ANA, JÁ FORMADA PELA ESCOLA de Belas Artes, lecionava Educação Artística na escola municipal. O salário nunca chegou ao ideal, como em todo magistério público, mas ela, agora, com mais confiança em si mesma, sentia-se motivada para arriscar-se em novos caminhos.
Claudinha havia ingressado no Colégio Pedro II e, certo dia, chegou com a notícia de que haveria concurso para professores desse tradicional educandário. Eu conhecia a importância histórica do colégio: fundado pelo Imperador, destaca-se por possuir uma equipe docente de reconhecido valor e é, até hoje, exaltado por inúmeros ex-alunos, muitos dos quais, figuras ilustres na vida nacional.
Por trás do sorriso pálido de Ana, percebi um pedido de apoio e incentivo. Chegava a sua vez. Depois de tanta luta, as portas da realização pessoal pareciam abrir-se e eu antevia o seu sucesso. Ela, apesar da formação superior e da grande experiência adquirida no magistério, sentia-se insegura quanto às chances de aprovação, sobretudo por ter que competir com alguns “cobras”. Seria seu primeiro concurso público. Eu insistia para que ela aceitasse o desafio e, um dia, lhe disse:
— Por que não enfrentar? Você tem valor, vá em frente. Se estiver preparada, ninguém lhe tirará a vez. A auto-seleção é determinante nesses momentos; se o indivíduo se exclui, perde a noção da sua capacidade.
A partir desse dia, Ana se mostrou mais motivada, animada, satisfeita consigo mesma. Estudou regularmente durante um mês. Foi incansável.
Finalmente sentiu-se capaz.
Em fevereiro de 81 ela prestou concurso e foi aprovada. O sonho se tornou realidade e, em agosto, Ana passou a fazer parte da história do Colégio Pedro II. Sua nomeação prenunciava outras vitórias. Sua estrela começava a brilhar.


Ela, agora, acumulava o magistério municipal e federal, além da fotografia.
No Pedro II, o tratamento dispensado ao professor em nada se assemelhava ao que ela observava na escola municipal. A consideração pelo docente era evidenciada, dia-a-dia, nas atitudes de respeito e reconhecimento, que Ana custou a absorver. A relação de companheirismo entre os funcionários demonstrava afinidade de objetivos. Os alunos orgulhavam-se de seus mestres e orientadores. Essas diferenças fizeram com que Ana percebesse o seu próprio valor. E eu, mais uma vez, aplaudia de pé o seu progresso.
O salário de Ana dobrou, e um antigo sonho poderia ser realizado: a compra de um carro que nos permitiria conhecer lugares novos e levar nossos filhos, de férias, para fora do Rio. Além disso, facilitaria o deslocamento de Ana nas suas atividades.
Procuramos nos classificados do jornal e, pela segunda vez, cometemos um grande erro. Tomados pela ansiedade, nos precipitamos e compramos um Chevette preto, ano 74, por CR$ 80,00.
Ao sair da loja, Ana, de carteira nova, arranhou toda a lateral do pobre Chevette no portão do estacionamento. Alguns dias depois, o carango pifou e o colocamos numa oficina, para conserto. Acabamos gastando mais CR$ 200,00, porque não acreditávamos que “o barato sai caro”. De qualquer forma, ele serviu para que aproveitássemos bons momentos.
Lembro quando, em janeiro de 82, aconselhados por uma amiga de Ana, nos associamos ao Camping Clube do Brasil e fomos acampar na Região dos Lagos. O cansado Chevette saiu do Riachuelo com tralha por todos os espaços. Sobre a capota, além de uma barraca enorme, levava cadeiras de praia e pranchas de surf; na mala, bancos, panelas, colchões, roupas, fogareiro, bujão de gás, etc., etc., e tudo necessário para cinco pessoas passarem 30 dias perto do mar maravilhoso de Cabo Frio. Dentro do carro, ao volante, Ana, de óculos escuros, eu, de boné branco, no carona, e, no banco de trás, em meio a travesseiros, cobertas, pacotes de biscoito e outros trecos, os nossos três filhos, pulando e cantando ao som do rádio rouco do velho Chevette. Não preciso nem dizer que essa primeira tentativa não se concretizou.
