1947. Olívia continuava minha amiga e confidente. Lamentava o comportamento que seus familiares tinham para comigo. Quando eu me mostrava desanimado, era ela quem me encorajava a prosseguir:
— Um dia, as nuvens negras se dissiparão. É uma questão de tempo — dizia.
Ela trabalhava na Gerência de Pessoal da Diretoria dos Correios e já havia conseguido colocar ali seu irmão e sua mãe. Ficou sabendo que, no final do ano, o Departamento iria disponibilizar algumas vagas de diarista, com salário de 400 mil réis. Conversou com seu chefe e pleiteou uma das vagas para mim. E, assim, saí da firma em que trabalhava e no dia seguinte, 1o de dezembro de 1947, fui admitido nos Correios e Telégrafos.
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| Antigo prédio dos correios e telegráficos de João pessoa |
Naquele momento, Olívia não podia imaginar que estava sendo a precursora da minha libertação.
No meu primeiro dia de trabalho nos Correios, do alto daquela escadaria que dava para a rua, parei, olhei para a praça em frente e me vi chegando a João Pessoa, com minhas poucas roupas enroladas em um papel de embrulho. Cheio de ilusão, cheio de vontade de vencer e de conhecer pessoas.
Durante algum tempo houve uma pausa nas minhas inquietações. Cheguei até a admitir que pudesse esquecer as crueldades que sofri. Parecia ter encontrado a tranqüilidade.
Eu estava extremamente entusiasmado com o novo emprego. Lotaram-me na 4a Seção, onde era feita a separação da correspondência, por destino. Era uma tarefa fácil, eu logo assimilei o procedimento e, em pouco tempo, aprendi tudo que se fazia ali.
Tive bom desempenho e, algum tempo depois, fui transferido para a Sala do Telégrafo, onde executei tarefas bem diferentes daquelas com as quais já havia me identificado na área postal.
Fiz boas amizades: Gaudioso, João de Deus e Pedro Campos que, de forma competente, transmitiam segurança e conhecimento a todos que compunham as diversas equipes sob suas lideranças. Quando cobravam resultados, o faziam sempre de maneira cordial, sem alarde ou imposição.
Além deles, havia também D. Maria, encarregada da expedição dos telegramas, Hermano e Ruy de Assis, que deixaram em mim marcas que o tempo não apagou.
Ruy de Assis, cara de garoto, era estafeta, isto é, fazia a entrega de telegramas. Sua área compreendia o bairro de Jaguaribe. Carregava as mensagens em uma bolsa do tipo pochete presa a uma correia larga que cingia a cintura. Usava uniforme cáqui desbotado, abotoado até em cima e boné do mesmo tecido, sobre uma farta cabeleira rigorosamente engomada. Diariamente, depois de receber o o.k. da encarregada da divisão dos distritos, aquele varapau de andar ereto e gestos fagueiros saía escadaria abaixo, dois degraus de cada vez, a fim de pegar o bonde que passava na frente dos Correios. Essa era a sua rotina e o seu serviço. Naquela época já era uma figuraça.
Ruy era dotado de boa lábia, todos gostavam dele. Sempre foi um colega prestativo. Cedo, tornou-se um exímio telegrafista.
Paralelo ao telégrafo, cantava na PR-4, Rádio Tabajara, o programa de Paschoal Carrilho que, na época, emergia com grande força na Paraíba. Seus cantores e locutores se tornavam ídolos rapidamente.
Paralelo ao telégrafo, cantava na PR-4, Rádio Tabajara, o programa de Paschoal Carrilho que, na época, emergia com grande força na Paraíba. Seus cantores e locutores se tornavam ídolos rapidamente.
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| foto retirada da internet |
Algumas vezes, compareci ao auditório da rádio para prestigiá-lo.
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| foto retirada da internet |
Tempos depois, conseguiu transferência para os Correios do Rio de Janeiro na esperança de vencer como cantor.
Por esse tempo, eu executava tarefas internas na sala do telégrafo: fiz parte da mesa de saída dos telegramas e fui colante — aquele que colava as tirinhas de papel com a mensagem impressa no modelo que seria entregue ao destinatário. Embora o telégrafo funcionasse com revezamento de turnos para garantir o funcionamento ininterrupto, por 24 horas, eu trabalhava fixo, durante o dia.
Da Sala do Telégrafo migrei para a Secretaria da Diretoria Regional, por onde passavam todos os documentos considerados sigilosos ou reservados. Lá, executei diversas tarefas burocráticas, ampliei meus conhecimentos e participei de comissões de sindicâncias e de inquéritos, na capital e no interior, o que permitiu que eu me tornasse um funcionário de confiança da diretoria. Senti-me valorizado. Era um funcionário interessado e procurava trabalhar de forma correta. Por essa razão, estava sempre em evidência para alguma missão.
Em casa, tudo parecia caminhar para o entendimento. Eu me sentia com a auto-estima elevada, e achava que nunca mais seria cobrado por não ter emprego. Considerava Olívia o meu anjo libertador.
Não tardou muito e na família começaram os cochichos sobre minha nova situação. Eu não era mais chamado de vagabundo, mas, vez por outra, ouvia indiretas que me aconselhavam a procurar casa para morar.
Eu mesmo achava que estava na hora de tomar essa decisão, embora não me sentisse financeiramente em condições para enfrentar a nova situação. Mas precisava me libertar daquela subordinação familiar, mesmo correndo riscos. Chegara a hora de assumir aquele casamento a dois!
Olívia apaixonou-se pelo jovem Vicente, um rapaz simples e educado. Ele possuía um caminhão no qual transportava, por conta própria, cargas entre o Nordeste e o Sul, o que lhe assegurava independência financeira.
Marcaram o casamento. No dia, a casa deles ficou lotada de convidados. Celina e Zito estavam exultantes. Olívia mostrava-se feliz. Na hora do brinde, aproximei-me dos noivos e pude perceber o amor que os unia. Confesso que invejei a felicidade do casal.
Geralda, sobrinha de Vicente, recém-casada, residia em uma casa alugada, cujo valor estava além de suas posses e pensava em se mudar para uma outra de aluguel mais condizente. Olívia, sabendo que a avó e o tio estavam loucos para me ver pelas costas, valeu-se das lamentações de Geralda e lhe propôs uma parceria: ela me cederia parte da casa e eu pagaria a metade do aluguel, bem como outras despesas. Geralda e seu esposo Heraldo aceitaram a proposta.
Mais uma vez, Olívia tentava me ajudar. Ela conhecia a minha história e a vontade que eu tinha de viver dignamente. Lutava agora pela minha libertação total.
Na mesma semana nós nos mudamos. Preocupava-me o comportamento de Mara, tão acostumada ao convívio com a mãe e tão habituada a discussões e calúnias gratuitas.
