procurava manter-me cauteloso para que ela não se iludisse, vendo nossa amizade de forma deturpada.
Terminadas as aulas de legislação, nós nos distanciamos e só voltei a me encontrar com Gelda, novamente, quando ela estava terminando o curso pedagógico, e eu dava aulas de inglês à noite, no cursinho que ficava no mesmo prédio.
Nós nos cruzávamos na frente da Escola Pedagógica, nos horários de entrada e saída, e nossas conversas passaram a ser mais constantes. Não nego que gostava da sua companhia. A minha vida tumultuada, apesar das incontáveis tentativas e do passar dos anos, não se modificara. Ela, por sua vez, dizia que não encontrava paz em sua família e tentava a independência através do magistério. Então, retomando à antiga intimidade, houve a partir daí, entre nós, vários momentos de conversas lamuriosas.
Eu percebia que Gelda via nas atenções que eu lhe dedicava a possibilidade de um envolvimento amoroso e isso me incomodava. Eu estava preso a um casamento que, embora me infelicitasse, procurava honrar com resignação. Mas eu tinha 26 anos e sabia que corria o risco de, mais cedo ou mais tarde, cair em alguma armadilha passional que, certamente, destroçaria minha alma e minha integridade moral.
O meu casamento com Mara há muito tinha terminado. As discussões continuavam e eu já não me preocupava mais em dar satisfações das minhas amizades ou do que fazia. Voltar para casa todas as noites era um grande sacrifício. Nas poucas quadras de caminhada, minha cabeça ardia e, como um mantra, diariamente eu repetia para mim mesmo: “Não tenho sangue de barata. Preciso pôr fim a esse tormento. Por que aceitar que me destruam? Eu devo reagir e vou fazer isso. Com ajuda do meu tio ou não. A separação é a única porta por onde eu consigo sair.”
Agora, o sentimento de culpa vinha seguido da remissão: “E Eliane, um dia me compreenderá?” “Tenho certeza que essa nossa ligação de pai e filha existirá sempre, independentemente da distância.”
As pessoas das relações da família de Mara, advertidas pela evolução dos acontecimentos, permaneciam extremamente atentas. Curiosas, tentavam descobrir alguma informação a meu respeito, interrogando, até mesmo, os meus amigos mais íntimos.
Um exército me vigiava por onde eu andasse. E é lógico que começaram a surgir boatos cada vez mais criativos sobre o meu comportamento e as minhas amizades. Cada um queria ser o informante mais eficaz.
Um exército me vigiava por onde eu andasse. E é lógico que começaram a surgir boatos cada vez mais criativos sobre o meu comportamento e as minhas amizades. Cada um queria ser o informante mais eficaz.
Eu já não esperava a ajuda do meu tio. Estava convicto de que, quando se desse a separação, seria de forma difícil, traumática, porém irreversível. O gás da maledicência poderia fazer o “balão” explodir, fatalmente, a qualquer momento.
Certa noite, quando retornava da casa de um aluno, na Av. Trincheiras, deparei-me com Gelda e paramos para conversar. Ela vinha de uma escola na Rua João Machado, onde fazia estágio à noite. Mostrava-se triste com os seus problemas. Quis ouvi-la, mas não deu tempo. Mara e sua mãe saíram de trás de uma árvore como fantasmas e, caminhando em nossa direção, Mara gritou, ajudada pela segunda voz, desafinada, de sua mãe:
— Ah, sem-vergonha, até que enfim!
Foi uma cena horrível! Pareceu-me o inferno de Dante! Ouvimos vários impropérios. O mundo veio abaixo. Vi que não dominava aqueles espíritos rebeldes. Nas janelas das casas, cabeças apareceram nas luzes que se acenderam, e eu, constrangido, ordenei:
— Vá embora, Gelda, por favor!
A jovem ficou assustada, sem saber que direção tomar, enquanto eu procurava justificar-me, balbuciando palavras que eram abafadas pelos urros que ouvia. Muitos dedos me apontavam, muitos olhos me flechavam e, então, ainda paralisado, tomei a tão esperada decisão: “Esta é a hora!”
Convencido de que era o momento aguardado, ali mesmo, naquela ocasião, vi-me gigante, quebrei as algemas que me prendiam e voei para a liberdade.
Larguei as duas vociferando no vazio e tomei o caminho mais curto para chegar a casa, na Camilo de Holanda, antes delas. Entrei apressadamente e disse para Terezinha, que cuidava de Eliane:
— Estou indo embora!
Eliane dormia. Tirei-a do berço, beijei-a e, chorando, murmurei:
Terezinha, em pé, ao meu lado, também chorava.
Devolvi Eliane ao berço, virei-me, e pedi:
— Olhe por minha filha.
Rapidamente, antes que a dupla chegasse, reuni alguns objetos pessoais e voltei os olhos com tristeza e ternura para aquele tico de gente, que eu esperava, um dia, entendesse a minha decisão. Mas agora eu não tinha mais dúvidas: preferia que minha filha sofresse com a minha ausência a crescer ao lado de um “pai marionete, derrotado e sem amor próprio”. Se eu ficasse, seria esse o meu epitáfio.
CHEGUEI À PENSÃO DA RUA DA PALMEIRA, por volta das 22 horas.
Outros domingos, pela manhã, pegávamos o bonde no Ponto Cem Réis e íamos tomar banho de mar em Tambaú. Chegávamos em trajes normais, e no “Guarda-Roupas” do Cleuto Leal alugávamos um calção de banho e um escaninho com chave, onde deixávamos nossos pertences. Alugar sungas era uma prática comum para aqueles que não moravam na praia. No fim do dia, devolvíamos o calção, tínhamos direito ao banho de chuveiro e nos vestíamos para retornar à cidade. Eram tempos bem diferentes aqueles. A praia não era um divertimento comum de todos os dias. Só aos domingos.
