A mãe de Mara era dada a rituais espíritas. À noite, trancada em seu quarto, costumava receber espíritos, que ela dizia serem seus guias. Aquilo me incomodava muito, devido aos assobios e gritos histéricos que ela soltava, ao mesmo tempo em que falava coisas sem sentido. Durante o dia, ameaçadoramente, alardeava que os espíritos tudo lhe contavam.
Um dia, pediram-me para levá-las à casa de um tal de “seu” Mendes, um velho curandeiro muito conhecido por seus poderes. A princípio, vacilei. Por fim, me propus a acompanhá-las, afirmando que as deixaria na porta. Ao chegar, fui convencido a entrar.
Era um casebre, muito pobre. Sentado em uma cadeira velha, enfermo, rodeado de velas acesas, copos com água e ervas espalhados por toda parte, o ancião recebia os consulentes. Para cada um dava uma bênção especial, sussurrando preces entremeadas com gemidos e murmúrios, parecendo estar em transe. Ficava assim por algum tempo, concentrado, e depois balbuciava frases desconexas como se estivesse falando com alguma entidade. Só então iniciava a consulta.
A velha saudou-o reverentemente, pedindo proteção. O feiticeiro levantou-se e, enquanto pousava a mão sobre a sua cabeça, fitou-me misteriosamente, dirigindo-me algumas palavras ininteligíveis. Senti meu corpo arrepiar. Depois, afastou-se de nós alguns passos, parou e retornou caminhando na minha direção, lentamente. Pousou a mão direita sobre a minha cabeça, hesitou mais uma vez e finalmente soltou um profundo gemido, balbuciando:
— Aqui tem coisa!
Bastaram essas palavras para que a velha, imediatamente, apontasse para o meu relógio, presente de minha mãe, acusando.
— Tá trabaiado. Mermo de onde tá, não ficou sastisfeita cum o casamento — disse.
Eu não tirava o relógio do pulso por nada, mas insistiram para que eu o entregasse ao feiticeiro. Este, ao pegá-lo com a mão direita, fitou-o demoradamente e confirmou, em tom de sentença:
— Tenho certeza, o trabalho está neste relógio!
Tamanha heresia me causou nojo. Estavam transformando minha pobre mãe em uma criatura perversa. O que fazer para me desvencilhar de tanta intrujice? Aceitar, calar, reagir ou ir embora? Preferi deixar patente que não aceitava aquela ignomínia e disse, com ar de tranqüilidade:
— Não acredito em nada disso e muito menos que minha mãe fosse capaz de fazer algo para me prejudicar.
Arranquei o relógio das mãos do feiticeiro e, apressadamente, deixei a casa. Elas me alcançaram e, durante todo o trajeto de volta, mãe e filha não falavam de outra coisa. Todo o tempo, tentavam me convencer a desfazer-me do relógio.
Aceitar essa ideia era, para mim, um sacrilégio contra a inocência de minha mãe, mas a teimosa senhora insistia, induzindo-me a pensar que a felicidade no meu casamento com Mara dependia dessa atitude. Deveria eu me livrar daquele feitiço.
Penso, hoje, que elas já percebiam que eu não estava feliz naquela casa.
Por fim, entreguei os pontos. No dia seguinte troquei o relógio com o cabo Cleuto Leal, meu colega. Seu relógio, embora mais antigo, também era de boa marca.
Pronto, fiquei sem meu único objeto de valor, que eu carregava como um amuleto, única lembrança de minha mãe!
Sabia que, ao retornar para casa, estava declarando, de uma vez por todas, o meu fracasso e a minha falta de resistência para discordar das decisões tomadas por aquelas pessoas. Concordava com uma infâmia e perdia para sempre um presente que me fora dado com tanto sacrifício e carregado de tão boas intenções. Parecia que eu fora conduzido por uma força desconhecida.
Eu sabia que havia atendido a um desejo de Mara e de sua mãe. Em casa, quando entrei, foram logo notando a falta do relógio e manifestaram a vitória através de um sorriso orgulhoso.
Passei a usar no pulso aquele velho relógio prateado, sem qualquer valor estimativo, e nunca mais discuti o assunto, jurando jamais voltar à tenda daquele feiticeiro.