Nos primeiros dias procuramos nos adaptar. Afinal, eram dois casais diferentes, com hábitos próprios, ocupando dois quartos de uma mesma casa. A princípio, tudo pareciam flores, conversávamos amenidades e até passeávamos juntos, os quatro. A vida transcorria em aparente normalidade. Os homens se dividiam nas contas da casa e as mulheres na rotina doméstica, já que não tinham empregos. Heraldo e Geralda eram muito alegres.
Longe, agora, da “Casa das Torturas”, parecia que tudo estaria resolvido. Mara, separada da mãe, mentora intelectual de todos os nossos conflitos, vivendo nesse novo ambiente onde se usava uma linguagem mais tranquila, iria, certamente, modificar-se. Eu acreditava que ela se convencesse que eu não era um tipo irresponsável.
Ilusão!
Depois de alguns meses, ela começou a reclamar do salário apertado que mal dava para as despesas. Sentia falta do conforto com que sempre viveu e passou a procurar a mãe constantemente. Com ela trocava idéias e lamentos. Não demorou muito e Mara voltou a assumir um comportamento agressivo comigo. Pensei que estivesse curada, mas não estava. “Não passou no teste”, dizia eu. Por qualquer motivo, dirigia-me palavras afrontosas, xingava sua própria vida. O mau humor era constante, reclamava de tudo, e as discussões recomeçaram.
Geralda e Heraldo começaram a se sentir incomodados com as nossas brigas. Envergonhado, fui me afastando daqueles amigos. Eles eram pessoas maravilhosas e, apesar de tudo, tentavam, pacientemente, nos tolerar.
Repentinamente o nosso convívio com o casal entrou numa rota de colisão tão grande que se tornou impossível evitar a ruptura. Eles, contrariados, um dia nos comunicaram que gostariam que nós procurássemos outra casa para morar, já que o nosso comportamento começava a interferir também na vida deles. Concordei. Disse-lhes que já havia percebido o inconveniente da nossa presença, mas pedi que eles nos dessem tempo para procurarmos outra moradia.
Na manhã seguinte, quando saí para o Correio, Mara foi encontrar-se com sua mãe sem que eu soubesse. Contou-lhe que havíamos sido despejados, que estávamos sem ter onde morar e que a melhor solução seria a nossa volta, imediatamente, uma vez que o meu salário não permitia alugar uma casa. A reivindicação foi submetida a Juca, que repeliu a ideia, dizendo que ela poderia voltar sozinha, se quisesse. Caso contrário, ele até poderia ajudar financeiramente, desde que não voltássemos a morar com eles.
Sem saber de nada, nesse mesmo dia, quando voltei para casa, não encontrei Mara nem nossos poucos móveis e objetos, sendo informado por Geralda que ela havia se mudado com ajuda de sua mãe, que lá esteve acompanhada de um carroceiro. Partiram sem dizer para onde estavam indo. Ficaram apenas as minhas poucas roupas e objetos pessoais.
Fiquei atordoado, sem saber o que fazer, pois desconhecia, até aquele instante, o rumo das duas. Decidi que devia aguardar alguma notícia. A noite chegou sem que eu tivesse noção do que se passava e sem ter, sequer, onde dormir.
Então, Geralda, vendo a minha dificuldade, ofereceu-me o jantar e uma esteira de palha de carnaúba para eu forrar o chão do quarto vazio e dormir até o dia seguinte, quando, de cabeça fria, deveria encontrar uma solução.
Então, Geralda, vendo a minha dificuldade, ofereceu-me o jantar e uma esteira de palha de carnaúba para eu forrar o chão do quarto vazio e dormir até o dia seguinte, quando, de cabeça fria, deveria encontrar uma solução.
Fiquei assim durante três dias, completamente à deriva. Quando voltava à noite para a casa de Heraldo e não encontrava nenhum recado, nenhuma satisfação, eu me sentia um farrapo. Não aceitava a ideia de ir procurá-la na casa da mãe nem me rebaixar pedindo que voltasse. “Se ela quer assim, assim será!”, falava para mim mesmo.
Depois desses dias de incertezas, Geralda confessou-me que sabia que Juca aceitara a volta de Mara, desacompanhada, e ela concordara. Concluí que o casamento havia terminado. Um misto de alívio e revolta tomou conta de mim.
Durante aqueles dias não fui procurado por ninguém no Correio.
Eu sentia repugnância pela atitude insensata de Mara e sua mãe, e decidi que devia procurar um quarto para me instalar e dar um novo rumo à minha vida. Sabia que ia enfrentar dificuldades, mas também sabia que agora eu não devia me acovardar.
Cheio de mágoas, no trabalho comentava com os amigos sobre a decisão que eu deveria tomar, quando, de repente, no quarto dia, apareceu Mara. Desgrenhada, como se surgisse do fundo de uma noite não dormida, vestida sem nenhum cuidado, chorando copiosamente, atirou-se ajoelhada a meus pés suplicando que eu a perdoasse, pois havia refletido muito sobre sua atitude e queria reparar seus erros. Transtornada, pedia-me que a ouvisse, que não a abandonasse. Repetia insistentemente que era a única culpada.
Eu a repeli.
A cena era repugnante.
Eu já havia decidido fazer o meu caminho e disse-lhe:
— Não há condições para continuarmos juntos, já sofremos demais. E agora, depois dessa sua atitude odiosa, refleti e vi que nosso casamento chegou ao fim, se é que alguma vez existiu. Por que não aproveita você também essa sensação de liberdade que eu estou sentindo, e não dá um novo rumo à sua vida?
Essas cenas se desenrolavam na escadaria de acesso ao gabinete da Gerência de Operações. Muitos curiosos paravam para assistir ao show, alguns interferiam na minha atitude de repulsa e pediam para que eu desse uma nova chance àquela mulher, que parecia profundamente arrependida. Já havia um coro, jocoso. E eu, ali, envergonhado, observado por todos. Para acabar com a cena ridícula, resolvi me render. Puxei-a para um canto e disse que concordava em reativar nosso relacionamento com a condição de não voltar para a casa de sua mãe.
Enfim, ela conseguiu o armistício! Para pôr fim ao drama, disse-lhe que a procuraria no fim do dia.
Mais que depressa, ela, ajudada pela mãe, levou para uma pensão os móveis e objetos que haviam retirado da casa de Geralda. Fizeram tudo às pressas e Mara, já recomposta, voltou ao Correio para me avisar que, quando eu saísse, fosse direto para o novo endereço.
Depois eu soube que Mara havia conseguido de seu irmão o “sinal-verde” para alugar um quarto. Ele assumiria o aluguel, e assim fizeram. Alugaram um quarto numa velha pensão, na Rua da Palmeira, e ficaram aguardando que eu a procurasse para ocupá-lo. Como os dias se passaram sem que eu aparecesse, ela optou por aquele teatro, sabendo que eu faria qualquer coisa para não ser envergonhado em público. Ela sabia que eu sempre temi o julgamento alheio, e fazer uso inescrupuloso dessa minha característica ajudaria a vencer qualquer batalha contra mim.