Certo dia, quando estávamos distantes da praia, assustei-me ao ver que próximo de nós, alternadamente, descia e emergia a lombada de um grande peixe, de pele escura, e em desespero gritei para Veloso:
No verão aquela casa ficava bastante movimentada. As freiras aproveitavam a grande freqüência de veranistas e realizavam alegres quermesses com o intuito de angariar fundos para seus projetos de caridade. Os moradores da vizinhança recebiam convites especiais e ninguém se abstinha de participar de tão inusitado evento, que ocorria apenas uma vez no ano. Naquele final de verão de 53, nós, moradores da “mansão”, também recebemos o convite e, já sabendo da alegria que envolvia o acontecimento, comparecemos determinados a chamar a atenção para o nosso grupo.
A prenda... — anunciou a freira, com voz alta, no silêncio do suspense — será este enorme e cheiroso peru!
Estávamos na segunda quinzena de janeiro de 1951.
Fui admitido, novamente, na confraria do Pedroza, reencontrando alguns hóspedes amigos que ali deixara não fazia muito tempo. Fui bem recebido, alguns até disseram que sabiam que eu voltaria para lá um dia, sozinho.
Instalei-me em um quarto amplo, que tinha uma janela para a rua. Havia apenas uma cama de solteiro, um guarda-roupa improvisado para pendurar cabides, uma mesinha e uma cadeira. Era tudo o que eu necessitava.
Estava liberto; fracassado, não! Sempre acreditei que um dia a minha penitência terminaria. Restava agora esfriar a cabeça, recomeçar, orientando-me no caminho certo, na direção de um horizonte mais definido. Estava determinado a analisar meus atos, rever meus valores e reconstruir a minha vida, e disso eu mesmo me encarregaria.
No dia seguinte, no Correio, falei com Olívia e Zito, e pedi que intercedessem para que eu retirasse da casa a minha roupa e alguns objetos, principalmente a estante com os livros. À noite, Olívia me disse que estava tudo liberado. E assim, no dia seguinte, mandei pegar meus pertences e incorporei a estante com os livros aos móveis já existentes no quarto da pensão. Agora, acordando e deitando sem discussões e aborrecimentos, em uma cama de solteiro, senti prazer naquele isolamento e alegria por voltar a ser livre.
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| carnaval antigo, no Ponto Cem Reis (foto retirada da internet) |
A primeira vez que avistei Eliane, por acaso, depois que eu saí, foi no carnaval daquele ano. Ela estava nos braços da mãe. Fiquei emocionado e quase avancei em sua direção, mas me contive para não me reaproximar de D. Mara. Preferi aguardar para vê-la em outro momento.
Dias depois, D. Mara entrou com o pedido de pensão alimentícia, no Juizado de Menores. O juiz arbitrou 33,33% sobre o meu salário, que era de 1.200 cruzeiros. Pagava 400 cruzeiros pelo quarto na pensão, restando para o meu sustento menos que isso. A esse valor eu deveria somar muitas aulas particulares para poder sobreviver, dali por diante.
De qualquer forma: Vamos à luta!
EU TINHA TRÊS ALUNOS, CONSEGUI MAIS DOIS. Eles garantiriam o reforço salarial e o resto ficaria como Deus quisesse.
Naquele momento, nada era mais importante do que me apropriar do meu próprio mundo. Poder sair e voltar à hora que quisesse. Conversar com as pessoas sem críticas ou vigilância. Experimentava uma sensação que nunca sentira antes. Jovem demais vivi a disciplina e o controle do quartel e de lá saí para a prisão do casamento. Agora, desiludido e machucado, eu conseguia refletir sobre a fragilidade de um homem despencado da sua árvore familiar. Só, levado pelo vento. Mas o vendaval havia passado e disso eu tinha certeza.
Um dia, fui procurado por um amigo que dizia ter visto, afixado na porta do Tribunal, um registro civil com meu nome. Intrigado, fui verificar do que se tratava e constatei que D. Mara teve a preocupação de denunciar a minha primeira certidão de nascimento, já fora de circulação desde quando foi substituída. Nesse último delírio, aquela senhora insinuava a possibilidade de tal documento ser utilizado, irresponsavelmente, em novo casamento. Decididamente, eu não seria capaz de fazer uso fraudulento de um documento que, sequer, instruía a minha vida civil. Foi apenas uma última tentativa para turvar a minha liberdade.
ALGUNS DIAS SE PASSARAM, E EU, mais aliviado, escrevi para meu pai, contando o que me acontecera. Ele havia se mudado para Barra de Guabiraba e já tinha dois filhos com Eulália: Ailton e Hamilton, que eu não conhecia.
Imediatamente, respondeu-me lamentando, e preferiu não fazer comentários, pois, dizia: “Somente você sabe os motivos que o levaram a tomar essa decisão.” Disse, também, que vivia bem com a mulher e os filhos e que possuía um pequeno negócio na cidade.
Imediatamente, respondeu-me lamentando, e preferiu não fazer comentários, pois, dizia: “Somente você sabe os motivos que o levaram a tomar essa decisão.” Disse, também, que vivia bem com a mulher e os filhos e que possuía um pequeno negócio na cidade.
O tempo passava e, além do trabalho nos Correios, a minha preocupação era apenas com relação aos estudos de idiomas e com as aulas particulares para garantir a sobrevivência.
Depois daquele triste episódio, eu me afastei de Gelda na tentativa de contribuir para apagar o que ocorreu. É obvio que numa cidade pequena, naquela época, um escândalo daquela ordem poderia ganhar proporções inimagináveis e eu, ao afastar-me, afastava-me também do “olho do furacão”.