Algum tempo depois, interessei-me pelo Omega Sea Star que o irmão de Mara ostentava com grande orgulho e lhe propus a troca mediante certa compensação, já que o seu relógio era mais caro. Juca relutou, não consegui convencê-lo. Insisti, até que um dia ele desistiu de negar. Tolamente, eu achava que pagava com a mesma moeda, tirando dele um relógio valioso. Parecia-me uma vitória secreta!
E aqui se fechou, para mim, a história do Birma. Consolava-me o fato de saber que nunca mais ouviria que o relógio que eu carregava no pulso poderia estar trabalhado, já que pertencera a Juca.
Tudo ainda estava em fase de adaptação. Eu aprendia os hábitos da casa e a me comportar na família. As rotinas eram completamente diferentes das do quartel ou da casinha do meu avô, na roça.
Nesses primeiros meses, parecia haver a intenção de me agradar, de atender às minhas necessidades, de me introduzir num novo mundo, e eu teria me sentido totalmente contemplado não fosse o incidente com o relógio, que custei a superar.
Três meses se passaram e eu continuava envergando a farda cáqui da Polícia do Estado. Insistiam para que eu desse baixa, pois minha presença fardada não estava sendo vista com bons olhos por conhecidos e familiares. Eu enxergava o quanto isso incomodava, mas, por enquanto, era o meu trabalho, meu emprego. Todos sabiam disso desde o primeiro dia que entrei naquela casa.
As exigências para que eu despisse a farda começaram a vir uma após outra, cada vez mais insistentes, e a arrogante senhora era quem mais alimentava esse diálogo, propondo soluções de todo tipo.
Certo dia, dizendo-se portadora de um recado do filho mais velho, ordenou que eu pedisse baixa da Polícia, dizendo que eu teria emprego garantido na loja. Seu filho era uma espécie de patriarca respeitado por todos. Um recado seu era um decreto e, para mim, naquele momento, transmitido com tamanha veemência por sua mãe, soara-me como uma determinação.
Fiquei confuso.
Vivia tudo isso na plenitude dos meus 21 anos!
E no dia 16 de março de 1945, quando já se aproximava o fim da II Guerra Mundial, dei baixa da Força Policial do Estado da Paraíba, da qual tanto me orgulhava e onde recebi grandes lições que iriam nortear minha vida. Ali me tornei adulto.
Senti-me só.
As saudades do meu avô e das minhas tias eram constantes. Mesmo assim, eu sabia que de nada adiantava, por carta, dividir as minhas tristezas com eles, pois a vida simples que levavam não lhes permitiria entender os sentimentos de solidão que cresciam dentro de mim, causados por esse meu novo jeito de viver. Minha mãe só existia na lembrança. Meu pai vivia distante e essa distância entre nós não era só física ou geográfica, era também a do esquecimento, da falta de envolvimento pessoal.
Algum tempo depois do casamento, conforme prometera por carta, ele apareceu para conhecer a nora. Ficou conosco dois dias apenas. Conversamos amenidades, como sempre. Faltava-nos intimidade suficiente para falar de minhas inquietações. Eu temia repreensões. Ele também não me falava de suas alegrias ou tristezas. Havia entre nós uma muralha: de minha parte, feita de mágoas e de ausências; da parte dele, feita de distância e desconhecimento de mim. Como sempre, sua visita foi rápida e resumida. Esse foi o nosso último encontro.
Passaram-se dois meses sem que o clã me fizesse qualquer convite para uma “ocupação digna”, como me foi prometido.
Inquietava-me o silêncio. Eu havia deixado a farda, a pedido deles, e agora precisava exigir que cumprissem a promessa que me fizeram. Então, comecei a ouvir cochichos pelos cantos:
— Está sendo difícil colocá-lo na loja, ele não entende de tecidos, não sabe nada do que se faz lá.
— Verdade! — eu pensava. Na vida eu aprendera a pegar em enxadas, em armas e em mimeógrafo. Nunca havia enrolado nem desenrolado tecidos...
Passado algum tempo, percebi que eu devia procurar emprego. Nem se falava mais em loja de tecido. Por sorte, consegui uma vaga de balconista, com salário de 400 mil réis, na firma Cunha Rego, na parte baixa da cidade, onde fiquei seis meses apenas.