O quarto era horrível. Horrível também estava o meu interior. A sensação era de fracasso total e eu me culpava por ter cedido diante da interferência descabida de pessoas estranhas que nada sabiam de nós. Naquele quarto de pensão nada me contemplava: havia pouco espaço para os poucos móveis e o banheiro era de uso comum. O contrato não incluía refeições. Enfim, era um péssimo lugar para encontrar tranqüilidade.
Algumas vezes comíamos de marmita, outras vezes, na pensão, que era de melhor qualidade. Porém, Mara não gostava de sentar-se à mesa com os demais hóspedes, devido ao falatório, aos comentários vulgares que surgiam de vez em quando e às maneiras pouco polidas de alguns. Por isso, quase sempre, aguardávamos até que algumas mesas estivessem vazias para ocuparmos um lugar.
Confesso que eu já não era mais o mesmo homem. Não me iludi com aquele escandaloso arrependimento. Mas teimava em levar uma vida normal, pois havia, da parte dela, o compromisso de nunca mais repetir cenas de ciúmes ou de escândalos como as que vinham acontecendo nos últimos tempos.
Aquele horroroso episódio da escadaria parecia tê-la assustado. De minha parte, eu não acreditava nas suas vãs promessas, mas tinha um fio de esperança de que ela, aos poucos, aprendesse com o sofrimento e se afastasse cada vez mais de sua mãe, que tanto a influenciava. Sabia que teria que ter paciência, botar panos quentes no que viesse, apesar do seu gênio difícil.
Não tardou e Mara começou a implicar com um dos hóspedes da pensão, o Sargento Arlindo. Ela o detestava simplesmente porque nós, aos sábados e domingos, puxávamos uma cadeira e ficávamos horas conversando à sombra de uma gameleira no jardim da pensão. Ela achava que o assunto era mulheres.
Tudo recomeçou e eu suportava sem alternativa, temendo um novo escândalo, uma tragédia talvez. À noite, trancados em nosso quarto, eu tentava lembrar-lhe a promessa assumida, repetindo uma longa ladainha.
Além do Sargento Arlindo, havia um outro, da Marinha, a quem Mara também odiava pelo mesmo motivo: o papo debaixo da gameleira. Quando ela cruzava com qualquer dos dois, nos corredores da pensão, não respondia aos seus cumprimentos e emitia sempre um muxoxo de desprezo que eles desconsideravam, deixando para fazer algum comentário queixoso comigo.
Em pouco tempo, os outros hóspedes perceberam que ela era uma pessoa de comportamento estranho, de difícil relacionamento, que precisava ser tratada com muito cuidado. Então, eles passaram a nos evitar, e eu me sentia envergonhado.
De uma hora para outra, houve uma pausa em nossas brigas. Estava quase convencido de que as coisas iriam mudar, como resultado da minha atitude paciente. Passei a confiar no tempo. Aos poucos ela passou a conversar com os hóspedes da pensão. Quanto a mim, passou a dispensar outro tratamento: fazia planos para o futuro, afirmava que agora estava segura e que era muito importante voltarmos a viver dignamente, pois aprendera a valorizar o que possuía.
Porém, essa paz não demorou muito. Ela voltou a se preocupar com as minhas amizades, insinuando, vez por outra, que eu tinha encontros secretos. Sempre que eu chegava um pouco mais tarde, por encontrar algum amigo pelo caminho, ou por outro motivo qualquer, era recebido com interpelações descabidas. Uma nova onda de repugnância invadiu-me, bem como um desejo de repelir agressivamente suas insinuações, mas eu preferi me impor um completo e misterioso silêncio. Vinha à minha mente a certeza de que aquele choro na escadaria fora falso e teatral. Eu devia ter ficado alheio a toda aquela encenação. Por outro lado, admitia que eu houvesse capitulado e só me restava assumir o ônus da minha fraqueza e enfrentar essa outra fase até que ela mesma se convencesse que a nossa separação era uma questão de tempo.
E, ASSIM, EMPURRAMOS A VIDA e conseguimos chegar no meado de 1949.
Nossa situação financeira, que já era precária, tornava-se ainda mais complicada. Mãe e filha sempre trocaram figurinhas, e nas horas difíceis Mara resolvia com ela as suas necessidades pessoais, porém não lhe passava pela cabeça voltar a trabalhar como fazia no tempo em que a conheci, o que, por certo, nos ajudaria a sair daquela situação humilhante.
Em meio a esse clima desfavorável e confuso, um dia ela me fez a seguinte revelação, em tom desafiador:
— Estou grávida! Agora eu quero ver o que tu vais fazer! — falou com um sorriso debochado nos lábios.
Eu logo achei que era mais uma apelação, uma declaração falsa, com o firme propósito de mexer com os meus nervos.
Demonstrei não acreditar, mas ela continuou, afirmando que fora ao médico e que já tinha a confirmação. Disse-me também que a notícia já era do conhecimento de sua mãe. Assim, entre surpreso e ainda descrente, divulguei a notícia para os meus amigos. Abria-se uma nova perspectiva em nossa relação e eu fiquei atordoado, sem saber como lidar com essa realidade.
Com o correr dos dias, a gravidez se tornou evidente e nossas desavenças, que já eram cíclicas, voltaram. O seu comportamento esquisito passou a inquietar também os donos da pensão, uma vez que ela, ao passar pelo Sargento Arlindo, sempre assumia atitude provocadora. A possibilidade de reação do ofendido passou a preocupar os outros hóspedes, e eu pensava numa maneira de contemporizar. A barriga parecia não a preocupar. Porém, eu temia uma reação desastrosa que pudesse prejudicar a criança.
Nessa época, formou-se um pequeno grupo de aficionados da língua inglesa: José Humberto, Plauto Mesquita e Eslu Eloi, todos estudantes, e eu.
Sempre nos encontrávamos no Cassino da Lagoa ou na calçada em frente, no Parque Sólon de Lucena, onde ficávamos boa parte do tempo num agradável bate-papo em inglês. Aquela reunião do grupo era uma aula prática que aprimorava os nossos conhecimentos. Agora, eu tinha um bom motivo para demorar na companhia dos amigos.
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| Parque Solon de lucena , década de 40 |
Conheci José Humberto no tempo em que eu ainda residia no Roger. Ele sempre soube da minha história e sempre me ouviu com paciência e compreensão, o que fazia com que a sua amizade me fosse salutar e necessária. Ele via com serenidade os meus defeitos e me encorajava nos momentos em que eu parecia duvidar de mim mesmo. Suas reflexões inteligentes me davam a certeza de que nada de mal me aconteceria. Quando conversávamos, as minhas aflições se diluíam e eu ganhava forças para prosseguir. Calmo e sereno, sabia ouvir e externar suas idéias. Ele foi o irmão que eu não tive.