Eu, Humberto e Plauto formávamos um trio inseparável. Por toda parte éramos vistos juntos. De vez em quando, Eslu, estudante de Direito, em Maceió, incorporava-se ao grupo.
Às vezes, aos domingos, dirigíamo-nos ao Porto de Cabedelo para conversar, em inglês, com os americanos que chegavam nos navios. Era divertido e enriquecia nossos conhecimentos sobre a América.
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| Forte de Cabedelo, acervo familiar |
Certa ocasião, soubemos que haveria um teste para escolher um jovem para trabalhar num escritório de Representação Internacional, em João Pessoa. Eu, Humberto e Plauto nos candidatamos, pensando que Mr. Olms, chefe da representação, nos aprovaria só pelo “papo” com ele, em inglês. Mas, não! Ele nos colocou, um de cada vez, diante de uma máquina de escrever, determinando que criássemos um texto candidatando-nos à vaga existente. E assim, às primeiras linhas que surgiam impressas no papel, ele, depois de rápida análise, dizia:
— Non, non sirve! — dispensando o coitado sem maiores explicações.
Humberto foi o primeiro, depois Plauto, e eu, o último da fila. Para todos, ele repetiu as mesmas palavras:
— Non, non sirve!
Não sabíamos se ríamos da expressão e do “disco arranhado” do americano ou do ridículo por que passamos. Terminamos aquele dia com várias cervejas, no Cassino da Lagoa, relembrando a fisionomia abobalhada de cada um de nós, à medida que éramos eliminados.
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| acervo familiar |
Minha situação financeira complicou-se mais ainda. Três alunos desistiram das aulas. Comecei a me preocupar. Chegava o fim do ano e eu já não conseguia cobrir as despesas da pensão na data certa. Estava atrasado dois meses. Antes da separação eu havia contraído um pequeno empréstimo na Caixa Econômica, e esse desconto pesava no meu salário.
Gadelha era meu colega de trabalho e grande amigo. Jornalista, inteligente, brincalhão e sempre pronto a ajudar as pessoas.
Um dia, queixei-me com ele sobre a minha dificuldade financeira e ele me convidou para integrar um grupo de rapazes, seus amigos, que habitavam uma república em Tambaú, cujo aluguel, dividido, ficava suave para cada um no fim do mês.
— Se você quiser, conseguirei uma vaga — disse ele.
No mesmo dia, uma sexta-feira, no final do expediente, fui com ele conhecer o rancho. Antes, passei na pensão, peguei as minhas roupas, avisei que passaria alguns dias na casa de um amigo, na praia, e seguimos de bonde para Tambaú.
O verão havia começado. Encontrei um grupo animado, formado por rapazes solteiros, de famílias conhecidas na cidade. Eu era o único em situação diferente. De qualquer maneira, senti-me à vontade porque todos me conheciam e, talvez por influência de Gadelha, procuraram fazer com que eu me ambientasse o mais depressa possível, já que eu aceitara ser um novo membro da “Casa dos Hatefield’s”.
Pela primeira vez, desde que cheguei a João Pessoa, eu percebia as maravilhas de Tambaú, ressaltadas pela intensidade daqueles dias de verão. Suas longas manhãs de sol, suas tardes suaves e suas noites ternas atraíam muitos turistas de cidades do interior. Vi-me, de repente, um privilegiado, morando à beira-mar, com direito a ver e sentir o balançar dos coqueiros e mergulhar nas águas mornas e rasas daquele mar. Pude esquecer a aflição dos últimos anos.
Pela primeira vez, desde que cheguei a João Pessoa, eu percebia as maravilhas de Tambaú, ressaltadas pela intensidade daqueles dias de verão. Suas longas manhãs de sol, suas tardes suaves e suas noites ternas atraíam muitos turistas de cidades do interior. Vi-me, de repente, um privilegiado, morando à beira-mar, com direito a ver e sentir o balançar dos coqueiros e mergulhar nas águas mornas e rasas daquele mar. Pude esquecer a aflição dos últimos anos.
Percebia, com clareza, o quanto de vida eu havia desperdiçado ao ter me encantado com a superficialidade que me fora oferecida, tão precocemente, numa vida conjugal, deixando de vivenciar coisas mais importantes para a construção da minha personalidade e do meu caminho.
Permaneci todo o verão na comunidade dos “Hatefield’s”. Compunham essa família: jornalistas, artistas, poetas, acadêmicos, engenheiros e “biriteiros”, entre estes eu me incluí. Era uma elite cultural e social sem preconceitos. Nossa comunidade servia também de albergue e recebia a qualquer hora, do dia ou da noite, quem não tivesse paradeiro. De sábado para domingo, os hóspedes-surpresa eram tantos que alguns dormiam do lado de fora, no alpendre.
Parecia um acampamento. Dormíamos em redes, ninguém tinha cama, também não havia armários nem mesas ou cadeiras. Oferecíamos aos hóspedes o chão, uma rede ou uma esteira e um cobertor, a balaustrada para sentar e beber cerveja e mais nenhuma outra cortesia. Havia sempre uma esteira, enrolada no canto, à espera de alguém. Mesmo assim, a “Mansão dos Hatefield’s” era a mais badalada de Tambaú.
Lembro-me que, certa vez, tivemos a honra de hospedar o grande teatrólogo Paschoal Carlos Magno, que se encontrava em João Pessoa para encenar a peça “Écuba”, de Eurípedes, no Teatro Santa Rosa. Isso ficou registrado como um acontecimento histórico vivido na “Mansão dos Hatefield’s”.
Lembro-me que, certa vez, tivemos a honra de hospedar o grande teatrólogo Paschoal Carlos Magno, que se encontrava em João Pessoa para encenar a peça “Écuba”, de Eurípedes, no Teatro Santa Rosa. Isso ficou registrado como um acontecimento histórico vivido na “Mansão dos Hatefield’s”.
