PASSARAM-SE MUITOS ANOS DESDE a
última história
contada, e é claro que a vida seguiu seu curso.
Hoje, eu e Ana vivemos aposentados e felizes na
cidade de Cabo Frio, lugar que escolhemos para ser o “nosso paraíso”. Suas águas cristalinas e a tranqüilidade
que aqui existe muito nos fazem lembrar a Ilha de quando nos conhecemos. E
sinto que estamos voltando ao início. Sinto que estamos reinventando o nosso amor.
Ana está
aposentada pela Uerj e pelo Colégio Pedro II,
onde terminou a sua carreira docente como diretora
de uma de suas unidades. Colhe os frutos de sua
dedicação ao magistério, recordando os muitos momentos que se doou, com paixão,
aos seus alunos, hoje espalhados mundo afora.
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| desfile de Sete de setembro na Quinta da Boa Vista |
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| Cerimônia de incorporação de novos alunos. março de 2002 |
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| Formatura da 8a. série e despedida de Ana, em dezembro de 2004 |
É evidente que sentimos cansaço, mas entendemos que ele foi nosso companheiro de jornada e nos fez caminhar, ao invés de desanimar. A certeza de que viver essa vida valeu a pena nos dá coragem para prosseguir. Sim, porque a história não termina aqui. Ela é, e será, sempre inacabada e se perpetuará na vida daqueles que cruzaram nossos caminhos e assimilaram um pouco de nós.
Vejo agora que
esta parada feliz que a vida me proporciona faz
com que eu volte a olhar o caminho já percorrido para buscar algumas
justificativas, apesar da fadiga.
Percebo que o
ideal seria se eu tivesse feito outras paradas para recompor o corpo e o
espírito. Sinto que faltam pequenos pedaços de mim mesmo, dilacerados por
sofrimentos ou esquecidos nos momentos de solidão. Mas ainda tenho energia e, se tenho, vou
usá-la. Então me debruço, disposto a responder às interrogações que só agora afloram e me inquietam.
E, imbuído
desse espírito questionador, perguntei-me em que ponto da estrada ficaram meus
irmãos Airton e Hamilton. Por que meu pai se
calou depois de sua última carta em 1958, quando falava de meus irmãos? Por que
eu simplesmente ignorei o seu silêncio?
Passei alguns
dias com esses pensamentos, até que encontrei a foto amarelada de Eulália com
seus dois filhos, ainda crianças. No verso estava escrito: “Lembrança de seus irmãos Airton e Hamilton.
Guabiraba, dezembro de 1953.” Tentei
imaginá-los hoje. Não consegui. Lembro que Eliane, um dia, contou que meu pai
se separou de Eulália e foi viver na cidade de Caruaru, onde faleceu sozinho.
Versão diferente da que me fora contada por Inocência, em uma carta, por
ocasião da morte dele. Com quem estaria a versão real? Como foi a sua morte?
Comentei com Ana essa minha nova angústia e
ela, pela Internet, entrou numa comunidade da cidade de Barra de Guabiraba/PE,
no orkut, lançou os nomes de meus irmãos, de Eulália, e de Apolônio, meu pai.
Foi como se uma corrente de informações tomasse a forma de um raio
esclarecedor, e no dia seguinte eu já estava ao telefone com meu irmão Hamilton, que mora hoje em São Benedito do Sul, Pernambuco.
Não sei
explicar o sentimento que tomou conta de mim. Incrédulo, ouvi sua voz do outro
lado da linha, pela primeira vez. Ele, emocionado, reagiu da forma que eu
jamais esperei, chamando-me de Chiquinho, e,
juntos, choramos. Meu irmão exultava dizendo que sempre esperou por esse
momento. Imediatamente, estabeleceu-se entre nós uma intimidade que refez o elo
familiar que me parecia perdido.
Airton, já não
encontrei.
Dias depois,
eu e Ana fazíamos, novamente, uma viagem ao meu passado. Fomos ao encontro de
meu irmão.
Lá, pude abraçá-lo, conhecer sua família e ouvir a verdadeira história dos últimos anos de vida de meu pai, contada por ele:
Lá, pude abraçá-lo, conhecer sua família e ouvir a verdadeira história dos últimos anos de vida de meu pai, contada por ele:
— Eu tinha
apenas 8 anos quando nosso pai se separou de
minha mãe, e fomos, eu e ele, viver em Caruaru. Quando tive que me apresentar
ao Exército, ele estava muito doente e, para
não deixá-lo só, levei-o de volta para Guabiraba. Minha mãe, embora já tivesse
constituído outra família, cuidou de nosso pai até o fim dos seus dias.