Em pouco tempo pude perceber que a minha presença incomodava o gerente. Fiquei inseguro pensando que não “sabia desenrolar tecidos” ou, então, que não sabia atender às pessoas, e comecei a me preparar emocionalmente para a demissão.
A minha insegurança aumentava à medida que o tempo passava, até que notei uma vigilância sutil me acompanhando no interior da firma. Era visível o mal-estar que eu causava e que contaminava o gerente, tornando-o grosseiro quando se dirigia a mim.
Numa manhã, ao chegar, fui chamado ao escritório e informado da minha dispensa. O diretor foi direto, certeiro:
— O senhor não está correspondendo aos nossos interesses, passe no caixa para o acerto final.
Fiquei estático diante dele, esperando que notasse a minha decepção e revisse a sua decisão, mas ele se levantou da cadeira abruptamente e disse apenas:
— Procure outro emprego.
Saí dali arrasado, sem saber o verdadeiro motivo do acerto de contas.
Cheguei em casa, completamente destruído, cabeça baixa. Ao contar para Mara, fui bombardeado com perguntas que iam desde:
— Quem era aquela com quem você saía?
Até:
— Foi em razão do seu romance com ela?...
Só então suspeitei que elas, mãe e filha, estariam por trás de todo aquele misterioso tratamento que me fora dispensado nos últimos meses na firma. “Mas como?”
Decidi investigar e soube, por um ex-colega, que havia chegado ao conhecimento dos dirigentes da firma que minha esposa e sua mãe desconfiavam que eu estivesse de namoro com uma colega do escritório. Calúnia! Loucura! Enquanto elas maquinavam essa engenharia infame, eu não imaginava estar sendo acompanhado por isso, no próprio ambiente de trabalho. Não podia tampouco admitir que duas senhoras, ditas distintas, no uso pleno da razão, fossem capazes de tamanha trama diabólica, envolvendo-me com pessoas com as quais eu, sequer, mantinha qualquer intimidade. Somente duas mentes doentias poderiam produzir tamanha infâmia.
Embora alguns colegas soubessem dessa calúnia, ninguém me contava nada. Todos sabiam que eu saía do trabalho diretamente para casa, tomando o bonde na rua de trás. Fiquei indignado por não ter sido alertado a tempo de agir e salvar o meu emprego.
Entendi, então, por que algumas cenas de ciúme, por parte de Mara, vinham atritando o nosso relacionamento, nos últimos meses. Enquanto eu fiquei em casa, desempregado, sob controle dela, tudo estava bem. Bastou eu sair para trabalhar, com alguma liberdade, para se iniciar uma vigilância doentia.
Agora eu entendia também por que, quando terminava o expediente na firma, algumas vezes, via as duas à distância, me vigiando, ora escondidas atrás de uma árvore, ora atrás de um muro. Como eu não tinha nada com que me preocupar, fingia que não via e engolia em seco esse comportamento. Em casa, insinuavam que eu estava me encontrando com alguém ou queriam saber com quem eu ficara conversando quando chegava mais tarde. Eram mãe e filha infernizando-me a vida.
As miragens caluniosas que arquitetavam contra mim começaram a provocar tanta revolta que eu já não conseguia disfarçar a minha repugnância. Algumas vezes, surpreendi-me reagindo de maneira descontrolada, usando palavras grosseiras que não me eram comuns.
Naquele dia, ao chegar em casa, possesso de ódio, descarreguei em Mara toda a revolta que estava em mim. Ela, com cara de boba-inocente, ficou me fitando sem atentar para as conseqüências dos seus atos.
Eu cuspia fogo, gesticulava, e ela, placidamente, olhava em qualquer direção, sem se alterar.
Minha indignação era grande. Naquela noite, saí porta afora e só voltei quando todos já estavam dormindo. Nunca mais se falou nesse assunto.
Passava o dia na rua procurando emprego, sem nada conseguir. Então, algum tempo depois, “só ouvindo”, Juca resolveu cumprir o prometido e levar-me para a loja de tecidos da qual era sócio.
Senti, no primeiro dia, que a frieza era de muitos graus. Josias me recebeu com poucas palavras, sorriso misterioso. Eu me senti um extraterreno. Juca, discretamente, tentava me ensinar o básico para começar.
