quarta-feira, 6 de maio de 2020

5ºCapítulo - 3º Episódio: "... as três coisas mais desejadas na vida..."






LEI DO DIVÓRCIO, que capengava pelos corredores do Congresso Nacional, finalmente foi sancionada. Aguardei a publicação no Diário Oficial e dei entrada no meu pedido, que foi atendido pelo Tribunal de Justiça da Paraíba, no 2o semestre de 79. Meu amigo Eslu, mais uma vez, assumiu a causa.


No dia 22 de outubro, eu estava de volta à Paraíba, acompanhado de Ana, cheio de novas expectativas. Desta vez, não se tratava de uma audiência de pensão alimentícia, e sim para legitimar o fim de uma história antiga.

Como de costume, estivemos, antes, no escritório de Eslu. Ele me informou que o clima era favorável, e eu poderia ficar tranquilo. Estava tudo bem encaminhado para a concessão do divórcio consensual. Senti uma leveza estranha.
 Durante a audiência, a outra parte condicionou a assinatura do divórcio à permanência da pensão alimentícia. Fiquei perturbado e indignado. Olhei para o meu advogado, cobrando uma reação, mas ele sinalizou para que eu concordasse. Contrariado, aquiesci. O juiz dirigiu-me algumas palavras óbvias, na tentativa de me convencer a concordar, pois assim estaria agilizando a minha liberdade legal. Ele parecia ansioso para dar a “canetada”, e eu para ver os efeitos que aquele ato produziria em minha vida.
Ana, no corredor, me aguardava. Abracei-a comovido e disse:
— Afinal, terminou!

Eslu Eloy, eu e José Humberto

Humberto acompanhava-me como testemunha.  
No dia seguinte, reuni os amigos para um almoço de agradecimento e de despedida no Restaurante da Bica. 

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Nesse ambiente de grandes lembranças, eu admitia que a única razão para  voltar a João Pessoa, um dia, seria minha filha.


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Durante esse almoço, Eslu me surpreendeu com uma pergunta que logo me causou profunda alegria.
— Nunes, você sabe o nome de seu avô paterno?
— Ezequiel Nunes da Costa — respondi.
— E o nome de seu bisavô?
— Nicandro Nunes da Costa, o Poeta Ferreiro.
— Só mais uma pergunta: De onde era sua família?
— Meu avô falava que a família era de Teixeira.
— Era exatamente isso que eu queria saber — disse Eslu. — Meu bisavô, Ugolino, também poeta, era irmão do seu bisavô, Nicandro. Minha mãe, Lucinda, era prima legítima de seu avô Ezequiel. Portanto, somos primos! Minha mãe vai ficar muito feliz — falou Eslu, emocionado.


Se eu já estava feliz e agradecido ao meu amigo pelo divórcio, agora estava exultante com a descoberta do nosso parentesco. Naquele momento despertei para a necessidade de conhecer melhor as minhas raízes.
Foi um almoço memorável aquele, documentado com muitas fotos.
Mas eu precisava ainda agradecer a Ruy de Assis e ao meu amigo Severino Amorim, pelo grande apoio que me deram e, para isso, marquei um outro jantar no Restaurante Badionaldo, no Poço.





Quando residíamos na Rua Marquês de Pombal, certa vez fui procurado por três coronéis da Polícia da Paraíba, com os quais servi: Severino Amorim, Clodoaldo Monteiro e Ailton Nunes. Desejavam orientação sobre aluguel de apartamento. Preferiam que fosse próximo ao quartel onde eles fariam um curso de estado-maior na PM do Rio. Dei-lhes alguns esclarecimentos, e Amorim alugou um apartamento ao lado do nosso, por seis meses, restabelecendo-se, na oportunidade, uma amizade de caserna, que havia se distanciado no tempo. Quando se aproximava o final do curso, sua esposa, Lisete, veio passar com ele o último mês, tornando-se amiga de Ana.
Eles observaram a vida simples e difícil que levávamos e aconselharam-me a procurar, na Justiça, o desquite, lembrando-me o nome do Dr. Eslu Eloy.  Quando retornou à Paraíba, a meu pedido, ele conversou com Eslu sobre mim.
Amorim foi ponte importante na localização de Eslu, possibilitando a comunicação entre nós; Ruy de Assis proporcionou a comunicação imediata através do “Gentex” do seu gabinete; Humberto foi o fiel mensageiro que ouvia as minhas angústias e as passava a Eslu, ajudando a instruir a ação do meu divórcio.
Portanto, ali estava, a postos, um pelotão de amigos, aguardando a minha chegada.
Agora, um remoto episódio de minha história estava definitivamente encerrado, sem possibilidades de “replay” e pela segunda vez eu disse: Adeus João Pessoa... 

















NESSE MESMO ANO, 1979,  Ana terminou a Faculdade de Belas Artes, e a solenidade de formatura aconteceu com risos, lágrimas e olhares de vitória trocados entre nós. Estávamos vencendo etapas muito preciosas. Somente nós dois sabíamos o valor dessas conquistas. Ana chegava ao fim de uma caminhada que orientaria agora todo o seu futuro. 












Aparecia entre os formandos orgulhosa do seu êxito, com ar sereno de quem sabia estar no rumo certo. Da platéia, nós assistíamos, emocionados, à cerimônia, e eu, de pé, a aplaudia.
Enfim, tudo era motivo para comemorarmos aquele final de ano e o início de muitos anos novos que estavam por vir. Sabíamos agora que não iríamos apenas apreciar o sucesso alheio e sim subir, junto com tantas outras pessoas, os degraus da realização pessoal.