As refeições eram feitas no “barraco da Rosa” ou no pequeno Restaurante do Paizinho. A nossa única dificuldade era escolher em qual dos dois nos alimentaríamos, e a decisão dependia das condições financeiras de cada um, no momento.
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Aos sábados e domingos, à noite, íamos para o Bar Elite, o maior e mais frequentado da Praia de Tambaú. Sua famosa sopa de cabeça de peixe era o prato preferido. O garçom Júlio, figura conhecida e querida por todos, atendia-nos com “o que é que vai?” Ele tinha como fortes características o sorriso e as frases bem-humoradas com que recebia a freguesia, demonstrando eficiência. O Elite se tornava o point da badalação e ali, quase sempre, estava a família “Hatefield’s”.
No interior da mansão havia total companheirismo. Jamais ocorreu um desentendimento entre nós. Havia aceitação às divergências de pensamento. Encontros amorosos, esporádicos, sem maiores conseqüências, eram vistos pelos companheiros com discrição. O lema da mansão era: “União, discrição e respeito.”
E, assim, vivíamos, sem atropelos, e eu nunca mais voltei à pensão. Um mês depois, Pedroza mandou avisar-me que havia desocupado o quarto para alugá-lo e os meus objetos foram guardados num porão, aguardando que eu os apanhasse quando saldasse a conta referente aos três meses devidos. Por sorte, alguns livros que eu necessitava para as aulas ficaram na casa de Humberto.
Durante o verão, trabalhávamos na cidade e dormíamos na praia. A viagem de bonde era um passeio tonificante. O percurso durava, aproximadamente, 20 minutos, metade deles recebendo a brisa fresca do mar. Eu experimentava uma tranqüilidade diferente. D. Mara e seus familiares me esqueceram. Nunca fui incomodado por eles.
Constantemente eu visitava Olívia e Celina. Aproveitava esses momentos para ter notícias de minha filha. Elas diziam que Eliane estava sendo bem cuidada e isso me tranquilizava um pouco. Eu insistia em vê-la, porém minhas palavras não encontravam eco. E assim, por temer reavivar antigos ódios e escândalos, preferia deixar o tempo passar. Errei. Arrependi-me depois. Cedi meus direitos em favor deles, privilegiando-os em detrimento de mim mesmo. Favoreci a crítica e dei a eles o direito de me acusarem de irresponsável. Vi depois, nesse espelho, a minha própria imagem deformada.
Por enquanto, mesmo com o salário lá embaixo, eu correspondia com o grupo da praia. Mas, quando terminasse o período, o grupo ia se desfazer, e eu comecei a ficar preocupado com a responsabilidade do aluguel da casa, já que permaneceria morando nela. Pensei em arranjar outro lugar, mas Gadelha convenceu-me a ficar, dizendo que ele e mais dois amigos me ajudariam a pagar o aluguel. Aceitei a proposta, e no final de cada mês eu arrecadava a quantia para efetuar o pagamento da “mansão”.
No final de junho de 52, Gelda apareceu, inesperadamente, na praia, para se despedir. Dizia que estava indo para o Rio de Janeiro e, chorosa, afirmava que não sabia o que lhe aconteceria por lá. Sabia que nunca mais nos veríamos. Pelas suas palavras reticentes eu percebia que seus problemas familiares haviam se agravado, porém me abstive de saber detalhes. Procurei não valorizar aquele momento. Escutava-a, apenas.
O escândalo com D. Mara tinha acontecido havia muito tempo e eu evitava Gelda desde aquele incidente, depois de refletir sobre tudo o que acontecera. Reconhecia que ela teve o azar de ser exposta à vergonha, naquela noite de janeiro de 51, mas sabia também que a mesma coisa aconteceria a qualquer outra mulher que fosse encontrada conversando comigo.
A visita inesperada de Gelda, em Tambaú, deixava evidente que ela estava à procura de um ombro amigo para derramar suas mágoas, porém sua presença me desagradava porque fazia abrir as cortinas do palco onde eu fui o personagem principal de uma tragédia que eu queria esquecer.
Finalmente, despediu-se, talvez decepcionada. Abraçamo-nos cordialmente, virou-se em direção ao ônibus e, sem olhar para trás, partiu.
Naquela mesma semana, eu soube que ela havia viajado para o Rio de Janeiro e nunca mais tive notícias suas.
Os meses se passavam, vagarosamente, sem novidades.
No verão seguinte, conheci Wilson Veloso. Ele era atleta da natação. Físico bem desenvolvido, adorava desafiar as ondas do mar de Tambaú. Eu o observava e o admirava pela coragem de enfrentar o alto-mar. Aos poucos, comecei a acompanhá-lo nessa ousada aventura mar adentro. Ficávamos uma a duas horas exercitando o esporte e apreciando a costa de Tambaú, à distância. Ao retornarmos à areia, ouvíamos os comentários dos que nos observavam:
— Esses dois um dia serão devorados pelos tubarões!
O prazer que sentíamos e o desafio das braçadas sobre as ondas faziam com que desconsiderássemos esses comentários. Nadar passou a ser a minha diversão favorita nos dias de folga daquele verão.
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| foto ilustrativa, retirada da internet |
Certo dia, quando estávamos distantes da praia, assustei-me ao ver que próximo de nós, alternadamente, descia e emergia a lombada de um grande peixe, de pele escura, e em desespero gritei para Veloso:
— Cuidado! Olha aí, um peixe grande, cuidado!
