segunda-feira, 11 de maio de 2020

2ºCapítulo - 4º Episódio: "... a vida amorosa..."


POR ESSA ÉPOCA, EU paquerava Clícia, uma professorinha que dava aulas em uma escola em Santa Rita. Pela janela do quartel, eu a via, toda manhã, no ponto de ônibus da esquina do Correio, na Avenida Beaurepaire Rohan. Era morena, baixa, de olhos graúdos. Seu modo discreto e gestos educados me atraíam. De vez em quando nos encontrávamos, casualmente, na rua. Outras vezes, eu esbarrava com ela, propositalmente, no ponto do ônibus, apenas para ter a oportunidade de trocar algumas palavras. Ela tinha namorado e eu permanecia atento, na esperança de que aquele compromisso pudesse se desfazer.
 Iremar era meu colega de farda. Nos momentos de folga, saíamos juntos do quartel para apreciar o passeio das moças na Praça João Pessoa ou na Lagoa.
Certa noite de maio de 1944, resolvemos assistir à novena na Igreja São Miguel. Nesse mês, as igrejas ficavam lotadas. As novenas, à noite, faziam parte do “calendário social”, e os rapazes viam ali uma excelente oportunidade de observar o desfile de moças de família à espera de algum pretendente bem-intencionado.  
Foi assim que conheci Mara, na saída da igreja. Ela se fazia acompanhar da sobrinha Olívia. Estávamos em pé, na calçada, quando elas passaram e nos olharam de relance. Sentimos alguma aceitação e arriscamos um “boa-noite”, que foi correspondido. Seguimos andando atrás das duas que, usando pesados vestidos negros, caminhavam eretas, fingindo não perceber que as estávamos seguindo. No meio do caminho nos aproximamos e Iremar, ousadamente, perguntou:
— Rezaram por quem, hoje?
— Sempre rezamos por todos — respondeu a mais nova, com um leve sorriso que permitiu a troca de mais algumas palavras, até chegarmos perto da casa em que elas moravam.    
Os encontros, à saída da igreja, sucederam-se enquanto durou o mês de maio. Mara cantava no coro e algumas vezes participávamos da novena para propiciar aceitação.
Éramos jovens, discriminados por sermos apenas cabos da Polícia, não podíamos, então, desperdiçar a oportunidade de sermos vistos acompanhados por moças de família.  
 Iremar, meu amigo, em pouco tempo apaixonou-se pela beleza de OlíviaElamuito jovem ainda, não podia sair sem a companhia da tia, e ele, para ter alguma privacidade naquele romance que se iniciava, precisou da minha cobertura. No início relutei. Mas acabei concordando e fazendo companhia a Mara. Afinal, eu não estava comprometido com ninguém.
Ela era bem mais velha do que eu. Negra, tipo miúdo, postura recatada, transmitia calma ao falar e aparentava boa formação familiar. Portanto, acompanhá-la não me causava problemas, já que ela não se mostrava interessada em mim. Éramos apenas acompanhantes daquele casal de apaixonados, segurávamos vela.   
 As novenas terminaram. Iremar se mostrava cada vez mais interessado em Olívia. Aconselhei-o a ter cautela com suas emoções, mas ele não me deu ouvidos. Descobriu onde ela estudava e passou a esperá-la na hora da saída.
Depois de alguns encontros, convidou-a para um cinema. Olívia aceitou, mas condicionou sua ida à companhia da tia, explicando que, à noite, sua mãe não permitiria que saísse desacompanhada. Então Iremar veio me propor que eu continuasse integrando o grupo, possibilitando, dessa forma, que ele tivesse maior intimidade com Olívia. 
Embora eu não quisesse compromissos, não havia em Mara algo que desse motivo para evitá-la. Sua tranqüilidade aparente me deixava em situação confortável e não posso dizer que fosse uma má companhia. Não dava para perceber que ela escondia os poderes de uma Circe (*).