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| Ponte Rio Niteroi |
No meio da Ponte Rio-Niterói, fomos obrigados a parar assustados pelas buzinas e sinais de polegar para baixo, feitos pelos motoristas que nos ultrapassavam, advertindo de que algo errado acontecia na traseira do Chevette. Só então percebemos que o carro deixava muita fumaça pelo caminho. Paramos e, depois, seguimos em marcha lenta até Niterói, onde um mecânico nos aconselhou a voltar para casa, reduzir o peso pela metade e colocar nova suspensão.
Atendidas as exigências, retomamos a estrada dois dias depois e acabamos aproveitando as primeiras férias em Cabo Frio, que se tornaria o nosso refúgio de muitos verões e cenário de inúmeras emoções vividas a partir daquele ano.
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| Cabo Frio 1985. Praia das Dunas. |
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| Ana e Vó Fernanda, no campig |
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| Do alto da Igrejnha, ao fundo vista do canal de cabo Frio |
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| O Canal visto do alto da Igrejinha, 1985 |
EM 1982, ANA CONSEGUIU TRANSFERIR Marcos e Alan para o Colégio Pedro II.
Assim, estariam os três estudando juntos e bem encaminhados. Quando estava na 1a série do 2o Grau, Marcos quis estudar na Escola Técnica, e para lá foi transferido. Alan passava por momentos difíceis na sua adolescência e não acompanhou o ritmo do colégio, sendo desligado na 1a série. Passou a estudar no Instituto Guanabara, na Tijuca. Claudinha concluiu o ensino médio no CPII e ingressou na PUC, onde se formou em psicologia.
Assim, estariam os três estudando juntos e bem encaminhados. Quando estava na 1a série do 2o Grau, Marcos quis estudar na Escola Técnica, e para lá foi transferido. Alan passava por momentos difíceis na sua adolescência e não acompanhou o ritmo do colégio, sendo desligado na 1a série. Passou a estudar no Instituto Guanabara, na Tijuca. Claudinha concluiu o ensino médio no CPII e ingressou na PUC, onde se formou em psicologia.
Durante o período em que foram alunos do CPII, eles participaram de várias atividades culturais oferecidas pelo Colégio e foi quando vivemos, todos juntos, grandes momentos.
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| Marcos, a direita. |
Por dois anos seguidos, Claudinha participou das coreografias para recepcionar Papai Noel, no Maracanã. A Rede Globo patrocinava esse grande evento e Diana Magalhães, coreógrafa e professora do colégio, ensaiava o grupo durante vários domingos que antecediam a festa. Eram exibições maravilhosas, dotadas de um perfeccionismo que deixava o público boquiaberto pela beleza do espetáculo e pelo grande número de participantes.
O Festival de Música, organizado pelo Prof. Abelardo Magalhães, destacava-se pelo entusiasmo que despertava na comunidade estudantil e em seus familiares. Nossos filhos participaram por dois anos consecutivos. Marcos compunha as músicas e tocava guitarra, Alan era o baterista e Claudinha a vocalista. Outros amigos completavam a banda. Era maravilhoso vê-los sacudindo o auditório lotado. A adrenalina subia aos píncaros. Nós nos envolvíamos, torcendo e aplaudindo, como se tivéssemos a idade deles. As músicas “Dependência” e “Sonho”, compostas por Marcos, foram vencedoras.
Foi um período de muita agitação. O quarto dos meninos foi transformado em estúdio. O barulho das guitarras, do baixo, e das viradas da bateria durante os ensaios era ensurdecedor e tornava o nosso apartamento o mais agitado do bairro. Apesar de tudo, nenhum vizinho reclamava, e até elogiavam “o som das músicas dos meninos”.
Sentíamo-nos orgulhosos. Víamos os três, juntos, envolvidos nos mesmos sonhos.