Veloso, sacudindo do rosto os cabelos molhados, olhou ao redor, desnorteado, até localizar o peixe que, em sinuosa evolução, ia em sua direção. Ele sabia que não tinha como fugir e, sem perda de tempo, aproximou-se o quanto pode e, estando lado a lado com o bicho, desferiu-lhe um firme soco, fazendo-o afastar-se suavemente. Aproveitamos aquele momento e desenvolvemos, nas braçadas, uma velocidade além da nossa capacidade, voltando para a praia. Extenuados, contamos para os amigos o acontecido. Eles riram muito de nós, dizendo que era conversa de pescador. A partir desse dia, passamos a ser mais cautelosos e não nos afastávamos tanto da costa. Até hoje, quando conto essa história, tento dar-lhe veracidade, mas não consigo que uma só pessoa acredite.
E assim eu seguia ouvindo e vivendo histórias ingênuas desprovidas de maiores preocupações, descuidando do meu grande sonho que era encontrar uma cidade grande para viver e estudar.
Certa noite, os companheiros foram bebericar na praia, como era costume, e eu preferi ficar sozinho descansando na rede, no interior da “mansão”. De repente, meu olhar foi atraído para a porta da cozinha e vi, de pé, uma jovem clara, magra, de cabelos negros e lisos até os ombros, trajando um longo vestido branco de mangas compridas, com um camafeu colorido fechando a gola, junto ao pescoço. Seu semblante era tranqüilo e me fitava sem nada dizer. Senti um forte calafrio e, tremendo de cima a baixo, pulei da rede em disparada, indo para junto dos amigos contar a cena que eu acabara de presenciar. A palidez do meu rosto e a minha incontrolável gagueira fizeram com que eles também se amedrontassem. Para me acalmar, empurraram-me uma reforçada dose de cachaça. Depois de algum tempo, retornamos para casa juntos e naquela noite, apesar das “biritas”, ninguém conseguiu dormir tranquilamente.
No dia seguinte, o assunto se espalhou pelas proximidades e “Paizinho”, antigo morador do lugar, recordou que ali, exatamente na área onde fora construída a “mansão”, existiu um cemitério, que foi desativado para dar lugar às construções existentes.
Com o tempo, isso foi esquecido por todos, mas eu, particularmente, passei a ter medo de dormir sozinho, no escuro.
Aliás, outros fantasmas começaram a surgir, fazendo com que eu acordasse para a realidade de uma vida marcada. Até aquele momento, eu pensava que voltara a ser um homem livre, mas, aos poucos, fui percebendo que estava enganado. Com o passar do tempo, via que estava sendo refém dos meus próprios conceitos e que continuava preocupado com o julgamento que os outros poderiam fazer de mim. A preocupação em ser apontado como um indivíduo irresponsável e leviano continuava impedindo-me de viver.
Apesar de conversar com algumas moças de família que frequentavam a praia nos dias de verão, eu evitava estabelecer com elas algum diálogo que pudesse ser interpretado como paquera ou namoro. Fugia de qualquer indagação que revelasse a minha vida e jamais falava dos meus sentimentos. Dessa forma, comecei a perceber que, na verdade, eu era um escravo de minha própria história e dos meus próprios receios. A vida em João Pessoa se tornava um suplício. Convenci-me de que eu deveria retomar o sonho de viver numa cidade verdadeiramente grande, onde eu pudesse me tornar um homem inteiramente livre.
A inquietação voltou a tomar conta de mim.
PRÓXIMO DA CASA DOS “HATEFIELD’S” em Tambaú, havia um grande e conhecido pensionato, administrado por freiras, onde costumavam se hospedar moças e senhoras de outras cidades.
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Dentre as várias brincadeiras e sorteios, o leilão era o que mais atraía e mantinha a atenção dos convidados. As prendas, de vários valores, eram arrematadas com grande euforia numa disputa acirrada e barulhenta. Cada prenda era encarada como troféu de uma batalha a ser vencida entre os grupos adversários reunidos em torno das mesas. As brincadeiras e gracejos provocantes, por vezes depreciativos, eram considerados armas de ataque para arrasar os concorrentes, e, na verdade, a vitória existia pelo simples fato de ganhar e não por interesse no prêmio. Quando era batido o martelo, o vencedor exultava e as freiras aplaudiam com alegria por saber que uma nova rodada poderia começar.
Para o final da festa, aguardado por todos com muita expectativa, ficava reservada uma prenda especial, encerrando assim a quermesse daquele ano. A essa altura, muitas cabeças já estavam quentes e alguns já nem sabiam o que ali faziam.
A freira, mestre-de-cerimônias, ressaltou o grande prêmio, desafiando os grupos que poderiam disputá-lo naquela tarde. Correu um olhar circundante pelas mesas, fixando-se propositalmente em algumas delas e com ar de provocação convidava para o último lance da noite.
A prenda... — anunciou a freira, com voz alta, no silêncio do suspense — será este enorme e cheiroso peru!
Todos olharam para a bandeja que ela trazia nas mãos coberta por um pano branco, de linho. E como se tentasse produzir uma reação de gula no nosso grupo, ela levantou a pequena toalha e pousou o coitado do peru assado bem à frente da nossa mesa. De fato, o cheiro e a aparência daquela pele tostada nos desafiou para que, custasse o que custasse, os moradores da casa dos “Hatefield’s” fossem os vitoriosos daquela preciosidade dourada, que jazia, com as pernas esticadas para cima.
A freira deu início ao leilão em meio a grande gritaria dos presentes, que em coro ritmado e, com vozes exaltadas, cantavam o bordão:
— O peru é nosso... o peru é nosso... e ninguém põe a mão!!
Em meio a tanta euforia, a freira desafiava os outros grupos, insinuando, pelo olhar, que a prenda seria nossa.