Iremar entrava em desespero quando eu não podia acompanhá-lo. Implorava para que o ajudasse e não desistia. Todas as oportunidades de encontros eram cavadas por ele, até que, um dia, ele me disse que Olívia gostaria muito se aceitássemos o convite para ir à sua casa, no Roger. Um tanto indeciso, concordei, porém manifestei a minha preocupação de que essa visita pudesse se transformar em compromisso, envolvendo-nos com a família. 
Estávamos de folga. Era sábado à noite quando lá chegamos, fardados. Elas nos aguardavam, sentadas na varanda. Receberam-nos, polidamente, no portão e nos convidaram a entrar. As duas mães se aproximaram e depois das apresentações se retiraram para o interior da casa.
Ficamos os quatro, por algumas poucas horas, conversando amenidades. Foi-nos servido um café com bolachas durante o papo, sem que sofrêssemos qualquer investigação constrangedora por parte das mães. Mara, até aquela ocasião, não demonstrava maior interesse por mim. Conversávamos sobre assuntos do cotidiano de qualquer pessoa e nunca sobre nós mesmos.
Era a primeira vez que eu entrava na casa de uma família em João Pessoa. Comecei a perceber que a “família” que eu encontrara no quartel não tinha os mesmos ares de uma família comum. 
Em certo momento, ela perguntou:
— Você gosta de ser policial? 
Respondi:
— Gosto da Polícia e do trabalho que realizo lá. Talvez, um dia, siga outro caminho. Estou estudando, me preparando. Mas, enquanto a guerra não terminar, nem posso pensar em deixá-la.  Correria o risco de ser convocado.  Portanto, não adianta pensar nisso agora, estou protegido. Tão logo cesse a guerra, vou decidir entre continuar vestindo a farda e seguir a vida civil.
Fomos muito bem recebidos e, embora aquela visita tivesse mexido com as minhas carências, senti, naquele dia, que eu estava entrando em uma situação complicada. Assim, no caminho de volta para o quartel, falei para Iremar:
— Eu não posso nem quero me envolver com a tia de Olívia e, muito menos, com a família. Ouvi dizer que eles são ricos e percebi que são preconceituosos com relação à farda. Acho que você devia cair fora.
— Ah! Você está exagerando... — disse Iremar, sem dar importância às minhas palavras.
Eu tinha apenas 20 anos e me considerava um pobre cabo, sem eira nem beira. Não tinha casa, não tinha familiares por perto, não tinha dinheiro. Eu e alguns poucos militares vivíamos no quartel e ali era o nosso lar. Iremar era sobrinho do subcomandante da Polícia Militar e morava com seu tio.





(*)  Circe.  Odisséia de Homero.
     


Não sei por que motivo, houve um hiato de alguns dias nos nossos encontros. Então, as duas nos procuraram. Queriam saber por que não aparecemos mais. De maneira lisonjeira, Mara afirmou:
— Nossas mães ficaram muito bem impressionadas com vocês, só lamentaram a farda... Mas nós dissemos a elas que vocês só estão esperando o fim da guerra para se livrarem dela.
Ao ouvir isso, pisquei disfarçadamente para Iremar e, quando elas se retiraram, disse-lhe:
— Eu não falei?
Meu companheiro se mostrava perdidamente apaixonado por Olívia. E, assim, os encontros se tornaram mais freqüentes e, por conseqüência, uma maior aproximação entre mim e Mara acabou acontecendo, embora eu ainda pensasse na professorinha. Aos poucos fui me envolvendo com ela e percebendo que eu estava dividido: com uma, eu encontrava barreiras, com a outra, facilidades.                          
Mara começou a demonstrar interesse por mim. Nas conversas, durante os encontros em algum lugar da cidade, ela tentava conhecer a minha vida e os meus pensamentos. Comecei também a me interessar por ela, embora confuso com os meus sentimentos.
acervo familiar
Eu sentia muita falta do carinho e da dedicação que sempre mereci das minhas tias e do meu avô, mas achava que essa saudade era normal e que eu devia seguir em frente, sem eles. Nesse período eu me correspondia com Inocência, dando notícias da minha vida na caserna e das coisas boas que encontrei em João Pessoa. Ela me falava da vida simples e sem novidades que levavam em Jatobá. Só me preocupava a saúde de meu avô. Reconheço hoje que descurei da obrigação de retribuir o carinho que recebi dos meus familiares distantes. Os anos passavam e eu sempre adiava o momento de lhes fazer uma visita. Acho que eu tinha medo de me deixar capturar. Vivia inebriado pela agitação da cidade grande ou, quem sabe, sob a influência de uma cultura nordestina migratória, em que o indivíduo se preocupa, unicamente, com a sua adaptação ao novo ambiente.   