EM 1981, RUY DE ASSIS deixou a diretoria dos Correios da Paraíba e pediu aposentadoria. Logo depois, foi recontratado e designado coordenador do Postalis, o recém-criado Instituto de Seguridade da ECT, sediado no Rio de Janeiro, para onde se mudou com a família.Trabalhando no mesmo prédio, eu e Ruy almoçávamos sempre juntos. Eu aproveitava esses encontros diários para rir de seu jeito empolgado de falar e de seu sotaque nordestino “arretado”. Depois de algum tempo, Ruy passou a reclamar da vida no Rio, do apartamento, do trânsito, da insegurança, enfim preocupava-o criar os quatro filhos adolescentes nesta grande cidade. Referia-se a João Pessoa como a cidade ideal, esquecendo-se que um dia, assim como eu, foi atraído pelos encantos da grande-cidade-grande. Quando se mostrava apavorado, principalmente com os assaltos que eram noticiados na imprensa, eu lhe dizia que não havia motivos para tantos temores. Nossos filhos se identificaram com os de Ruy e passaram a ter uma convivência íntima, o que produziu bons momentos e uma sólida amizade entre as duas famílias. A essa confraria se incorporou Roseli, minha colega no Correio, seu esposo, Hamilton, e sua filha, Anik.
Tempos depois, os maus presságios de Ruy se confirmaram. Ele foi assaltado na subida de Santa Teresa, onde morava sua cunhada. Passou momentos difíceis nas mãos dos bandidos, ficando sem dinheiro, jóias e documentos. O pânico tomou conta da família, incentivando-os ao retorno à Paraíba.
Por essa época, Wilson Braga, candidato ao Governo da Paraíba, convidou-o para trabalhar em sua campanha, prometendo-lhe um cargo, se fosse eleito. Para Ruy parecia haver chegado a oportunidade que garantiria a volta da família a sua terra natal. Uma felicidade natural de repente o invadiu. Não se falava em outra coisa. Em meio aos gritos de comemoração e planos de uma nova vida, fomos convidados a passar o carnaval em João Pessoa. Aceitamos, claro. Além do prazer que esse convite nos causava, era mais uma oportunidade de eu me aproximar de minha filha.
A decisão da mudança foi rápida, e nossos amigos partiram em janeiro de 1983.
Em 5 de fevereiro, eu, Ana, as crianças e nossa sobrinha Helena viajamos de ônibus para João Pessoa. Na residência do casal já se encontravam: a família de Roseli, o namorado de Cristina, filha de Ruy, e seus dois irmãos, todos do Rio. Somando-se à família de Ruy, contavam-se 20 pessoas.
A partir daí, a casa de Ruy virou uma enorme confusão. Eles não deixavam transparecer que tanta gente junta poderia causar algum transtorno e faziam o possível para que todos se divertissem no meio daquela barafunda. Havia gente acomodada de todo jeito, brigando por um cantinho mais acolhedor. A utilização do banheiro pela manhã era outra grande disputa. Na hora da refeição também — os que não conseguiam lugar à mesa se espalhavam pelos cantos com o prato na palma da mão.
Como a casa ficasse um pouco distante do mar, quando íamos para a praia, formava-se uma grande romaria, caminhando a pé pela avenida. Ao meio dia, a caravana se desmanchava em grupos e retornava para outra grande batalha: o chuveiro.
Na cozinha, Natércia, a empregada fiel, com bom humor, já havia preparado a refeição para saciar a voracidade daquele batalhão. Era um salve-se quem puder, nessa hora.
A casa de Ruy mantinha a mesma alegria que conhecemos no Rio. O casal foi sempre acolhedor. Ele gostava de viver cercado de amigos, tomar seus tragos, falar de sua vida artística interrompida, cantar suas canções. Nesse clima de cordialidade, de trocas de boas energias e com seu jeito matuto-político, Ruy sempre se mostrou um autêntico anfitrião.
Sua casa, apesar de superlotada, recebia muitos amigos.
Aproximava-se o carnaval. Desde o Rio planejamos noites divertidas no Clube Cabo Branco. As mulheres, as moças e os rapazes elaboraram fantasias para as folias de Momo.
No sábado de carnaval, a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, com seus estridentes trompetes, sacudia o salão, onde os foliões se misturavam em extenuante loucura.