— E por que ele nunca me escreveu? Nunca contou o que
estava lhe acontecendo?
Meu irmão
silenciou e, emocionado, desviou o olhar. Eu entendi que meu pai havia se afastado de
mim para nutrir sua solidão sem querer dividir as suas tristezas. De qualquer
forma, fiquei mais tranqüilo ao saber que ele não morreu sozinho nem
abandonado.
Precisei visitar seu túmulo, em Guabiraba.
Encontrei-o esquecido e destruído pelo tempo. Pequenos arbustos silvestres
verdejavam desordenados sobre ele, e não foi fácil, para meu irmão,
localizá-lo. Não havia identificação, nem epitáfio, nem cruz, nem anjos. A
emoção se apoderou de mim e senti a dor de penetrar fundo demais naquele
túmulo, mexendo com sentimentos que me pareciam sepultados. Derramei lágrimas
de luto contidas e acumuladas. Abria-se mais uma das porteiras que fechei um
dia. Finalmente eu via que nossas carências afetivas não podem servir de motivo
para julgarmos os atos alheios, mesmo que sejam dos nossos pais. Eles também precisaram, em algum momento,
fechar porteiras atrás de si.
Acompanhado de Hamilton, voltei a Patos e Jatobá,
para mostrar-lhe o lugar onde eu fui criado e onde viveu nosso pai.
E assim,
depois de tantas andanças, voltei ao ponto de partida.
Minha mente se
encheu novamente de doces lembranças de minha infância e uma vontade imensa de
reviver momentos que deixei para trás.
E, então, tive a certeza de que não devia ter
descuidado das pegadas que ficaram, sem que eu percebesse. Vejo agora que elas
me dão autenticidade, elas me revelam. Corri o risco de esquecer de mim mesmo.
Percorrendo novamente cada lugar, recordando cada
acidente geográfico, posso perceber melhor a beleza das planícies e da sedutora
Serra da Borborema. Tudo agora tem mais verde, mais vida, mais cor, mais
encanto, e, embora o homem tenha modificado a natureza, observo que o que mais
me identifica com o lugar permanece ali: o jeito agreste da região.
No lugar da
estrada de terra, encontrei asfalto. Os sulcos do riacho, antes secos, agora estão
cobertos pela vegetação, e os localizei com dificuldade, pois as ramagens de
algumas árvores e arbustos vicejam exuberantes no vigor da terra umedecida pelo
que o solo consegue roubar do açude de Jatobá. As pessoas envelheceram, outras
se foram enquanto eu não voltava; e essa foi a pior constatação.
Do alto do
grande lajedo, onde outrora brinquei, não via a nossa casinha nem o caminho que
levava a ela, nem as cruzes que meu avô tanto venerava, tudo estava sob a
imensidão de água que tentava inutilmente encobrir uma parte da minha infância.
Mais uma vez senti vontade de conversar com
meu avô. Talvez agora, neste meu último
retorno, ele me contasse detalhes de seus grandes segredos e as causas de suas
amarguras.
Mas algumas informações vieram até mim. Parece que
estavam me aguardando para aproveitar o vigor contido nos sulcos que o tempo me
causou. Encontrei pessoas que falaram o que eu queria ouvir, contaram-me
histórias que eu não vivi, mas que confirmam os sentimentos que ficaram
sufocados nas palavras, nas lágrimas e nas expressões do velho Ezequiel. É a
vida remexendo seu velho baú, forçando-me a juntar pedaços de antigas histórias
e penetrar num passado distante.
Então, estava
eu ali, feliz, concluindo a minha volta, escancarando a porteira que, quando
jovem, fechei atrás de mim.
PERCORRI O CAMINHO DE PATOS A
TEIXEIRA, voltei no tempo, séculos de distância, e pude
perfeitamente imaginar o sacrifício e a emoção que sentiu Agostinho Nunes da
Costa, “O Velho”, num dia de 1790, quando realizou o seu grande sonho.
Contam
registros históricos que “ele depois de morar em Santa Luzia do Sabugi mudou-se para a Vila de Patos. Admirava aquele povoado e não se cansava de
contemplar, ao sul, a linda paisagem da Serra da Borborema, projetada no
horizonte. E no seu encanto dizia: ‘Um dia vou subir aquela serra!’ E esse dia chegou.
