segunda-feira, 11 de maio de 2020

2ºCapítulo - 3º Episódio: "... a preocupação com o estudo e a Segunda Guerra Mundial..."


NO QUARTEL HAVIA UMA ESCOLA REGIMENTAL destinada a soldados de baixa escolaridade. O comandante escolhia um policial com razoável instrução para ministrar as aulas. Os soldados recebiam lições de conhecimentos gerais e deveriam ser capazes de ler, escrever e efetuar as quatro operações.
Cabo Cleuto Leal, meu colega na Casa das Ordens, cursava o terceiro ano científico e foi selecionado para a função de professor, segundo critérios estabelecidos.
Enquanto isso, eu trabalhava de dia e, à noite, frequentava aulas no Educandário Néri, para prestar exames do art. 91. O estudo era, por essa época, a minha maior preocupação.
A Polícia estava me propiciando a realização de um desejo que me acompanhava desde criança: estudar. E eu me agarrava àquela oportunidade com muita dedicação. Precisava recuperar o tempo perdido e complementava o estudo formal com a leitura de todos os livros que caíam em minhas mãos.
Os livros me fascinavam. Desde menino me interessava por eles, mesmo antes de entender o que realmente significavam. Lembro que, certa vez, em Jatobá, quando brincava na casa do meu amigo  Francisco, ele retirou de uma velha escrivaninha um livro muito grosso que disse ser um dicionário. Juntos, começamos a folheá-lo e eu fiquei impressionado com as pequenas ilustrações que via em cada página. Aquele primeiro encontro com figuras desconhecidas, acompanhadas de muitas palavras difíceis, colocadas em ordem alfabética, deixou-me a ideia de que aquele livro encerrava todas as palavras e todas as explicações de um mundo que eu começava a descortinar. Era uma visão delirante e tanto me impressionou que, já em João Pessoa, reconheci o dicionário na vitrine de uma livraria e o adquiri como se descobrisse um grande tesouro. 


E, assim, o Dicionário Prático Ilustrado de Jaime de Sèguier passou a ocupar lugar de destaque entre os poucos livros que eu possuía. Até hoje ele me acompanha como fiel representante desse meu período de descobertas e como símbolo do meu interesse pelos diversos saberes.       
No Educandário Néri também funcionava um curso de inglês, ministrado por um professor recém-chegado dos Estados Unidos. O inglês era a minha grande fascinação. Desde Patos, já me encantava a sonoridade do idioma ao ouvir o pastor Briol conversando com o Dr. Aurélio naquela língua. Agora, uma nova oportunidade se apresentava e eu podia ousar um pouco mais: estudar inglês.

Naqueles dias, só se falava na guerra que se alastrava na Europa. 



                                                                                                                            No Nordeste, Natal e Recife foram as cidades escolhidas como bases de apoio para a movimentação de soldados e armas para a zona conflagrada. João Pessoa, por ficar a meio caminho dessas bases, recebia a visita de muitos americanos fazendo com que a língua inglesa influísse no nosso cotidiano. A comunicação entre brasileiros e americanos seria facilitada por quem dominasse o idioma deles.
Eu me sentia um privilegiado quando, eventualmente, era solicitado a colaborar nos contatos com os soldados que vinham a João Pessoa se divertir. Essa experiência foi profundamente enriquecedora e eu comecei a me orgulhar de mim mesmo. Sabia que estava no caminho certo.
         Por problemas pessoais, o Cabo Cleuto Leal pediu dispensa da função de professor da Escola Regimental e eu, considerado um elemento estudioso, fui indicado para substituí-lo. Continuei na Casa das Ordens, operando o mimeógrafo e, à noite, entre 19 e 21 horas, ministrava as aulas. Recebia, por isso, uma gratificação de 30 mil réis.
 Fui obrigado a deixar de estudar à noite. Mesmo assim, reconheço que essa passagem pela Escola Regimental foi um marco importante, pois me senti testado e motivado para continuar acreditando que, através do estudo, encontraria a realização pessoal que eu buscava.
 Paralelamente, eu me preparava para a prova ao posto de sargento, mas, embora tivesse me esforçado muito, não fui aprovado. Eu não estava suficientemente preparado e as vagas eram poucas. Senti-me frustrado, é claro, mas procurei entender a derrota como uma advertência. Continuei estudando e me preparando para um novo desafio, que não tardaria a chegar.
 Alguns meses depois, fiz outra prova, desta vez para monitor de Educação Física. Fui aprovado. Vibrei muito com essa conquista. Além da prova escrita, foram requisitos básicos: ter boa saúde e bom físico. E isso eu exibia nos exercícios de rotina, na praça de esporte do quartel, ou quando participava dos treinos e dos jogos de vôlei e basquete.  Apesar de franzino, não fazia feio.
Vi no curso de monitor de Educação Física a oportunidade para esquecer a frustração que senti pela reprovação anterior. Comecei o curso bastante entusiasmado. Sua duração seria de seis meses, porém, quando estava no final do quarto mês de atividades, fui acometido de um mal súbito durante um exercício físico. Depois dos exames, o Dr. Edrísio Vilar, médico militar, determinou minha internação. Eu havia adquirido uma doença venérea, como eram chamadas as doenças sexualmente transmissíveis. Naquela época não havia divulgação do uso de preservativos, nem muitas informações sobre relações sexuais. O assunto era  tabu. Homens e mulheres sabiam do perigo constante, mas corriam o risco. Depois do fato consumado, vinham as conseqüências desastrosas e só restava submeterem-se a tratamentos longos à base de penicilina. Fiquei 30 dias internado no Hospital Santa Isabel.
Quando voltei ao quartel já havia sido desligado do curso. Mais uma frustração, e essa doeu mais que a outra.
Retornei à rotina da Casa das Ordens e da Escola Regimental, bastante contrariado.
Estava decepcionado comigo mesmo. Pensei em desistir da vida militar e me preparar para a vida civil, mas eu relutava por sentir grande orgulho em pertencer à Força Policial da Paraíba. Assim, cheguei à conclusão que essas dificuldades apenas me incitavam e não poderiam me fazer recuar.
Apesar de ter encontrado na caserna um bom ambiente e ter feito bons amigos, eu me sentia só, sem família. Minha mãe deixou um grande vazio, só agora percebia. Senti sua falta em muitos momentos. Então, tomei coragem e decidi procurar minhas tias. 
Praça Vidal de negreiros, Ponto Cem Réis















Fui ao Ponto Cem Réis e logo localizei um senhor que correspondia às características físicas do Santino, cunhado de minha mãe. Dirigi-me a ele e perguntei:

        — Senhor Santino?
— Sim, eu mesmo, o que deseja?
— Eu sou Chiquinho, sobrinho de sua esposa, Dega.
— Filho de Severina?
Percebi que ele se surpreendeu com a minha aparição. Fiquei aliviado, com a sua expressão de satisfação. Imediatamente ele manifestou interesse em que eu os visitasse, acrescentando:
— Dega vai gostar muito de conhecê-lo! E Severina, como está?
Constatei, nesse momento, que, de fato, minha mãe havia se afastado de suas irmãs. Sua mágoa devia ter sido grande, por isso aquele silêncio ressentido e enigmático a respeito delas, na última vez em que nos encontramos.
Fingi desconhecer quaisquer desavenças familiares e respondi: 
— Ela faleceu em Recife, onde trabalhava. Morreu sozinha, sem família.
O homem ficou perplexo, lamentando, ao mesmo tempo em que me apresentava condolências. Rapidamente escreveu em um pedaço de papel o seu endereço e insistiu para que eu os visitasse, o que fiz algumas vezes.  

NA EUROPA A GUERRA SE ALASTRAVA de forma acelerada. Soldados americanos eram enviados para o front, constantemente. A repercussão das notícias que nos chegavam era inquietante.
Embora o governo brasileiro afirmasse que o país não se envolveria no conflito, ninguém estava convencido disso. O Brasil era visto como um simples espectador ante os acontecimentos, apesar do agravamento da situação. As notícias mexiam com os nervos do povo.
Em João Pessoa, as famílias começaram a inquietar-se com a possibilidade de seus jovens irem à guerra. Pela gravidade da situação, era certo que o governo sairia a qualquer momento do aparente imobilismo e acabaria enviando tropas brasileiras para o campo de batalha, desfazendo perante o mundo a ideia de neutralidade.
Os jovens de famílias mais privilegiadas, que antes viam a Polícia com preconceito, passaram a procurá-la como a melhor opção para não irem à guerra.
Presenciando esse movimento, lembrei-me agradecido de minha mãe. Ela teve uma visão antecipada das dificuldades que os jovens da minha idade estavam vivendo e me protegeu, abrigando-me na Polícia. 
Enquanto isso, estações de rádio clandestinas, braços da espionagem alemã, eram localizadas, resultando na prisão de pessoas, que ficavam sob custódia da Polícia. Foi um período agitado e de muito pânico. Ninguém parava na rua para conversar. Havia vigilância por toda parte. A Polícia estava sempre por perto. Os pontos estratégicos, onde podiam ocorrer sabotagens, eram devidamente protegidos, dia e noite.
Em meio a tudo isso, os soldados escalados para a segurança de Buraquinho — reservatório de água da cidade — passavam a noite lutando contra um batalhão de muriçocas, inimigos mais temidos que os próprios alemães. Amanheciam com os rostos deformados pelo ataque certeiro desses insetos. 



            
                                                              A notícia de torpedeamento de cargueiros brasileiros na costa          americana, sabidamente por               submarinos alemães, caiu como uma bomba para toda a nação.                                            Depois,    mais navios brasileiros foram torpedeados na nossa costa. Em face de tantas agressões e da perda de tantas vidas, a indignação nacional aumentava. O governo brasileiro passou a ser pressionado para que o Brasil se declarasse em estado de guerra. O Presidente Getúlio Vargas se viu obrigado a, no mês de agosto de 1942, reconhecer o conflito entre o Brasil e as potências do Eixo. Rompeu relações com a Alemanha e anunciou para a nação que o Brasil se encontrava em estado de guerra.
Em João Pessoa, o povo e os estudantes tomaram conta da via pública com exaltações patrióticas de vingança, fazendo com que a Polícia redobrasse a segurança, principalmente onde houvesse uma residência de alemão.




A chegada de soldados brasileiros a Itália

Somente em julho de 1944, a “Voz do Brasil” anunciou a formação e envio do primeiro contingente de soldados brasileiros para se juntar às forças americanas, na Itália, ocupada pelos alemães.
Alguns jovens que cumpriam o serviço militar no 15o Regimento de Infantaria integraram a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Lembro-me de um deles, com quem eu conversava, Felix Araújo, brilhante estudante do Liceu Paraibano, que fazia discursos inflamados e patrióticos, em praça pública, capazes de arrebatar multidões. De repente, passamos a sentir a sua falta. Havia partido para a guerra, como voluntário, porém continuou escrevendo um artigo semanal para o jornal “A União”, sobre os horrores que presenciava no front. Seus artigos eram publicados com uma chamada especial no canto da edição: “Um pracinha na Itália!”

Ficou na memória dos pessoenses o seguinte trecho de um de seus artigos: “Meus olhos estão ardendo, minhas mãos estão queimadas, meus ouvidos estão quase surdos pelo troar dos canhões...” Suas reportagens traziam para perto de nós o sofrimento e a bravura dos pracinhas nos campos fumegantes da Itália, onde a única divisa era: matar ou morrer.
Felix Araújo voltou ileso da guerra e, depois de terminar seus estudos em João Pessoa, mudou-se para Campina Grande. Tornou-se ativista político e se elegeu como o vereador mais votado. Foi assassinado covardemente pelas costas, aos 30 anos de idade. Escapou heroicamente dos tiros e dos bombardeios na guerra, mas não escapou da ira política no seu Estado.
Durante a guerra, “A União” e o “Diário de Pernambuco”, principais jornais que circulavam em João Pessoa, eram disputados e esgotavam-se cedo nas bancas. Havia sede de informações sobre a participação das tropas brasileiras na Itália.
O movimento de tropas americanas nas bases de Parnamirim, em Natal, e Ibura, em Recife, era intenso.
Essas bases se tornaram o corredor por onde transitavam soldados e armamentos e, por isso mesmo, eram consideradas estratégicas pelos americanos. Natal foi apelidada de Trampolim da Vitória.
A todo instante, chegavam ou partiam soldados americanos em direção ao front
João Pessoa, por ficar exatamente entre Natal e Recife, ligada por pequena distância, de vez em quando tinha sua pacata rotina alterada pela presença de militares americanos, vindos de uma ou de outra base. 
Embora houvesse restrições quanto à aproximação com os marines, eu sempre que podia arriscava algum diálogo com eles. Era uma excelente oportunidade de aprimorar o meu inglês.
À noite, as pessoas se reuniam no Ponto Cem Réis para ouvir as notícias do Repórter Esso” — “o primeiro a dar as últimas”. A Europa ardia e os avanços do inimigo eram arrasadores: a França estava quase nas mãos dos alemães; a Inglaterra era impiedosamente bombardeada.


Churchill
 O velho Churchill, esbanjando charuto e confiança no patriotismo dos ingleses, aparecia nos noticiários do cinema ou nas fotos dos jornais, fazendo sua saudação característica: braço erguido e sinal em V com os dedos da mão direita.
As tropas americanas avançavam conquistando, passo a passo, o terreno ocupado pelo inimigo, encurralando-o num corredor de difícil saída. De outra parte, vinham as  forças soviéticas empurrando o inimigo para o mesmo corredor, propiciando a ação conjunta para a deflagração da maior ofensiva da história das guerras.
Na Itália, as tropas brasileiras lutavam bravamente sob o comando do General Mascarenhas de Morais. Enquanto isso, as notícias que chegavam eram alarmantes, dando ênfase para as perdas de muitas vidas humanas. Ouvindo essas notícias a todo instante, eu agradecia a Deus e à minha mãe por não estar também naquele inferno de fogo.   As estações de rádio passaram a anunciar que estava em marcha a deflagração de uma grande ofensiva pelas forças aliadas e que, a qualquer momento, dar-se-ia o ataque fulminante.



Repórter Esso”, da Rádio Nacional, ia ao ar em constantes edições extraordinárias. De repente, começou a noticiar que ofensivas por terra, mar e ar capturavam e dizimavam divisões alemãs inteiras.
E assim, se aproximava o fim do Apocalipse de Hitler.
Eu era um dos muitos que já não suportavam mais ouvir falar em guerra, prontidão, trabalho, guarda, reforço. A vida militar se tornava insuportável!
Logo depois, a Polícia afrouxou o regime de prontidão, declarando-se em sobreaviso. Melhorou o estado de espírito da tropa, e foi permitida a saída. Houve um certo relaxamento, um pouco de liberdade.



2o. Capitulo - Episódio 4 " ...a vida amorosa..."

POR ESSA ÉPOCA, EU paquerava Clícia, uma professorinha que dava aulas em uma escola em Santa Rita. Pela janela do quartel, eu a via, toda manhã, no ponto de ônibus da esquina do Correio, na Avenida Beaurepaire Rohan. Era morena, baixa, de olhos graúdos. Seu modo discreto e gestos educados me atraíam. De vez em quando nos encontrávamos, casualmente, na rua. Outras vezes, eu esbarrava com ela, propositalmente, no ponto do ônibus, apenas para ter a oportunidade de trocar algumas palavras. Ela tinha namorado e eu permanecia atento, na esperança de que aquele compromisso pudesse se desfazer.
 Iremar era meu colega de farda. Nos momentos de folga, saíamos juntos do quartel para apreciar o passeio das moças na Praça João Pessoa ou na Lagoa.
Certa noite de maio de 1944, resolvemos assistir à novena na Igreja São Miguel. Nesse mês, as igrejas ficavam lotadas. As novenas, à noite, faziam parte do “calendário social”, e os rapazes viam ali uma excelente oportunidade de observar o desfile de moças de família à espera de algum pretendente bem-intencionado.  
Foi assim que conheci Mara, na saída da igreja. Ela se fazia acompanhar da sobrinha Olívia. Estávamos em pé, na calçada, quando elas passaram e nos olharam de relance. Sentimos alguma aceitação e arriscamos um “boa-noite”, que foi correspondido. Seguimos andando atrás das duas que, usando pesados vestidos negros, caminhavam eretas, fingindo não perceber que as estávamos seguindo. No meio do caminho nos aproximamos e Iremar, ousadamente, perguntou:
— Rezaram por quem, hoje?
— Sempre rezamos por todos — respondeu a mais nova, com um leve sorriso que permitiu a troca de mais algumas palavras, até chegarmos perto da casa em que elas moravam.    
Os encontros, à saída da igreja, sucederam-se enquanto durou o mês de maio. Mara cantava no coro e algumas vezes participávamos da novena para propiciar aceitação.
Éramos jovens, discriminados por sermos apenas cabos da Polícia, não podíamos, então, desperdiçar a oportunidade de sermos vistos acompanhados por moças de família.  
 Iremar, meu amigo, em pouco tempo apaixonou-se pela beleza de OlíviaElamuito jovem ainda, não podia sair sem a companhia da tia, e ele, para ter alguma privacidade naquele romance que se iniciava, precisou da minha cobertura. No início relutei. Mas acabei concordando e fazendo companhia a Mara. Afinal, eu não estava comprometido com ninguém.
Ela era bem mais velha do que eu. Negra, tipo miúdo, postura recatada, transmitia calma ao falar e aparentava boa formação familiar. Portanto, acompanhá-la não me causava problemas, já que ela não se mostrava interessada em mim. Éramos apenas acompanhantes daquele casal de apaixonados, segurávamos vela.   
 As novenas terminaram. Iremar se mostrava cada vez mais interessado em Olívia. Aconselhei-o a ter cautela com suas emoções, mas ele não me deu ouvidos. Descobriu onde ela estudava e passou a esperá-la na hora da saída.
Depois de alguns encontros, convidou-a para um cinema. Olívia aceitou, mas condicionou sua ida à companhia da tia, explicando que, à noite, sua mãe não permitiria que saísse desacompanhada. Então Iremar veio me propor que eu continuasse integrando o grupo, possibilitando, dessa forma, que ele tivesse maior intimidade com Olívia. 
Embora eu não quisesse compromissos, não havia em Mara algo que desse motivo para evitá-la. Sua tranqüilidade aparente me deixava em situação confortável e não posso dizer que fosse uma má companhia. Não dava para perceber que ela escondia os poderes de uma Circe (*).
Iremar entrava em desespero quando eu não podia acompanhá-lo. Implorava para que o ajudasse e não desistia. Todas as oportunidades de encontros eram cavadas por ele, até que, um dia, ele me disse que Olívia gostaria muito se aceitássemos o convite para ir à sua casa, no Roger. Um tanto indeciso, concordei, porém manifestei a minha preocupação de que essa visita pudesse se transformar em compromisso, envolvendo-nos com a família. 
Estávamos de folga. Era sábado à noite quando lá chegamos, fardados. Elas nos aguardavam, sentadas na varanda. Receberam-nos, polidamente, no portão e nos convidaram a entrar. As duas mães se aproximaram e depois das apresentações se retiraram para o interior da casa.
Ficamos os quatro, por algumas poucas horas, conversando amenidades. Foi-nos servido um café com bolachas durante o papo, sem que sofrêssemos qualquer investigação constrangedora por parte das mães. Mara, até aquela ocasião, não demonstrava maior interesse por mim. Conversávamos sobre assuntos do cotidiano de qualquer pessoa e nunca sobre nós mesmos.
Era a primeira vez que eu entrava na casa de uma família em João Pessoa. Comecei a perceber que a “família” que eu encontrara no quartel não tinha os mesmos ares de uma família comum. 
Em certo momento, ela perguntou:
— Você gosta de ser policial? 
Respondi:
— Gosto da Polícia e do trabalho que realizo lá. Talvez, um dia, siga outro caminho. Estou estudando, me preparando. Mas, enquanto a guerra não terminar, nem posso pensar em deixá-la.  Correria o risco de ser convocado.  Portanto, não adianta pensar nisso agora, estou protegido. Tão logo cesse a guerra, vou decidir entre continuar vestindo a farda e seguir a vida civil.
Fomos muito bem recebidos e, embora aquela visita tivesse mexido com as minhas carências, senti, naquele dia, que eu estava entrando em uma situação complicada. Assim, no caminho de volta para o quartel, falei para Iremar:
— Eu não posso nem quero me envolver com a tia de Olívia e, muito menos, com a família. Ouvi dizer que eles são ricos e percebi que são preconceituosos com relação à farda. Acho que você devia cair fora.
— Ah! Você está exagerando... — disse Iremar, sem dar importância às minhas palavras.
Eu tinha apenas 20 anos e me considerava um pobre cabo, sem eira nem beira. Não tinha casa, não tinha familiares por perto, não tinha dinheiro. Eu e alguns poucos militares vivíamos no quartel e ali era o nosso lar. Iremar era sobrinho do subcomandante da Polícia Militar e morava com seu tio.