Por essas qualidades, de companheirismo, solidariedade e bom humor, era presença obrigatória no grupo. Suas brincadeiras sempre produziam muitas gargalhadas, principalmente quando envolviam histórias e observações de elementos do próprio grupo. Gostava de contar anedotas ou recitar algum verso “sacana” que fazia com que todos chorassem de tanto rir. Foi sempre espirituoso, inteligente, brilhante e, acima de tudo, amigo. Era considerado o mais preparado no domínio da língua inglesa, sendo confundido, algumas vezes, com nativos americanos devido ao seu correto inglês e particularmente por seu tipo físico, destacado pelos cabelos claros.
Aquela figura alta, esguia, inconfundível, quando surgia ao longe, ensejava a exclamação:
— Lá vem Humberto!
O grupo só se completava com a presença dele.
Em seu dia-a-dia sempre mostrou que a convivência sadia que ele tão bem exercitava era herança de família. E isso o definia como uma pessoa extraordinariamente humana cuja companhia era disputada por cada um de nós.
Ele nunca se valeu de seu destaque para censurar ou ridicularizar qualquer dos companheiros, e, por sua espontaneidade, conquistou o lugar privilegiado que ainda hoje ocupa entre os amigos que fez há mais de 60 anos.
Plauto era, também, figura importante na composição do grupo. Inteligente, culto, ria mais do que falava e, quase sempre, era o último a contar uma novidade.
Plauto e Humberto tiveram grande influência em minha vida. Foram os grandes timoneiros que conduziram o meu barco quando eu já não tinha forças para remar contra a forte onda que se abateria sobre mim tempos depois. Com eles eu pude divisar um horizonte.
Havia entre mim e Humberto um perfeito entrosamento e, motivados pelo incentivo de algumas pessoas e por nosso envolvimento no meio estudantil, começamos a pensar num cursinho de inglês para iniciantes. A ideia se espalhou rapidamente e os interessados nos procuravam para informações sobre o início das aulas. Aquilo nos animou, mas precisávamos encontrar um local para o funcionamento do curso.
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| Liceu Paraibano (Foto ilustrativa, retirada da Internet) |
Iniciamos uma verdadeira maratona. Depois de algumas sugestões, visitamos o diretor do Liceu, que prontamente nos destinou uma sala daquele educandário, três vezes por semana, a partir das 19 horas.
Nascia, assim, não oficialmente, o “Basic English”, com 17 alunos adultos, entre os quais um capitão do Exército e um engenheiro, ambos com suas esposas. Eles já tinham conhecimentos de inglês e queriam apenas participar, os demais eram iniciantes.
Essa experiência exigiu de mim muita coragem e marcou-me positivamente. Foi um período inesquecível onde, além de ter tido a oportunidade de pôr em prática meus conhecimentos, ampliei o meu círculo de amizades.
Não demorou muito para que Mara, mais uma vez assessorada por sua mãe, voltasse a vigiar meu comportamento ao final das aulas. O curso funcionava às segundas, quartas e sextas, e, nesses dias, mãe e filha ficavam de atalaia perto do Liceu, para verificar se eu demonstrava intimidade com alguma aluna.
Fui prevenido de que elas ficavam atrás de árvores, um pouco distante de onde passávamos, e cheguei mesmo a constatar isso, pessoalmente. Começou, então, um novo ciclo de bate-boca! A minha paciência estava no limite, e mesmo sabendo que ela esperava um filho meu eu não podia deixar de me revoltar com aquela insensatez. Jamais poderia imaginar que alguém, com aquela barriga, fosse tão inconsequente.
No grupo de alunos havia cinco moças. Foi escolhida para vítima a noiva de um engenheiro estrangeiro. Ela estudava inglês porque ia morar na Suíça. Mara encrencou com a jovem porque algumas vezes, após o término da aula, na saída, ela parou para conversar comigo, tentando esclarecer alguma dúvida pendente da aula.
Senti-me caluniado mais uma vez e me arrependia por não ter, de fato, dado motivos para ela me acusar. Eu já estava tentado a lhe “dar uma chance” quando ela anunciou a gravidez. Agora, o senso de responsabilidade que sempre me acompanhou impedia que eu realizasse qualquer vingança: dar um troco de bom tamanho.
Será que ela não percebia que eu dava aulas à noite por uma questão financeira? Será que ela não sabia que aquele dinheirinho suado estava nos ajudando a sair da situação difícil de antes? Claro que sabia! E, então, como é que eu suportaria viver ao lado de uma mulher, angustiado por tantas infâmias miseráveis que me atingiam novamente? Se antes eu já tinha dificuldades e vergonha em lidar com aquela situação, imaginem com a chegada de uma criança. Mara parecia não perceber que muitas vezes eu me calava, humilhado, em respeito à sua gravidez.
Ela estava nos últimos meses de gestação quando viajei para o interior do Estado, integrando uma Comissão de Inquérito formada para apurar irregularidades na Agência dos Correios de Conceição do Piancó. Esperava que aquela trégua, de poucos dias, trouxesse um alívio para a difícil situação que estávamos vivendo, mas que nada! Quando retornei, continuei carregando a pesada cruz. Ela persistia em suas atitudes de desconsideração e grosserias agravadas pelas desconfianças descabidas.
MARÇO DE 1950. O bebê deveria nascer a qualquer momento.
Enquanto os dias passavam, aumentava a minha insegurança e eu me perguntava se morando naquela pensão teríamos condições de dar o apoio necessário à criança, quando saísse da maternidade.
Os proprietários da pensão, Sr. Pedroza e D. Juracy, percebendo o meu estado de angústia, tentavam me acalmar, dizendo que na hora H estariam prontos para nos ajudar. Relaxei um pouco, vi que não estava tão só.
No dia 15, D. Juracy percebeu que faltava pouco para a criança nascer e avisou que era melhor ficarmos de sobreaviso. Fui trabalhar em clima de expectativa, mas somente na madrugada do dia 16 Mara começou a sentir as dores do parto, e nós a levamos, às pressas, para a maternidade. Ela ficou internada em um quarto simples, sem direito a acompanhante. Disseram-me que eu só poderia vê-la depois do parto. Senti obrigação de avisar a sua mãe e, quando retornei à maternidade, pela manhã, ela e Olívia já estavam lá. Olívia, que seria madrinha da criança, tranquilizou-me, dizendo que eu não me preocupasse com as providências para a chegada da criança, pois já tinha em mente a compra do berço para aquele mesmo dia. Fiquei tranqüilo.
A criança ainda não havia nascido e eu precisei ir ao Correio, justificar a minha ausência, naquele dia. Avisei à enfermeira que voltaria mais tarde e pedi-lhe que me comunicasse qualquer novidade.
Eram 8 horas quando tocou o telefone do gabinete da Chefia Postal. Era da maternidade. Nervoso, atendi. A enfermeira foi logo me parabenizando pelo nascimento de uma linda menina. Saí dali voando, tomei o bonde no Ponto Cem Réis com destino a Trincheiras e, em poucos minutos, cheguei ao hospital, onde pedi para ver a parturiente e a criança, mas a enfermeira disse que ainda era cedo, não podia ver nem uma nem outra, somente no horário da tarde. Todavia, eu devia ficar tranqüilo, porque ambas passavam bem. Deixei um recado com a enfermeira para que avisasse Mara que eu estivera ali e que, mais tarde, retornaria. Eu precisava tomar algumas providências com relação à arrumação do quarto para quando as duas saíssem. Feliz, comuniquei a todos na pensão que minha filha havia nascido. Fui muito cumprimentado.