As mulheres do “ciclo do Rio“ estavam encantadoras. Suas fantasias se destacavam.
Nos últimos dias de nossas férias, marcamos uma visita a Pitimbu, uma bela praia nativa, entre João Pessoa e Recife, habitada por pescadores que vivem da pesca da lagosta e do camarão. Ali, exuberantes e altivas, destacam-se as famosas falésias, de areias coloridas, como um monumento em homenagem ao mar.
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| As areias de Pitimbu |
O mar de Pitimbu, naquela manhã, era de um verde translúcido impressionante, e a areia da praia, alva e pura. Nesse recanto deslumbrante, passamos o dia mais delicioso de nossa viagem. Em meio a redes de pesca, água-de-coco e peixe na brasa, acompanhado de muita cerveja e algazarra, ficamos, à beira-mar, sentados na areia ou em bancos toscos de madeira, protegidos do sol por uma enorme palhoça.
E, assim, o “grupo do Rio” despedia-se, em grande estilo, das férias e dos seus anfitriões.
Eliane morava e trabalhava no interior e nessa viagem estivemos juntos algumas vezes. Eu percebia que o nosso relacionamento amadurecia com o passar do tempo. A maneira carinhosa como ela me olhava, as palavras emocionadas que pronunciava e o cuidado que tinha comigo revelavam a sua nova maneira de pensar a meu respeito. A imagem que tentaram cristalizar em sua mente, aos poucos, ia se apagando. E a tristeza da minha ausência ia dando lugar à esperança de me conhecer melhor e de participar mais intimamente de nossa vida.
EMBORA A FOTOGRAFIA nos tenha proporcionado alguma autonomia financeira, Ana sentia que a sua carreira docente estava sendo prejudicada. Os estudos para ministrar suas aulas e os cursos que era obrigada a fazer para se aperfeiçoar levaram-na de volta à faculdade para uma pós-graduação, exigindo sua dedicação exclusiva ao magistério.
Mas como abrir mão daquela renda extra da fotografia, da qual já dependíamos?
Em 1986, noticiou-se um concurso para professor assistente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Ana decidiu inscrever-se, mesmo sabendo que seria uma disputa acirrada por apenas duas vagas na cadeira de Desenho Geométrico. Pertencer aos quadros da Uerj, universidade prestigiada nos meios acadêmicos, sempre foi motivo de orgulho para qualquer professor. Novamente, Ana se submeteu a provas escritas, de aula e de títulos. E foi aprovada. Assim, em março daquele ano, ela assumiu o cargo de professora do Colégio de Aplicação da Uerj, e a fotografia passou a ser apenas uma atividade prazerosa, no âmbito familiar.
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| Antigo prédio do Colégio de Aplicação da UERJ, na subida para o morro do Turano. |
NOSSA VIDA PROSSEGUIA E PROGREDIA sem grandes preocupações.
Em janeiro de 91, saímos do Rio para a nossa sexta visita a João Pessoa. Desta vez viajamos de carro, acompanhados por Alan e Claudinha, que desejavam conhecer o carnaval de Olinda.
Foram quatro dias de viagem, parando apenas, à noite, para dormir.
Convidados por Ramalho e Geralda, que haviam retornado para João Pessoa, tivemos a oportunidade, durante alguns dias, de viver momentos de grande felicidade, ao rever amigos da velha-guarda, e de grandes tristezas, ao saber que outros já haviam partido.
Nossos anfitriões não pouparam esforços para que nos sentíssemos em casa.
No final da semana, Eliane e Chagas chegaram para nos ver. Ela residia no interior com Flávio, seu filho caçula, e Chagas, na capital, com os dois mais velhos, Eliana e Junior. Convidaram-nos para jantar e, logo depois, nos levaram para conhecer a sua residência. Pela primeira vez eu estava conhecendo, na intimidade familiar, a minha filha. E revivendo sentimentos tão antagônicos: culpa e alívio.