Os que ali estavam entenderam o recado da irmã festeira, que mais e mais se animava com a exaltação geral, sem entender que os grupos opositores ao nosso se inflamavam com o visível favoritismo dela. A nossa mesa iniciou o leilão, dando o primeiro lance, que fez esquentar o sangue dos que brigavam pelo peru. Embora elevado, em relação ao valor do prêmio, ninguém desanimou. E os lances se sucediam cada vez mais competitivos, acompanhados do grito ritmado da expressão: “O peru é nosso e ninguém bota a mão”, que já se tornara musiqueta de baderna. A freira percebeu a situação constrangedora em que ficara, mas não podia abandonar o posto naquele momento crucial e disfarçava para não permitir que a sua alegria fosse encarada como cumplicidade daquela euforia maldosa. Cada lance puxava outro ainda mais alto, vibrante e ameaçador.
A casa dos “Hatefield’s” quando se sentia ameaçada cobria qualquer lance, provocando e dificultando ainda mais a finalização da brincadeira. Enquanto isso, a freira, de olhos arregalados, parecia não acreditar que o peru fosse lhe render um valor tão alto. Nem lhe chamavam à atenção as cabeças cheias de cervejas que aos poucos já começavam a desvirtuar o verdadeiro sentido da quermesse.
Finalmente, a euforia desenfreada cedeu lugar à razão e o martelo foi batido com o lance dos “Hatefield’s”.
Houve admiração geral e o peru foi colocado em nossa mesa com aplausos e vaias vindos de todos os lados.
Fez-se um breve silêncio enquanto os arrematantes se cotizavam. E logo a música ganhou outro tom, cantado apenas pelos seis integrantes da nossa mesa:
— Venham! Venham! O peru é de todos! O peru é de todos!
Depois de sermos aplaudidos e consagrados como vitoriosos, o peru foi estraçalhado e franqueado para quem quisesse, e seus pedaços devorados em poucos minutos, com muitas brincadeiras. As freiras se entreolhavam assustadas, tentando se manter à parte das piadas maliciosas, sem contudo deixar de demonstrar a enorme satisfação pela quantia arrecadada que correspondia a mais de dez perus.
Para encerrar a tarde de “peruada”, foi ensaiada uma dança de despedida. Cada qual correu para conseguir um par e eu, lerdo e zonzo pelo excesso de cervejas, sobrei, ficando a um canto da parede, sozinho. De repente, vi a saia da freira organizadora passando pela minha frente e, baixando-me um espírito endiabrado, segurei-a pelo braço, implorando que dançasse comigo. A pobre freira repeliu-me, compreensivamente, alegando sua condição de religiosa. Alguns amigos se movimentaram em minha direção e, em solidariedade à freira, empurraram-me para fora do recinto sem não antes me chamar à atenção pelo meu procedimento, que, de modo algum, condizia com o conceito dos respeitados moradores da casa dos “Hatefield’s”.
Estava encerrada a quermesse, para mim antes do tempo. Fui levado sem compreender o que acontecera.
No dia seguinte, cabeça inchada, fui procurado pelo Dr. Edwald, amigo da comunidade, que, em tom de censura, referiu-se ao meu procedimento, classificando-o de deplorável e reprovável, dizendo que em razão do “porre” me comportei de forma desrespeitosa ao querer dançar com a freira.
Vi nas palavras do amigo uma terrível decepção! Envergonhado, jurei a mim mesmo que, a partir daquele dia, não iria embriagar-me nunca mais. Passei a me policiar sobre a bebida até mesmo nas habituais reuniões na casa dos “Hatefield’s”.
TERMINADO O VERÃO DE 53, continuei na casa, e, de vez em quando, Gadelha, ou alguém do grupo, aparecia. Comecei a cansar e desabafei com Humberto que já não aguentava tanta solidão.
Humberto, ao ouvir-me, disse:
— O quarto de Jader, meu irmão, estará vazio, enquanto ele estiver no Exército. Se você quiser, poderá dormir lá em casa.
— Tudo bem, aceito, mas, por enquanto, vou ficar em sua casa apenas nos dias em que tiver que dar aulas, pois está sendo muito cansativo pegar o bonde de meia noite, para Tambaú.
— Meus pais gostam muito de você — disse Humberto — e ficarão felizes em vê-lo por lá. Vou preveni-los.
E assim, três vezes por semana, eu experimentava o prazer de ser um dos filhos do velho Sobral e de D. Regina.
Quando saía do Correio, diariamente me encontrava com José Humberto. Ele tinha conhecido Carmen no carnaval daquele ano e passaram a namorar. Ela era minha colega na Secretaria de Comunicações da Diretoria dos Correios e ele a esperava a cada final de expediente, no saguão do prédio.
Carmen era uma moça elegante. Comedida nas palavras e nos gestos, encantou Humberto com sua face alva, cabelos loiríssimos caídos sobre os ombros, olhos azuis-esverdeados, brilhantes como pedra lapidada. Era uma linda mulher que, com tranqüilidade angelical, cativava as pessoas que dela se aproximassem.
Fomos obrigados a alterar a matemática do grupo de amigos para “menos um”, a fim de que Humberto pudesse viver plenamente os encantos de sua bela Carmen. Era visível a presença do amor no par ilustre, onde quer que os encontrássemos.
NO DIA 18 DE AGOSTO, A DIRETORIA REGIONAL recebeu a visita do sr. diretor geral, Coronel Gerardo Lemos do Amaral Peixoto. Lembro-me que foi uma correria dos diabos. O diretor regional, José Pereira, não sabia o que fazer para agradar ao visitante e escapar de alguma reprimenda. Recomendou aos funcionários para que permanecessem em seus postos de trabalho com a máxima correção. Quando o homem entrasse na seção todos deveriam se levantar em sinal de respeito. Foi um dia de expectativa e nervosismo.