E assim passava o tempo...
A essa altura, Celina, mãe de Olívia, percebeu que o namoro da filha com Iremar evoluía, com a cobertura de Mara, e ficou revoltada, passando a devotar ao meu amigo uma repulsa feroz, pois não queria sua filha casada com um policial.
Nada mais podia ser feito. Olívia e Iremar estavam apaixonados e, para que os dois se encontrassem, Mara passou a simular, com mais freqüência, idas ao cinema.
Eu, só algum tempo depois, concluí que havia entre elas uma intenção de me enredar numa trama secreta e nunca fiquei sabendo se Iremar teve participação nisso.
Deixei-me levar pela fraqueza e acabei possibilitando que, pouco a pouco, “o licor encantado de Circe” fosse me dominando e eu me tornasse uma presa fácil.
Iremar aguardava que Olívia conseguisse convencer sua mãe do sentimento verdadeiro que os unia para poder se considerar oficialmente comprometido. Eu e Mara éramos a luz de um farol e entendíamos que eles só conseguiriam se encontrar se saíssemos juntos. Se o meu barco se afastasse da rota, o de Iremar se perderia.
Iremar foi promovido a sargento e, a seguir, nomeado delegado de Polícia no interior, tendo que se deslocar.
Tempos depois, veio a notícia de que Iremar fora assassinado. Olívia já estava bastante envolvida com ele e, ao saber do acontecimento, entrou em desespero, pois ela mesma já se sentia sua noiva. Sofria com sua perda e lastimava por não ter havido tempo de dividirem dias mais felizes em suas vidas, por culpa de barreiras que vinham sendo impostas pela família. Culpava sua mãe, chegando a ponto de assumir uma tristeza doentia, que preocupou a todos. 
  O assassinato de Iremar, de tão dolorida lembrança, influiu durante algum tempo para que se intensificassem as minhas idas à casa de Olívia para lhe oferecer apoio. Porém, minha presença solidária era entendida como se eu buscasse a companhia de Mara.
Não enxerguei que debaixo daquele véu de tristeza estava sendo alimentada uma intimidade entre mim e a família que, aos poucos, me envolvia, impedindo que eu me desvencilhasse. O que, até aqui, devia ser uma visita de apoio a uma amiga com a mente em desalinho tornou-se, de repente, uma falsa afinidade sagazmente urdida num clima de comprometimento sem que eu o percebesse.
Algumas vezes convidei-as para dar um passeio pela cidade e, nessas ocasiões, houve entre mim e Mara maior entendimento e passamos à fase de namoro. Ironia do destino: Iremar e Olívia, apaixonados desde o primeiro dia, agora separados pela morte; eu e Mara antes coadjuvantes, agora envolvidos num relacionamento não muito bem entendido por mim.
O tiro de misericórdia foi no início de agosto de 1944. Lembro-me, ainda hoje assustado, daquela noite, quando fui encurralado para que assumisse oficialmente um compromisso. Mara mostrava-se alegre, parecia estar aguardando alguma coisa que só ela sabia. Estranhei quando sua mãe, em tom austero, sentou-se ao meu lado, num sofá, para uma conversa inusitada. Fiquei preocupado duplamente: temia o teor da conversa e estava na hora de ir embora. O toque de silêncio, no quartel, se dava às 22 horas.
Impedindo que eu me levantasse para as despedidas, ela “abriu o livro”. Disse que já sabia que eu e sua filha estávamos namorando e que não estava gostando de não ter sido comunicada. Queria uma explicação de minha parte. Afirmou que quando eu entrara na sua casa, provavelmente, já tinha alguma intenção. Advertiu-me que Mara era de uma boa família e não uma moça qualquer.