Não demorou muito e Josias começou a me criticar e a me podar. Fazia questão de me ignorar. Dava a entender que eu só tinha condições de participar da limpeza e da arrumação da loja.
Juca, todo sábado, colocava no meu bolso, disfarçadamente, uma cédula de 50 mil réis, apenas uma gratificação, que eu repassava totalmente para Mara.
Fiquei quase um ano cuidando de poeira, aguardando para ser um incluído. Por fim, percebi que jamais faria parte daquela família, como pensara, e saí fora para procurar, de fato, um emprego.
A essa altura, eu já era uma figura desgastada. Enfrentara várias rebeliões internas. A mãe de Mara me azucrinava, não perdia tempo. Mara era sua “ajudante-de-campo”, as duas se completavam em gênio e malícia. Mesmo sabendo que eu frequentava um curso à noite, uma ou outra, ou as duas juntas, sempre encontravam motivo para discussão quando eu chegava em casa. Insinuavam que eu estaria em encontros amorosos com alguma jovem do curso ou havia esquecido da responsabilidade de homem casado, participando de grupinhos, de esquina. Se me vissem, até mesmo durante o dia, conversando com amigos, o interrogatório era proporcional ao tempo da conversa, porém, se os amigos fossem mulheres, aí eu devia me preparar para muitas explicações. Eu tinha um bom relacionamento com as pessoas, era bem considerado por todos e sempre me paravam para conversar. Mas Mara parecia o facho de uma lanterna, monitorando-me, incansavelmente, dia e noite, por toda a parte, como quem procura algo na escuridão.
As discussões eram, quase sempre, o fecho do dia antes de dormir. Esse desgaste, diário e permanente, começava a influir em minha saúde, e meus nervos estavam saindo, espremidos, pelos poros.
À noite, eu frequentava qualquer cursinho para não ficar em casa ouvindo reclamações. Cada vez mais eu procurava motivos para não voltar cedo. Em casa, não encontrava um ambiente sadio. Durante algum tempo eu evitei ficar conversando com amigos.
E mais uma vez a solidão se instalou em mim.
Sentia falta do meu avô e sabia que ele também ansiava por me abraçar. Por carta, Inocência dizia que ele estava doente, e eu esperava uma melhora na situação financeira para ir a Jatobá, mas não deu tempo. Estávamos em 1946. Senti-me arrasado. Lembrei de quando ele falava de seu pai, Nicandro, com saudades: “Meu pai morreu e eu nunca mais o vi.” Agora eu entendia suas palavras e o significado do seu lamento. A minha tristeza, eu não tinha com quem dividir. Mara nunca se interessou pela existência dos meus familiares.
Viver naquela casa, no Roger, se tornara um grande sacrifício, desde o dia em que eu soube das calúnias que influíram na perda do meu emprego. Se antes o clima já era tempestuoso, agora era de guerra declarada. O próprio Juca, que tentava achar graça nas eternas discussões, dispôs-se, por conta própria, a certificar-se do meu comportamento.
Certa noite, ao chegar em casa, vindo do curso, estranharam o horário da minha chegada de forma caluniosa e Juca resolveu, finalmente, diante de todos, assumir a minha defesa:
— Vocês estão passando dos limites com o Nunes. Resolvi seguir-lhe os passos, vários dias, em sucessivas idas e vindas, e sabem o que eu constatei? Que vocês o caluniam! Eu não sei como esse cara suporta isso! Se fosse eu, já tinha caído fora.
Era verdade. Eu já não suportava mais aquele inferno! Estavam acabando comigo. E agora, desempregado, com as duas me cobrando emprego diariamente, eu não me sentia apenas humilhado, mas torturado pelas indiretas que me dirigiam. De manhã, ouvia:
— Vai procurar emprego, vagabundo!
Ao passar mais um dia sem nada conseguir:
— É porque não procurou, foi passear.
E quando a mesa estava posta:
— Chame o homem!