O diretor geral, depois de visitar a Regional, solicitou a elaboração de breve relatório sobre a Diretoria e permaneceu hospedado, por mais algumas horas, no Paraíba Palace Hotel, aguardando o documento. Como a Secretaria de Comunicação, onde eu trabalhava, era o apoio do diretor, eu fui incumbido de levar-lhe a correspondência esperada.
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| Paraíba Palace Hotel décadas 40/50 (retirada da internet) |
No quarto do hotel, fui atendido pelo seu assessor, que pediu que eu aguardasse, pois o diretor geral falava ao telefone. Quando terminou, ele apertou minha mão educadamente e, por gestos, indicou-me uma cadeira, enquanto passava os olhos no documento. Percebi logo, pela maneira educada como me recebeu, que se tratava de um gentleman, e pensei: “Quem sabe não estou diante de quem poderá resolver minha vida? Será que esse homem achará imprudência fazer-lhe um pedido? Será que ele me expulsará deste quarto? Não custa correr o risco...”
O Coronel Gerardo, pensativo, colocou o documento em uma pasta e, dirigindo-me o olhar, indagou:
— Há quanto tempo você trabalha no Correio, rapaz?
— Pouco mais de cinco anos, sr. diretor.
— E o que é que você faz?
— Eu sou copista. Datilografo ofícios e despachos na Secretaria de Comunicação da Diretoria Regional. E fora do Correio, à noite, dou aulas de inglês para complementar o salário.
— Então você fala e escreve em inglês?
— Sim, senhor.
Senti que era o momento certo. Tomei coragem e disse:
— Sei que talvez não seja o momento adequado, mas não posso perder esta oportunidade. A maneira educada como Vossa Senhoria me recebeu deu-me coragem para lhe fazer um pedido.
— Pois não! O que precisa? — disse o diretor.
— Sei também que não estou sendo ético ao me dirigir ao senhor sem antes pedir permissão ao meu superior, mas estou disposto a fazê-lo, ainda que resulte em punição administrativa.
— Qual o pedido? — insistiu o coronel.
— Sempre desejei trabalhar no Correio do Rio de Janeiro, onde certamente terei mais condições de progredir, mas encontro dificuldades para realizar esse sonho. Agora, aqui, honrado com sua atenção, penso que esse desejo poderá tornar-se realidade. Por problemas particulares, não tenho mais condições de continuar vivendo aqui. Se o senhor me conceder uma transferência será uma caridade, e, pode acreditar, eu jamais o esquecerei.
O educado coronel, perguntou-me:
— Você tem algum familiar no Rio?
— Tenho, sim. Tenho um tio, chama-se Manuel Xavier dos Passos e trabalha na Escola Técnica do Exército, na Praia Vermelha, com o General Mello Matos.
— Ah! General Mello Matos? Conheço muito! — disse. E virando-se para o seu secretário, ordenou:
— Dê-me aquele bloco.
Então, o coronel tirou do bolso do paletó uma caneta-tinteiro e começou a redigir um documento. Pediu o meu nome, cargo, matrícula, e, ao terminar, disse:
— Pedido atendido, meu rapaz! Ele será encaminhado ao seu diretor para que ele adote as providências finais.
Agradeci comovido, fazendo enorme esforço para conter as lágrimas. Aquele homem extraordinário acabava de me libertar. Ele mesmo não conhecia a dimensão do seu ato. Abria-se à minha frente a última porta do cárcere. A nova estrada chamava-se: liberdade.
O diretor regional, ao receber o expediente do sr. diretor geral, ficou uma fera, chamou-me ao seu gabinete e, quando entrei, disparou:
— Você abusou da confiança do seu diretor. Tirou proveito pessoal de uma situação oficial! Vou puni-lo!
Despenquei das alturas. Saí do gabinete arrasado. Com medo da punição, fui ao Serviço Médico, simulei uma doença e consegui 30 dias de licença. Até lá, pensava, a transferência deveria realizar-se. Que nada! Após a licença, continuei aguardando o desligamento.
Passaram-se alguns dias sem que o diretor adotasse qualquer providência, não me punia nem me desligava.
Em conversas com Gadelha, que trabalhava na Seção de Pessoal, este me confidenciou que ouvira o diretor dizer que não ia me desligar, e sim punir, desse no que desse.
José Pereira fazia uma administração fundamentada na anulação aos seus opositores. Era arrogante, sem nenhum preparo intelectual para o cargo que exercia. Seu andar duro, empinado de orgulho vazio, que mais parecia um senhor de escravos, dava-lhe a imagem da prepotência e da intolerância.
E o tempo corria. Os comentários sobre o meu não-desligamento evidenciavam que o diretor se sentia forte ao enfrentar a Administração Central. Eu via aquilo como uma tentativa de me amedrontar e, um dia, decidi tirar a prova dos noves.
Desci ao térreo, peguei um formulário, e, de próprio punho, ali, redigi um telegrama, urgente, ao diretor geral, lamentando profundamente a atitude atípica do diretor regional dos Correios da Paraíba que, até aquela data, usando uma estratégia pretensiosa, vinha protelando o cumprimento da Portaria que me removia, a pedido, para a Diretoria Regional do Distrito Federal. Disse-lhe, ainda, que havia comentários na repartição de que a referida Portaria não seria cumprida. “Apelo, portanto, para a sua ajuda, sr. diretor geral!” Assinei o telegrama e enviei. Retornei à seção sem fazer qualquer comentário e durante todo o expediente permaneci em alerta. O telegrama não transpirou.
A curiosidade pelo resultado daquela discreta “guerra-de-braço” estava em todos os cantos da diretoria.