Ao voltar, à tarde, encontrei-a acompanhada de sua mãe no quarto do hospital. A enfermeira levou-me até o berçário e, através de um vidro, apresentou-me à criança. Eliane era linda! Fiquei emocionado! Estava satisfeita a minha curiosidade.
Na manhã do dia seguinte, às 9 horas, elas tiveram alta. Uma ambulância nos levou para a pensão. No quarto, já havia um berço e outros utensílios ajeitados por Olívia. Eu me sentia orgulhoso ao olhar para aquele pequenino ser e custava a acreditar que me tornara pai, em meio a tantas intranquilidades. Ainda hoje não sei definir os sentimentos que habitaram em mim, naquela ocasião.
Na pensão, todos queriam ver e afagar o bebê. A presença daquela criança trouxe uma verdadeira paz. Mara e os hóspedes esqueceram as hostilidades, nesses primeiros dias.
Eliane não tinha ainda dois meses quando fui designado para acompanhar, em comissão, o diretor regional, em visita ao interior e, ao mesmo tempo, secretariar uma Comissão de Inquérito encarregada de apurar irregularidade na Agência de Antenor Navarro.
Mara não deu a menor importância quando lhe falei que deveria viajar. Novamente, os donos da pensão prometeram dar toda a assistência às duas enquanto eu estivesse ausente. Quando eu lhe disse que se dirigisse a eles, caso precisasse, ela deu um muxoxo desinteressado.
Como era de se esperar, apesar da existência de Eliane, Mara, vez por outra, respondia-me por cima do ombro, mal eu abria a boca. Passou a reclamar de tudo, outra vez. Trancava-se no quarto e de lá não saía; diariamente, era assim que eu a encontrava. Eu não sabia se o motivo de tanto mau humor era eu ou Eliane.
No dia 12 de maio, viajei para o interior.
Embora deixasse atrás de mim muitas preocupações, tinha motivos para seguir feliz, pois, desta vez, era uma oportunidade que a diretoria me propiciava de passar por Patos, de onde saíra já havia dez anos. Era grande o meu desejo de rever a cidade e as pessoas, e nem Mara com seus aborrecimentos seria empecilho para que eu viajasse.
Viajei lépido, sentia-me na máquina do tempo. Procurei focar meus pensamentos nas imagens que eu havia guardado de Patos e do meu Jatobá.
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Chegamos em Patos no fim do dia. A Comissão hospedou-se no Hotel Central. Era um hotel limpo e bem cuidado, confortável, com amplos quartos e bom atendimento.
Pela manhã, durante o café, tive a grande surpresa de ser atendido, à mesa, por um casal de irmãos: João e Herotides, que foram meus vizinhos e companheiros de juventude em Jatobá. João era o gerente e Herotides, a camareira. Fui reconhecido pelos dois e ficamos, durante algum tempo, conversando sobre nossas vidas e nossas famílias. A Comissão decidiu seguir viagem naquele instante e não pude ir a Jatobá, como desejava. Herotides incumbiu-se de levar às minhas tias o motivo da minha breve passagem por Patos.
Parti com um nó na garganta, sem satisfazer o desejo de abraçá-las. Na estrada, do carro, pude divisar, ao longe, quase imperceptível, a grande placa colocada sobre a porteira de acesso ao Campo Experimental de Jatobá e a casa de minha família, que aparecia como um minúsculo ponto perdido na distância. Ainda, pontilhado no horizonte, avistei o velho e lendário Serrote do Espinho Branco, uma das mais caras lembranças da minha infância.
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| Serrote do Espinho Branco |
Na volta, paramos no mesmo hotel para almoçar e soube que Inocência havia estado lá para tentar me ver e, novamente, fui impedido, pelas circunstâncias, de me afastar da Comissão. Todavia, foi muito boa essa volta à minha cidade, naquele momento.
Alguma coisa me dizia que ao retornar a João Pessoa encontraria novidades, e foi o que aconteceu. Na pensão, encontrei o quarto vazio. Mulher, criança, berço, móveis, tudo fora levado. Mais uma vez, decidiram mudar o rumo das coisas sem minha participação. Fiquei pasmo durante alguns minutos sem entender o porquê de tanto despropósito. Deduzi que Mara estava envolvida em algo muito sério e assumira a responsabilidade por esse transtorno.
E não errei!
Sr. Pedroza, tendo alguns hóspedes como testemunha, contou-me que, durante a minha ausência, Mara teve um sério atrito com o Sargento Arlindo, sem motivos. Foi extremamente violenta com o militar, recusando o seu cumprimento com muita agressividade nas palavras. Alguns hóspedes presenciaram a cena e ficaram revoltados.
— Depois dessa discussão, em sinal de repulsa, ela decidiu fechar a conta e sair da pensão. Mudou-se para uma vila, recém-inaugurada, na Rua Duque de Caxias — acrescentou Pedroza, com certa indiferença.
Há tempos que eu previa que algo parecido ia acontecer. Despedi-me, irado, prometendo voltar mais tarde, pois desejava ouvir a versão do Sargento Arlindo sobre o incidente.
E, mais uma vez, lá fui eu!
Na entrada do portão da tal vila havia um senhor a quem pedi informação. Vejam só o ridículo da cena! Eu querendo saber para onde se mudou, de um dia para outro, a minha mulher, levando a minha filha! Ele, sem demonstrar espanto, indicou uma porta, no térreo.
Bati, e Mara apareceu. Entrei sem a encarar, e fui direto ao berço de Eliane, instalado num canto apertado do quarto. Peguei-a no colo e permaneci por algum tempo abraçado a ela, ao mesmo tempo em que observava o ambiente. Era um cômodo minúsculo, completamente ocupado pela cama e pelo berço; um canto que chamavam de cozinha e um reduzido banheiro. No afã de tirar a filha da pensão, antes que eu chegasse, sua mãe decidira-se por aquele lugar sufocante.
Mais controlado, eu quis saber o que tinha acontecido, adiantando que estivera na pensão.
Com ar de desdém, e antes que eu dissesse o que já sabia, ela passou a dar a sua versão do conflito. Afirmava ter sido destratada e que, ao reagir, quase deu uma bofetada no Arlindo.
Falei-lhe que conhecia uma outra história, contada pelos donos da pensão. E que eu ainda voltaria para ouvir a versão do Arlindo. Ao pedir-lhe explicações sobre o fato de ter se mudado antes da minha volta, ela respondeu que pensou que estaria evitando uma briga entre mim e o Sargento Arlindo. Fora aconselhada por sua mãe, que também providenciou a mudança. Arrematou dizendo:
— Minha mãe pagou todas as despesas da mudança e também está disposta a assumir o pagamento deste aluguel até que você tenha condições para isso. Portanto, não se preocupe. A decisão está tomada!