(*)  Circe.  Odisséia de Homero.
     


Não sei por que motivo, houve um hiato de alguns dias nos nossos encontros. Então, as duas nos procuraram. Queriam saber por que não aparecemos mais. De maneira lisonjeira, Mara afirmou:
— Nossas mães ficaram muito bem impressionadas com vocês, só lamentaram a farda... Mas nós dissemos a elas que vocês só estão esperando o fim da guerra para se livrarem dela.
Ao ouvir isso, pisquei disfarçadamente para Iremar e, quando elas se retiraram, disse-lhe:
— Eu não falei?
Meu companheiro se mostrava perdidamente apaixonado por Olívia. E, assim, os encontros se tornaram mais freqüentes e, por conseqüência, uma maior aproximação entre mim e Mara acabou acontecendo, embora eu ainda pensasse na professorinha. Aos poucos fui me envolvendo com ela e percebendo que eu estava dividido: com uma, eu encontrava barreiras, com a outra, facilidades.                          
Mara começou a demonstrar interesse por mim. Nas conversas, durante os encontros em algum lugar da cidade, ela tentava conhecer a minha vida e os meus pensamentos. Comecei também a me interessar por ela, embora confuso com os meus sentimentos.
acervo familiar
Eu sentia muita falta do carinho e da dedicação que sempre mereci das minhas tias e do meu avô, mas achava que essa saudade era normal e que eu devia seguir em frente, sem eles. Nesse período eu me correspondia com Inocência, dando notícias da minha vida na caserna e das coisas boas que encontrei em João Pessoa. Ela me falava da vida simples e sem novidades que levavam em Jatobá. Só me preocupava a saúde de meu avô. Reconheço hoje que descurei da obrigação de retribuir o carinho que recebi dos meus familiares distantes. Os anos passavam e eu sempre adiava o momento de lhes fazer uma visita. Acho que eu tinha medo de me deixar capturar. Vivia inebriado pela agitação da cidade grande ou, quem sabe, sob a influência de uma cultura nordestina migratória, em que o indivíduo se preocupa, unicamente, com a sua adaptação ao novo ambiente.   
E assim passava o tempo...
A essa altura, Celina, mãe de Olívia, percebeu que o namoro da filha com Iremar evoluía, com a cobertura de Mara, e ficou revoltada, passando a devotar ao meu amigo uma repulsa feroz, pois não queria sua filha casada com um policial.
Nada mais podia ser feito. Olívia e Iremar estavam apaixonados e, para que os dois se encontrassem, Mara passou a simular, com mais freqüência, idas ao cinema.
Eu, só algum tempo depois, concluí que havia entre elas uma intenção de me enredar numa trama secreta e nunca fiquei sabendo se Iremar teve participação nisso.
Deixei-me levar pela fraqueza e acabei possibilitando que, pouco a pouco, “o licor encantado de Circe” fosse me dominando e eu me tornasse uma presa fácil.
Iremar aguardava que Olívia conseguisse convencer sua mãe do sentimento verdadeiro que os unia para poder se considerar oficialmente comprometido. Eu e Mara éramos a luz de um farol e entendíamos que eles só conseguiriam se encontrar se saíssemos juntos. Se o meu barco se afastasse da rota, o de Iremar se perderia.
Iremar foi promovido a sargento e, a seguir, nomeado delegado de Polícia no interior, tendo que se deslocar.
Tempos depois, veio a notícia de que Iremar fora assassinado. Olívia já estava bastante envolvida com ele e, ao saber do acontecimento, entrou em desespero, pois ela mesma já se sentia sua noiva. Sofria com sua perda e lastimava por não ter havido tempo de dividirem dias mais felizes em suas vidas, por culpa de barreiras que vinham sendo impostas pela família. Culpava sua mãe, chegando a ponto de assumir uma tristeza doentia, que preocupou a todos. 
  O assassinato de Iremar, de tão dolorida lembrança, influiu durante algum tempo para que se intensificassem as minhas idas à casa de Olívia para lhe oferecer apoio. Porém, minha presença solidária era entendida como se eu buscasse a companhia de Mara.
Não enxerguei que debaixo daquele véu de tristeza estava sendo alimentada uma intimidade entre mim e a família que, aos poucos, me envolvia, impedindo que eu me desvencilhasse. O que, até aqui, devia ser uma visita de apoio a uma amiga com a mente em desalinho tornou-se, de repente, uma falsa afinidade sagazmente urdida num clima de comprometimento sem que eu o percebesse.
Algumas vezes convidei-as para dar um passeio pela cidade e, nessas ocasiões, houve entre mim e Mara maior entendimento e passamos à fase de namoro. Ironia do destino: Iremar e Olívia, apaixonados desde o primeiro dia, agora separados pela morte; eu e Mara antes coadjuvantes, agora envolvidos num relacionamento não muito bem entendido por mim.
O tiro de misericórdia foi no início de agosto de 1944. Lembro-me, ainda hoje assustado, daquela noite, quando fui encurralado para que assumisse oficialmente um compromisso. Mara mostrava-se alegre, parecia estar aguardando alguma coisa que só ela sabia. Estranhei quando sua mãe, em tom austero, sentou-se ao meu lado, num sofá, para uma conversa inusitada. Fiquei preocupado duplamente: temia o teor da conversa e estava na hora de ir embora. O toque de silêncio, no quartel, se dava às 22 horas.
Impedindo que eu me levantasse para as despedidas, ela “abriu o livro”. Disse que já sabia que eu e sua filha estávamos namorando e que não estava gostando de não ter sido comunicada. Queria uma explicação de minha parte. Afirmou que quando eu entrara na sua casa, provavelmente, já tinha alguma intenção. Advertiu-me que Mara era de uma boa família e não uma moça qualquer.
Aquela senhora, um tipo rude, ignorante, que não propiciava um diálogo de bom nível, interpelava-me num tom arrogante, severo e direto. Confesso que fiquei inteiramente confuso, apanhado de surpresa, sem saber o que responder, e, ao mesmo tempo, me perguntava se não estaria caindo numa cilada. Seu filho, Juca, de onde estava, ouvia toda a conversa, o que me deixava mais encabulado e constrangido.
Diante desse quadro, eu não tinha alternativa senão dizer qualquer coisa que me viesse à cabeça. Ela me fitava, com um olhar paralisante. Enquanto aguardava a minha resposta, destacava que eu os havia cativado pela ajuda que dispensara a Olívia e pelas minhas maneiras educadas. Achava, portanto, que estava na hora de anunciar, para toda a família, o noivado. Reafirmava as qualidades da filha e da família, respeitada e bem relacionada. Cobrava-me uma decisão que sinalizasse um compromisso definitivo.
Fiquei com a mente em rebuliço. Ao mesmo tempo em que pensava na resposta, me indagava: “Como me deixei envolver em tudo isso? Por que não vi que era uma cilada do destino?” Aquela decisão não estava sendo tomada por mim e eu me sentia fraco, sem condições de divergir daquela senhora determinada e imperiosa. Não sabia como me comportar. Arrisquei, sem querer criar atritos:
— Por favor, entenda. Quando entrei na sua casa, fui tratado como gente, eu sei. Mas a minha forma de tratar a sua filha não devia ser encarada como um compromisso para solução imediata. Eu acho cedo para uma decisão dessas. Nós nos conhecemos há pouco tempo, três meses apenas.
Eu percebia que não seria fácil dominá-la, já que ela tentava me interromper usando um tom impositivo nas palavras, sem permitir argumentação. E, confesso, sentia-me inteiramente sufocado. Mesmo sem encontrar uma saída, insisti:
— Não tive a intenção de brincar com os sentimentos de sua filha. Longe disso! Nosso relacionamento tem sido respeitoso. Eu gostaria que ele não se transformasse em noivado, mesmo porque eu não estou em condições de assumir um compromisso agora. Primeiro, porque o ordenado de um cabo da Polícia não recomenda; segundo, porque sou ainda muito jovem, na verdade tenho apenas 20 anos.
A mãe de Mara, com ar matriarcal e desconsiderando meus argumentos, sentenciou que eu já estava muito íntimo da casa e não havia por que esperar mais. Pedia que eu me decidisse, confirmando o noivado. Senti-me encurralado e não tive outro jeito senão aceitar, insistindo, porém, que aguardaria o momento oportuno para anunciar a minha decisão. 
Nesse momento, a astuta senhora, parecendo ter chegado a um armistício comigo, ouvindo somente o que queria ouvir, mudou o tom de sua voz e disse:
 Compra as aliança, começa a pensá em tirá essa farda. Vâmo, ajuda. 
 Sem que eu tivesse tempo de refletir, chamou Mara e bradou, comemorando:
— Cês tão noivo!
O ar de superioridade daquela família não permitia que eu encontrasse palavras e exercesse a minha liberdade com plenitude. Eu me sentia fraco e submisso: “Que beco sem saída! Onde fui me meter!”,  rosnava comigo mesmo.
Despedi-me. Com o coração martelando, tomei o caminho de volta ao quartel. Pelo adiantado da hora não poderia entrar pelo portão principal e tive que usar uma passagem camuflada, nos fundos, atrás do alojamento da banda de música, por onde os soldados atrasados se esgueiravam, cautelosamente, na escuridão, até chegarem ao seu alojamento. Era a primeira vez que eu usava esse artifício, e o fiz com muito medo de punição. Nessa noite de agosto, até para achar a minha cama eu passei por dificuldades. Que sufoco!
Assim, eu passei a frequentar a casa de Mara com mais regularidade, sem atentar para o tamanho do “alçapão” em que caía. 
No meu entendimento, naquele momento, a família me acolhia muito bem, e pensei que havia encontrado um porto seguro. “Quem sabe se, através deles, uma porta não se abrirá para garantir o meu futuro?”, admitia. 
No intuito de agradar àquela família, eu vivia uma grande confusão interna. Ora pensava em esperar o fim da guerra para pedir baixa da Polícia, ora achava que devia fazê-lo antes. Meu chefe, dizia:
— Você vai se dar bem na vida civil, principalmente entrando para essa família. Considere-se um sortudo.
— Será?...
Como me fora determinado, mandei fazer as alianças e, certa noite de setembro, sem qualquer cerimônia ou alarde, cada um colocou a sua, consumando-se o compromisso ansiosamente  aguardado pela família. A partir desse dia, comecei a sentir,  nas falas e nas atitudes de Mara e sua mãe, algumas censuras e limitações causadas pela “camisa-de-força” que eu começava a usar.
Dias depois, foi dado “o toque de recolher”. Chamaram-me para informar que haviam decidido marcar o casamento para o mês de dezembro. Antes que eu demonstrasse alguma inquietação, disseram que eu não precisaria me preocupar com as despesas nem com a cerimônia. Tudo seria resolvido pela família.
À medida que os dias passavam, cresciam dentro de mim, silenciosamente, dúvidas quanto à possibilidade de ser feliz, tal a forma atabalhoada como os acontecimentos vinham sendo conduzidos.
Numa manhã, eu me encontrei com Clícia, acidentalmente, quando ela se dirigia ao ponto do ônibus. Ficamos conversando alguns minutos enquanto o ônibus não chegava. Ela sentira o meu afastamento, e eu lhe contei do meu noivado repentino. Alguém nos viu conversando e foi contar para Mara e sua mãe.
À noite, quando fui chegando, ambas me aguardavam e, antes que eu dissesse “boa-noite”, dispararam suas “baterias”. Nem cheguei a entrar no portão. Eu tentava responder às perguntas, mas elas não me deixavam. Senti-me um prisioneiro diante do pelotão.
O clima da guerra no front estava ali presente, e eu mortalmente atingido por aquelas metralhadoras. Justificar o encontro casual com Clícia era inútil. Parecia que as duas tinham me colocado uma mordaça. Foi o meu primeiro impacto com o lado desconhecido de Mara. Aquela figura calma e educada começava a ganhar outro contorno.
Fiquei três dias sem aparecer. Aproveitei para refletir e concluí que seria um excelente momento para reagir e tomar a decisão de colocar um ponto final na situação, antes que eu me enrolasse definitivamente. Parecia haver chegado essa hora.
Mara e Olívia foram me procurar e eu lhes disse que havia ficado envergonhado com  aquele fuzuê horrível, presenciado pelos vizinhos. Mara penitenciou-se e pediu desculpas também em nome de sua mãe. Insistiu muito para que eu garantisse que iria a sua casa, à noite, quando tudo se esclareceria.
Sempre preocupado em não desapontar as pessoas e honrar meus compromissos, como aprendera com o velho Ezequiel, compareci à casa de Mara, conforme havia prometido. Fui recebido por ela como se nada tivesse acontecido. Sua mãe apareceu na sala e foi dizendo:
— Ah, pareceu! Pensei qui não ia vortá — ao mesmo tempo em que esboçava um sorriso de satisfação.
Na minha cabeça persistia a ideia do ponto final. No entanto, olhando para aquela mulher, fraquejei mais uma vez e adiei a decisão para outro momento. Voltei para o quartel revoltado comigo mesmo. Não consegui falar dos meus sentimentos e exercer a minha vontade. Sentia que era dominado por aquelas pessoas e vivia uma luta interna que me arrasava. Era eu contra mim mesmo.
A partir daí, os dias correram normais, dentro das circunstâncias. As dúvidas que me surgiam eu tentava creditar à minha falta de experiência e traquejo. E seguia em frente, caminhando, com a obrigação de cumprir aquele compromisso talvez na esperança de ter encontrado a família que eu tanto necessitava. Afinal, desde que chegara a João Pessoa, não havia tido oportunidade de frequentar casas de famílias. Tampouco casa de alguma namorada. A verdade é que eu me deixava seduzir pelo tipo de vida que me era oferecido, mesmo sendo diminuído ou desconsiderado, algumas vezes.
De repente, Mara adoeceu. Houve quem alegasse, na família, que a enfermidade dela poderia estar relacionada ao aborrecimento que tivera recentemente comigo, embora o problema fosse físico e não emocional. Outra vez, parecia que eu me tornara objeto de discussão. Era como se quisessem imputar-me responsabilidade pelo que se passava na cabeça dela. Pareciam querer que eu assumisse a culpa. Minha cabeça fervia. Senti-me cobrado e fiquei angustiado com o que estavam pensando a meu respeito.
 Quando conheci Mara, ela trabalhava como guarda-livros em um escritório e também dava aulas numa escola de datilografia. E agora estava decidida a abandonar essas atividades, alegando que não tinha condições físicas para continuar trabalhando.
Tentei adiar o casamento, justificando com o estado de saúde dela, mas não consegui convencê-los.
Com amigos, eu desabafava e tentava encontrar meios para sair da enrascada em que estava metido, mas eles diziam:
— Você não tem saída! É melhor encarar a realidade. Além do mais, é o melhor que lhe podia acontecer. Tente se adaptar. Depois você se acostuma e verá que não vai ser tão ruim assim.  Poderá estudar sem preocupações. Afinal, você vai ter uma casa e uma família.
Certo dia, recebi um recado, quase uma ordem, para comparecer à loja do irmão mais velho de Mara. Ele tinha um comércio de tecidos finos. Queria falar comigo. Tremi na base. “Que será que querem agora?”
Compareci na manhã seguinte. Josias cumprimentou-me secamente e foi direto ao assunto, dizendo que eu escolhesse um corte de casimira na vitrine para que ele mandasse fazer o terno do casamento na alfaiataria de um amigo. Fiquei indeciso e ele próprio escolheu uma casimira inglesa, das mais caras. Aceitei e ele recomendou-me ao amigo alfaiate para tirar as medidas. Deveria retornar três dias depois para a primeira prova do terno.
À noite, quando cheguei à casa de Mara, fui surpreendido por outra providência: a matriarca já havia comprado, sem me consultar, móveis de quarto para colocar no cômodo que seria do futuro casal. Eu não conseguia demonstrar a minha contrariedade, muito menos curiosidade. Engoli tudo calado, fingindo não entender a manipulação. Não deixava de ser uma situação cômoda: não discutir o que estava sendo decidido. Era cedo ainda para imaginar que a cobrança viria depois, destroçando meus valores e terminando com a minha mocidade.
Convenci-me de que não tinha mais jeito. Notava agora a força que aquela família exercia sobre mim. Acomodei-me e deixei a vida me levar. Rendição total. Desse momento em diante, qualquer coisa que me fosse oferecida eu aceitaria, com certeza.
Veio o derradeiro golpe: eu devia deixar a Polícia, o quanto antes. E, assim que desse baixa, passaria a trabalhar na loja de tecidos, que era, na época, muito bem conceituada na cidade.
Na Casa das Ordens, comentei com alguns amigos que eles estavam me exigindo sair da Polícia com promessas de um emprego na firma da família. Todos falavam que eu ia me dar bem; que não podia reclamar da sorte, só agradecer; que nada melhor poderia me acontecer... Essas opiniões muito influíram no meu comportamento displicente e vieram somar-se à grande necessidade que eu tinha de me encaixar, de ser adotado por uma família que pudesse me dar segurança e chances de crescimento. Era o que eu precisava.
Celina, irmã de Mara, desde que enviuvara, residia na casa da mãe, ocupando um quarto com Olívia e o filho, Zico. Em outro quarto dormiam Mara e sua mãe. O terceiro era ocupado por Juca, irmão de Mara. Agora, para que eu pudesse fazer parte da família, foi pedido a Celina que procurasse outra casa para morar com os filhos. Essa exigência causou um grande mal-estar em todos, seguido de um bate-boca que eu não esperava.  No meio disso eu me senti um intruso, um invasor.
Finalmente chegou o dia do casamento. Foi uma tarde esquisita aquela do dia 16 de dezembro. Saí do quartel e fui me vestir na casa de Mara. Não vi a noiva, disseram que dava azar. Imagino se tivesse visto!
O irmão de Mara foi me deixar na igreja e voltou para conduzir a noiva. Eu nunca havia entrado na Catedral Metropolitana. Estava adornada com flores brancas no altar e em toda a extensão da nave. Por alguns instantes, fiquei ali sozinho, na porta da Catedral, meio perdido. Familiares e pessoas das relações de amizade da família aguardavam, dentro e fora da igreja. Não havia nenhum membro da minha família. Também não havia, no meio daquelas pessoas, nenhum colega de minha corporação.
O relógio da torre da Catedral marcava 17 horas. Alguém me mandou ficar junto ao altar, dizendo:
— Está na hora de a noiva chegar.
Obedeci. As “filhas de Maria” se posicionaram para aguardar a entrada da noiva. O coro, do qual ela fazia parte, entoou os primeiros acordes, as luzes se acenderam. O sacerdote se aproximou, cumprimentou-me com um aceno de cabeça e se posicionou no altar. O som do órgão, acompanhado pelo canto gregoriano do coro, ecoava, dando ao ambiente um efeito hipnotizador que eu jamais havia sentido. O perfume e o brilho das flores penetravam-me, interferindo nos meus sentidos, e eu não me sentia presente, era irreal o que eu vivia. Meu pensamento vagava. Todas aquelas sensações desconhecidas me inundaram de emoção, uma emoção diferente, mesclada de incerteza e melancolia, que eu não entendia, até que fui despertado pela figura da noiva que se aproximava.
Fui puxado para a realidade.
Ali tinha início a grande transformação de minha vida.
A igreja estava lotada de gente que não fazia parte do meu mundo, um mundo difuso, no qual eu estava entrando e que me fazia sentir uma solidão tão profunda que me esforcei para disfarçar. Sentia-me rompendo o elo com a família simples que eu havia deixado para trás.
Enquanto a cerimônia acontecia, lembrei-me da única cerimônia de casamento a que eu assistira, ainda menino: da minha tia Alice. O contraste entre as duas era violento, agressivo. Aquele, tão simples e feliz; este, tão requintado e cercado de incertezas.  
Cumpriu-se o rito. Consummatum est! E nada mais, naquele momento, poderia ser feito.
Hoje, entendo que a emoção que tomou conta de mim resultava da minha estréia num mundo desconhecido, cheio de ilusões.
Ninguém da minha família apareceu. Embora soubessem que eu estava casando, não recebi, sequer, um telegrama de felicitações.
No final da cerimônia, senti solidão e vergonha. Alguém, ali, deveria estar se perguntando: “Onde está a família do noivo?” Hoje, isso me faz refletir, seriamente, sobre o sentimento de rejeição que sempre me acompanhou e que me propiciou tantos descaminhos.
Meu pai enviara uma carta dias antes comunicando que talvez não comparecesse, porém, viria, posteriormente, conhecer a nora. Meu avô, velho, doente e debilitado, não podia se deslocar. Minhas tias nunca saíram de Patos e teriam muitas dificuldades para fazer uma viagem tão longa.  As irmãs de minha mãe, residentes em João Pessoa, também não estavam presentes, embora eu já frequentasse suas residências vez por outra. Então, só me restava admitir que a minha família fosse composta por todos aqueles estranhos. Para mim, ficava confirmado que eu precisava ser adotado, mas não demorou muito para que eu me sentisse subjugado.
Passamos a ocupar um quarto na casa da família. Não tínhamos condições de nos manter sozinhos, e essa dependência financeira fazia com que eles tivessem sobre mim poderes cada vez mais sufocantes. 