Aquela senhora, um tipo rude, ignorante, que não propiciava um diálogo de bom nível, interpelava-me num tom arrogante, severo e direto. Confesso que fiquei inteiramente confuso, apanhado de surpresa, sem saber o que responder, e, ao mesmo tempo, me perguntava se não estaria caindo numa cilada. Seu filho, Juca, de onde estava, ouvia toda a conversa, o que me deixava mais encabulado e constrangido.
Diante desse quadro, eu não tinha alternativa senão dizer qualquer coisa que me viesse à cabeça. Ela me fitava, com um olhar paralisante. Enquanto aguardava a minha resposta, destacava que eu os havia cativado pela ajuda que dispensara a Olívia e pelas minhas maneiras educadas. Achava, portanto, que estava na hora de anunciar, para toda a família, o noivado. Reafirmava as qualidades da filha e da família, respeitada e bem relacionada. Cobrava-me uma decisão que sinalizasse um compromisso definitivo.
Fiquei com a mente em rebuliço. Ao mesmo tempo em que pensava na resposta, me indagava: “Como me deixei envolver em tudo isso? Por que não vi que era uma cilada do destino?” Aquela decisão não estava sendo tomada por mim e eu me sentia fraco, sem condições de divergir daquela senhora determinada e imperiosa. Não sabia como me comportar. Arrisquei, sem querer criar atritos:
— Por favor, entenda. Quando entrei na sua casa, fui tratado como gente, eu sei. Mas a minha forma de tratar a sua filha não devia ser encarada como um compromisso para solução imediata. Eu acho cedo para uma decisão dessas. Nós nos conhecemos há pouco tempo, três meses apenas.
Eu percebia que não seria fácil dominá-la, já que ela tentava me interromper usando um tom impositivo nas palavras, sem permitir argumentação. E, confesso, sentia-me inteiramente sufocado. Mesmo sem encontrar uma saída, insisti:
— Não tive a intenção de brincar com os sentimentos de sua filha. Longe disso! Nosso relacionamento tem sido respeitoso. Eu gostaria que ele não se transformasse em noivado, mesmo porque eu não estou em condições de assumir um compromisso agora. Primeiro, porque o ordenado de um cabo da Polícia não recomenda; segundo, porque sou ainda muito jovem, na verdade tenho apenas 20 anos.
A mãe de Mara, com ar matriarcal e desconsiderando meus argumentos, sentenciou que eu já estava muito íntimo da casa e não havia por que esperar mais. Pedia que eu me decidisse, confirmando o noivado. Senti-me encurralado e não tive outro jeito senão aceitar, insistindo, porém, que aguardaria o momento oportuno para anunciar a minha decisão. 
Nesse momento, a astuta senhora, parecendo ter chegado a um armistício comigo, ouvindo somente o que queria ouvir, mudou o tom de sua voz e disse:
 Compra as aliança, começa a pensá em tirá essa farda. Vâmo, ajuda. 
 Sem que eu tivesse tempo de refletir, chamou Mara e bradou, comemorando:
— Cês tão noivo!
O ar de superioridade daquela família não permitia que eu encontrasse palavras e exercesse a minha liberdade com plenitude. Eu me sentia fraco e submisso: “Que beco sem saída! Onde fui me meter!”,  rosnava comigo mesmo.
Despedi-me. Com o coração martelando, tomei o caminho de volta ao quartel. Pelo adiantado da hora não poderia entrar pelo portão principal e tive que usar uma passagem camuflada, nos fundos, atrás do alojamento da banda de música, por onde os soldados atrasados se esgueiravam, cautelosamente, na escuridão, até chegarem ao seu alojamento. Era a primeira vez que eu usava esse artifício, e o fiz com muito medo de punição. Nessa noite de agosto, até para achar a minha cama eu passei por dificuldades. Que sufoco!