Vencido pelo inusitado da situação, e sem ideia do que fazer, disse, por entre os dentes:
— Sempre essa senhora, dirigindo tudo!
Na hora do almoço, retornei à pensão para ouvir a versão do Sargento Arlindo. Minha cabeça fervilhava. Na sala de espera, enquanto aguardava sua chegada, ouvi de alguns hóspedes muitas considerações desagradáveis a respeito de Mara e do seu procedimento desrespeitoso, durante a minha ausência.
Arlindo chegou e, depois de me cumprimentar, na presença dos outros hóspedes, desabafou, dizendo que ela teve uma atitude realmente desrespeitosa para com ele, dirigindo-lhe, como sempre, palavras desafiadoras ao se cruzarem no corredor.
— Você sabe que sempre procurei ignorá-la, disse-me ele. — Mas desta vez ela tentou desmoralizar-me perante os demais hóspedes e eu reagi. Então, foi pior: ela se sentiu desafiada e reforçou as ofensas, o que levou os hóspedes a lhe chamarem a atenção, causando um mal-estar geral. Dos insultos, passou para a tentativa de agressão física, quando, então, ameacei processá-la. Só assim ela se conteve.
Envergonhado, falei:
— Já entendi tudo! Peço-lhe desculpas, se é que tenho esse direito.
Senti olhares piedosos sobre mim.
Cabeça arriada, com dó de mim mesmo, retomei o caminho de volta, e me perguntava: “Quantas ainda terei que suportar, meu Deus?!”
Voltei, mais uma vez, arrasado. Não via solução para aquela instabilidade em que vivíamos, mas, no fundo, eu vislumbrava ainda uma pequena possibilidade de mudança em nossas relações com a presença de Eliane. Ela talvez tivesse a missão de nos propiciar uma vida digna, mais tranquila.
Novo período de calmaria caiu sobre nós. Nossa vida caminhava sem grandes turbulências, apesar da proximidade constante da mãe dela, agora justificada pelo desejo de ver a neta. Eu tentava me conter. “Será que, finalmente, terei paz?!”
Eliane estava com alguns meses de vida quando Olívia confidenciou-me que ouvira de Mara a seguinte revelação:
“Naquele dia, quando saí da casa de Geralda e abandonei o Nunes, eu estava sem controle de mim mesma, não me dei conta da besteira que estava fazendo. Depois vi que precisava reparar o meu erro e resolvi, então, voltar atrás e tentar reconquistá-lo a qualquer custo. Por isso, fiz o que fiz na escadaria do Correio. Não foi fácil. Mas a minha tática funcionou. Ele não resistiu e consegui engravidar. Recuperei o prejuízo. Agora tenho Eliane e já não faz muita diferença se ele for embora ou não. Estou segura, garantida.”
Uma onda de cólera invadiu-me. Eu fora iludido na minha boa-fé. Fiquei revoltado com a minha ingenuidade. Descarreguei meu ódio em gestos de desespero e palavras desconexas. Queria gritar, sumir. Olívia, apavorada, disse:
— Nunes, calma! Estou muito preocupada com a sua reação! Não pensei que você fosse ficar assim. Tente se acalmar. Acho que precipitei uma guerra.
— Não, não se assuste! Pode ficar tranquila! Ela jamais saberá que você me revelou esse plano sujo. Daqui por diante eu também vou adotar um comportamento mais ardiloso.
Eu sabia que tudo aquilo fora um teatro, mas nunca podia imaginar que estaria caindo em uma armadilha que envolveria inclusive a existência de uma criança.
Saí da casa de Olívia completamente descontrolado, pensava em encarar aquela mulher em busca da confirmação do que ouvira, mas lembrei-me que havia assumido um compromisso com Olívia.
“E agora? Sair de sua vida sem que ela saiba exatamente o motivo será cometer uma violência que atingirá Eliane diretamente. Não! Vou aguardar o momento propício para agir sem precipitação” — falava comigo mesmo, enquanto caminhava.
Com o passar dos dias, a minha angústia só aumentava. Por um lado, Mara, sempre mal-humorada, trombuda, reclamando de tudo; por outro lado, o aperto financeiro que eu vivia.
Eu e Humberto já pensávamos em fechar o curso de inglês. Alguns alunos haviam desistido. Para abreviar a nossa decisão, a sala que usávamos nos foi pedida, e passamos para outro local, não tão confortável. Desanimamos e encerramos o curso. Os poucos alunos interessados, seguramos com aulas particulares em suas casas, cobrando 18 cruzeiros por hora. Foi dureza! Cruzeiros suados!
Enquanto isso, eu, tido como um “minotauro”, encontrava-me cada vez mais encurralado no labirinto, já sem muita resistência. “Mil olhos” me seguiam camuflados em sombras que desapareciam tão logo eu retornasse para casa.
Sempre que podia, procurava alguém com quem eu pudesse falar das minhas angústias. Muitos conheciam a minha epopeia e eu achava que eles podiam me ajudar a encontrar uma saída, mas acabava convencido de que a porta de saída era eu mesmo que devia encontrar e não aqueles amigos. Voltava para casa com passos de quem acompanhava enterro, com muitos tremores pelo corpo. Minha cabeça parecia um redemoinho.
Continuava pensando em desistir da luta e sumir, mas Eliane surgia na minha imaginação, segurando-me pela mão, seus olhos dengosos pareciam que suplicavam para que eu não partisse. Essa imagem me paralisava totalmente, pedindo-me para suportar um pouco mais. Então, eu recuava. À noite, tirava-a do berço e ficava o tempo que desse brincando com ela. Pela manhã, quando saía, fazia-lhe carícias e ela correspondia com seus sorrisos inocentes. Era uma criança sadia, sorridente, olhos bonitos e cintilantes e nunca rejeitava afagos de quem a tomava nos braços.
Continuava pensando em desistir da luta e sumir, mas Eliane surgia na minha imaginação, segurando-me pela mão, seus olhos dengosos pareciam que suplicavam para que eu não partisse. Essa imagem me paralisava totalmente, pedindo-me para suportar um pouco mais. Então, eu recuava. À noite, tirava-a do berço e ficava o tempo que desse brincando com ela. Pela manhã, quando saía, fazia-lhe carícias e ela correspondia com seus sorrisos inocentes. Era uma criança sadia, sorridente, olhos bonitos e cintilantes e nunca rejeitava afagos de quem a tomava nos braços.
Como um drama em capítulos, diariamente, meus amigos queriam saber como estavam as coisas. Na verdade, eles cobravam de mim uma reação que me devolvesse a tranqüilidade e a vontade de viver.
E eu oscilava: um dia, eu tinha certezas e confiança; no outro, somente dúvidas e amarguras.