2o. capitulo - 5o. episódio  "... a busca por um lugar ao sol"


A mãe de Mara era dada a rituais espíritas. À noite, trancada em seu quarto, costumava receber espíritos, que ela dizia serem seus guias. Aquilo me incomodava muito, devido aos assobios e gritos histéricos que ela soltava, ao mesmo tempo em que falava coisas sem sentido. Durante o dia, ameaçadoramente, alardeava que os espíritos tudo lhe contavam.
Um dia, pediram-me para levá-las à casa de um tal de “seu” Mendes, um velho curandeiro muito conhecido por seus poderes. A princípio, vacilei. Por fim, me propus a acompanhá-las, afirmando que as deixaria na porta. Ao chegar, fui convencido a entrar.
Era um casebre, muito pobre. Sentado em uma cadeira velha, enfermo, rodeado de velas acesas, copos com água e ervas espalhados por toda parte, o ancião recebia os consulentes. Para cada um dava uma bênção especial, sussurrando preces entremeadas com gemidos e murmúrios, parecendo estar em transe. Ficava assim por algum tempo, concentrado, e depois balbuciava frases desconexas como se estivesse falando com alguma entidade. Só então iniciava a consulta.
A velha saudou-o reverentemente, pedindo proteção. O feiticeiro levantou-se e, enquanto pousava a mão sobre a sua cabeça, fitou-me misteriosamente, dirigindo-me algumas palavras ininteligíveis. Senti meu corpo arrepiar. Depois, afastou-se de nós alguns passos, parou e retornou caminhando na minha direção, lentamente. Pousou a mão direita sobre a minha cabeça, hesitou mais uma vez e finalmente soltou um profundo gemido, balbuciando:
— Aqui tem coisa!
Bastaram essas palavras para que a velha, imediatamente, apontasse para o meu relógio, presente de minha mãe, acusando.
— Tá trabaiado. Mermo de onde tá, não ficou sastisfeita cum o casamento — disse.
 Eu não tirava o relógio do pulso por nada, mas insistiram para que eu o entregasse ao feiticeiro. Este, ao pegá-lo com a mão direita, fitou-o demoradamente e confirmou, em tom de sentença:
— Tenho certeza, o trabalho está neste relógio!
Tamanha heresia me causou nojo. Estavam transformando minha pobre mãe em uma criatura perversa. O que fazer para me desvencilhar de tanta intrujice? Aceitar, calar, reagir ou ir embora?  Preferi deixar patente que não aceitava aquela ignomínia e disse, com ar de tranqüilidade:
— Não acredito em nada disso e muito menos que minha mãe fosse capaz de fazer algo para me prejudicar.
Arranquei o relógio das mãos do feiticeiro e, apressadamente, deixei a casa. Elas me alcançaram e, durante todo o trajeto de volta, mãe e filha não falavam de outra coisa. Todo o tempo, tentavam me convencer a desfazer-me do relógio.
Aceitar essa ideia era, para mim, um sacrilégio contra a inocência de minha mãe, mas a teimosa senhora insistia, induzindo-me a pensar que a felicidade no meu casamento com Mara dependia dessa atitude. Deveria eu me livrar daquele feitiço.
Penso, hoje, que elas já percebiam que eu não estava feliz naquela casa.
Por fim, entreguei os pontos. No dia seguinte troquei o relógio com o cabo Cleuto Leal, meu colega. Seu relógio, embora mais antigo, também era de boa marca.
 Pronto, fiquei sem meu único objeto de valor, que eu carregava como um amuleto, única lembrança de minha mãe!
Sabia que, ao retornar para casa, estava declarando, de uma vez por todas, o meu fracasso e a minha falta de resistência para discordar das decisões tomadas por aquelas pessoas. Concordava com uma infâmia e perdia para sempre um presente que me fora dado com tanto sacrifício e carregado de tão boas intenções. Parecia que eu fora conduzido por uma força desconhecida.
Eu sabia que havia atendido a um desejo de Mara e de sua mãe. Em casa, quando entrei, foram logo notando a falta do relógio e manifestaram a vitória através de um sorriso orgulhoso.
Passei a usar no pulso aquele velho relógio prateado, sem qualquer valor estimativo, e nunca mais discuti o assunto, jurando jamais voltar à tenda daquele feiticeiro.
Algum tempo depois, interessei-me pelo Omega Sea Star que o irmão de Mara ostentava com grande orgulho e lhe propus a troca mediante certa compensação, já que o seu relógio era mais caro. Juca relutou, não consegui convencê-lo. Insisti, até que um dia ele desistiu de negar. Tolamente, eu achava que pagava com a mesma moeda, tirando dele um relógio valioso. Parecia-me uma vitória secreta!
E aqui se fechou, para mim, a história do Birma. Consolava-me o fato de saber que nunca mais ouviria que o relógio que eu carregava no pulso poderia estar trabalhado, já que pertencera a Juca.
Tudo ainda estava em fase de adaptação. Eu aprendia os hábitos da casa e a me comportar na família. As rotinas eram completamente diferentes das do quartel ou da casinha do meu avô, na roça.
Nesses primeiros meses, parecia haver a intenção de me agradar, de atender às minhas necessidades, de me introduzir num novo mundo, e eu teria me sentido totalmente contemplado não fosse o incidente com o relógio, que custei a superar.
Três meses se passaram e eu continuava envergando a farda cáqui da Polícia do Estado. Insistiam para que eu desse baixa, pois minha presença fardada não estava sendo vista com bons olhos por conhecidos e familiares. Eu enxergava o quanto isso incomodava, mas, por enquanto, era o meu trabalho, meu emprego. Todos sabiam disso desde o primeiro dia que entrei naquela casa.
As exigências para que eu despisse a farda começaram a vir uma após outra, cada vez mais insistentes, e a arrogante senhora era quem mais alimentava esse diálogo, propondo soluções de todo tipo.
Certo dia, dizendo-se portadora de um recado do filho mais velho, ordenou que eu pedisse baixa da Polícia, dizendo que eu teria emprego garantido na loja. Seu filho era uma espécie de patriarca respeitado por todos. Um recado seu era um decreto e, para mim, naquele momento, transmitido com tamanha veemência por sua mãe, soara-me como uma determinação.
Fiquei confuso.
Vivia tudo isso na plenitude dos meus 21 anos!
E no dia 16 de março de 1945, quando já se aproximava o fim da II Guerra Mundial, dei baixa da Força Policial do Estado da Paraíba, da qual tanto me orgulhava e onde recebi grandes lições que iriam nortear minha vida. Ali me tornei adulto.

Senti-me só.
As saudades do meu avô e das minhas tias eram constantes. Mesmo assim, eu sabia que de nada adiantava, por carta, dividir as minhas tristezas com eles, pois a vida simples que levavam não lhes permitiria entender os sentimentos de solidão que cresciam dentro de mim, causados por esse meu novo jeito de viver. Minha mãe só existia na lembrança. Meu pai vivia distante e essa distância entre nós não era só física ou geográfica, era também a do esquecimento, da falta de envolvimento pessoal.
Algum tempo depois do casamento, conforme prometera por carta, ele apareceu para conhecer a nora. Ficou conosco dois dias apenas. Conversamos amenidades, como sempre. Faltava-nos intimidade suficiente para falar de minhas inquietações. Eu temia repreensões. Ele também não me falava de suas alegrias ou tristezas. Havia entre nós uma muralha: de minha parte, feita de mágoas e de ausências; da parte dele, feita de distância e desconhecimento de mim. Como sempre, sua visita foi rápida e resumida. Esse foi o nosso último encontro.
Passaram-se dois meses sem que o clã me fizesse qualquer convite para uma “ocupação digna”, como me foi prometido.
Inquietava-me o silêncio. Eu havia deixado a farda, a pedido deles, e agora precisava exigir que cumprissem a promessa que me fizeram. Então, comecei a ouvir cochichos pelos cantos:
— Está sendo difícil colocá-lo na loja, ele não entende de tecidos, não sabe nada do que se faz lá.
— Verdade! — eu pensava.  Na vida eu aprendera a pegar em enxadas, em armas e em mimeógrafo. Nunca havia enrolado nem desenrolado tecidos...
Passado algum tempo, percebi que eu devia procurar emprego. Nem se falava mais em loja de tecido. Por sorte, consegui uma vaga de balconista, com salário de 400 mil réis, na firma Cunha Rego, na parte baixa da cidade, onde fiquei seis meses apenas.
Em pouco tempo pude perceber que a minha presença incomodava o gerente. Fiquei inseguro pensando que não “sabia desenrolar tecidos” ou, então, que não sabia atender às pessoas, e comecei a me preparar emocionalmente para a demissão.
A minha insegurança aumentava à medida que o tempo passava, até que notei uma vigilância sutil me acompanhando no interior da firma. Era visível o mal-estar que eu causava e que contaminava o gerente, tornando-o grosseiro quando se dirigia a mim.
Numa manhã, ao chegar, fui chamado ao escritório e informado da minha dispensa. O diretor foi direto, certeiro:
— O senhor não está correspondendo aos nossos interesses, passe no caixa para o acerto final.
Fiquei estático diante dele, esperando que notasse a minha decepção e revisse a sua decisão, mas ele se levantou da cadeira abruptamente e disse apenas:
— Procure outro emprego.
Saí dali arrasado, sem saber o verdadeiro motivo do acerto de contas.
Cheguei em casa, completamente destruído, cabeça baixa. Ao contar para Mara, fui bombardeado com perguntas que iam desde:
— Quem era aquela com quem você saía?
 Até:
 — Foi em razão do seu romance com ela?...
Só então suspeitei que elas, mãe e filha, estariam por trás de todo aquele misterioso tratamento que me fora dispensado nos últimos meses na firma. “Mas como?”
      Decidi investigar e soube, por um ex-colega, que havia chegado ao conhecimento dos dirigentes da firma que minha esposa e sua mãe desconfiavam que eu estivesse de namoro com uma colega do escritório. Calúnia! Loucura! Enquanto elas maquinavam essa engenharia infame, eu não imaginava estar sendo acompanhado por isso, no próprio ambiente de trabalho. Não podia tampouco admitir que duas senhoras, ditas distintas, no uso pleno da razão, fossem capazes de tamanha trama diabólica, envolvendo-me com pessoas com as quais eu, sequer, mantinha qualquer intimidade. Somente duas mentes doentias poderiam produzir tamanha infâmia.
Embora alguns colegas soubessem dessa calúnia, ninguém me contava nada. Todos sabiam que eu saía do trabalho diretamente para casa, tomando o bonde na rua de trás. Fiquei indignado por não ter sido alertado a tempo de agir e salvar o meu emprego.
Entendi, então, por que algumas cenas de ciúme, por parte de Mara, vinham atritando o nosso relacionamento, nos últimos meses. Enquanto eu fiquei em casa, desempregado, sob controle dela, tudo estava bem. Bastou eu sair para trabalhar, com alguma liberdade, para se iniciar uma vigilância doentia.
Agora eu entendia também por que, quando terminava o expediente na firma, algumas vezes, via as duas à distância, me vigiando, ora escondidas atrás de uma árvore, ora atrás de um muro. Como eu não tinha nada com que me preocupar, fingia que não via e engolia em seco esse comportamento. Em casa, insinuavam que eu estava me encontrando com alguém ou queriam saber com quem eu ficara conversando quando chegava mais tarde. Eram mãe e filha infernizando-me a vida.
As miragens caluniosas que arquitetavam contra mim começaram a provocar tanta revolta que eu já não conseguia disfarçar a minha repugnância. Algumas vezes, surpreendi-me reagindo de maneira descontrolada, usando palavras grosseiras que não me eram comuns. 
Naquele dia, ao chegar em casa, possesso de ódio, descarreguei em Mara toda a revolta que estava em mim. Ela, com cara de boba-inocente, ficou me fitando sem atentar para as conseqüências dos seus atos.
Eu cuspia fogo, gesticulava, e ela, placidamente, olhava em qualquer direção, sem se alterar.
Minha indignação era grande. Naquela noite, saí porta afora e só voltei quando todos já estavam dormindo. Nunca mais se falou nesse assunto.
Passava o dia na rua procurando emprego, sem nada conseguir. Então, algum tempo depois, “só ouvindo”, Juca resolveu cumprir o prometido e levar-me para a loja de tecidos da qual era sócio.
Senti, no primeiro dia, que a frieza era de muitos graus. Josias me recebeu com poucas palavras, sorriso misterioso. Eu me senti um extraterreno. Jucadiscretamente, tentava me ensinar o básico para começar.
     Não demorou muito e Josias começou a me criticar e a me podar. Fazia questão de me ignorar. Dava a entender que eu só tinha condições de participar da limpeza e da arrumação da loja.
Juca, todo sábado, colocava no meu bolso, disfarçadamente, uma cédula de 50 mil réis, apenas uma gratificação, que eu repassava totalmente para Mara.
Fiquei quase um ano cuidando de poeira, aguardando para ser um incluído. Por fim, percebi que jamais faria parte daquela família, como pensara, e saí fora para procurar, de fato, um emprego.   
A essa altura, eu já era uma figura desgastada. Enfrentara várias rebeliões internas. A mãe de Mara me azucrinava, não perdia tempo. Mara era sua “ajudante-de-campo”, as duas se completavam em gênio e malícia. Mesmo sabendo que eu frequentava um curso à noite, uma ou outra, ou as duas juntas, sempre encontravam motivo para discussão quando eu chegava em casa. Insinuavam que eu estaria em encontros amorosos com alguma jovem do curso ou havia esquecido da responsabilidade de homem casado, participando de grupinhos, de esquina. Se me vissem, até mesmo durante o dia, conversando com amigos, o interrogatório era proporcional ao tempo da conversa, porém, se os amigos fossem mulheres, aí eu devia me preparar para muitas explicações. Eu tinha um bom relacionamento com as pessoas, era bem considerado por todos e sempre me paravam para conversar. Mas Mara parecia o facho de uma lanterna, monitorando-me, incansavelmente, dia e noite, por toda a parte, como quem procura algo na escuridão. 
As discussões eram, quase sempre, o fecho do dia antes de dormir. Esse desgaste, diário e permanente, começava a influir em minha saúde, e meus nervos estavam saindo, espremidos, pelos poros.
À noite, eu frequentava qualquer cursinho para não ficar em casa ouvindo reclamações. Cada vez mais eu procurava motivos para não voltar cedo. Em casa, não encontrava um ambiente sadio. Durante algum tempo eu evitei ficar conversando com amigos.
 E mais uma vez a solidão se instalou em mim.
Sentia falta do meu avô e sabia que ele também ansiava por me abraçar. Por carta, Inocência dizia que ele estava doente, e eu esperava uma melhora na situação financeira para ir a Jatobá, mas não deu tempo. Estávamos em 1946. Senti-me arrasado. Lembrei de quando ele falava de seu pai, Nicandro, com saudades: “Meu pai morreu e eu nunca mais o vi.” Agora eu entendia suas palavras e o significado do seu lamento. A minha tristeza, eu não tinha com quem dividir. Mara nunca se interessou pela existência dos meus familiares. 
Viver naquela casa, no Roger, se tornara um grande sacrifício, desde o dia em que eu soube das calúnias que influíram na perda do meu emprego. Se antes o clima já era tempestuoso, agora era de guerra declarada. O próprio Juca, que tentava achar graça nas eternas discussões, dispôs-se, por conta própria, a certificar-se do meu comportamento. 
Certa noite, ao chegar em casa, vindo do curso, estranharam o horário da minha chegada de forma caluniosa e Juca resolveu, finalmente, diante de todos, assumir a minha defesa:
— Vocês estão passando dos limites com o Nunes. Resolvi seguir-lhe os passos, vários dias, em sucessivas idas e vindas, e sabem o que eu constatei? Que vocês o caluniam! Eu não sei como esse cara suporta isso! Se fosse eu, já tinha caído fora.
Era verdade. Eu já não suportava mais aquele inferno! Estavam acabando comigo. E agora, desempregado, com as duas me cobrando emprego diariamente, eu não me sentia apenas humilhado, mas torturado pelas indiretas que me dirigiam. De manhã, ouvia:
— Vai procurar emprego, vagabundo!
Ao passar mais um dia sem nada conseguir:
— É porque não procurou, foi passear.
E quando a mesa estava posta:
— Chame o homem!
Na mesa, todos comiam, mas, nas conversas, eu era colocado em total obscuridade. A situação era humilhante. Mara, de alguma forma, estava também recebendo o seu quinhão de sofrimento. Ela ajudara na construção desse “edifício”, levantado com enganos e que, agora, ruía com suas paredes carregadas de ódio, soterrando-nos impiedosamente. Eu não conseguia desconsiderar tudo que ouvia, e as minhas reações, se não me libertavam, afastavam-me cada vez mais daquela criatura.  
De tanto presenciar esse desmonte moral que eu vinha sofrendo, e que pouco a pouco me destruía, Juca, um dia, desabafou:
— Eu não aguento mais! Ou vocês se entendem ou, então, vão morar em outro lugar, longe daqui. É impossível conviver nesse inferno! —  e, como um raio, saiu.
De certa forma foi boa essa reação, porque a ela se seguiu um período de calmaria.
Na manhã seguinte, quando saí para procurar emprego, a sogra não disse: “Vai, vagabundo!”
Numa das minhas muitas andanças, soube que havia uma vaga de auxiliar de escritório no laboratório Laborterápica J. Pires, de São Paulo. O escritório ficava no 2o pavimento de um velho prédio, por onde se chegava através de uma escadaria desengonçada. Apresentei-me, sendo conduzido à presença do gerente, um tipo bem vestido, atencioso, que logo me deu a impressão de que eu ganharia a vaga. Depois de me ouvir, chamou seu auxiliar e recomendou que me colocasse no controle de estoque, para começar. 
Tudo parecia ter voltado ao normal, agora. Finalmente, deixei de ser vagabundo e, algum tempo depois, disse, em casa, que eu já estava apto a visitar farmácias e que seria promovido.
Vi-me num “céu de brigadeiro”! Agora, Mara até me convidava para acompanhá-la à casa de amigos. Eu tinha um salário razoável e ninguém mais me hostilizava. Pensei que a tempestade jamais voltaria.
Inesperadamente, o Laboratório recebeu ordem da matriz, em São Paulo, para encerrar as atividades em João Pessoa. “Outra vez desempregado, que merda! Por certo vou enfrentar novo temporal!”
Quando cheguei em casa e dei a notícia, Mara foi logo dizendo:
— Você já adquiriu prática! Agora é só procurar outro emprego que encontra. Amanhã mesmo vá à luta.
E a velha arrematou:
— Dentro de casa é qui ocê num vai ficá esperando as coisa caí do céu.
Vi-me de novo sendo cozido em fogo alto.  
Cansado de tanta incompreensão e convencido de que não podia contar com mais ninguém, decidi que a única saída seria me libertar, por mim mesmo, daquele jugo familiar.
 Depois de bater na porta de várias firmas, encontrei um amigo que era guarda-livros de um grande armazém. Ele se prontificou a falar com o gerente a meu respeito.
Demorou alguns dias e, por fim, o amigo Miguel Lemos conseguiu para mim uma vaga de faturista e pediu para que eu me apresentasse munido da carteira de trabalho.
Não era um grande salário, mas servia para mostrar que eu não fiquei em casa “esperando que as coisas viessem do céu”, como disseram, ironicamente.
Comecei no novo emprego, imediatamente. O salário era 350 mil réis.
Nesse armazém, o que me chamava à atenção era o jeito peculiar do gerente quando me entregava o salário em um envelope fechado. Ele acompanhava, com o olhar, o caminho percorrido pelo envelope até ser entregue a mim, ao mesmo tempo em que coçava a cabeça vacilante, demonstrando lamentar a saída daquele dinheiro.