Assim, eu passei a frequentar a casa de Mara com mais regularidade, sem atentar para o tamanho do “alçapão” em que caía. 
No meu entendimento, naquele momento, a família me acolhia muito bem, e pensei que havia encontrado um porto seguro. “Quem sabe se, através deles, uma porta não se abrirá para garantir o meu futuro?”, admitia. 
No intuito de agradar àquela família, eu vivia uma grande confusão interna. Ora pensava em esperar o fim da guerra para pedir baixa da Polícia, ora achava que devia fazê-lo antes. Meu chefe, dizia:
— Você vai se dar bem na vida civil, principalmente entrando para essa família. Considere-se um sortudo.
— Será?...
Como me fora determinado, mandei fazer as alianças e, certa noite de setembro, sem qualquer cerimônia ou alarde, cada um colocou a sua, consumando-se o compromisso ansiosamente  aguardado pela família. A partir desse dia, comecei a sentir,  nas falas e nas atitudes de Mara e sua mãe, algumas censuras e limitações causadas pela “camisa-de-força” que eu começava a usar.
Dias depois, foi dado “o toque de recolher”. Chamaram-me para informar que haviam decidido marcar o casamento para o mês de dezembro. Antes que eu demonstrasse alguma inquietação, disseram que eu não precisaria me preocupar com as despesas nem com a cerimônia. Tudo seria resolvido pela família.
À medida que os dias passavam, cresciam dentro de mim, silenciosamente, dúvidas quanto à possibilidade de ser feliz, tal a forma atabalhoada como os acontecimentos vinham sendo conduzidos.
Numa manhã, eu me encontrei com Clícia, acidentalmente, quando ela se dirigia ao ponto do ônibus. Ficamos conversando alguns minutos enquanto o ônibus não chegava. Ela sentira o meu afastamento, e eu lhe contei do meu noivado repentino. Alguém nos viu conversando e foi contar para Mara e sua mãe.
À noite, quando fui chegando, ambas me aguardavam e, antes que eu dissesse “boa-noite”, dispararam suas “baterias”. Nem cheguei a entrar no portão. Eu tentava responder às perguntas, mas elas não me deixavam. Senti-me um prisioneiro diante do pelotão.
O clima da guerra no front estava ali presente, e eu mortalmente atingido por aquelas metralhadoras. Justificar o encontro casual com Clícia era inútil. Parecia que as duas tinham me colocado uma mordaça. Foi o meu primeiro impacto com o lado desconhecido de Mara. Aquela figura calma e educada começava a ganhar outro contorno.
Fiquei três dias sem aparecer. Aproveitei para refletir e concluí que seria um excelente momento para reagir e tomar a decisão de colocar um ponto final na situação, antes que eu me enrolasse definitivamente. Parecia haver chegado essa hora.
Mara e Olívia foram me procurar e eu lhes disse que havia ficado envergonhado com  aquele fuzuê horrível, presenciado pelos vizinhos. Mara penitenciou-se e pediu desculpas também em nome de sua mãe. Insistiu muito para que eu garantisse que iria a sua casa, à noite, quando tudo se esclareceria.
Sempre preocupado em não desapontar as pessoas e honrar meus compromissos, como aprendera com o velho Ezequiel, compareci à casa de Mara, conforme havia prometido. Fui recebido por ela como se nada tivesse acontecido. Sua mãe apareceu na sala e foi dizendo:
— Ah, pareceu! Pensei qui não ia vortá — ao mesmo tempo em que esboçava um sorriso de satisfação.
Na minha cabeça persistia a ideia do ponto final. No entanto, olhando para aquela mulher, fraquejei mais uma vez e adiei a decisão para outro momento. Voltei para o quartel revoltado comigo mesmo. Não consegui falar dos meus sentimentos e exercer a minha vontade. Sentia que era dominado por aquelas pessoas e vivia uma luta interna que me arrasava. Era eu contra mim mesmo.