No final da semana, Eliane e Chagas chegaram para nos ver. Ela residia no interior com Flávio, seu filho caçula, e Chagas, na capital, com os dois mais velhos, Eliana e Junior. Convidaram-nos para jantar e, logo depois, nos levaram para conhecer a sua residência. Pela primeira vez eu estava conhecendo, na intimidade familiar, a minha filha. E revivendo sentimentos tão antagônicos: culpa e alívio.
No domingo, pela manhã, fomos todos à Praia do Poço, onde, em meio a muitas histórias e confidências, marcamos para o mês de março um novo encontro, desta vez no Rio de Janeiro.
Dias depois, nos despedimos dos amigos e de João Pessoa. Alan e Claudinha permaneceram na casa de Ramalho para brincar o carnaval de Olinda, na companhia de Andréa e Eduardo. Agora, regressávamos sozinhos. Ana teria que dirigir durante toda a viagem de volta e, por isso, planejamos seguir com mais calma, parando em alguns lugares que desejávamos conhecer. Assim, fazíamos uma outra lua-de-mel.
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| Ruy de Assis, sua esposa Lilian e o netinho |
Ao passarmos por Recife, dormimos na casa do nosso amigo Ruy de Assis. Foi um reencontro muito agradável.
Ruy encontrava-se em Recife, na função de diretor regional dos Correios, e se sentia realizado. A promessa de Wilson Braga não se concretizou.
Pela manhã, partimos com destino a Maceió, nossa segunda parada no roteiro que traçamos para a volta. Lá, fizemos o famoso passeio das jangadas, de Pajuçara, um dos mais lindos de nossa vida, que muitos anos mais tarde repetiríamos, acompanhados de nossas netas Catarina e Júlia.
Na manhã seguinte, partimos levando uma grande vontade de voltar, sem saber que, alguns anos depois, Alan se instalaria nessa cidade ao lado de Amanda, e lá nasceria o nosso neto Davi, possibilitando-nos retornar outras vezes e conhecer melhor as belezas da região.
Próxima parada: Salvador.
Ao entrar na cidade, ficamos meio atordoados com o seu trânsito complicado. Além disso, a Bahia comemorava o Dia de Iemanjá, 2 de fevereiro. Uma massa humana, trajando roupas do candomblé, surgia de todos os cantos, espalhando-se por onde passávamos, impedindo-nos de prosseguir. Tivemos que aguardar durante algum tempo até que ela se dissolvesse. O alvoroço era grande. Estávamos em terra estranha e nos assustamos com tamanha movimentação e euforia.
Ficamos hospedados em um hotel de frente para o mar, na Praia de Ondina. Conhecemos pouco de Salvador, e nos assustamos com as muitas recomendações das pessoas do local. Em todos os lugares os avisos se repetiam e nos desencantavam: “Não conduzam câmeras fotográficas”, “não usem jóias nem objetos de valor”. Assim, não aproveitamos, como esperávamos, as belezas de Salvador.
Anos depois pudemos, de fato, conhecer e amar a cidade, conduzidos por Andréa, filha de Geralda, que, ainda hoje, ali reside e trabalha.
Na manhã do dia 5, continuamos a viagem e à tarde chegamos em Porto Seguro.
Senti forte emoção ao pisar o solo de Santa Cruz de Cabrália, início da história do nosso povo. Marcas desse passado histórico ainda são notadas por todos os cantos. Coroa Vermelha, local da primeira missa, e seus índios, foram imagens que me transportaram para o tempo do descobrimento.
Porto Seguro, com suas noites bem planejadas para agradar aos visitantes, Arraial d’Ajuda e Trancoso são lugares que nos convidam a voltar, sempre.
No dia seguinte, dormimos em São Mateus/ES e, pela manhã, retomamos a estrada.
Depois do almoço, Ana sentiu-se indisposta, com dor de cabeça. Comecei a me preocupar, seu rosto empalidecia. Por toda a parte, só estrada e mato. Nenhuma cidade nem vilarejo, nenhuma casa nem casebre, e, de repente, nosso carro começou a trepidar, obrigando-nos a parar.
— E agora? Você está passando mal e o carro com problemas. O que vamos fazer? — perguntei aflito.
Paramos logo depois de uma curva e verificamos que havia um pneu traseiro furado.