      



Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história  para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com     





2o. capítulo - 6o. episodio: "O ingresso nos correios e a paternidade."      

1947. Olívia continuava minha amiga e confidente. Lamentava o comportamento que seus familiares tinham para comigo. Quando eu me mostrava desanimado, era ela quem me encorajava a prosseguir:
— Um dia, as nuvens negras se dissiparão. É uma questão de tempo — dizia.
Ela trabalhava na Gerência de Pessoal da Diretoria dos Correios e já havia conseguido colocar ali seu irmão e sua mãe. Ficou sabendo que, no final do ano, o Departamento iria disponibilizar algumas vagas de diarista, com salário de 400 mil réis. Conversou com seu chefe e pleiteou uma das vagas para mim. E, assim, saí da firma em que trabalhava e no dia seguinte, 1o de dezembro de 1947, fui admitido nos Correios e Telégrafos.

Antigo prédio dos correios e telegráficos de João pessoa

Naquele momento, Olívia não podia imaginar que estava sendo a precursora da minha libertação.
 No meu primeiro dia de trabalho nos Correios, do alto daquela escadaria que dava para a rua, parei, olhei para a praça em frente e me vi chegando a João Pessoa, com minhas poucas roupas enroladas em um papel de embrulho. Cheio de ilusão, cheio de vontade de vencer e de conhecer pessoas.
 Durante algum tempo houve uma pausa nas minhas inquietações. Cheguei até a admitir que pudesse esquecer as crueldades que sofri. Parecia ter encontrado a tranqüilidade.
Eu estava extremamente entusiasmado com o novo emprego. Lotaram-me na 4a Seção, onde era feita a separação da correspondência, por destino. Era uma tarefa fácil, eu logo assimilei o procedimento e, em pouco tempo, aprendi tudo que se fazia ali.
Tive bom desempenho e, algum tempo depois, fui transferido para a Sala do Telégrafo, onde executei tarefas bem diferentes daquelas com as quais já havia me identificado na área postal.
Fiz boas amizades: Gaudioso, João de Deus e Pedro Campos que, de forma competente, transmitiam segurança e conhecimento a todos que compunham as diversas equipes sob suas lideranças. Quando cobravam resultados, o faziam sempre de maneira cordial, sem alarde ou imposição.
Além deles, havia também D. Maria, encarregada da expedição dos telegramas, Hermano e Ruy de Assis, que deixaram em mim marcas que o tempo não apagou.
Ruy de Assis, cara de garoto, era estafeta, isto é, fazia a entrega de telegramas. Sua área compreendia o bairro de Jaguaribe. Carregava as mensagens em uma bolsa do tipo pochete presa a uma correia larga que cingia a cintura. Usava uniforme cáqui desbotado, abotoado até em cima e boné do mesmo tecido, sobre uma farta cabeleira rigorosamente engomada. Diariamente, depois de receber o o.k. da encarregada da divisão dos distritos, aquele varapau de andar ereto e gestos fagueiros saía escadaria abaixo, dois degraus de cada vez, a fim de pegar o bonde que passava na frente dos Correios. Essa era a sua rotina e o seu serviço. Naquela época já era uma figuraça.
        Ruy era dotado de boa lábia, todos gostavam dele. Sempre foi um colega prestativo. Cedo, tornou-se um exímio telegrafista. 
          Paralelo ao telégrafo, cantava na PR-4, Rádio Tabajara, o programa de Paschoal Carrilho que, na época, emergia com grande força na Paraíba. Seus cantores e locutores se tornavam ídolos rapidamente.


foto retirada da internet

Algumas vezes, compareci ao auditório da rádio para prestigiá-lo.


foto retirada da internet

Tempos depois, conseguiu transferência para os Correios do Rio de Janeiro na esperança de vencer como cantor.
     Por esse tempo, eu executava tarefas internas na sala do telégrafo: fiz parte da mesa de saída dos telegramas e fui colante — aquele que colava as tirinhas de papel com a mensagem impressa no modelo que seria entregue ao destinatário. Embora o telégrafo funcionasse com revezamento de turnos para garantir o funcionamento ininterrupto, por 24 horas, eu trabalhava fixo, durante o dia. 
Da Sala do Telégrafo migrei para a Secretaria da Diretoria Regional, por onde passavam todos os documentos considerados sigilosos ou reservados. Lá, executei diversas tarefas burocráticas, ampliei meus conhecimentos e participei de comissões de sindicâncias e de inquéritos, na capital e no interior, o que permitiu que eu me tornasse um funcionário de confiança da diretoria. Senti-me valorizado. Era um funcionário interessado e procurava trabalhar de forma correta. Por essa razão, estava sempre em evidência para alguma missão.
Em casa, tudo parecia caminhar para o entendimento. Eu me sentia com a auto-estima elevada, e achava que nunca mais seria cobrado por não ter emprego. Considerava Olívia o meu anjo libertador.
Não tardou muito e na família começaram os cochichos sobre minha nova situação. Eu não era mais chamado de vagabundo, mas, vez por outra, ouvia indiretas que me aconselhavam a procurar casa para morar.
     Eu mesmo achava que estava na hora de tomar essa decisão, embora não me sentisse financeiramente em condições para enfrentar a nova situação. Mas precisava me libertar daquela subordinação familiar, mesmo correndo riscos. Chegara a hora de assumir aquele casamento a dois!

Olívia apaixonou-se pelo jovem Vicente, um rapaz simples e educado. Ele possuía um caminhão no qual transportava, por conta própria, cargas entre o Nordeste e o Sul, o que lhe assegurava independência financeira.
Marcaram o casamento. No dia, a casa deles ficou lotada de convidados. Celina e Zito estavam exultantes. Olívia mostrava-se feliz. Na hora do brinde, aproximei-me dos noivos e pude perceber o amor que os unia. Confesso que invejei a felicidade do casal.
Geralda, sobrinha de Vicente, recém-casada, residia em uma casa alugada, cujo valor estava além de suas posses e pensava em se mudar para uma outra de aluguel mais condizente. Olívia, sabendo que a avó e o tio estavam loucos para me ver pelas costas, valeu-se das lamentações de Geralda e lhe propôs uma parceria: ela me cederia parte da casa e eu pagaria a metade do aluguel, bem como outras despesas. Geralda e seu esposo Heraldo aceitaram a proposta.
Mais uma vez, Olívia tentava me ajudar. Ela conhecia a minha história e a vontade que eu tinha de viver dignamente. Lutava agora pela minha libertação total.
Na mesma semana nós nos mudamos. Preocupava-me o comportamento de Mara, tão acostumada ao convívio com a mãe e tão habituada a discussões e calúnias gratuitas.
Nos primeiros dias procuramos nos adaptar. Afinal, eram dois casais diferentes, com hábitos próprios, ocupando dois quartos de uma mesma casa. A princípio, tudo pareciam flores, conversávamos amenidades e até passeávamos juntos, os quatro. A vida transcorria em aparente normalidade. Os homens se dividiam nas contas da casa e as mulheres na rotina doméstica, já que não tinham empregos. Heraldo e Geralda eram muito alegres.
 Longe, agora, da “Casa das Torturas”, parecia que tudo estaria resolvido. Mara, separada da mãe, mentora intelectual de todos os nossos conflitos, vivendo nesse novo ambiente onde se usava uma linguagem mais tranquila, iria, certamente, modificar-se. Eu acreditava que ela se convencesse que eu não era um tipo irresponsável. 
Ilusão!
Depois de alguns meses, ela começou a reclamar do salário apertado que mal dava para as despesas. Sentia falta do conforto com que sempre viveu e passou a procurar a mãe constantemente. Com ela trocava idéias e lamentos. Não demorou muito e Mara voltou a assumir um comportamento agressivo comigo. Pensei que estivesse curada, mas não estava. “Não passou no teste”, dizia eu. Por qualquer motivo, dirigia-me palavras afrontosas, xingava sua própria vida. O mau humor era constante, reclamava de tudo, e as discussões recomeçaram. 
Geralda e Heraldo começaram a se sentir incomodados com as nossas brigas. Envergonhado, fui me afastando daqueles amigos. Eles eram pessoas maravilhosas e, apesar de tudo, tentavam, pacientemente, nos tolerar.
Repentinamente o nosso convívio com o casal entrou numa rota de colisão tão grande que se tornou impossível evitar a ruptura. Eles, contrariados, um dia nos comunicaram que gostariam que nós procurássemos outra casa para morar, já que o nosso comportamento começava a interferir também na vida deles. Concordei. Disse-lhes que já havia percebido o inconveniente da nossa presença, mas pedi que eles nos dessem tempo para procurarmos outra moradia.
Na manhã seguinte, quando saí para o Correio, Mara foi encontrar-se com sua mãe sem que eu soubesse. Contou-lhe que havíamos sido despejados, que estávamos sem ter onde morar e que a melhor solução seria a nossa volta, imediatamente, uma vez que o meu salário não permitia alugar uma casa. A reivindicação foi submetida a Juca, que repeliu a ideia, dizendo que ela poderia voltar sozinha, se quisesse. Caso contrário, ele até poderia ajudar financeiramente, desde que não voltássemos a morar com eles. 
Sem saber de nada, nesse mesmo dia, quando voltei para casa, não encontrei Mara nem nossos poucos móveis e objetos, sendo informado por Geralda que ela havia se mudado com ajuda de sua mãe, que lá esteve acompanhada de um carroceiro. Partiram sem dizer para onde estavam indo. Ficaram apenas as minhas poucas roupas e objetos pessoais.
Fiquei atordoado, sem saber o que fazer, pois desconhecia, até aquele instante, o rumo das duas. Decidi que devia aguardar alguma notícia. A noite chegou sem que eu tivesse noção do que se passava e sem ter, sequer, onde dormir. 


.



                                                                                                                                   










Então, Geralda, vendo a minha dificuldade, ofereceu-me o jantar e uma esteira de palha de carnaúba para eu forrar o chão do quarto vazio e dormir até o dia seguinte, quando, de cabeça fria, deveria encontrar uma solução.
Fiquei assim durante três dias, completamente à deriva. Quando voltava à noite para a casa de Heraldo e não encontrava nenhum recado, nenhuma satisfação, eu me sentia um farrapo. Não aceitava a ideia de ir procurá-la na casa da mãe nem me rebaixar pedindo que voltasse. “Se ela quer assim, assim será!”, falava para mim mesmo.
Depois desses dias de incertezas, Geralda confessou-me que sabia que Juca aceitara a volta de Mara, desacompanhada, e ela concordara. Concluí que o casamento havia terminado. Um misto de alívio e revolta tomou conta de mim.
Durante aqueles dias não fui procurado por ninguém no Correio.
Eu sentia repugnância pela atitude insensata de Mara e sua mãe, e decidi que devia procurar um quarto para me instalar e dar um novo rumo à minha vida. Sabia que ia enfrentar dificuldades, mas também sabia que agora eu não devia me acovardar.
Cheio de mágoas, no trabalho comentava com os amigos sobre a decisão que eu deveria tomar, quando, de repente, no quarto dia, apareceu Mara. Desgrenhada, como se surgisse do fundo de uma noite não dormida, vestida sem nenhum cuidado, chorando copiosamente, atirou-se ajoelhada a meus pés suplicando que eu a perdoasse, pois havia refletido muito sobre sua atitude e queria reparar seus erros. Transtornada, pedia-me que a ouvisse, que não a abandonasse. Repetia insistentemente que era a única culpada.
 Eu a repeli.
A cena era repugnante.
Eu já havia decidido fazer o meu caminho e disse-lhe:
— Não há condições para continuarmos juntos, já sofremos demais. E agora, depois dessa sua atitude odiosa, refleti e vi que nosso casamento chegou ao fim, se é que alguma vez existiu. Por que não aproveita você também essa sensação de liberdade que eu estou sentindo, e não dá um novo rumo à sua vida?
Essas cenas se desenrolavam na escadaria de acesso ao gabinete da Gerência de Operações. Muitos curiosos paravam para assistir ao show, alguns interferiam na minha atitude de repulsa e pediam para que eu desse uma nova chance àquela mulher, que parecia profundamente arrependida. Já havia um coro, jocoso. E eu, ali, envergonhado, observado por todos. Para acabar com a cena ridícula, resolvi me render. Puxei-a para um canto e disse que concordava em reativar nosso relacionamento com a condição de não voltar para a casa de sua mãe.
Enfim, ela conseguiu o armistício! Para pôr fim ao drama, disse-lhe que a procuraria no fim do dia.
 Mais que depressa, ela, ajudada pela mãe, levou para uma pensão os móveis e objetos que haviam retirado da casa de Geralda. Fizeram tudo às pressas e Mara, já recomposta, voltou ao Correio para me avisar que, quando eu saísse, fosse direto para o novo endereço.
Depois eu soube que Mara havia conseguido de seu irmão o “sinal-verde” para alugar um quarto. Ele assumiria o aluguel, e assim fizeram. Alugaram um quarto numa velha pensão, na Rua da Palmeira, e ficaram aguardando que eu a procurasse para ocupá-lo. Como os dias se passaram sem que eu aparecesse, ela optou por aquele teatro, sabendo que eu faria qualquer coisa para não ser envergonhado em público. Ela sabia que eu sempre temi o julgamento alheio, e fazer uso inescrupuloso dessa minha característica ajudaria a vencer qualquer batalha contra mim.  
O quarto era horrível. Horrível também estava o meu interior. A sensação era de fracasso total e eu me culpava por ter cedido diante da interferência descabida de pessoas estranhas que nada sabiam de nós. Naquele quarto de pensão nada me contemplava: havia pouco espaço para os poucos móveis e o banheiro era de uso comum. O contrato não incluía refeições. Enfim, era um péssimo lugar para encontrar tranqüilidade.
Algumas vezes comíamos de marmita, outras vezes, na pensão, que era de melhor qualidade. Porém, Mara não gostava de sentar-se à mesa com os demais hóspedes, devido ao falatório, aos comentários vulgares que surgiam de vez em quando e às maneiras pouco polidas de alguns. Por isso, quase sempre, aguardávamos até que algumas mesas estivessem vazias para ocuparmos um lugar.
Confesso que eu já não era mais o mesmo homem. Não me iludi com aquele escandaloso arrependimento. Mas teimava em levar uma vida normal, pois havia, da parte dela, o compromisso de nunca mais repetir cenas de ciúmes ou de escândalos como as que vinham acontecendo nos últimos tempos.
Aquele horroroso episódio da escadaria parecia tê-la assustado. De minha parte, eu não acreditava nas suas vãs promessas, mas tinha um fio de esperança de que ela, aos poucos, aprendesse com o sofrimento e se afastasse cada vez mais de sua mãe, que tanto a influenciava. Sabia que teria que ter paciência, botar panos quentes no que viesse, apesar do seu gênio difícil.  
Não tardou e Mara começou a implicar com um dos hóspedes da pensão, o Sargento Arlindo. Ela o detestava simplesmente porque nós, aos sábados e domingos, puxávamos uma cadeira e ficávamos horas conversando à sombra de uma gameleira no jardim da pensão.  Ela achava que o assunto era mulheres.
Tudo recomeçou e eu suportava sem alternativa, temendo um novo escândalo, uma tragédia talvez. À noite, trancados em nosso quarto, eu tentava lembrar-lhe a promessa assumida, repetindo uma longa ladainha.
Além do Sargento Arlindo, havia um outro, da Marinha, a quem Mara também odiava pelo mesmo motivo: o papo debaixo da gameleira. Quando ela cruzava com qualquer dos dois, nos corredores da pensão, não respondia aos seus cumprimentos e emitia sempre um muxoxo de desprezo que eles desconsideravam, deixando para fazer algum comentário queixoso comigo.
Em pouco tempo, os outros hóspedes perceberam que ela era uma pessoa de comportamento estranho, de difícil relacionamento, que precisava ser tratada com muito cuidado. Então, eles passaram a nos evitare eu me sentia envergonhado.
De uma hora para outra, houve uma pausa em nossas brigas. Estava quase convencido de que as coisas iriam mudar, como resultado da minha atitude paciente. Passei a confiar no tempo. Aos poucos ela passou a conversar com os hóspedes da pensão. Quanto a mim, passou a dispensar outro tratamento: fazia planos para o futuro, afirmava que agora estava segura e que era muito importante voltarmos a viver dignamente, pois aprendera a valorizar o que possuía.
Porém, essa paz não demorou muito. Ela voltou a se preocupar com as minhas amizades, insinuando, vez por outra, que eu tinha encontros secretos. Sempre que eu chegava um pouco mais tarde, por encontrar algum amigo pelo caminho, ou por outro motivo qualquer, era recebido com interpelações descabidas. Uma nova onda de repugnância invadiu-me, bem como um desejo de repelir agressivamente suas insinuações, mas eu preferi  me impor um completo e misterioso silêncio. Vinha à minha mente a certeza de que aquele choro na escadaria fora falso e teatral. Eu devia ter ficado alheio a toda aquela encenação. Por outro lado, admitia que eu houvesse capitulado e só me restava assumir o ônus da minha fraqueza e enfrentar essa outra fase até que ela mesma se convencesse que a nossa separação era uma questão de tempo.


E, ASSIM, EMPURRAMOS A VIDA e conseguimos chegar no meado de 1949.
Nossa situação financeira, que já era precária, tornava-se ainda mais complicada. Mãe e filha sempre trocaram figurinhas, e nas horas difíceis Mara resolvia com ela as suas necessidades pessoais, porém não lhe passava pela cabeça voltar a trabalhar como fazia no tempo em que a conheci, o que, por certo, nos ajudaria a sair daquela situação humilhante.
Em meio a esse clima desfavorável e confuso, um dia ela me fez a seguinte revelação, em tom desafiador:
— Estou grávida! Agora eu quero ver o que tu vais fazer! — falou com um sorriso debochado nos lábios.
Eu logo achei que era mais uma apelação, uma declaração falsa, com o firme propósito de mexer com os meus nervos.
Demonstrei não acreditar, mas ela continuou, afirmando que fora ao médico e que já tinha a confirmação. Disse-me também que a notícia já era do conhecimento de sua mãe.  Assim, entre surpreso e ainda descrente, divulguei a notícia para os meus amigos. Abria-se uma nova perspectiva em nossa relação e eu fiquei atordoado, sem saber como lidar com essa realidade.
Com o correr dos dias, a gravidez se tornou evidente e nossas desavenças, que já eram cíclicas, voltaram. O seu comportamento esquisito passou a inquietar também os donos da pensão, uma vez que ela, ao passar pelo Sargento Arlindo, sempre assumia atitude provocadora. A possibilidade de reação do ofendido passou a preocupar os outros hóspedes, e eu pensava numa maneira de contemporizar. A barriga parecia não a preocupar. Porém, eu temia uma reação desastrosa que pudesse prejudicar a criança.
Nessa época, formou-se um pequeno grupo de aficionados da língua inglesa: José Humberto, Plauto Mesquita e Eslu Eloi, todos estudantes, e eu. 