A partir daí, os dias correram normais, dentro das circunstâncias. As dúvidas que me surgiam eu tentava creditar à minha falta de experiência e traquejo. E seguia em frente, caminhando, com a obrigação de cumprir aquele compromisso talvez na esperança de ter encontrado a família que eu tanto necessitava. Afinal, desde que chegara a João Pessoa, não havia tido oportunidade de frequentar casas de famílias. Tampouco casa de alguma namorada. A verdade é que eu me deixava seduzir pelo tipo de vida que me era oferecido, mesmo sendo diminuído ou desconsiderado, algumas vezes.
De repente, Mara adoeceu. Houve quem alegasse, na família, que a enfermidade dela poderia estar relacionada ao aborrecimento que tivera recentemente comigo, embora o problema fosse físico e não emocional. Outra vez, parecia que eu me tornara objeto de discussão. Era como se quisessem imputar-me responsabilidade pelo que se passava na cabeça dela. Pareciam querer que eu assumisse a culpa. Minha cabeça fervia. Senti-me cobrado e fiquei angustiado com o que estavam pensando a meu respeito.
 Quando conheci Mara, ela trabalhava como guarda-livros em um escritório e também dava aulas numa escola de datilografia. E agora estava decidida a abandonar essas atividades, alegando que não tinha condições físicas para continuar trabalhando.
Tentei adiar o casamento, justificando com o estado de saúde dela, mas não consegui convencê-los.
Com amigos, eu desabafava e tentava encontrar meios para sair da enrascada em que estava metido, mas eles diziam:
— Você não tem saída! É melhor encarar a realidade. Além do mais, é o melhor que lhe podia acontecer. Tente se adaptar. Depois você se acostuma e verá que não vai ser tão ruim assim.  Poderá estudar sem preocupações. Afinal, você vai ter uma casa e uma família.
Certo dia, recebi um recado, quase uma ordem, para comparecer à loja do irmão mais velho de Mara. Ele tinha um comércio de tecidos finos. Queria falar comigo. Tremi na base. “Que será que querem agora?”
Compareci na manhã seguinte. Josias cumprimentou-me secamente e foi direto ao assunto, dizendo que eu escolhesse um corte de casimira na vitrine para que ele mandasse fazer o terno do casamento na alfaiataria de um amigo. Fiquei indeciso e ele próprio escolheu uma casimira inglesa, das mais caras. Aceitei e ele recomendou-me ao amigo alfaiate para tirar as medidas. Deveria retornar três dias depois para a primeira prova do terno.
À noite, quando cheguei à casa de Mara, fui surpreendido por outra providência: a matriarca já havia comprado, sem me consultar, móveis de quarto para colocar no cômodo que seria do futuro casal. Eu não conseguia demonstrar a minha contrariedade, muito menos curiosidade. Engoli tudo calado, fingindo não entender a manipulação. Não deixava de ser uma situação cômoda: não discutir o que estava sendo decidido. Era cedo ainda para imaginar que a cobrança viria depois, destroçando meus valores e terminando com a minha mocidade.
Convenci-me de que não tinha mais jeito. Notava agora a força que aquela família exercia sobre mim. Acomodei-me e deixei a vida me levar. Rendição total. Desse momento em diante, qualquer coisa que me fosse oferecida eu aceitaria, com certeza.
Veio o derradeiro golpe: eu devia deixar a Polícia, o quanto antes. E, assim que desse baixa, passaria a trabalhar na loja de tecidos, que era, na época, muito bem conceituada na cidade.
Na Casa das Ordens, comentei com alguns amigos que eles estavam me exigindo sair da Polícia com promessas de um emprego na firma da família. Todos falavam que eu ia me dar bem; que não podia reclamar da sorte, só agradecer; que nada melhor poderia me acontecer... Essas opiniões muito influíram no meu comportamento displicente e vieram somar-se à grande necessidade que eu tinha de me encaixar, de ser adotado por uma família que pudesse me dar segurança e chances de crescimento. Era o que eu precisava.
Celina, irmã de Mara, desde que enviuvara, residia na casa da mãe, ocupando um quarto com Olívia e o filho, Zico. Em outro quarto dormiam Mara e sua mãe. O terceiro era ocupado por Juca, irmão de Mara. Agora, para que eu pudesse fazer parte da família, foi pedido a Celina que procurasse outra casa para morar com os filhos. Essa exigência causou um grande mal-estar em todos, seguido de um bate-boca que eu não esperava.  No meio disso eu me senti um intruso, um invasor.