Vendo que não
era um empreendimento fácil, convidou mais quatro companheiros, e partiram,
ajudados por alguns índios.
Subiram a serra. Conseguiram uma sesmaria para cultivar. Agostinho, tomando a si a responsabilidade
pela aventura, escolheu o melhor pedaço de terra: do Tanque Coberto até Poços,
que ele passou a chamar de Riacho Verde. Os amigos escolheram a outra parte da
terra, que batizaram com os seus nomes.
O Riacho Verde
tornou-se herança dos descendentes de Agostinho Nunes da Costa, “O Velho”. Dos
seus cinco filhos, destacou-se Agostinho Nunes da Costa Junior, que nasceu, provavelmente, em 1792, em Riacho
Verde. Agostinho Junior casou-se com Ana Camila das Dores e tiveram dez filhos.
Entre eles, os poetas Nicandro Nunes da Costa, meu bisavô, e Hugolino Nunes da
Costa.
Nicandro casou-se duas vezes. Com a primeira esposa, Minervina Ferreira de Azevedo, mãe de meu avô Ezequiel Nunes da Costa, teve dez
filhos. Com a segunda, Jerônima Costa, teve cinco filhos”.
Dessa família Nunes
da Costa, nascida em Riacho Verde, no Teixeira, a partir do grande sonho do
“Velho”, surgiram inúmeros poetas e violeiros que deixaram, através da poesia, suas
marcas, renovadas a cada geração.
Exatamente como meu avô Ezequiel falava, com orgulho.
PERCEBO QUE É HORA DE PARAR
de escrever esta história.
Os personagens que me ajudaram a vivê-la tornaram-se
protagonistas de suas próprias histórias. Uns ainda estão estudando o roteiro,
outros já estão em cena e para outros a cortina já se fechou.
Sinto-me
recompensado quando olho o longo caminho percorrido, quando me lembro dos livros que li, dos lugares que conheci,
dos amigos que fiz e do respeito que conquistei em minha vida profissional.
Arrependo-me,
entretanto, de não ter voltado a Patos para chorar minhas dores no ombro amigo
de meu avô e consolá-lo do sofrimento causado pela saudade que eu deixei.
Arrependo-me
de ter sido fraco em alguns momentos e vaidoso em outros. Mas como ser forte
sem conhecer a fraqueza e como ser humilde sem conhecer a vaidade?
Arrependo-me, também, de ter ficado distante de
Eliane por tantos anos. Mas me consola o fato do destino ter nos reservado
algumas oportunidades. Os momentos que passamos juntos bastaram para que esquecêssemos as mágoas, a distância e o tempo.
ELIANE, INFELIZMENTE, NÃO TEVE TEMPO de ler esta história. Nos deixou, vitimada por um câncer. Sofreu durante sete anos. Lutou pela vida, bravamente. Sua morte foi um grande golpe para mim. Não consegui entender até hoje por que sua vida, dedicada à Medicina, à religião e aos menos afortunados, foi tão curta e tão sofrida. Mas nada adianta questionar os desígnios divinos. Entendo que tudo nesta vida tem uma razão oculta de ser. E, se hoje eu tenho que sentir essa saudade, devo me resignar mesmo sem entender. E sei que ela me perdoou.
HOJE, ENTENDO O GRANDE AMOR
QUE uniu meu avô à sua amada Francisca. Identifiquei-me com ele quando encontrei Ana.
O amor foi
sempre a bússola de nossas decisões. Nunca tivemos um pensamento mesquinho, um
com o outro, e cada dia de nossas vidas foi
vivido com intensidade, sem perdermos tempo com críticas ou observações
inúteis, já que, afinados em nossas convicções, tínhamos muito a realizar.
Nossos cabelos brancos e nossas rugas denunciam as
lutas e os sacrifícios e justificam a permanente inquietação de espírito que
nos dominou por mais de 40 anos, durante os
quais não tivemos tempo sequer de nos mirar no espelho e verificar o quanto
envelhecemos rápido nesse espaço da nossa existência, nem analisar o desgaste
físico.
Discordamos
algumas vezes, é claro. Mas a discórdia era apenas um acerto de ponteiros,
fazia parte da nossa construção, servia para aprimorar nossas idéias.
Acreditamos que
percorremos inteiramente a rota que nos foi traçada, sem qualquer desvio.
NOSSOS FILHOS, QUE CAMINHARAM conosco, aos poucos se tornaram
nossos parceiros. Com eles dividimos alegrias e canseiras. Hoje, estão felizes e realizados com as suas próprias
escolhas.