A pouca distância, parada no acostamento, vimos uma carreta. Pareceu-nos que fora colocada ali, no instante em que rodeávamos o carro. Seu motorista também trocava um pneu, alheio a nossa presença. Tirei o macaco do porta-malas e, quando o acionei, não funcionou. Estava emperrado.
— Mais esta, agora! — desabafei jogando a ferramenta no asfalto.
O motorista percebeu a minha contrariedade e aproximou-se, oferecendo ajuda. Ficamos aliviados. Enquanto ele, com habilidade, levantava o nosso carro, Ana comentou que não estava se sentindo bem, e o solícito motorista, apontando para a frente, disse:
— Senhora, logo depois daquela curva, à direita, existe uma tendinha no meio do mato, onde um borracheiro poderá consertar o pneu e a senhora deve aproveitar para beber água-de-coco. Vai ficar boa, tenho certeza!
Parecia que ele sabia o mal que a afligia.
Enquanto ele terminava de colocar o estepe e apertar os parafusos, eu me detive nas palavras do pára-choque da sua carreta: “Eu ando com Deus”.
Agradeci e partimos.
Chegando à tendinha, um rapazola nos atendeu dizendo que o borracheiro tinha ido à cidade mas não devia demorar. Era um barraco no meio do mato, à sombra de uma grande e solitária árvore. Para beber: água-de-coco, e mais nada. Depois de furar o coco, o rapazola voltou para o banquinho de madeira, e continuou rabiscando a terra com um graveto, esquecendo o tempo que passava lento. Um cachorro preto, estirado ao sol, alternava vigília e preguiça, batendo o rabo para espantar os mosquitos. Eu andava de um lado para o outro, observando Ana, que terminara de ingerir a medicação prescrita pelo companheiro de estrada. Depois, ela deitou-se no banco traseiro. De repente, levantou-se, correu para detrás da palhoça e vomitou muito. Precisei ampará-la, suas pernas não aguentavam o corpo. Trôpega, retornou para o carro e dormiu por duas horas exatas. Nem percebeu quando o borracheiro chegou, consertou e trocou o pneu. Ao acordar, estava completamente recuperada. A palidez de sua face já não existia, e disse:
— Podemos prosseguir!
Saí dali convencido de que uma entidade veio nos prestar socorro.
Ana esteve em perigo.
Finalmente, alcançamos Vitória.
No final da manhã seguinte, cruzamos a bandeirada de chegada, na Ponte Rio-Niterói.
NESSA ÚLTIMA VEZ QUE ESTIVEMOS em João Pessoa, Eliane nos preveniu de que, em março, faria a sua primeira viagem ao Rio de Janeiro. Estaria participando de um seminário, em Petrópolis, promovido pela Pastoral da Terra, congregando comunidades eclesiásticas de todo o país.
E, lá, ficou durante seis dias. Encerrado o evento, ficou mais sete dias em nossa casa, tempo suficiente para conhecer as belezas da Cidade Maravilhosa e formar uma ideia definitiva a nosso respeito. Tudo foi feito para que ela se sentisse à vontade e levasse consigo, para João Pessoa, uma imagem exata de sua nova família.
Ana fê-la sentir-se parte da família, e ela pôde perceber o respeito que temos um com o outro, a segurança que transmitimos aos nossos filhos. Eliane talvez não esperasse encontrar-nos tão receptivos e felizes, a despeito de todas as injúrias de que fui alvo, produto da maledicência de sua mãe.
Foram sete dias de boas impressões, recíprocas, ao final dos quais todas as queixas e acusações foram abandonadas definitivamente para dar lugar a um novo tempo em nossas relações. Isso eu sentia nos seus olhos espertos, nas suas palavras soltas, na sua atenção desdobrada com Ana e nossos filhos.
Em verdadeira maratona, levamos Eliane a todos os recantos interessantes da cidade. Também seus irmãos demonstraram-lhe excepcional compreensão, acompanhando-a a teatros e shows, numa evidente prova de integração familiar.
Seus dias em nosso convívio foram proveitosos sob todos os aspectos: levou consigo as melhores imagens do Rio e de cada um de nós. Senti-la tão perto de mim, na minha casa, era meu propósito, há muito tempo.