No final do dia, minha chefe foi chamada ao gabinete do diretor e, ao retornar, me informou que ele havia determinado o meu desligamento. Todos ficaram sem entender por que ele mudou de ideia, tão repentinamente.
No dia seguinte, 23/10, fui desligado.
Que alívio!!! Com a viagem marcada para dois dias depois, eu deveria agilizar as despedidas.
Saí eufórico da Seção, despedindo-me de quem ia encontrando pela frente até chegar à rua. Parei naquele mesmo lugar onde um dia cheguei ainda adolescente, carregando um pacote de roupas e, de peito aberto, olhei para o alto, respirei fundo, e agradeci a Deus por estar me libertando.
O resto da tarde dediquei a encontros rápidos com amigos para me despedir. À noite, fui à casa de Celina e Olívia e pedi ajuda para ver Eliane, no dia seguinte, antes de partir.
No sábado retornei e Celina foi buscar Eliane, mas D. Mara não permitiu. Revoltado, dirigi-me à casa dela. Parei na frente do portão, empurrei-o, mas estava trancado. A casa parecia desabitada. Faltou-me idéia e coragem para tomar qualquer outra atitude. Desisti. Fui embora...
Depois, fui à casa de Humberto. Lamentei com ele o fato de não ter podido, durante esse tempo, retirar os livros que ficaram guardados na pensão do Pedroza, por conta da dívida de três meses de aluguel do quarto. Até aquele dia eu pensava em recuperá-los, mas agora seria impossível. Então, propus a Humberto que saldasse, por mim, aquele débito e ficasse com os livros e a estante, e ele concordou.
Despedi-me de Humberto e de seus pais com lágrimas. E, finalmente, fui à casa de Plauto. Ficaram para trás muitos outros amigos que nunca mais vi.
Já era noite quando retornei para a casa da praia. Arrumei a mala e fiz uma rápida cartinha para Inocência, contando o que estava acontecendo e prometi que, ao chegar ao Rio, escreveria novamente.
Por tudo que passei, partia com a sensação de que nunca mais veria minhas tias.
Meu pai, eu deixei para avisar quando já estivesse no Rio.
Naquela noite não dormi. Todos os meus fantasmas vieram se despedir de mim, e eu os enfrentei sem temor.
O dia parecia não querer chegar. Saí para me despedir do mar que, durante aqueles últimos tempos, tinha sido o meu confidente mais fiel. Eu me acostumara com seus sábios conselhos soprados aos meus ouvidos.
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| (foto retirada da internet) |
Contemplei-o silenciosamente. Vi, naquele momento, repetir-se a visão que eu tivera ao vê-lo pela primeira vez; quando, matuto, recém-chegado do sertão, não conhecia o mar, nem o cheiro da maresia, nem o marulho insistente. Foi uma emoção alegre misturada ao medo diante daquela imensidão que espantava os meus olhos. Aquele quadro de verão de 1941 permanecia pintado, com cores vivas, na minha memória.
Até então, eu achava que o mar fosse semelhante a um enorme açude, e que suas ondas tivessem o mesmo movimento das correntezas caudalosas do rio da Cruz em época de cheia, mas, quando o vi de perto, percebi que ele tinha uma beleza incomparável e uma grandeza imensurável.
Agora, ouvindo o seu último murmúrio, eu estava ali para agradecer os momentos que vivemos em completa intimidade e, num gesto de despedida, mergulhei em suas águas pensando ser o nosso último abraço.
Era hora de partir. Voltei para casa, vesti a minha melhor roupa, coloquei a passagem da Panair do Brasil no bolso do paletó e, carregando uma mala com roupas e pequenos objetos, chamei um carro de praça e parti rumo ao aeroporto.
No caminho, pensei no meu avô e tomei consciência de que me afastava ainda mais do meu ponto de partida. Uma lágrima inesperada rolou pela minha face e lembrei que um dia parti deixando-o num choro triste e, agora, sozinho, precisava enxugar o meu próprio pranto.
E assim, no domingo, dia 25, entrei pela primeira vez em um avião. À primeira vista, aquilo me parecia um monstro. Um suor frio corria em minha face. Sentei-me junto à janela e quando o avião decolou tive a sensação de estar sendo alçado aos céus.
Dali, contemplei uma paisagem inusitada, de uma João Pessoa que antes me parecia tão grande, mas, das alturas, e por tudo que vivi, a visão que me oferecia agora era de uma cidade muito pequena...
ADEUS, João Pessoa!
E assim, no domingo, dia 25, entrei pela primeira vez em um avião. À primeira vista, aquilo me parecia um monstro. Um suor frio corria em minha face. Sentei-me junto à janela e quando o avião decolou tive a sensação de estar sendo alçado aos céus.
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| João Pessoa, vista aérea retirada da internet |
Dali, contemplei uma paisagem inusitada, de uma João Pessoa que antes me parecia tão grande, mas, das alturas, e por tudo que vivi, a visão que me oferecia agora era de uma cidade muito pequena...
ADEUS, João Pessoa!
E, desta vez, eu não olhei para ver a porteira fechar-se atrás de mim.
O comandante começou a avisar que estávamos passando sobre essa ou aquela cidade e o caipira aqui, encolhido, olhava para baixo amedrontado com a altura e comentava consigo mesmo: “Meu Deus, já pensou se isso despenca lá embaixo?”
O avião seguiu rompendo as nuvens e, de vez em quando, caía num vácuo. Eu me apavorava. Refeito dos vários sustos causados pelas turbulências do voo, eu sentia um bem-estar muito forte, imaginando-me transportado pelas asas da própria liberdade.
Acordei com a voz do comandante:
— Dentro de instantes, estaremos descendo no Aeroporto Santos Dumont.
BEM-VINDOS ao Rio de Janeiro!
FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO

















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