Parque Solon de lucena , década de 40









Sempre nos encontrávamos no Cassino da Lagoa ou na calçada em frente, no Parque Sólon de Lucena, onde ficávamos boa parte do tempo num agradável bate-papo em inglês. Aquela reunião do grupo era uma aula prática que aprimorava os nossos conhecimentos. Agora, eu tinha um bom motivo para demorar na companhia dos amigos.
Conheci José Humberto no tempo em que eu ainda residia no Roger. Ele sempre soube da minha história e sempre me ouviu com paciência e compreensão, o que fazia com que a sua amizade me fosse salutar e necessária. Ele via com serenidade os meus defeitos e me encorajava nos momentos em que eu parecia duvidar de mim mesmo. Suas reflexões inteligentes me davam a certeza de que nada de mal me aconteceria. Quando conversávamos, as minhas aflições se diluíam e eu ganhava forças para prosseguir. Calmo e sereno, sabia ouvir e externar suas idéias. Ele foi o irmão que eu não tive.
Por essas qualidades, de companheirismo, solidariedade e bom humor, era presença obrigatória no grupo. Suas brincadeiras sempre produziam muitas gargalhadas, principalmente quando envolviam histórias e observações de elementos do próprio grupo. Gostava de contar anedotas ou recitar algum verso “sacana” que fazia com que todos chorassem de tanto rir. Foi sempre espirituoso, inteligente, brilhante e, acima de tudo, amigo. Era considerado o mais preparado no domínio da língua inglesa, sendo confundido, algumas vezes, com nativos americanos devido ao seu correto inglês e particularmente por seu tipo físico, destacado pelos cabelos claros.
      Aquela figura alta, esguia, inconfundível, quando surgia ao longe, ensejava a exclamação:
          — Lá vem Humberto!
        O grupo só se completava com a presença dele.
Em seu dia-a-dia sempre mostrou que a convivência sadia que ele tão bem exercitava era herança de família. E isso o definia como uma pessoa extraordinariamente humana cuja companhia era disputada por cada um de nós.
Ele nunca se valeu de seu destaque para censurar ou ridicularizar qualquer dos companheiros, e, por sua espontaneidade, conquistou o lugar privilegiado que ainda hoje ocupa entre os amigos que fez há mais de 60 anos.            
      Plauto era, também, figura importante na composição do grupo. Inteligente, culto, ria mais do que falava e, quase sempre, era o último a contar uma novidade.
Plauto e Humberto tiveram grande influência em minha vida. Foram os grandes timoneiros que conduziram o meu barco quando eu já não tinha forças para remar contra a forte onda que se abateria sobre mim tempos depois. Com eles eu pude divisar um horizonte.
    Havia entre mim e Humberto um perfeito entrosamento e, motivados pelo incentivo de algumas pessoas e por nosso envolvimento no meio estudantil, começamos a pensar num cursinho de inglês para iniciantes. A ideia se espalhou rapidamente e os interessados nos procuravam para informações sobre o início das aulas. Aquilo nos animou, mas precisávamos encontrar um local para o funcionamento do curso.
Liceu Paraibano (Foto ilustrativa, retirada da Internet)
















Iniciamos uma verdadeira maratona. 
Depois de algumas sugestões  visitamos o diretor do Liceu, que prontamente nos destinou uma sala daquele educandário, três vezes por semana, a partir das 19 horas.

Nascia, assim, não oficialmente, o “Basic English”, com 17 alunos adultos, entre os quais um capitão do Exército e um engenheiro, ambos com suas esposas. Eles já tinham conhecimentos de inglês e queriam apenas participar, os demais eram iniciantes.
Essa experiência exigiu de mim muita coragem e marcou-me positivamente. Foi um período inesquecível onde, além de ter tido a oportunidade de pôr em prática meus conhecimentos, ampliei o meu círculo de amizades.
Não demorou muito para que Mara, mais uma vez assessorada por sua mãe, voltasse a vigiar meu comportamento ao final das aulas. O curso funcionava às segundas, quartas e sextas, e, nesses dias, mãe e filha ficavam de atalaia perto do Liceu, para verificar se eu demonstrava intimidade com alguma aluna.
Fui prevenido de que elas ficavam atrás de árvores, um pouco distante de onde passávamos, e cheguei mesmo a constatar isso, pessoalmente. Começou, então, um novo ciclo de bate-boca! A minha paciência estava no limite, e mesmo sabendo que ela esperava um filho meu eu não podia deixar de me revoltar com aquela insensatez. Jamais poderia imaginar que alguém, com aquela barriga, fosse tão inconsequente.
No grupo de alunos havia cinco moças. Foi escolhida para vítima a noiva de um engenheiro estrangeiro. Ela estudava inglês porque ia morar na Suíça. Mara encrencou com a jovem porque algumas vezes, após o término da aula, na saída, ela parou para conversar comigo, tentando esclarecer alguma dúvida pendente da aula.
Senti-me caluniado mais uma vez e me arrependia por não ter, de fato, dado motivos para ela me acusar. Eu já estava tentado a lhe “dar uma chance” quando ela anunciou a gravidez. Agora, o senso de responsabilidade que sempre me acompanhou  impedia que eu realizasse qualquer vingança: dar um troco de bom tamanho.
Será que ela não percebia que eu dava aulas à noite por uma questão financeira?  Será que ela não sabia que aquele dinheirinho suado estava nos ajudando a sair da situação difícil de antes? Claro que sabia! E, então, como é que eu suportaria viver ao lado de uma mulher, angustiado por tantas infâmias miseráveis que me atingiam novamente? Se antes eu já tinha dificuldades e vergonha em lidar com aquela situação, imaginem com a chegada de uma criança. Mara parecia não perceber que muitas vezes eu me calava, humilhado, em respeito à sua gravidez.
      Ela estava nos últimos meses de gestação quando viajei para o interior do Estado, integrando uma Comissão de Inquérito formada para apurar irregularidades na Agência dos Correios de Conceição do Piancó. Esperava que aquela trégua, de poucos dias, trouxesse um alívio para a difícil situação que estávamos vivendo, mas que nada! Quando retornei, continuei carregando a pesada cruz. Ela persistia em suas atitudes de desconsideração e grosserias agravadas pelas desconfianças descabidas.


MARÇO DE 1950.  O bebê deveria nascer a qualquer momento.
      Enquanto os dias passavam, aumentava a minha insegurança e eu me perguntava se morando naquela pensão teríamos condições de dar o apoio necessário à criança, quando saísse da maternidade.
Os proprietários da pensão, Sr. Pedroza e D. Juracy, percebendo o meu estado de angústia, tentavam me acalmar, dizendo que na hora H estariam prontos para nos ajudar. Relaxei um pouco, vi que não estava tão só.
No dia 15, D. Juracy percebeu que faltava pouco para a criança nascer e avisou que era melhor ficarmos de sobreaviso. Fui trabalhar em clima de expectativa, mas somente na madrugada do dia 16 Mara começou a sentir as dores do parto, e nós a levamos, às pressas, para a maternidade. Ela ficou internada em um quarto simples, sem direito a acompanhante. Disseram-me que eu só poderia vê-la depois do parto. Senti obrigação de avisar a sua mãe e, quando retornei à maternidade, pela manhã, ela e Olívia já estavam lá. Olívia, que seria madrinha da criança, tranquilizou-me, dizendo que eu não me preocupasse com as providências para a chegada da criança, pois já tinha em mente a compra do berço para aquele mesmo dia. Fiquei tranqüilo.
A criança ainda não havia nascido e eu precisei ir ao Correio, justificar a minha ausência, naquele dia. Avisei à enfermeira que voltaria mais tarde e pedi-lhe que me comunicasse qualquer novidade.
Eram 8 horas quando tocou o telefone do gabinete da Chefia Postal. Era da maternidade. Nervoso, atendi. A enfermeira foi logo me parabenizando pelo nascimento de uma linda menina. Saí dali voando, tomei o bonde no Ponto Cem Réis com destino a Trincheiras e, em poucos minutos, cheguei ao hospital, onde pedi para ver a parturiente e a criança, mas a enfermeira disse que ainda era cedo, não podia ver nem uma nem outra, somente no horário da tarde. Todavia, eu devia ficar tranqüilo, porque ambas passavam bem. Deixei um recado com a enfermeira para que avisasse Mara que eu estivera ali e que, mais tarde, retornaria. Eu precisava tomar algumas providências com relação à arrumação do quarto para quando as duas saíssem. Feliz, comuniquei a todos na pensão que minha filha havia nascido. Fui muito cumprimentado.
Ao voltar, à tarde, encontrei-a acompanhada de sua mãe no quarto do hospital. A enfermeira levou-me até o berçário e, através de um vidro, apresentou-me à criança. Eliane era linda! Fiquei emocionado! Estava satisfeita a minha curiosidade.
Na manhã do dia seguinte, às 9 horas, elas tiveram alta. Uma ambulância nos levou para a pensão.  No quarto, já havia um berço e outros utensílios ajeitados por Olívia. Eu me sentia orgulhoso ao olhar para aquele pequenino ser e custava a acreditar que me tornara pai, em meio a tantas intranquilidades. Ainda hoje não sei definir os sentimentos que habitaram em mim, naquela ocasião.
Na pensão, todos queriam ver e afagar o bebê. A presença daquela criança trouxe uma verdadeira paz. Mara e os hóspedes esqueceram as  hostilidades, nesses primeiros dias.
Eliane não tinha ainda dois meses quando fui designado para acompanhar, em comissão, o diretor regional, em visita ao interior e, ao mesmo tempo, secretariar uma Comissão de Inquérito encarregada de apurar irregularidade na Agência de Antenor Navarro.
Mara não deu a menor importância quando lhe falei que deveria viajar. Novamente, os donos da pensão prometeram dar toda a assistência às duas enquanto eu estivesse ausente. Quando eu lhe disse que se dirigisse a eles, caso precisasse, ela deu um muxoxo desinteressado.
Como era de se esperar, apesar da existência de Eliane, Mara, vez por outra, respondia-me por cima do ombro, mal eu abria a boca. Passou a reclamar de tudo, outra vez. Trancava-se no quarto e de lá não saía; diariamente, era assim que eu a encontrava. Eu não sabia se o motivo de tanto mau humor era eu ou Eliane.
No dia 12 de maio, viajei para o interior.
Embora deixasse atrás de mim muitas preocupações, tinha motivos para seguir feliz, pois, desta vez, era uma oportunidade que a diretoria me propiciava de passar por Patos, de onde saíra já havia dez anos. Era grande o meu desejo de rever a cidade e as pessoas, e nem Mara com seus aborrecimentos seria empecilho para que eu viajasse.
Viajei lépido, sentia-me na máquina do tempo. Procurei focar meus pensamentos nas imagens que eu havia guardado de Patos e do meu Jatobá. 
Hotel central de Patos
            










    
    Chegamos em Patos no fim do dia. A Comissão hospedou-se no Hotel Central. Era um hotel limpo e bem cuidado, confortável, com amplos quartos e bom atendimento.
Pela manhã, durante o café, tive a grande surpresa de ser atendido, à mesa, por um casal de irmãos: João e Herotides, que foram meus vizinhos e companheiros de juventude em Jatobá. João era o gerente e Herotides, a camareira. Fui reconhecido pelos dois e ficamos, durante algum tempo, conversando sobre nossas vidas e nossas famílias. A Comissão decidiu seguir viagem naquele instante e não pude ir a Jatobá, como desejava. Herotides incumbiu-se de levar às minhas tias o motivo da minha breve passagem por Patos.
Parti com um nó na garganta, sem satisfazer o desejo de abraçá-las. Na estrada, do carro, pude divisar, ao longe, quase imperceptível, a grande placa colocada sobre a porteira de acesso ao Campo Experimental de Jatobá e a casa de minha família, que aparecia como um minúsculo ponto perdido na distância. Ainda, pontilhado no horizonte, avistei o velho e lendário Serrote do Espinho Branco, uma das mais caras lembranças da minha infância.
Serrote do Espinho Branco 
Na volta, paramos no mesmo hotel para almoçar e soube que Inocência havia estado lá para tentar me ver e, novamente, fui impedido, pelas circunstâncias, de me afastar da Comissão. Todavia, foi muito boa essa volta à minha cidade, naquele momento.                
Alguma coisa me dizia que ao retornar a João Pessoa encontraria novidades, e foi o que aconteceu. Na pensão, encontrei o quarto vazio. Mulher, criança, berço, móveis, tudo fora levado. Mais uma vez, decidiram mudar o rumo das coisas sem minha participação. Fiquei pasmo durante alguns minutos sem entender o porquê de tanto despropósito. Deduzi que Mara estava envolvida em algo muito sério e assumira a responsabilidade por esse transtorno.
E não errei!
Sr. Pedroza, tendo alguns hóspedes como testemunha, contou-me que, durante a minha ausência, Mara teve um sério atrito com o Sargento Arlindo, sem motivos. Foi extremamente violenta com o militar, recusando o seu cumprimento com muita agressividade nas palavras. Alguns hóspedes presenciaram a cena e ficaram revoltados.
— Depois dessa discussão, em sinal de repulsa, ela decidiu fechar a conta e sair da pensão. Mudou-se para uma vila, recém-inaugurada, na Rua Duque de Caxias — acrescentou Pedroza, com certa indiferença.   
Há tempos que eu previa que algo parecido ia acontecer. Despedi-me, irado, prometendo voltar mais tarde, pois desejava ouvir a versão do Sargento Arlindo sobre o incidente.
E, mais uma vez, lá fui eu!
Na entrada do portão da tal vila havia um senhor a quem pedi informação. Vejam só o ridículo da cena! Eu querendo saber para onde se mudou, de um dia para outro, a minha mulher, levando a minha filha! Ele, sem demonstrar espanto, indicou uma porta, no térreo.
Bati, e Mara apareceu. Entrei sem a encarar, e fui direto ao berço de Eliane, instalado num canto apertado do quarto. Peguei-a no colo e permaneci por algum tempo abraçado a ela, ao mesmo tempo em que observava o ambiente. Era um cômodo minúsculo, completamente ocupado pela cama e pelo berço; um canto que chamavam de cozinha e um reduzido banheiro. No afã de tirar a filha da pensão, antes que eu chegasse, sua mãe decidira-se por aquele lugar sufocante.
Mais controlado, eu quis saber o que tinha acontecido, adiantando que estivera na pensão.
Com ar de desdém, e antes que eu dissesse o que já sabia, ela passou a dar a sua versão do conflito. Afirmava ter sido destratada e que, ao reagir, quase deu uma bofetada no Arlindo.  
Falei-lhe que conhecia uma outra história, contada pelos donos da pensão. E que eu ainda voltaria para ouvir a versão do Arlindo. Ao pedir-lhe explicações sobre o fato de ter se mudado antes da minha volta, ela respondeu que pensou que estaria evitando uma briga entre mim e o Sargento Arlindo. Fora aconselhada por sua mãe, que também providenciou a mudança. Arrematou dizendo:
— Minha mãe pagou todas as despesas da mudança e também está disposta a assumir o pagamento deste aluguel até que você tenha condições para isso. Portanto, não se preocupe.  A decisão está tomada!
Vencido pelo inusitado da situação, e sem ideia do que fazer, disse, por entre os dentes:
— Sempre essa senhora, dirigindo tudo!
Na hora do almoço, retornei à pensão para ouvir a versão do Sargento Arlindo. Minha cabeça fervilhava. Na sala de espera, enquanto aguardava sua chegada, ouvi de alguns hóspedes muitas considerações desagradáveis a respeito de Mara e do seu procedimento desrespeitoso, durante a minha ausência.
Arlindo chegou e, depois de me cumprimentar, na presença dos outros hóspedes, desabafou, dizendo que ela teve uma atitude realmente desrespeitosa para com ele, dirigindo-lhe, como sempre, palavras desafiadoras ao se cruzarem no corredor.
— Você sabe que sempre procurei ignorá-la, disse-me ele. — Mas desta vez ela tentou desmoralizar-me perante os demais hóspedes e eu reagi. Então, foi pior: ela se sentiu desafiada e reforçou as ofensas, o que levou os hóspedes a lhe chamarem a atenção, causando um mal-estar geral. Dos insultos, passou para a tentativa de agressão física, quando, então, ameacei processá-la. Só assim ela se conteve.
Envergonhado, falei:
— Já entendi tudo! Peço-lhe desculpas, se é que tenho esse direito.
Senti olhares piedosos sobre mim.

Cabeça arriada, com dó de mim mesmo, retomei o caminho de volta, e me perguntava: “Quantas ainda terei que suportar, meu Deus?!” 
Voltei, mais uma vez, arrasado. Não via solução para aquela instabilidade em que vivíamos, mas, no fundo, eu vislumbrava ainda uma pequena possibilidade de mudança em nossas relações com a presença de Eliane. Ela talvez tivesse a missão de nos propiciar uma vida digna, mais tranquila.
Novo período de calmaria caiu sobre nós. Nossa vida caminhava sem grandes turbulências, apesar da proximidade constante da mãe dela, agora justificada pelo desejo de ver a neta. Eu tentava me conter. “Será que, finalmente, terei paz?!”
Eliane estava com alguns meses de vida quando Olívia confidenciou-me que ouvira de Mara a seguinte revelação:
“Naquele dia, quando saí da casa de Geralda e abandonei o Nunes, eu estava sem controle de mim mesma, não me dei conta da besteira que estava fazendo. Depois vi que precisava reparar o meu erro e resolvi, então, voltar atrás e tentar reconquistá-lo a qualquer custo. Por isso, fiz o que fiz na escadaria do Correio. Não foi fácil. Mas a minha tática funcionou. Ele não resistiu e consegui engravidar. Recuperei o prejuízo. Agora tenho Eliane e já não faz muita diferença se ele for embora ou não. Estou segura, garantida.”
Uma onda de cólera invadiu-me. Eu fora iludido na minha boa-fé. Fiquei revoltado com a minha ingenuidade. Descarreguei meu ódio em gestos de desespero e palavras desconexas. Queria gritar, sumir. Olívia, apavorada, disse:
— Nunes, calma! Estou muito preocupada com a sua reação! Não pensei que você fosse ficar assim. Tente se acalmar. Acho que precipitei uma guerra.
— Não, não se assuste! Pode ficar tranquila! Ela jamais saberá que você me revelou esse plano sujo. Daqui por diante eu também vou adotar um comportamento mais ardiloso.
 Eu sabia que tudo aquilo fora um teatro, mas nunca podia imaginar que estaria caindo em uma armadilha que envolveria inclusive a existência de uma criança. 
Saí da casa de Olívia completamente descontrolado, pensava em encarar aquela mulher em busca da confirmação do que ouvira, mas lembrei-me que havia assumido um compromisso com Olívia. 
“E agora? Sair de sua vida sem que ela saiba exatamente o motivo será cometer uma violência que atingirá Eliane diretamente. Não! Vou aguardar o momento propício para agir sem precipitação” — falava comigo mesmo, enquanto caminhava.
Com o passar dos dias, a minha angústia só aumentava. Por um lado, Mara, sempre mal-humorada, trombuda, reclamando de tudo; por outro lado, o aperto financeiro que eu vivia.
 Eu e Humberto já pensávamos em fechar o curso de inglês. Alguns alunos haviam desistido. Para abreviar a nossa decisão, a sala que usávamos nos foi pedida, e passamos para outro local, não tão confortável. Desanimamos e encerramos o curso. Os poucos alunos interessados, seguramos com aulas particulares em suas casas, cobrando 18 cruzeiros por hora. Foi dureza! Cruzeiros suados!
Enquanto isso, eu, tido como um “minotauro”, encontrava-me cada vez mais encurralado no labirinto, já sem muita resistência. “Mil olhos” me seguiam camuflados em sombras que desapareciam tão logo eu retornasse para casa. 
Sempre que podia, procurava alguém com quem eu pudesse falar das minhas angústias. Muitos conheciam a minha epopeia e eu achava que eles podiam me ajudar a encontrar uma saída, mas acabava convencido de que a porta de saída era eu mesmo que devia encontrar e não aqueles amigos. Voltava para casa com passos de quem acompanhava enterro, com muitos tremores pelo corpo.  Minha cabeça parecia um redemoinho.