Sentem orgulho
da minha história. Vibram com cada nova linha que escrevo.
MEU AVÔ? Continua vivo, me acompanha até hoje, é a
minha eterna referência. Eu o vejo sorrindo, diariamente, quando me olho no
espelho. Sua cabeleira branca, como um capulho de algodão, é
inconfundível...
FIM
Livro editado e impresso em janeiro de 2008
Agradecimentos
Agradeço aos
amigos que me ajudaram a superar os obstáculos que encontrei pelo caminho.
Agradeço ao
meu amigo José Humberto Sobral pela leitura crítica dos textos originais deste
livro.
Agradeço a
minha filha Eliane, onde quer que ela esteja, por ter, algumas vezes,
demonstrado interesse em ler os esboços deste livro, incentivando-me a
concluí-lo.
Agradeço a
minha filha Ana Cláudia, que, com seus
conhecimentos de psicologia e em conversas despretensiosas, esclareceu-me dando
suporte para que as reações de alguns personagens fossem mais bem entendidas e
eu pudesse descrevê-los de forma mais clara.
Agradeço ao
meu filho Marcos, que, com sua experiência
profissional no setor gráfico, realizou o sonho de transformar as minhas
memórias em livro.
Agradeço ao
meu filho Alan, que, além das leituras
críticas, com sua criatividade e capacidade técnica, fez a ilustração da capa.
Enfim,
agradeço a Ana, minha esposa e companheira de tantos anos, pelos muitos dias de
digitação, por ter-me incentivado com suas críticas severas e
sinceras, por ajudar a arrumar as minhas idéias
e as minhas lembranças e por continuar ao meu lado, escrevendo a continuação
desta história.
Nota do autor
No segundo
capítulo, alguns personagens receberam nomes fictícios para resguardar suas
identidades.
Como conta o
texto, a ideia deste livro surgiu em Jatobá, no interior da Paraíba, em 1981,
inspirada nos olhares perplexos de meus filhos ao verem o lugar onde passei a
infância.
Em 1986, comecei a reunir pedaços
desarrumados de lembranças confusas, usando para isso uma velha máquina de
escrever Smith Corona. Em 1989, dei por encerrado o roteiro e deixei os
escritos em hibernação até 2005, quando, já
residindo em Cabo Frio, retomei o antigo projeto.







Quantas surpresas, quantas tristezas, quantas emoções e quantas alegris presenciei nesses últimos capítulos. Chorei e ri ao mesmo tempo por diversas vezes. Parece que eu estava vendo esses episódios da história acontecerem. Fiquei triste também com a tristeza que as vezes abateu o autorcomo as perdas de membros familiares e de amigos. Em suspense muitas vezes com imprevisto que ia acontecer,pois já queria saber o desfecho dos encontros. Finalmente ri com a enceradeira correndo o contrário, o som do liquidificador e o medo da secretaria, do guaraná desconhecido para Eulália e outros momentos. Enfim, parabenizo pelo livro muito bem elaborado que me fez também saborear algumas coisas do meu passado,como o Rio da Cruz no qual tomei tantos banhos, a velha rodoviária de João Pessoa que ainda conseguia alcança-la, as quermesse da igreja da rua São Miguel, onde assisti muitas missas lá E apropria rua na qual residi quando lá estudada.
ResponderExcluirOlá!
ResponderExcluirTalvez tenhamos parentes em comum. Minha mãe é Maria Sélia Lopes Nunes, nascida em Itapetim, filha de Lídio Nunes de Araújo (1907 - 1977) com Jacinta Lopes da Silva (1922 - 1995). Chegou a comentar que seu pai (Lídio Nunes de Araújo) provavelmente nasceu no sertão da Paraíba (citou que ouvia falar algo de Piancó), mas não tem tanta certeza. Citou também que o nome de sua avó (mãe de Lídio Nunes de Araújo) era chamada de "Senhorinha".
Recentemente, descobri que posso ter uma proximidade genética com os Garra (Nunes da Costa x Nunes da Rocha).
Estou começando a minha busca para conhecer a minha árvore genealógica e já estou muito empolgado em reconhecer parte da história dos meus ancestrais mais distantes. Ficaria feliz se eu pudesse conseguir mais informações.
Qualquer coisa, pode me mandar email também:
hermano.gomes@gmail.com
Instagram: hermanoglnunes
Abraço,
Hermano.