Finalmente chegou o dia do casamento. Foi uma tarde esquisita aquela do dia 16 de dezembro. Saí do quartel e fui me vestir na casa de Mara. Não vi a noiva, disseram que dava azar. Imagino se tivesse visto!
O irmão de Mara foi me deixar na igreja e voltou para conduzir a noiva. Eu nunca havia entrado na Catedral Metropolitana. Estava adornada com flores brancas no altar e em toda a extensão da nave. Por alguns instantes, fiquei ali sozinho, na porta da Catedral, meio perdido. Familiares e pessoas das relações de amizade da família aguardavam, dentro e fora da igreja. Não havia nenhum membro da minha família. Também não havia, no meio daquelas pessoas, nenhum colega de minha corporação.
O relógio da torre da Catedral marcava 17 horas. Alguém me mandou ficar junto ao altar, dizendo:
— Está na hora de a noiva chegar.
Obedeci. As “filhas de Maria” se posicionaram para aguardar a entrada da noiva. O coro, do qual ela fazia parte, entoou os primeiros acordes, as luzes se acenderam. O sacerdote se aproximou, cumprimentou-me com um aceno de cabeça e se posicionou no altar. O som do órgão, acompanhado pelo canto gregoriano do coro, ecoava, dando ao ambiente um efeito hipnotizador que eu jamais havia sentido. O perfume e o brilho das flores penetravam-me, interferindo nos meus sentidos, e eu não me sentia presente, era irreal o que eu vivia. Meu pensamento vagava. Todas aquelas sensações desconhecidas me inundaram de emoção, uma emoção diferente, mesclada de incerteza e melancolia, que eu não entendia, até que fui despertado pela figura da noiva que se aproximava.
Fui puxado para a realidade.
Ali tinha início a grande transformação de minha vida.
A igreja estava lotada de gente que não fazia parte do meu mundo, um mundo difuso, no qual eu estava entrando e que me fazia sentir uma solidão tão profunda que me esforcei para disfarçar. Sentia-me rompendo o elo com a família simples que eu havia deixado para trás.
Enquanto a cerimônia acontecia, lembrei-me da única cerimônia de casamento a que eu assistira, ainda menino: da minha tia Alice. O contraste entre as duas era violento, agressivo. Aquele, tão simples e feliz; este, tão requintado e cercado de incertezas.  
Cumpriu-se o rito. Consummatum est! E nada mais, naquele momento, poderia ser feito.
Hoje, entendo que a emoção que tomou conta de mim resultava da minha estréia num mundo desconhecido, cheio de ilusões.
Ninguém da minha família apareceu. Embora soubessem que eu estava casando, não recebi, sequer, um telegrama de felicitações.
No final da cerimônia, senti solidão e vergonha. Alguém, ali, deveria estar se perguntando: “Onde está a família do noivo?” Hoje, isso me faz refletir, seriamente, sobre o sentimento de rejeição que sempre me acompanhou e que me propiciou tantos descaminhos.
Meu pai enviara uma carta dias antes comunicando que talvez não comparecesse, porém, viria, posteriormente, conhecer a nora. Meu avô, velho, doente e debilitado, não podia se deslocar. Minhas tias nunca saíram de Patos e teriam muitas dificuldades para fazer uma viagem tão longa.  As irmãs de minha mãe, residentes em João Pessoa, também não estavam presentes, embora eu já frequentasse suas residências vez por outra. Então, só me restava admitir que a minha família fosse composta por todos aqueles estranhos. Para mim, ficava confirmado que eu precisava ser adotado, mas não demorou muito para que eu me sentisse subjugado.
Passamos a ocupar um quarto na casa da família. Não tínhamos condições de nos manter sozinhos, e essa dependência financeira fazia com que eles tivessem sobre mim poderes cada vez mais sufocantes. 

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