Continuava pensando em desistir da luta e sumir, mas Eliane surgia na minha imaginação, segurando-me pela mão, seus olhos dengosos pareciam que suplicavam para que eu não partisse. Essa imagem me paralisava totalmente, pedindo-me para suportar um pouco mais. Então, eu recuava. À noite, tirava-a do berço e ficava o tempo que desse brincando com ela. Pela manhã, quando saía, fazia-lhe carícias e ela correspondia com seus sorrisos inocentes. Era uma criança sadia, sorridente, olhos bonitos e cintilantes e nunca rejeitava afagos de quem a tomava nos braços.
Como um drama em capítulos, diariamente, meus amigos queriam saber como estavam as coisas. Na verdade, eles cobravam de mim uma reação que me devolvesse a tranqüilidade e a vontade de viver.
E eu oscilava: um dia, eu tinha certezas e confiança; no outro, somente dúvidas e amarguras. 
Humberto dizia para ter calma, até onde desse:
— Quando chegar a hora, sua consciência o aconselhará. Faça-o sem destemor porque, se não encontrar logo a saída do labirinto, acabará assistindo, sem perceber, a sua própria destruição. Você hoje é  conhecido, conquistou o respeito de muitas pessoas. Deve preservar isso. É inquestionável que você tem o direito de defender, a qualquer custo, sua reputação.
Arlindo era mais incisivo:
— Você deve reagir! Se puder, vá embora. Você é jovem, inteligente, terá oportunidade de vencer em qualquer lugar, mas longe daqui. Veja que está em jogo uma imagem que você conquistou. Apresse-se, pois, se você demorar em tomar consciência dos perigos que o rodeiam, poderá ser engolido por eles. Ainda é procurado para dar aulas a filhos de famílias importantes, o que significa que continua merecedor do respeito que conquistou. Mas o ciclo vai se fechar, um grande escândalo pode acabar destruindo você, e talvez não tenha tempo de salvar coisa alguma.
Às vezes, isso tudo me apavorava. Um sentimento forte por Eliane me aconselhava a ter calma. Eu lhe devia assistência e carinho. Temia reclamações futuras.
Nessa altura, para Mara, pouco ou nada importava a atitude que eu viesse a tomar, uma vez que, entre nós, o casamento já não existia. Tolerávamo-nos um ao outro.
Aos poucos, admitia que, para salvar o que fosse possível do que ainda me restava em reputação e coragem, eu devia, na primeira oportunidade que surgisse, arrumar a mala e partir.
Quanto a Mara, ela havia conseguido o direito à pensão alimentícia, e isso lhe bastava.
Sempre que lhe dirigia a palavra, ainda que fosse a respeito de Eliane, era xingado de fingido ou hipócrita, iniciando-se uma discussão sem fim. Cada dia que passava só aumentava, em mim, a certeza de que a nossa convivência debaixo do mesmo teto não resistiria muito tempo.
Quando eu entrava no portão da vila, sentia pavor daquele lugar, pois não sabia a fisionomia da fera que eu teria que enfrentar ao abrir a porta, e me perguntava: “Qual será o disparate reservado para hoje?” Por outro lado, ansiava por ver a alegria e a inocência de Eliane, alheia a tudo, sem perceber que fazia parte das minhas indecisões.
De uma hora para a outra, a mãe de Mara adoeceu. Um dia, quando cheguei, ela tentou convencer-me de que precisava voltar para junto da mãe. Alegava, insistentemente, que ela precisava de sua ajuda.  Friamente, pensei: “É mais uma armação!”
Eu, apesar de não concordar, via que ela estava decidida a levar a cabo a ideia. Não voltaria atrás. E, como reforço, dizia que seu irmão exigia a sua assistência. Agitada pela novidade, afirmava que ele concordara com a nossa volta, esquecendo o passado.
Há muito que eu não admitia mais a ideia de voltar àquela casa, onde fui tão espezinhado, mas ela, aos brados, disse:
— A minha obrigação é ajudar e a sua, entender — argumentava, absolutamente convencida da necessidade de ficar sob o mesmo teto de sua protetora.
Vi-me de repente diante dos dois únicos caminhos: acompanhá-la ou ficar só. Um mundo de fantasmas invadiu a minha cabeça. Pensei na existência de Eliane, tão frágil ainda. Tinha certeza de que,  se eu ficasse, não teria facilidades para vê-la.
 Em total despreocupação com o que eu falava ou pensava, Mara continuava arrumando os seus pertences. Andei de um lado para outro, saí, entrei. Não encontrava palavras para fazê-la desistir. Dei de ombros, derrotado. Não entendia como aquilo acontecia, outra vez. Ela fingia não entender a minha contrariedade. Sentei-me na beira da cama, de cabeça baixa, apertando as mãos, aflito, e cedi, mais uma vez!!! “Que feitiço é esse que me deixa tão impotente? De que eu tenho medo?”, indagava-me sem respostas.
No dia seguinte, entregaríamos as chaves do quarto.
Ela disse que quando eu saísse do Correio deveria ir direto para a casa de sua mãe, que agora morava na Avenida Camilo de Holanda.
Enquanto Mara corria de um lado para outro, movimentando móveis e outros objetos, preparando-se para a mudança ainda naquela manhã, minha mente, preocupada, parecia avisar que, por trás da pressa e da euforia, poderia haver um plano arquitetado com um objetivo determinado: dar-se-ia a ruptura definitiva do casamento e ambas, mãe e filha, já estariam sob a proteção da família. Ao mesmo tempo que eu me sentia traído, não deixava de considerar que essa saída era possível e a menos traumática para todos.
Admitia a possibilidade de estar caminhando como um boi para o abate. As feridas abertas pelos terríveis açoites verbais e ultrajes que eu sofri daquelas pessoas continuavam sangrando.  
Ao sair, avisei:
— À noite, vou dar duas aulas e só depois das 22 horas chegarei à casa de sua mãe.
Durante o dia não saía da minha cabeça o momento em que eu seria recebido, naquela casa, naquela noite. Pensei em quebrar o trato, não aparecer, livrar-me por completo. Era uma boa oportunidade. Mas, e aí? Sairia com a roupa do corpo, sem nada? Por outro lado, o que iam falar de mim? Seria chamado de covarde, irresponsável, por abandonar uma “pobre mulher com uma criança nos braços”. 
Não havia escapatória, era uma situação de morte ou morte, que eu tinha que enfrentar.
Terminei a última aula. Parei no Ponto Cem Réis, num bar, e tomei um copo de coalhada.

Ponto Cem Réis

  
Com a mente em desalinho, segui pela calçada da lagoa na direção da Avenida Camilo de Holanda. Hesitei e decidi passar primeiro pela casa de Olívia, pois sabia que ela, diariamente, mantinha contato com Mara e, obviamente, saberia informar como estava a temperatura na casa. Era a minha última esperança: saber que não seria bem recebido, o que  desfaria qualquer feitiço.
Porém, Celina e Olívia, sorridentes, comemorando não sei o quê, receberam-me dizendo:
— Alegre-se, homem! Você vai ser bem recebido! Ainda há pouco Mara esteve aqui com Eliane e disse que Juca está lhe aguardando.
Pode-se imaginar como eu saí dali? Parecia um bode puxado para dentro d’água. 
Olívia acertou em cheio, fui recebido cordialmente:
— Vida nova, viu?! — disse Juca, com um desinteressado tapinha no meu ombro.
Eu estava zonzo e não conseguia assimilar a nova situação. Mostraram-me o quarto. Vi Eliane no berço e, por um instante, senti paz.
Na manhã seguinte, tudo parecia normal. Acordados, mesa do café posta, um novo dia e uma nova fase... Quem tinha que trabalhar despediu-se.
Chegando ao Correio, percebi que todos aguardavam as novidades:
— Como é que foi lá?
E para todos eu respondia, sem querer esticar conversa:

— Continuo vivo...
Afinal constatara que o estado de saúde da velha matriarca não era tão crítico assim que justificasse tanta pressa e desespero. Ela continuava firme como um rochedo. Eu sabia que estava ali numa situação muito peculiar e que, de um momento para outro, a hospitalidade e a placidez daqueles olhares poderiam transmutar-se em uma nova escalada de ódios, e tudo se repetir novamente. O clima era estranho. Algo estava para acontecer e, desta vez, esperava que fosse em definitivo. “Não acredito que elas tenham mudado tão de repente. É só uma questão de tempo.”
Como um escoteiro, passei a viver “sempre alerta!” Mantinha-me atento a qualquer coisa que diziam, a qualquer frase que pudesse dar a entender a existência de algum plano, já que haviam simulado aquela emergência.
Certa manhã, percebi na fisionomia de Mara alguma contrariedade e perguntei:
— Que foi que houve, você está aborrecida? O choro de Eliane está incomodando os donos da casa?  
E ela de forma grosseira e enigmática respondeu:
— Isso é comigo. Pode deixar. Você não tem que se preocupar.
Algumas reações desse tipo sinalizavam que eu não podia descuidar.
Dias depois, eu me encontrava trabalhando na Secretaria da Diretoria e um senhor de pouco mais de 40 anos, mulato, veio em minha direção:
— Chiquinho?
— Sim.
Ele tinha boa aparência, cabelo e bigode bem aparados, e seu olhar penetrante me lembrava alguém.
— Eu sou Manuel Xavier dos Passos, irmão de sua mãe.  Depois de muitos anos, voltei a João Pessoa para rever minhas irmãs e, ao mesmo tempo, conhecê-lo.
A imagem de minha mãe surgiu em seu semblante.  
Fomos para uma balaustrada e ali ficamos algum tempo conversando. Ele descreveu a vida de minha mãe, antes de conhecer meu pai, e quis saber como foram os dias dela antes do falecimento. Era a primeira vez que ele voltava ao Nordeste depois de muitos anos no Rio, e disse que sempre imaginou que quando isso acontecesse encontraria ainda as três irmãs vivas. Lamentou muito que minha mãe já não existisse.
Depois, passou a falar sobre o Rio, seus encantos, sua gente. Embora ele fosse reticente em algumas frases, eu tentava absorver todas as suas palavras. 

Tia Dega
Disse-me ainda que estava hospedado com a esposa, Belina, na casa de sua irmã Dega e que me aguardava, no domingo, para conversarmos.
Aquele encontro com o meu tio foi uma faísca, despertando-me para uma possibilidade de libertação.  A maneira empolgada com que ele descrevia o Rio de Janeiro me encantou e me devolveu a ideia de prosseguir na busca do meu sonho de viver na cidade  grande, interrompido com o casamento. João Pessoa não representava mais o lugar sonhado.
Domingo nos encontramos, num almoço na casa de minha tia. Nesse momento, expus-lhe a minha difícil situação com o fracasso do casamento, apesar de tanta humilhação e tentativas em acertar. Manifestei-lhe o desejo de ir para o Rio de Janeiro. Ele me ouviu atentamente e, depois de fazer cuidadosas observações, desta vez não tão positivas sobre o Rio, colocou-se à minha disposição. Dias depois, ele se despediu.
Os dias se arrastavam lentamente. Até que uma noite, ao chegar em casa, voltando daquele “pinga-fogo” noturno de aulas particulares, encontrei mãe e filha de sentinela. Tinham as fisionomias carregadas e, antes que eu abrisse o portão, fui submetido a um denso interrogatório no qual exigiam que eu explicasse por que estava traindo a família. E eu, sem entender a que se referiam, pois até aquele momento permanecia “em estado de alerta” a fim de evitar discussões, fiquei imóvel, sem qualquer reação.

Foto ilustrativa (retirada da internet)
Por fim, em meio ao palavrório, Mara revelou que havia encontrado entre as páginas de um livro uma carta-resposta, enviada por meu tio Manuel dias antes. Nela, ele tecia considerações a respeito de uma outra carta que lhe escrevi, falando de minhas dificuldades financeiras e conjugais, ao mesmo tempo em que lhe pedia orientação e ajuda para a minha ida para o Rio.
Sua carta, na tentativa de me desiludir, agora mostrava um retrato negativo do Rio, aconselhando-me a ter um pouco mais de paciência e me organizar melhor, pois não seria fácil recomeçar a vida num mundo desconhecido, sobretudo saindo de um lugar tão pequeno. E dizia, mais adiante: “Pense no que você está deixando para trás. As responsabilidades, como as nossas raízes, seguirão nossos passos por toda a nossa vida.”
Depois de conhecerem o conteúdo dessa bendita e descuidada carta, todos se voltaram contra mim. Mãe e filha pareciam ter conseguido munição nova. Repetidamente chamavam a atenção para um tópico da carta no qual meu tio me aconselhava a não cometer nenhuma loucura. Devia pensar na grande responsabilidade que eu tinha: a criança. Esse comentário veio turvar definitivamente o meu relacionamento com a família de Mara.
Para elas, aquela carta-explosivo era a munição que faltava, e não lhes restava dúvidas de que eu estava construindo uma fuga, para qualquer momento. Vi que tinha atirado uma pedra na colmeia. Acabou-se o resto de sossego que eu tinha! Espalharam para os conhecidos que haviam descoberto um plano de fuga idealizado por mim, a ser posto em ação a qualquer momento, ajudado por meu tio, do Rio. Passei a fugir de um “enxame” enfurecido!
Passaram a intensificar a vigilância, dia e noite, e eu, qual um prisioneiro, aguardava apenas um leve cochilo do carcereiro para fugir. Isso era um direito, por tudo que eu passei. Eu só esperava o sinal verde de meu tio e estava disposto até a sacrificar meu emprego no Correio. Ficar em João Pessoa na condição de separado era sacrifício maior, pois o tititi me tingiria de cores tão negras que minha vida se tornaria um tormento. Eu estava no meu limite.
Escrevi uma outra carta ao meu tio, na qual relatei todo o meu infortúnio, a disposição de pôr um ponto final na minha inquietação, e roguei, desesperadamente, pela sua ajuda. Entretanto, mais uma vez, ele me receitou calma. A resposta irritou-me. Traduzi a sua “calma” como uma forma dissimulada de não assumir a responsabilidade pela abertura de uma porta cuja chave eu pensava estar em suas mãos.
Chegava ao trabalho, pela manhã, amargurado. Quase sempre, fugia de qualquer comentário sobre a minha vida e sobre o meu mau humor, e mesmo que desagradasse à chefia, permanecia assim todo o dia.
À noite, quando não tinha aulas, eu ficava conversando com amigos na lagoa ou na praça, aguardando o andar das horas, até poder voltar para casa, dormir e acordar no dia seguinte para viver a mesma rotina sem futuro. Entrava mudo e saía calado, ignorado.



Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história  para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com 




2o. capítulo - 7o. episódio: "Enfim, a liberdade!"



GELDA ERA UMA DAS PESSOAS  com quem eu conversava quando encontrava.
Eu a conheci numa aula de legislação postal, de que participamos como candidatos a um concurso de postalista, em 1946.
No curso, sentávamos um ao lado do outro e, ao término da aula, caminhávamos juntos até o Ponto Cem Réis. Nossas conversas durante essas caminhadas eram triviais. Ela era protestante, e eu percebia que em suas palavras havia quase sempre um sentido evangelizador, tentando atrair-me para a sua religião, como é próprio de todo protestante.   Por fim, ela entendeu que religião não era o meu assunto preferido e os nossos diálogos passaram a ser sobre o nosso cotidiano. Passou a confidenciar-me detalhes de sua vida em família. Queixava-se que tinha desavenças com seus familiares, por ter uma maneira  liberal de viver a vida. De fato, ela não se importava de ser vista conversando com pessoas comprometidas ou não. Afirmava que era uma pessoa livre e que detestava dar satisfações sobre o que pensava ou fazia. Dizia-se moderna.
Naquela época, a minha vida conjugal já anunciava um temporal. Trovejava e ventos fortes sopravam ameaçadoramente. Decepcionado com o casamento, desabafava com ela sobre as dificuldades que eu enfrentava em casa, agravadas pelo fato de eu estar desempregado. A partir dessas confidências, estabeleceu-se entre nós uma relação de confiança mútua que fazia com que, sempre que nos encontrávamos, dedicássemos alguns minutos de conversa um ao outro. Embora nos tratássemos com intimidade, eu procurava manter-me cauteloso para que ela não se iludisse, vendo nossa amizade de forma deturpada.  
Terminadas as aulas de legislação, nós nos distanciamos e só voltei a me encontrar com Gelda, novamente, quando ela estava terminando o curso pedagógico, e eu dava aulas de inglês à noite, no cursinho que ficava no mesmo prédio.
Nós nos cruzávamos na frente da Escola Pedagógica, nos horários de entrada e saída, e nossas conversas passaram a ser mais constantes. Não nego que gostava da sua companhia. A minha vida tumultuada, apesar das incontáveis tentativas e do passar dos anos, não se modificara. Ela, por sua vez, dizia que não encontrava paz em sua família e tentava a independência através do magistério. Então, retomando à antiga intimidade, houve a partir daí, entre nós, vários momentos de conversas lamuriosas.
Eu percebia que Gelda via nas atenções que eu lhe dedicava a possibilidade de um envolvimento amoroso e isso me incomodava. Eu estava preso a um casamento que, embora me infelicitasse, procurava honrar com resignação. Mas eu tinha 26 anos e sabia que corria o risco de, mais cedo ou mais tarde, cair em alguma armadilha passional que, certamente, destroçaria minha alma e minha integridade moral.
O meu casamento com Mara há muito tinha terminado. As discussões continuavam e eu já não me preocupava mais em dar satisfações das minhas amizades ou do que fazia. Voltar para casa todas as noites era um grande sacrifício. Nas poucas quadras de caminhada, minha cabeça ardia e, como um mantra, diariamente eu repetia para mim mesmo: “Não tenho sangue de barata. Preciso pôr fim a esse tormento. Por que aceitar que me destruam? Eu devo reagir e vou fazer isso. Com ajuda do meu tio ou não. A separação é a única porta por onde eu consigo sair.” 
Agora, o sentimento de culpa vinha seguido da remissão: “E Eliane, um dia me compreenderá?” “Tenho certeza que essa nossa ligação de pai e filha existirá sempre, independentemente da distância.”
As pessoas das relações da família de Mara, advertidas pela evolução dos acontecimentos, permaneciam extremamente atentas. Curiosas, tentavam descobrir alguma informação a meu respeito, interrogando, até mesmo, os meus amigos mais íntimos.
Um exército me vigiava por onde eu andasse. E é lógico que começaram a surgir boatos cada vez mais criativos sobre o meu comportamento e as minhas amizades. Cada um queria ser o informante mais eficaz.
Eu já não esperava a ajuda do meu tio. Estava convicto de que, quando se desse a separação, seria de forma difícil, traumática, porém irreversível. O gás da maledicência poderia fazer o “balão” explodir, fatalmente, a qualquer momento.
Certa noite, quando retornava da casa de um aluno, na Av. Trincheiras, deparei-me com Gelda e paramos para conversar. Ela vinha de uma escola na Rua João Machado, onde fazia estágio à noite. Mostrava-se triste com os seus problemas. Quis ouvi-la, mas não deu tempo. Mara e sua mãe saíram de trás de uma árvore como fantasmas e, caminhando em nossa direção, Mara gritou, ajudada pela segunda voz, desafinada, de sua mãe:
— Ah, sem-vergonha, até que enfim!
Foi uma cena horrível! Pareceu-me o inferno de Dante! Ouvimos vários impropérios. O mundo veio abaixo. Vi que não dominava aqueles espíritos rebeldes. Nas janelas das casas, cabeças apareceram nas luzes que se acenderam, e eu, constrangido, ordenei:
— Vá embora, Gelda, por favor!
A jovem ficou assustada, sem saber que direção tomar, enquanto eu procurava justificar-me, balbuciando palavras que eram abafadas pelos urros que ouvia. Muitos dedos me apontavam, muitos olhos me flechavam e, então, ainda paralisado, tomei a tão esperada decisão: “Esta é a hora!”
Convencido de que era o momento aguardado, ali mesmo, naquela ocasião, vi-me gigante, quebrei as algemas que me prendiam e voei para a liberdade.
Larguei as duas vociferando no vazio e tomei o caminho mais curto para chegar a casa, na Camilo de Holanda, antes delas. Entrei apressadamente e disse para Terezinha, que cuidava de Eliane:
— Estou indo embora!
Eliane dormia. Tirei-a do berço, beijei-a e, chorando, murmurei:










— Adeus! Perdoe-me! Não sei quando voltarei a vê-la, mas nunca a esquecerei.
Terezinha, em pé, ao meu lado, também chorava.
Devolvi Eliane ao berço, virei-me, e pedi:
— Olhe por minha filha.
Rapidamente, antes que a dupla chegasse, reuni alguns objetos pessoais e voltei os olhos com tristeza e ternura para aquele tico de gente, que eu esperava, um dia, entendesse a minha decisão.  Mas agora eu não tinha mais dúvidas: preferia que minha filha sofresse com a minha ausência a crescer ao lado de um “pai marionete, derrotado e sem amor próprio”.  Se eu ficasse, seria esse o meu epitáfio.