Por tudo que ela viu, sentiu e recebeu, de forma tão carinhosa e sadia, acreditei ter aliviado, senão todas, boa parte, das dores e amarguras causadas pela minha ausência durante tantos anos. Tive certeza de que, daquele momento em diante, todas as mágoas e dúvidas se apagaram de sua mente.
E assim, em muitas outras ocasiões, Eliane, na sua missão junto à Igreja, voltou a se hospedar em nossa casa. Às vezes se fazendo acompanhar de algum sacerdote, outras vezes de amigas missionárias, como ela.
Certo dia, ela chegou acompanhada por Frei Zezinho, do Convento de São Francisco, de João Pessoa.
Certo dia, ela chegou acompanhada por Frei Zezinho, do Convento de São Francisco, de João Pessoa.
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| Nunes, Ana, Catarina, Mayã, Frei Zézinho e Eliane |

Jovem ainda, simpático, muito falante, ele se hospedou em nossa casa por dois dias. Comentei com ele que, quando morei em João Pessoa, conheci Frei Bevenuto, do mesmo convento, de quem recebi algumas aulas de alemão. Frei Zezinho ficou admirado por eu ter conhecido aquele sacerdote tão conceituado no meio religioso.
— Foi ele — falei — quem despertou em mim o interesse pela língua alemã. Graças às noções que recebi nas poucas aulas que tive com ele, pude, anos depois, comunicar-me nesse idioma quando trabalhei no Livro Técnico, cuja diretoria era composta por alemães.
Nas muitas vezes que Eliane esteve em nossa casa, percebi que ela se entregava à religião católica, não como uma carola à moda antiga, mas como uma cidadã liberta de tabus e crente em movimentos sociais capazes de restaurar a dignidade dos mais necessitados. Tinha a “cabeça aberta” e trabalhava para e com a Igreja numa linha de pensamentos que não permitia que se tolhesse o princípio da liberdade de expressão dos indivíduos.
Numa dessas ocasiões, quando falávamos sobre filhos e família, em dado momento, referi-me a sua carta, quando tinha 10 anos, na qual afirmava ter vergonha de carregar o nome Nunes, e ela, sem querer mexer nessa ferida, ponderou:
— Esquece!
Em outro momento, falei-lhe que estava escrevendo a minha história, e um dia ela a conheceria. Por duas vezes, Eliane insistiu em ler o esboço que eu havia iniciado, mas eu hesitava e lhe pedia que desse tempo ao tempo, pois não havia concluído a parte que lhe interessava. Hoje eu sei que me faltava viver um pouco mais para saber contar o que ela queria ouvir.
Agora, muitos outros momentos de convivência com Eliane se embolam nas minhas lembranças, quero contá-los minuciosamente, mas não consigo. Não encontro palavras. São sentimentos sofridos, vividos.
Porém, lembro bem o dia em que, encostados à janela de nossa sala, conversando sobre as nossas vidas, ela se pôs pensativa por alguns instantes e, buscando na mente algum fiapo de lembrança, murmurou as seguintes palavras:
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| Um Natal em nossa companhia |
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| Um passeio em Natal |
Porém, lembro bem o dia em que, encostados à janela de nossa sala, conversando sobre as nossas vidas, ela se pôs pensativa por alguns instantes e, buscando na mente algum fiapo de lembrança, murmurou as seguintes palavras:
— Você tinha razão...
Pensei em pedir-lhe que se explicasse, mas respeitei a sua reticência, a sua vontade em não ser tão transparente como eu gostaria que fosse, naquele momento. De qualquer forma, como numa transmissão telepática, ela me informava que, hoje, entendia bem as angústias que eu vivi naquele tempo em que me senti obrigado a partir para bem longe.
Semanalmente nos falávamos, por telefone. Ana e Eliane tornaram-se amigas e trocavam confidências.
Finalmente, conquistei a confiança e o carinho de minha filha, que um dia pensei jamais conseguir.
Fim do 5o. capitulo




















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