Humberto dizia para ter calma, até onde desse:
— Quando chegar a hora, sua consciência o aconselhará. Faça-o sem destemor porque, se não encontrar logo a saída do labirinto, acabará assistindo, sem perceber, a sua própria destruição. Você hoje é conhecido, conquistou o respeito de muitas pessoas. Deve preservar isso. É inquestionável que você tem o direito de defender, a qualquer custo, sua reputação.
Arlindo era mais incisivo:
— Você deve reagir! Se puder, vá embora. Você é jovem, inteligente, terá oportunidade de vencer em qualquer lugar, mas longe daqui. Veja que está em jogo uma imagem que você conquistou. Apresse-se, pois, se você demorar em tomar consciência dos perigos que o rodeiam, poderá ser engolido por eles. Ainda é procurado para dar aulas a filhos de famílias importantes, o que significa que continua merecedor do respeito que conquistou. Mas o ciclo vai se fechar, um grande escândalo pode acabar destruindo você, e talvez não tenha tempo de salvar coisa alguma.
Às vezes, isso tudo me apavorava. Um sentimento forte por Eliane me aconselhava a ter calma. Eu lhe devia assistência e carinho. Temia reclamações futuras.
Nessa altura, para Mara, pouco ou nada importava a atitude que eu viesse a tomar, uma vez que, entre nós, o casamento já não existia. Tolerávamo-nos um ao outro.
Aos poucos, admitia que, para salvar o que fosse possível do que ainda me restava em reputação e coragem, eu devia, na primeira oportunidade que surgisse, arrumar a mala e partir.
Quanto a Mara, ela havia conseguido o direito à pensão alimentícia, e isso lhe bastava.
Sempre que lhe dirigia a palavra, ainda que fosse a respeito de Eliane, era xingado de fingido ou hipócrita, iniciando-se uma discussão sem fim. Cada dia que passava só aumentava, em mim, a certeza de que a nossa convivência debaixo do mesmo teto não resistiria muito tempo.
Quando eu entrava no portão da vila, sentia pavor daquele lugar, pois não sabia a fisionomia da fera que eu teria que enfrentar ao abrir a porta, e me perguntava: “Qual será o disparate reservado para hoje?” Por outro lado, ansiava por ver a alegria e a inocência de Eliane, alheia a tudo, sem perceber que fazia parte das minhas indecisões.
De uma hora para a outra, a mãe de Mara adoeceu. Um dia, quando cheguei, ela tentou convencer-me de que precisava voltar para junto da mãe. Alegava, insistentemente, que ela precisava de sua ajuda. Friamente, pensei: “É mais uma armação!”
Eu, apesar de não concordar, via que ela estava decidida a levar a cabo a ideia. Não voltaria atrás. E, como reforço, dizia que seu irmão exigia a sua assistência. Agitada pela novidade, afirmava que ele concordara com a nossa volta, esquecendo o passado.
Há muito que eu não admitia mais a ideia de voltar àquela casa, onde fui tão espezinhado, mas ela, aos brados, disse:
— A minha obrigação é ajudar e a sua, entender — argumentava, absolutamente convencida da necessidade de ficar sob o mesmo teto de sua protetora.
Vi-me de repente diante dos dois únicos caminhos: acompanhá-la ou ficar só. Um mundo de fantasmas invadiu a minha cabeça. Pensei na existência de Eliane, tão frágil ainda. Tinha certeza de que, se eu ficasse, não teria facilidades para vê-la.
Em total despreocupação com o que eu falava ou pensava, Mara continuava arrumando os seus pertences. Andei de um lado para outro, saí, entrei. Não encontrava palavras para fazê-la desistir. Dei de ombros, derrotado. Não entendia como aquilo acontecia, outra vez. Ela fingia não entender a minha contrariedade. Sentei-me na beira da cama, de cabeça baixa, apertando as mãos, aflito, e cedi, mais uma vez!!! “Que feitiço é esse que me deixa tão impotente? De que eu tenho medo?”, indagava-me sem respostas.
No dia seguinte, entregaríamos as chaves do quarto.
Ela disse que quando eu saísse do Correio deveria ir direto para a casa de sua mãe, que agora morava na Avenida Camilo de Holanda.
Enquanto Mara corria de um lado para outro, movimentando móveis e outros objetos, preparando-se para a mudança ainda naquela manhã, minha mente, preocupada, parecia avisar que, por trás da pressa e da euforia, poderia haver um plano arquitetado com um objetivo determinado: dar-se-ia a ruptura definitiva do casamento e ambas, mãe e filha, já estariam sob a proteção da família. Ao mesmo tempo que eu me sentia traído, não deixava de considerar que essa saída era possível e a menos traumática para todos.
Admitia a possibilidade de estar caminhando como um boi para o abate. As feridas abertas pelos terríveis açoites verbais e ultrajes que eu sofri daquelas pessoas continuavam sangrando.
Ao sair, avisei:
— À noite, vou dar duas aulas e só depois das 22 horas chegarei à casa de sua mãe.
Durante o dia não saía da minha cabeça o momento em que eu seria recebido, naquela casa, naquela noite. Pensei em quebrar o trato, não aparecer, livrar-me por completo. Era uma boa oportunidade. Mas, e aí? Sairia com a roupa do corpo, sem nada? Por outro lado, o que iam falar de mim? Seria chamado de covarde, irresponsável, por abandonar uma “pobre mulher com uma criança nos braços”.
Não havia escapatória, era uma situação de morte ou morte, que eu tinha que enfrentar.
Terminei a última aula. Parei no Ponto Cem Réis, num bar, e tomei um copo de coalhada.
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| Ponto Cem Réis |
Com a mente em desalinho, segui pela calçada da lagoa na direção da Avenida Camilo de Holanda. Hesitei e decidi passar primeiro pela casa de Olívia, pois sabia que ela, diariamente, mantinha contato com Mara e, obviamente, saberia informar como estava a temperatura na casa. Era a minha última esperança: saber que não seria bem recebido, o que desfaria qualquer feitiço.
Porém, Celina e Olívia, sorridentes, comemorando não sei o quê, receberam-me dizendo:
— Alegre-se, homem! Você vai ser bem recebido! Ainda há pouco Mara esteve aqui com Eliane e disse que Juca está lhe aguardando.
Pode-se imaginar como eu saí dali? Parecia um bode puxado para dentro d’água.
Olívia acertou em cheio, fui recebido cordialmente:
— Vida nova, viu?! — disse Juca, com um desinteressado tapinha no meu ombro.
Eu estava zonzo e não conseguia assimilar a nova situação. Mostraram-me o quarto. Vi Eliane no berço e, por um instante, senti paz.
Na manhã seguinte, tudo parecia normal. Acordados, mesa do café posta, um novo dia e uma nova fase... Quem tinha que trabalhar despediu-se.
Chegando ao Correio, percebi que todos aguardavam as novidades:
— Como é que foi lá?
E para todos eu respondia, sem querer esticar conversa:
— Continuo vivo...