CHEGUEI À PENSÃO DA RUA DA PALMEIRA, por volta das 22 horas.
Estávamos na segunda quinzena de janeiro de 1951.
Fui admitido, novamente, na confraria do Pedroza, reencontrando alguns hóspedes amigos que ali deixara não fazia muito tempo. Fui bem recebido, alguns até disseram que sabiam que eu voltaria para lá um dia, sozinho.
Instalei-me em um quarto amplo, que tinha uma janela para a rua. Havia apenas uma cama de solteiro, um guarda-roupa improvisado para pendurar cabides, uma mesinha e uma cadeira. Era tudo o que eu necessitava.
Estava liberto; fracassado, não! Sempre acreditei que um dia a minha penitência terminaria. Restava agora esfriar a cabeça, recomeçar, orientando-me no caminho certo, na direção de um horizonte mais definido. Estava determinado a analisar meus atos, rever meus valores e reconstruir a minha vida, e disso eu mesmo me encarregaria.
No dia seguinte, no Correio, falei com Olívia e Zito, e pedi que intercedessem para que eu retirasse da casa a minha roupa e alguns objetos, principalmente a estante com os livros.  À noite, Olívia me disse que estava tudo liberado. E assim, no dia seguinte, mandei pegar meus pertences e incorporei a estante com os livros aos móveis já existentes no quarto da pensão. Agora, acordando e deitando sem discussões e aborrecimentos, em uma cama de solteiro, senti prazer naquele isolamento e alegria por voltar a ser livre.

carnaval antigo, no Ponto Cem Reis (foto retirada da internet)
A primeira vez que avistei Eliane, por acaso, depois que eu saí, foi no carnaval daquele ano. Ela estava nos braços da mãe. Fiquei emocionado e quase avancei em sua direção, mas me contive para não me reaproximar de D. Mara. Preferi aguardar para vê-la em outro momento.
Dias depois, D. Mara entrou com o pedido de pensão alimentícia, no Juizado de Menores.  O juiz arbitrou 33,33% sobre o meu salário, que era de 1.200 cruzeiros. Pagava 400 cruzeiros pelo quarto na pensão, restando para o meu sustento menos que isso. A esse valor eu deveria somar muitas aulas particulares para poder sobreviver, dali por diante.

De qualquer forma: Vamos à luta!

EU TINHA TRÊS ALUNOS, CONSEGUI MAIS DOIS. Eles garantiriam o reforço salarial e o resto ficaria como Deus quisesse.
Naquele momento, nada era mais importante do que me apropriar do meu próprio mundo. Poder sair e voltar à hora que quisesse. Conversar com as pessoas sem críticas ou vigilância. Experimentava uma sensação que nunca sentira antes. Jovem demais vivi a disciplina e o controle do quartel e de lá saí para a prisão do casamento. Agora, desiludido e machucado, eu conseguia refletir sobre a fragilidade de um homem despencado da sua árvore familiar. Só, levado pelo vento. Mas o vendaval havia passado e disso eu tinha certeza.
Um dia, fui procurado por um amigo que dizia ter visto, afixado na porta do Tribunal, um registro civil com meu nome. Intrigado, fui verificar do que se tratava e constatei que D. Mara teve a preocupação de denunciar a minha primeira certidão de nascimento, já fora de circulação desde quando foi substituída. Nesse último delírio, aquela senhora insinuava a possibilidade de tal documento ser utilizado, irresponsavelmente, em novo casamento. Decididamente, eu não seria capaz de fazer uso fraudulento de um documento que, sequer, instruía a minha vida civil. Foi apenas uma última tentativa para turvar a minha liberdade.


ALGUNS DIAS SE PASSARAM, E EU, mais aliviado, escrevi para meu pai, contando o que me acontecera. Ele havia se mudado para Barra de Guabiraba e já tinha dois filhos com Eulália: Ailton e Hamilton, que eu não conhecia.
Imediatamente, respondeu-me lamentando, e preferiu não fazer comentários, pois, dizia: “Somente você sabe os motivos que o levaram a tomar essa decisão.” Disse, também, que vivia bem com a mulher e os filhos e que possuía um pequeno negócio na cidade.
O tempo passava e, além do trabalho nos Correios, a minha preocupação era apenas com relação aos estudos de idiomas e com as aulas particulares para garantir a sobrevivência.
Depois daquele triste episódio, eu me afastei de Gelda na tentativa de contribuir para apagar o que ocorreu. É obvio que numa cidade pequena, naquela época, um escândalo daquela ordem poderia ganhar proporções inimagináveis e eu, ao afastar-me, afastava-me também do “olho do furacão”.

Eu, Humberto e Plauto formávamos um trio inseparável. Por toda parte éramos vistos juntos. De vez em quando, Eslu, estudante de Direito, em Maceió, incorporava-se ao grupo.  
Forte de Cabedelo, acervo familiar


















Às vezes, aos domingos, dirigíamo-nos ao Porto de Cabedelo para conversar, em inglês, com os americanos que chegavam nos navios. Era divertido e enriquecia nossos conhecimentos sobre a América.
 Certa ocasião, soubemos que haveria um teste para escolher um jovem para trabalhar num escritório de Representação Internacional, em João Pessoa. Eu, Humberto e Plauto nos candidatamos, pensando que Mr. Olms, chefe da representação, nos aprovaria só pelo “papo” com ele, em inglês. Mas, não! Ele nos colocou, um de cada vez, diante de uma máquina de escrever, determinando que criássemos um texto candidatando-nos à vaga existente. E assim, às primeiras linhas que surgiam impressas no papel, ele, depois de rápida análise, dizia:
— Non, non sirve! —  dispensando o coitado sem maiores explicações.
Humberto foi o primeiro, depois Plauto, e eu, o último da fila. Para todos, ele repetiu as mesmas palavras:
— Non, non sirve!
Não sabíamos se ríamos da expressão e do “disco arranhado” do americano ou do ridículo por que passamos. Terminamos aquele dia com várias cervejas, no Cassino da Lagoa, relembrando a fisionomia abobalhada de cada um de nós, à medida que éramos eliminados.
acervo familiar
Outros domingos, pela manhã, pegávamos o bonde no Ponto Cem Réis e íamos tomar banho de mar em Tambaú. Chegávamos em trajes normais, e no “Guarda-Roupas” do Cleuto Leal alugávamos um calção de banho e um escaninho com chave, onde deixávamos nossos pertences. Alugar sungas era uma prática comum para aqueles que não moravam na praia. No fim do dia, devolvíamos o calção, tínhamos direito ao banho de chuveiro e nos vestíamos para retornar à cidade. Eram tempos bem diferentes aqueles. A praia não era um divertimento comum de todos os dias. Só aos domingos.
Minha situação financeira complicou-se mais ainda. Três alunos desistiram das aulas. Comecei a me preocupar. Chegava o fim do ano e eu já não conseguia cobrir as despesas da pensão na data certa. Estava atrasado dois meses. Antes da separação eu havia contraído um pequeno empréstimo na Caixa Econômica, e esse desconto pesava no meu salário.
Gadelha era meu colega de trabalho e grande amigo. Jornalista, inteligente, brincalhão e sempre pronto a ajudar as pessoas. 
Um dia, queixei-me com ele sobre a minha dificuldade financeira e ele me convidou para integrar um grupo de rapazes, seus amigos, que habitavam uma república em Tambaú, cujo aluguel, dividido, ficava suave para cada um no fim do mês.
— Se você quiser, conseguirei uma vaga — disse ele.
No mesmo dia, uma sexta-feira, no final do expediente, fui com ele conhecer o rancho. Antes, passei na pensão, peguei as minhas roupas, avisei que passaria alguns dias na casa de um amigo, na praia, e seguimos de bonde para Tambaú.
O verão havia começado. Encontrei um grupo animado, formado por rapazes solteiros, de famílias conhecidas na cidade. Eu era o único em situação diferente. De qualquer maneira, senti-me à vontade porque todos me conheciam e, talvez por influência de Gadelha, procuraram fazer com que eu me ambientasse o mais depressa possível, já que eu aceitara ser um novo membro da “Casa dos Hatefield’s”.















    
Pela primeira vez, desde que cheguei a João Pessoa, eu percebia as maravilhas de Tambaú, ressaltadas pela intensidade daqueles dias de verão. Suas longas manhãs de sol, suas tardes suaves e suas noites ternas atraíam muitos turistas de cidades do interior. Vi-me, de repente, um privilegiado, morando à beira-mar, com direito a ver e sentir o balançar dos coqueiros e mergulhar nas águas mornas e rasas daquele mar. Pude esquecer a aflição dos últimos anos.
Percebia, com clareza, o quanto de vida eu havia desperdiçado ao ter me encantado com a superficialidade que me fora oferecida, tão precocemente, numa vida conjugal, deixando de vivenciar coisas mais importantes para a construção da minha personalidade e do meu caminho. 
Permaneci todo o verão na comunidade dos “Hatefield’s”. Compunham essa família: jornalistas, artistas, poetas, acadêmicos, engenheiros e “biriteiros”, entre estes eu me incluí. Era uma elite cultural e social sem preconceitos. Nossa comunidade servia também de albergue e recebia a qualquer hora, do dia ou da noite, quem não tivesse paradeiro. De sábado para domingo, os hóspedes-surpresa eram tantos que alguns dormiam do lado de fora, no alpendre.
Parecia um acampamento. Dormíamos em redes, ninguém tinha cama, também não havia armários nem mesas ou cadeiras. Oferecíamos aos hóspedes o chão, uma rede ou uma esteira e um cobertor, a balaustrada para sentar e beber cerveja e mais nenhuma outra cortesia. Havia sempre uma esteira, enrolada no canto, à espera de alguém. Mesmo assim, a “Mansão dos Hatefield’s” era a mais badalada de Tambaú.


















    
Lembro-me que, certa vez, tivemos a honra de hospedar o grande teatrólogo Paschoal Carlos Magno, que se encontrava em João Pessoa para encenar a peça “Écuba”, de Eurípedes, no Teatro Santa Rosa. Isso ficou registrado como um acontecimento histórico vivido na “Mansão dos Hatefield’s”.
As refeições eram feitas no “barraco da Rosa” ou no pequeno Restaurante do Paizinho. A nossa única dificuldade era escolher em qual dos dois nos alimentaríamos, e a decisão dependia das condições financeiras de cada um, no momento.


Adicionar legenda
Aos sábados e domingos, à noite, íamos para o Bar Elite, o maior e mais frequentado da Praia de Tambaú. Sua famosa sopa de cabeça de peixe era o prato preferido. O garçom Júlio, figura conhecida e querida por todos, atendia-nos com “o que é que vai?” Ele tinha como fortes características o sorriso e as frases bem-humoradas com que recebia a freguesia, demonstrando eficiência. O Elite se tornava o point da badalação e ali, quase sempre, estava a família “Hatefield’s”. 
No interior da mansão havia total companheirismo. Jamais ocorreu um desentendimento entre nós. Havia aceitação às divergências de pensamento. Encontros amorosos, esporádicos, sem maiores conseqüências, eram vistos pelos companheiros com discrição. O lema da mansão era: “União, discrição e respeito.”
E, assim, vivíamos, sem atropelos, e eu nunca mais voltei à pensão. Um mês depois, Pedroza mandou avisar-me que havia desocupado o quarto para alugá-lo e os meus objetos foram guardados num porão, aguardando que eu os apanhasse quando saldasse a conta referente aos três meses devidos. Por sorte, alguns livros que eu necessitava para as aulas ficaram na casa de Humberto.
Durante o verão, trabalhávamos na cidade e dormíamos na praia. A viagem de bonde era um passeio tonificante. O percurso durava, aproximadamente, 20 minutos, metade deles recebendo a brisa fresca do mar. Eu experimentava uma tranqüilidade diferente. D. Mara e seus familiares me esqueceram. Nunca fui incomodado por eles.
 Constantemente eu visitava Olívia e Celina. Aproveitava esses momentos para ter notícias de minha filha. Elas diziam que Eliane estava sendo bem cuidada e isso me tranquilizava um pouco. Eu insistia em vê-la, porém minhas palavras não encontravam eco. E assim, por temer reavivar antigos ódios e escândalos, preferia deixar o tempo passar. Errei. Arrependi-me depois. Cedi meus direitos em favor deles, privilegiando-os em detrimento de mim mesmo. Favoreci a crítica e dei a eles o direito de me acusarem de irresponsável. Vi depois, nesse espelho, a minha própria imagem deformada.
Por enquanto, mesmo com o salário lá embaixo, eu correspondia com o grupo da praia. Mas, quando terminasse o período, o grupo ia se desfazer, e eu comecei a ficar preocupado com a responsabilidade do aluguel da casa, já que permaneceria morando nela. Pensei em arranjar outro lugar, mas Gadelha convenceu-me a ficar, dizendo que  ele e mais dois amigos me ajudariam a pagar o aluguel. Aceitei a proposta, e no final de cada mês eu arrecadava a quantia para efetuar o pagamento da “mansão”.
No final de junho de 52, Gelda apareceu, inesperadamente, na praia, para se despedir. Dizia que estava indo para o Rio de Janeiro e, chorosa, afirmava que não sabia o que lhe aconteceria por lá. Sabia que nunca mais nos veríamos. Pelas suas palavras reticentes eu percebia que seus problemas familiares haviam se agravado, porém me abstive de saber detalhes. Procurei não valorizar aquele momento. Escutava-a, apenas. 
O escândalo com D. Mara tinha acontecido havia muito tempo e eu evitava Gelda desde aquele incidente, depois de refletir sobre tudo o que acontecera. Reconhecia que ela teve o azar de ser exposta à vergonha, naquela noite de janeiro de 51, mas sabia também que a mesma coisa aconteceria a qualquer outra mulher que fosse encontrada conversando comigo.
A visita inesperada de Gelda, em Tambaú, deixava evidente que ela estava à procura de um ombro amigo para derramar suas mágoas, porém sua presença me desagradava porque fazia abrir as cortinas do palco onde eu fui o personagem principal de uma tragédia que eu queria esquecer.
Finalmente, despediu-se, talvez decepcionada. Abraçamo-nos cordialmente, virou-se em direção ao ônibus e, sem olhar para trás, partiu.
Naquela mesma semana, eu soube que ela havia viajado para o Rio de Janeiro e nunca mais tive notícias suas. 
Os meses se passavam, vagarosamente, sem novidades.
No verão seguinte, conheci Wilson Veloso. Ele era atleta da natação. Físico bem desenvolvido, adorava desafiar as ondas do mar de Tambaú. Eu o observava e o admirava pela coragem de enfrentar o alto-mar. Aos poucos, comecei a acompanhá-lo nessa ousada aventura mar adentro. Ficávamos uma a duas horas exercitando o esporte e apreciando a costa de Tambaú, à distância. Ao retornarmos à areia, ouvíamos os comentários dos que nos observavam:
— Esses dois um dia serão devorados pelos tubarões!
O prazer que sentíamos e o desafio das braçadas sobre as ondas faziam com que desconsiderássemos esses comentários. Nadar passou a ser a minha diversão favorita nos dias de folga daquele verão.


foto ilustrativa, retirada da internet













Certo dia, quando estávamos distantes da praia, assustei-me ao ver que próximo de nós, alternadamente, descia e emergia a lombada de um grande peixe, de pele escura, e em desespero gritei para Veloso:
— Cuidado! Olha aí, um peixe grande, cuidado!
Veloso, sacudindo do rosto os cabelos molhados, olhou ao redor, desnorteado, até localizar o peixe que, em sinuosa evolução, ia em sua direção. Ele sabia que não tinha como fugir e, sem perda de tempo, aproximou-se o quanto pode e, estando lado a lado com o bicho, desferiu-lhe um firme soco, fazendo-o afastar-se suavemente. Aproveitamos aquele momento e desenvolvemos, nas braçadas, uma velocidade além da nossa capacidade, voltando para a praia. Extenuados, contamos para os amigos o acontecido. Eles riram muito de nós, dizendo que era conversa de pescador. A partir desse dia, passamos a ser mais cautelosos e não nos afastávamos tanto da costa. Até hoje, quando conto essa história, tento dar-lhe veracidade, mas não consigo que uma só pessoa  acredite. 
E assim eu seguia ouvindo e vivendo histórias ingênuas desprovidas de maiores preocupações, descuidando do meu grande sonho que era encontrar uma cidade grande para viver e estudar.
Certa noite, os companheiros foram bebericar na praia, como era costume, e eu preferi ficar sozinho descansando na rede, no interior da “mansão”. De repente, meu olhar foi atraído para a porta da cozinha e vi, de pé, uma jovem clara, magra, de cabelos negros e lisos até os ombros, trajando um longo vestido branco de mangas compridas, com um camafeu colorido fechando a gola, junto ao pescoço. Seu semblante era tranqüilo e me fitava sem nada dizer. Senti um forte calafrio e, tremendo de cima a baixo, pulei da rede em disparada, indo para junto dos amigos contar a cena que eu acabara de presenciar. A palidez do meu rosto e a minha incontrolável gagueira fizeram com que eles também se amedrontassem. Para me acalmar, empurraram-me uma reforçada dose de cachaça.  Depois de algum tempo, retornamos para casa juntos e naquela noite, apesar das “biritas”, ninguém conseguiu dormir tranquilamente.
No dia seguinte, o assunto se espalhou pelas proximidades e “Paizinho”, antigo morador do lugar, recordou que ali, exatamente na área onde fora construída a “mansão”, existiu um cemitério, que foi desativado para dar lugar às construções existentes.
Com o tempo, isso foi esquecido por todos, mas eu, particularmente, passei a ter medo de dormir sozinho, no escuro.
Aliás, outros fantasmas começaram a surgir, fazendo com que eu acordasse para a realidade de uma vida marcada. Até aquele momento, eu pensava que voltara a ser um homem livre, mas, aos poucos, fui percebendo que estava enganado. Com o passar do tempo, via que estava sendo refém dos meus próprios conceitos e que continuava preocupado com o julgamento que os outros poderiam fazer de mim. A preocupação em ser apontado como um indivíduo irresponsável e leviano continuava impedindo-me de viver.
Apesar de conversar com algumas moças de família que frequentavam a praia nos dias de verão, eu evitava estabelecer com elas algum diálogo que pudesse ser interpretado como paquera ou namoro. Fugia de qualquer indagação que revelasse a minha vida e jamais falava dos meus sentimentos. Dessa forma, comecei a perceber que, na verdade, eu era um escravo de minha própria história e dos meus próprios receios. A vida em João Pessoa se tornava um suplício. Convenci-me de que eu deveria retomar o sonho de viver numa cidade verdadeiramente grande, onde eu pudesse me tornar um homem inteiramente livre.
A inquietação voltou a tomar conta de mim.