Na mesa, todos comiam, mas, nas conversas, eu era colocado em total obscuridade. A situação era humilhante. Mara, de alguma forma, estava também recebendo o seu quinhão de sofrimento. Ela ajudara na construção desse “edifício”, levantado com enganos e que, agora, ruía com suas paredes carregadas de ódio, soterrando-nos impiedosamente. Eu não conseguia desconsiderar tudo que ouvia, e as minhas reações, se não me libertavam, afastavam-me cada vez mais daquela criatura.
De tanto presenciar esse desmonte moral que eu vinha sofrendo, e que pouco a pouco me destruía, Juca, um dia, desabafou:
— Eu não aguento mais! Ou vocês se entendem ou, então, vão morar em outro lugar, longe daqui. É impossível conviver nesse inferno! — e, como um raio, saiu.
De certa forma foi boa essa reação, porque a ela se seguiu um período de calmaria.
Na manhã seguinte, quando saí para procurar emprego, a sogra não disse: “Vai, vagabundo!”
Numa das minhas muitas andanças, soube que havia uma vaga de auxiliar de escritório no laboratório Laborterápica J. Pires, de São Paulo. O escritório ficava no 2o pavimento de um velho prédio, por onde se chegava através de uma escadaria desengonçada. Apresentei-me, sendo conduzido à presença do gerente, um tipo bem vestido, atencioso, que logo me deu a impressão de que eu ganharia a vaga. Depois de me ouvir, chamou seu auxiliar e recomendou que me colocasse no controle de estoque, para começar.
Tudo parecia ter voltado ao normal, agora. Finalmente, deixei de ser vagabundo e, algum tempo depois, disse, em casa, que eu já estava apto a visitar farmácias e que seria promovido.
Vi-me num “céu de brigadeiro”! Agora, Mara até me convidava para acompanhá-la à casa de amigos. Eu tinha um salário razoável e ninguém mais me hostilizava. Pensei que a tempestade jamais voltaria.
Inesperadamente, o Laboratório recebeu ordem da matriz, em São Paulo, para encerrar as atividades em João Pessoa. “Outra vez desempregado, que merda! Por certo vou enfrentar novo temporal!”
Quando cheguei em casa e dei a notícia, Mara foi logo dizendo:
— Você já adquiriu prática! Agora é só procurar outro emprego que encontra. Amanhã mesmo vá à luta.
E a velha arrematou:
— Dentro de casa é qui ocê num vai ficá esperando as coisa caí do céu.
Vi-me de novo sendo cozido em fogo alto.
Cansado de tanta incompreensão e convencido de que não podia contar com mais ninguém, decidi que a única saída seria me libertar, por mim mesmo, daquele jugo familiar.
Depois de bater na porta de várias firmas, encontrei um amigo que era guarda-livros de um grande armazém. Ele se prontificou a falar com o gerente a meu respeito.
Demorou alguns dias e, por fim, o amigo Miguel Lemos conseguiu para mim uma vaga de faturista e pediu para que eu me apresentasse munido da carteira de trabalho.
Não era um grande salário, mas servia para mostrar que eu não fiquei em casa “esperando que as coisas viessem do céu”, como disseram, ironicamente.
Comecei no novo emprego, imediatamente. O salário era 350 mil réis.
Nesse armazém, o que me chamava à atenção era o jeito peculiar do gerente quando me entregava o salário em um envelope fechado. Ele acompanhava, com o olhar, o caminho percorrido pelo envelope até ser entregue a mim, ao mesmo tempo em que coçava a cabeça vacilante, demonstrando lamentar a saída daquele dinheiro.
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DESSA FORMA, CHEGAMOS AO ANO DE 1947. Olívia continuava minha amiga e confidente. Lamentava o comportamento que seus familiares tinham para comigo. Quando eu me mostrava desanimado, era ela quem me encorajava a prosseguir:
— Um dia, as nuvens negras se dissiparão. É uma questão de tempo — dizia.
Ela trabalhava na Gerência de Pessoal da Diretoria dos Correios e já havia conseguido colocar ali seu irmão e sua mãe. Ficou sabendo que, no final do ano, o Departamento iria disponibilizar algumas vagas de diarista, com salário de 400 mil réis. Conversou com seu chefe e pleiteou uma das vagas para mim. E, assim, saí da firma em que trabalhava e no dia seguinte, 1o de dezembro de 1947, fui admitido nos Correios e Telégrafos.
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