Afinal constatara que o estado de saúde da velha matriarca não era tão crítico assim que justificasse tanta pressa e desespero. Ela continuava firme como um rochedo. Eu sabia que estava ali numa situação muito peculiar e que, de um momento para outro, a hospitalidade e a placidez daqueles olhares poderiam transmutar-se em uma nova escalada de ódios, e tudo se repetir novamente. O clima era estranho. Algo estava para acontecer e, desta vez, esperava que fosse em definitivo. “Não acredito que elas tenham mudado tão de repente. É só uma questão de tempo.”
Como um escoteiro, passei a viver “sempre alerta!” Mantinha-me atento a qualquer coisa que diziam, a qualquer frase que pudesse dar a entender a existência de algum plano, já que haviam simulado aquela emergência.
Certa manhã, percebi na fisionomia de Mara alguma contrariedade e perguntei:
— Que foi que houve, você está aborrecida? O choro de Eliane está incomodando os donos da casa?
E ela de forma grosseira e enigmática respondeu:
— Isso é comigo. Pode deixar. Você não tem que se preocupar.
Algumas reações desse tipo sinalizavam que eu não podia descuidar.
Dias depois, eu me encontrava trabalhando na Secretaria da Diretoria e um senhor de pouco mais de 40 anos, mulato, veio em minha direção:
— Chiquinho?
— Sim.
Ele tinha boa aparência, cabelo e bigode bem aparados, e seu olhar penetrante me lembrava alguém.
— Eu sou Manuel Xavier dos Passos, irmão de sua mãe. Depois de muitos anos, voltei a João Pessoa para rever minhas irmãs e, ao mesmo tempo, conhecê-lo.
A imagem de minha mãe surgiu em seu semblante.
Fomos para uma balaustrada e ali ficamos algum tempo conversando. Ele descreveu a vida de minha mãe, antes de conhecer meu pai, e quis saber como foram os dias dela antes do falecimento. Era a primeira vez que ele voltava ao Nordeste depois de muitos anos no Rio, e disse que sempre imaginou que quando isso acontecesse encontraria ainda as três irmãs vivas. Lamentou muito que minha mãe já não existisse.
Depois, passou a falar sobre o Rio, seus encantos, sua gente. Embora ele fosse reticente em algumas frases, eu tentava absorver todas as suas palavras.
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| Tia Dega |
Disse-me ainda que estava hospedado com a esposa, Belina, na casa de sua irmã Dega e que me aguardava, no domingo, para conversarmos.
Aquele encontro com o meu tio foi uma faísca, despertando-me para uma possibilidade de libertação. A maneira empolgada com que ele descrevia o Rio de Janeiro me encantou e me devolveu a ideia de prosseguir na busca do meu sonho de viver na cidade grande, interrompido com o casamento. João Pessoa não representava mais o lugar sonhado.
Domingo nos encontramos, num almoço na casa de minha tia. Nesse momento, expus-lhe a minha difícil situação com o fracasso do casamento, apesar de tanta humilhação e tentativas em acertar. Manifestei-lhe o desejo de ir para o Rio de Janeiro. Ele me ouviu atentamente e, depois de fazer cuidadosas observações, desta vez não tão positivas sobre o Rio, colocou-se à minha disposição. Dias depois, ele se despediu.
Os dias se arrastavam lentamente. Até que uma noite, ao chegar em casa, voltando daquele “pinga-fogo” noturno de aulas particulares, encontrei mãe e filha de sentinela. Tinham as fisionomias carregadas e, antes que eu abrisse o portão, fui submetido a um denso interrogatório no qual exigiam que eu explicasse por que estava traindo a família. E eu, sem entender a que se referiam, pois até aquele momento permanecia “em estado de alerta” a fim de evitar discussões, fiquei imóvel, sem qualquer reação.
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| Foto ilustrativa (retirada da internet) |
Por fim, em meio ao palavrório, Mara revelou que havia encontrado entre as páginas de um livro uma carta-resposta, enviada por meu tio Manuel dias antes. Nela, ele tecia considerações a respeito de uma outra carta que lhe escrevi, falando de minhas dificuldades financeiras e conjugais, ao mesmo tempo em que lhe pedia orientação e ajuda para a minha ida para o Rio.
Sua carta, na tentativa de me desiludir, agora mostrava um retrato negativo do Rio, aconselhando-me a ter um pouco mais de paciência e me organizar melhor, pois não seria fácil recomeçar a vida num mundo desconhecido, sobretudo saindo de um lugar tão pequeno. E dizia, mais adiante: “Pense no que você está deixando para trás. As responsabilidades, como as nossas raízes, seguirão nossos passos por toda a nossa vida.”
Depois de conhecerem o conteúdo dessa bendita e descuidada carta, todos se voltaram contra mim. Mãe e filha pareciam ter conseguido munição nova. Repetidamente chamavam a atenção para um tópico da carta no qual meu tio me aconselhava a não cometer nenhuma loucura. Devia pensar na grande responsabilidade que eu tinha: a criança. Esse comentário veio turvar definitivamente o meu relacionamento com a família de Mara.
Para elas, aquela carta-explosivo era a munição que faltava, e não lhes restava dúvidas de que eu estava construindo uma fuga, para qualquer momento. Vi que tinha atirado uma pedra na colmeia. Acabou-se o resto de sossego que eu tinha! Espalharam para os conhecidos que haviam descoberto um plano de fuga idealizado por mim, a ser posto em ação a qualquer momento, ajudado por meu tio, do Rio. Passei a fugir de um “enxame” enfurecido!
Passaram a intensificar a vigilância, dia e noite, e eu, qual um prisioneiro, aguardava apenas um leve cochilo do carcereiro para fugir. Isso era um direito, por tudo que eu passei. Eu só esperava o sinal verde de meu tio e estava disposto até a sacrificar meu emprego no Correio. Ficar em João Pessoa na condição de separado era sacrifício maior, pois o tititi me tingiria de cores tão negras que minha vida se tornaria um tormento. Eu estava no meu limite.
Escrevi uma outra carta ao meu tio, na qual relatei todo o meu infortúnio, a disposição de pôr um ponto final na minha inquietação, e roguei, desesperadamente, pela sua ajuda. Entretanto, mais uma vez, ele me receitou calma. A resposta irritou-me. Traduzi a sua “calma” como uma forma dissimulada de não assumir a responsabilidade pela abertura de uma porta cuja chave eu pensava estar em suas mãos.
Chegava ao trabalho, pela manhã, amargurado. Quase sempre, fugia de qualquer comentário sobre a minha vida e sobre o meu mau humor, e mesmo que desagradasse à chefia, permanecia assim todo o dia.
À noite, quando não tinha aulas, eu ficava conversando com amigos na lagoa ou na praça, aguardando o andar das horas, até poder voltar para casa, dormir e acordar no dia seguinte para viver a mesma rotina sem futuro. Entrava mudo e saía calado, ignorado.
Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com
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