PRÓXIMO DA CASA DOS “HATEFIELD’S” em Tambaú, havia um grande e conhecido pensionato, administrado por freiras, onde costumavam se hospedar moças e senhoras de outras cidades.
            
Adicionar legenda
No verão aquela casa ficava bastante movimentada. As freiras aproveitavam a grande freqüência de veranistas e realizavam alegres quermesses com o intuito de angariar fundos para seus projetos de caridade. Os moradores da vizinhança recebiam convites especiais e ninguém se abstinha de participar de tão inusitado evento, que ocorria apenas uma vez no ano. Naquele final de verão de 53, nós,  moradores da “mansão”, também recebemos o convite e, já sabendo da alegria que envolvia o acontecimento, comparecemos determinados a chamar a atenção para o nosso grupo.
 Dentre as várias brincadeiras e sorteios, o leilão era o que mais atraía e mantinha a atenção dos convidados. As prendas, de vários valores, eram arrematadas com grande euforia numa disputa acirrada e barulhenta. Cada prenda era encarada como troféu de uma batalha a ser vencida entre os grupos adversários reunidos em torno das mesas. As brincadeiras e gracejos provocantes, por vezes depreciativos, eram considerados  armas de ataque para arrasar os concorrentes, e, na verdade, a vitória existia pelo simples fato de ganhar e não por interesse no prêmio. Quando era batido o martelo, o vencedor exultava e as freiras aplaudiam com alegria por saber que uma nova rodada poderia começar.
 Para o final da festa, aguardado por todos com muita expectativa, ficava reservada uma prenda especial, encerrando assim a quermesse daquele ano. A essa altura, muitas cabeças já estavam quentes e alguns já nem sabiam o que ali faziam.
A freira, mestre-de-cerimônias, ressaltou o grande prêmio, desafiando os grupos que poderiam disputá-lo naquela tarde. Correu um olhar circundante pelas mesas, fixando-se propositalmente em algumas delas e com ar de provocação convidava para o último lance da noite. 

 


A prenda... — anunciou a freira, com voz alta, no silêncio do suspense — será este enorme e cheiroso peru!
Todos olharam para a bandeja que ela trazia nas mãos coberta por um pano branco, de linho. E como se tentasse produzir uma reação de gula no nosso grupo, ela levantou a pequena toalha e pousou o coitado do peru assado bem à frente da nossa mesa. De fato, o cheiro e a aparência daquela pele tostada nos desafiou para que, custasse o que custasse, os moradores da casa dos “Hatefield’s” fossem os vitoriosos daquela preciosidade dourada, que jazia, com as pernas esticadas para cima.
A freira deu início ao leilão em meio a grande gritaria dos presentes, que em coro ritmado e, com vozes  exaltadas, cantavam o bordão:
—  O peru é nosso... o peru  é nosso... e ninguém põe a mão!!
Em meio a tanta euforia, a freira desafiava os outros grupos, insinuando, pelo olhar, que a prenda seria nossa.
Os que ali estavam entenderam o recado da irmã festeira, que mais e mais se animava com a exaltação geral, sem entender que os grupos opositores ao nosso se inflamavam com o visível favoritismo dela. A nossa mesa iniciou o leilão, dando o primeiro lance, que fez esquentar o sangue dos que brigavam pelo peru. Embora elevado, em relação ao valor do prêmio, ninguém desanimou. E os lances se sucediam cada vez mais competitivos, acompanhados do grito ritmado da expressão: “O peru é nosso e ninguém bota a mão”, que já se tornara musiqueta de baderna. A freira percebeu a situação constrangedora em que ficara, mas não podia abandonar o posto naquele momento crucial e disfarçava para não permitir que a sua alegria fosse encarada como cumplicidade daquela euforia maldosa. Cada lance puxava outro ainda mais alto, vibrante e ameaçador.
A casa dos “Hatefield’s” quando se sentia ameaçada cobria qualquer lance, provocando e dificultando ainda mais a finalização da brincadeira. Enquanto isso, a freira, de olhos arregalados, parecia não acreditar que o peru fosse lhe render um valor tão alto. Nem lhe chamavam à atenção as cabeças cheias de cervejas que aos poucos já começavam a desvirtuar o verdadeiro sentido da quermesse.
Finalmente, a euforia desenfreada cedeu lugar à razão e o martelo foi batido com o lance dos “Hatefield’s”.
Houve admiração geral e o peru foi colocado em nossa mesa com aplausos e vaias vindos de todos os lados. 
Fez-se um breve silêncio enquanto os arrematantes se cotizavam. E logo a música ganhou outro tom, cantado apenas pelos seis integrantes da nossa mesa:
— Venham! Venham! O peru é de todos! O peru é de todos!
Depois de sermos aplaudidos e consagrados como vitoriosos, o peru foi estraçalhado e franqueado para quem quisesse, e seus pedaços devorados em poucos minutos, com muitas brincadeiras. As freiras se entreolhavam assustadas, tentando se manter à parte das piadas maliciosas, sem contudo deixar de demonstrar a enorme satisfação pela quantia  arrecadada que correspondia a mais de dez perus.
Para encerrar a tarde de “peruada”, foi ensaiada uma dança de despedida. Cada qual correu para conseguir um par e eu, lerdo e zonzo pelo excesso de cervejas, sobrei, ficando a um canto da parede, sozinho. De repente, vi a saia da freira organizadora passando pela minha frente e, baixando-me um espírito endiabrado, segurei-a pelo braço, implorando que dançasse comigo. A pobre freira repeliu-me,  compreensivamente, alegando sua condição de religiosa. Alguns amigos se movimentaram em minha direção e, em solidariedade à freira, empurraram-me para fora do recinto sem não antes me chamar à atenção pelo meu procedimento, que, de modo algum, condizia com o  conceito dos respeitados moradores da casa dos “Hatefield’s”.
Estava encerrada a quermesse, para mim antes do tempo. Fui levado sem compreender o que acontecera.
No dia seguinte, cabeça inchada, fui procurado pelo Dr. Edwald, amigo da comunidade, que, em tom de censura, referiu-se ao meu procedimento, classificando-o de deplorável e  reprovável, dizendo que em razão do “porre” me comportei de forma desrespeitosa  ao querer dançar com a freira. 
Vi nas palavras do amigo uma terrível decepção! Envergonhado, jurei  a mim mesmo que, a partir daquele dia, não iria embriagar-me nunca mais.  Passei a me policiar sobre a bebida até mesmo nas habituais reuniões na casa dos “Hatefield’s”.


TERMINADO O VERÃO DE 53, continuei na casa, e, de vez em quando, Gadelha, ou alguém do grupo, aparecia. Comecei a cansar e desabafei com Humberto que já não aguentava tanta solidão.
Humberto, ao ouvir-me, disse:
— O quarto de Jader, meu irmão, estará vazio, enquanto ele estiver no Exército. Se você quiser, poderá dormir lá em casa.
— Tudo bem, aceito, mas, por enquanto, vou ficar em sua casa apenas nos dias em que tiver que dar aulas, pois está sendo muito cansativo pegar o bonde de meia noite, para Tambaú.
— Meus pais gostam muito de você — disse Humberto — e ficarão felizes em vê-lo por lá. Vou preveni-los.
E assim, três vezes por semana, eu experimentava o prazer de ser um dos filhos do velho Sobral e de D. Regina.
Quando saía do Correio, diariamente me encontrava com José Humberto. Ele tinha conhecido Carmen no carnaval daquele ano e passaram a namorar. Ela era minha colega na Secretaria de Comunicações da Diretoria dos Correios e ele a esperava a cada final de expediente, no saguão do prédio.
Carmen era uma moça elegante. Comedida nas palavras e nos gestos, encantou Humberto com sua face alva, cabelos loiríssimos caídos sobre os ombros, olhos azuis-esverdeados, brilhantes como pedra lapidada. Era uma linda mulher que, com tranqüilidade angelical, cativava as pessoas que dela se aproximassem. 
 Fomos obrigados a alterar a matemática do grupo de amigos para “menos um”, a fim de que Humberto pudesse viver plenamente os encantos de sua bela Carmen. Era visível a presença do amor no par ilustre, onde quer que os encontrássemos. 
           

NO DIA 18 DE AGOSTO, A DIRETORIA REGIONAL recebeu a visita do sr. diretor geral, Coronel Gerardo Lemos do Amaral Peixoto. Lembro-me que foi uma correria dos diabos. O diretor regional, José Pereira, não sabia o que fazer para agradar ao visitante e escapar de alguma reprimenda. Recomendou aos funcionários para que permanecessem em seus postos de trabalho com a máxima correção. Quando o homem entrasse na seção todos deveriam se levantar em sinal de respeito. Foi um dia de expectativa e nervosismo.
O diretor geral, depois de visitar a Regional, solicitou a elaboração de breve relatório sobre a Diretoria e permaneceu hospedado, por mais algumas horas, no Paraíba Palace Hotel, aguardando o documento. Como a Secretaria de Comunicação, onde eu trabalhava, era o apoio do diretor, eu fui incumbido de levar-lhe a correspondência esperada.

Paraíba Palace Hotel décadas 40/50 (retirada da internet)

No quarto do hotel, fui atendido pelo seu assessor, que pediu que eu aguardasse, pois o diretor geral falava ao telefone. Quando terminou, ele apertou minha mão educadamente e, por gestos, indicou-me uma cadeira, enquanto passava os olhos no documento. Percebi logo, pela maneira educada como me recebeu, que se tratava de um gentleman, e pensei: “Quem sabe não estou diante de quem poderá resolver minha vida? Será que esse homem achará imprudência fazer-lhe um pedido? Será que ele me expulsará deste quarto? Não custa correr o risco...”
O Coronel Gerardo, pensativo, colocou o documento em uma pasta e, dirigindo-me o olhar, indagou:
— Há quanto tempo você trabalha no Correio, rapaz?
— Pouco mais de cinco anos, sr. diretor.
— E o que é que você faz?
— Eu sou copista. Datilografo ofícios e despachos na Secretaria de Comunicação da Diretoria Regional. E fora do Correio, à noite, dou aulas de inglês para complementar o salário.
— Então você fala e escreve em inglês?
— Sim, senhor.
Senti que era o momento certo. Tomei coragem e disse:
— Sei que talvez não seja o momento adequado, mas não posso perder esta oportunidade. A maneira educada como Vossa Senhoria me recebeu deu-me coragem para lhe fazer um pedido.
— Pois não! O que precisa? — disse o diretor.
— Sei também que não estou sendo ético ao me dirigir ao senhor sem antes pedir permissão ao meu superior, mas estou disposto a fazê-lo, ainda que resulte em punição administrativa.
— Qual o pedido? — insistiu o coronel.
— Sempre desejei trabalhar no Correio do Rio de Janeiro, onde certamente terei mais condições de progredir, mas encontro dificuldades para realizar esse sonho. Agora, aqui, honrado com sua atenção, penso que esse desejo poderá tornar-se realidade. Por problemas particulares, não tenho mais condições de continuar vivendo aqui. Se o senhor me conceder uma transferência será uma caridade, e, pode acreditar, eu jamais o esquecerei.
O educado coronel, perguntou-me:
— Você tem algum familiar no Rio?
— Tenho, sim. Tenho um tio, chama-se Manuel Xavier dos Passos e trabalha na Escola Técnica do Exército, na Praia Vermelha, com o General Mello Matos.
— Ah! General Mello Matos? Conheço muito! — disse. E virando-se para o seu secretário, ordenou:
— Dê-me aquele bloco.
Então, o coronel tirou do bolso do paletó uma caneta-tinteiro e começou a redigir um documento. Pediu o meu nome, cargo, matrícula, e, ao terminar, disse:
— Pedido atendido, meu rapaz! Ele será encaminhado ao seu diretor para que ele adote as providências finais.
Agradeci comovido, fazendo enorme esforço para conter as lágrimas. Aquele homem extraordinário acabava de me libertar. Ele mesmo não conhecia a dimensão do seu ato. Abria-se à minha frente a última porta do cárcere. A nova estrada chamava-se: liberdade.
O diretor regional, ao receber o expediente do sr. diretor geral, ficou uma fera, chamou-me ao seu gabinete e, quando entrei, disparou:
— Você abusou da confiança do seu diretor. Tirou proveito pessoal de uma situação oficial! Vou puni-lo!
Despenquei das alturas. Saí do gabinete arrasado. Com medo da punição, fui ao Serviço Médico, simulei uma doença e consegui 30 dias de licença. Até lá, pensava, a transferência deveria realizar-se. Que nada! Após a licença, continuei aguardando o desligamento.
Passaram-se alguns dias sem que o diretor adotasse qualquer providência, não me punia nem me desligava. 
Em conversas com Gadelha, que trabalhava na Seção de Pessoal, este me confidenciou que ouvira o diretor dizer que não ia me desligar, e sim punir, desse no que desse. 
José Pereira fazia uma administração fundamentada na anulação aos seus opositores. Era arrogante, sem nenhum preparo intelectual para o cargo que exercia. Seu andar duro, empinado de orgulho vazio, que mais parecia um senhor de escravos, dava-lhe a imagem da prepotência e da intolerância.
E o tempo corria. Os comentários sobre o meu não-desligamento evidenciavam que o diretor se sentia forte ao enfrentar a Administração Central. Eu via aquilo como uma tentativa de me amedrontar e, um dia, decidi tirar a prova dos noves.
Desci ao térreo, peguei um formulário, e, de próprio punho, ali, redigi um telegrama, urgente, ao diretor geral, lamentando profundamente a atitude atípica do diretor regional dos Correios da Paraíba que, até aquela data, usando uma estratégia pretensiosa, vinha protelando o cumprimento da Portaria que me removia, a pedido, para a Diretoria Regional do Distrito Federal. Disse-lhe, ainda, que havia comentários na repartição de que a referida Portaria não seria cumprida. “Apelo, portanto, para a sua ajuda, sr. diretor geral!” Assinei o telegrama e enviei. Retornei à seção sem fazer qualquer comentário e durante todo o expediente permaneci em alerta. O telegrama não transpirou.
A curiosidade pelo resultado daquela discreta “guerra-de-braço” estava em todos os cantos da diretoria.
No final do dia, minha chefe foi chamada ao gabinete do diretor e, ao retornar, me informou que ele havia determinado o meu desligamento. Todos ficaram sem entender por que ele mudou de ideia, tão repentinamente.
 No dia seguinte, 23/10, fui desligado.
Que alívio!!! Com a viagem marcada para dois dias depois, eu deveria agilizar as despedidas.
Saí eufórico da Seção, despedindo-me de quem ia encontrando pela frente até chegar à rua. Parei naquele mesmo lugar onde um dia cheguei ainda adolescente, carregando um pacote de roupas e, de peito aberto, olhei para o alto, respirei fundo, e agradeci a Deus por estar me libertando.  
O resto da tarde dediquei a encontros rápidos com amigos para me despedir. À noite, fui à casa de Celina e Olívia e pedi ajuda para ver Eliane, no dia seguinte, antes de partir.
No sábado retornei e Celina foi buscar Eliane, mas D. Mara não permitiu. Revoltado, dirigi-me à casa dela. Parei na frente do portão, empurrei-o, mas estava trancado. A casa parecia desabitada. Faltou-me idéia e coragem para tomar qualquer outra atitude. Desisti. Fui embora...
Depois, fui à casa de Humberto. Lamentei com ele o fato de não ter podido, durante esse tempo, retirar os livros que ficaram guardados na pensão do Pedroza, por conta da dívida de três meses de aluguel do quarto. Até aquele dia eu pensava em recuperá-los, mas agora seria impossível. Então, propus a Humberto que saldasse, por mim, aquele débito e ficasse com os livros e a estante, e ele concordou.
Despedi-me de Humberto e de seus pais com lágrimas. E, finalmente, fui à casa de Plauto. Ficaram para trás muitos outros amigos que nunca mais vi.
Já era noite quando retornei para a casa da praia. Arrumei a mala e fiz uma rápida cartinha para Inocência, contando o que estava acontecendo e prometi que, ao chegar ao Rio, escreveria novamente.
Por tudo que passei, partia com a sensação de que nunca mais veria minhas tias.
Meu pai, eu deixei para avisar quando já estivesse no Rio.
Naquela noite não dormi. Todos os meus fantasmas vieram se despedir de mim, e eu os enfrentei sem temor. 
O dia parecia não querer chegar. Saí para me despedir do mar que, durante aqueles últimos tempos, tinha sido o meu confidente mais fiel. Eu me acostumara com seus sábios conselhos soprados aos meus ouvidos.


(foto  retirada da internet)









Contemplei-o silenciosamente. Vi, naquele momento, repetir-se a visão que eu tivera ao vê-lo pela primeira vez;  quando, matuto, recém-chegado do sertão, não conhecia o mar, nem o cheiro da maresia, nem o marulho insistente. Foi uma emoção alegre misturada ao medo diante daquela imensidão que espantava os meus olhos. Aquele quadro de verão de 1941 permanecia pintado, com cores vivas, na minha memória.
Até então, eu achava que o mar fosse semelhante a um enorme açude, e que suas ondas tivessem o mesmo movimento das correntezas caudalosas do rio da Cruz em época de cheia, mas, quando o vi de perto, percebi que ele tinha uma beleza incomparável e uma grandeza imensurável.
Agora, ouvindo o seu último murmúrio, eu estava ali para agradecer os momentos que vivemos em completa intimidade e, num gesto de despedida, mergulhei em suas águas pensando ser o nosso último abraço.
Era hora de partir. Voltei para casa, vesti a minha melhor roupa, coloquei a passagem da Panair do Brasil no bolso do paletó e, carregando uma mala com roupas e pequenos objetos, chamei um carro de praça e parti rumo ao aeroporto.
  No caminho, pensei no meu avô e tomei consciência de que me afastava ainda mais do meu ponto de partida. Uma lágrima inesperada rolou pela minha face e lembrei que um dia parti deixando-o num choro triste e, agora, sozinho, precisava enxugar o meu próprio pranto. 


E assim, no domingo, dia 25, entrei pela primeira vez em um avião. À primeira vista, aquilo me parecia um monstro. Um suor frio corria em minha face. Sentei-me junto à janela e quando o avião decolou tive a sensação de estar sendo alçado aos céus. 


João Pessoa, vista aérea retirada da internet

Dali, contemplei uma paisagem inusitada, de uma João Pessoa que antes me parecia tão grande, mas, das alturas, e por tudo que vivi, a visão que me oferecia agora era de uma cidade muito pequena...

ADEUS, João Pessoa!
E, desta vez, eu não olhei para ver a porteira fechar-se atrás de mim.
O comandante começou a avisar que estávamos passando sobre essa ou aquela cidade e o caipira aqui, encolhido, olhava para baixo amedrontado com a altura e comentava consigo mesmo: “Meu Deus, já pensou se isso despenca lá embaixo?”
O avião seguiu rompendo as nuvens e, de vez em quando, caía num vácuo. Eu me apavorava. Refeito dos vários sustos causados pelas turbulências do voo, eu sentia um bem-estar muito forte, imaginando-me transportado pelas asas da própria liberdade.
Acordei com a voz do comandante:
— Dentro de instantes, estaremos descendo no Aeroporto Santos Dumont.
  
BEM-VINDOS ao Rio de Janeiro!




FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO





                          










                                      

Um comentário:

  1. Quantas lutas travadas para encontrar a felicidade! Esse capitulo dessa história retrata que o amanhã é escuro e que se devem estar preparados para as consequências. As decepções muitas vezes tentam frustar os anseios, mas que não se devem deixar se envolver nas decepções e pensar positivo. Também mostra que a superioridade, austeridade e dificuldade, esse tripé já vem de séculos e que perduram até a nossa atualidade. Finalmente , apesar de todos os tropeços da vida, Chiquinho começa uma nova etapa de sua vida, deixando para trás um passado sofrido e em algumas vezes feliz que com certeza servirá de lição para valorizar cada vez mais a vida.

    ResponderExcluir