EM 1980, A COMPRA DO APARTAMENTO onde morávamos se concretizou, através de um financiamento pela Caixa Econômica. Finalmente, podíamos nos considerar vencedores. Realizávamos o grande sonho de todos os brasileiros. Essa conquista alcançada depois de 14 anos de lutas solitárias, partindo do ponto zero, com a roupa do corpo, enchia-nos de júbilo e nos dava a certeza de que a coragem e a ousadia, na dose certa, conduzem à vitória. 
Era ótimo o nosso estado de espírito. E eu decidi que havia chegado o momento de consagrarmos a nossa união perante as leis.
Não devia mais esperar. Esperar o quê?
Aproximava-se o fim do ano, e eu disse a Ana que precisávamos marcar a data do nosso casamento. Só não esperava que ela revelasse uma tristeza que lhe corroía a alma, sem que eu soubesse.
Ana, com expressão de desânimo, pousou sobre mim seu olhar firme e, sem conseguir impedir que um forte rubor invadisse seu rosto, disse:
— Não compreendo por que você, até agora, nada falou sobre isso! Faltou-lhe coragem? Confesso que já não tenho tanto interesse. Esperava, com ansiedade, que você tomasse essa iniciativa no dia seguinte ao divórcio, mas foi preciso um ano! Acho que você estava apenas interessado em se libertar.
— Isso não é verdade. — disse-lhe, carinhosamente.
E só então percebi o quanto Ana estava magoada comigo. Sofri, temeroso que a minha demora tivesse produzido um efeito funesto na nossa relação, e confesso que nunca imaginei o tamanho da decepção que causaria em Ana, mas as lágrimas contidas em seus olhos me fizeram apressar as providências para o casamento, imediatamente.
Pedi ao meu amigo José Maria, advogado, que providenciasse a documentação, e no dia 10 de janeiro de 1981, com a presença de D. Fernanda, nos casamos. Foi uma cerimônia simples, com outros casais, sem fotos nem bolo, nem trajes especiais, nem convidados com presentes, tampouco latas tiritando atrás dos carros.
Ana chorou durante toda a cerimônia, talvez decepcionada. Em determinado momento, o juiz interrompeu o ato, fixando o olhar no rosto molhado de Ana, e pensei que ia suspendê-lo, mas continuou. Até hoje, não consegui entender por que lhe doía a alma naquele momento, nem ela me explicou depois. É uma interrogação que me faço, às vezes, mas também eu nunca lhe expliquei por que demorei tanto em tomar aquela decisão. Como explicar algo que nem eu mesmo sei.
Dias depois, nossos filhos souberam do nosso casamento. Ficaram revoltados,  e cheios de razão. Eu havia pedido a Ana que não contasse nada para eles, também não sei por quê. Arrependi-me. Eles não poderiam deixar de testemunhar aquele ato de grande significado para todos nós. E por mais persuasivos que fôssemos, justificando com uma possível proibição da presença de crianças, eles não se conformaram e disseram que eu não tinha o direito de lhes arrebatar o orgulho de participarem da cerimônia. Acharam um absurdo.  Calei-me, cabisbaixo.
     Senti-me aflito, precisava desfazer aquele mal-estar causado pelos meus conflitos internos e mostrar a todos que vivíamos felizes. Talvez fosse tempo ainda de comemorarmos juntos o casamento. Planejei, então, uma visita a João Pessoa.
Na ida, de ônibus, eles nem sentiram o cansaço das 44 horas de viagem. Mostravam-se eufóricos e maravilhados com o cenário que se modificava a cada instante, visto pela janela, como um filme de desenho animado. Os canaviais, as plantações, as fazendas, as planícies, os vales, os rios, os lugarejos, as grandes cidades e as retas sem fim das estradas. As paradas para banho, o movimento nos restaurantes, os meninos vendedores de frutas típicas de cada região, as lojinhas de artesanato e seus “souvenirs”. Tudo era motivo de muitas indagações. 
Na volta, de avião: o barulho das turbinas, a aeromoça e seus cuidados, o cinto de segurança, o serviço de bordo, as turbulências, as nuvens, as sacudidelas na aterrissagem, enfim, uma maravilhosa oportunidade  que tivemos para viver juntos muitas novidades e grandes emoções.
Como sempre, nos hospedamos no Hotel Aurora. Ocupamos dois quartos contíguos.


























      Era verão e João Pessoa, nessa época, transforma-se em um belo poema que rima ruas tranquilas com temperatura amena, nunca ultrapassando 32 graus. Por toda parte vemos mangueiras e jambeiros adornando e colorindo avenidas e praças.
As crianças estranharam o mar de Tambaú, maravilhadas, sem querer sair das suas ondas mornas e tranquilas.






No terceiro dia, fomos a Patos. Assim que descemos do ônibus eles reclamaram do  clima quente e abafado do sertão. Mostravam-se impressionados com as grandes pedras e a paisagem agreste, que viam pelo caminho de Patos a Jatobá.  

Demoramos o suficiente para cumprir a promessa que eu havia feito a Inocência: levá-los para que ela os conhecesse e, ao mesmo tempo, para que eles tivessem a noção exata da região onde eu passei a minha infância e o início da minha juventude.
Ao fundo a casinha das tias e mais ao fundo o Serrote do Espinho Branco





Meus filhos olhavam aquela paisagem árida, sem atentar muito para as fortes características da vegetação da região, principalmente a rasteira e rala dos terrenos que circundavam a casa de minha tia Inocência. 
Ao fundo, parte do açude.














Atentos, ouviam as minhas histórias, buscando vestígios de veracidade em cada uma das minhas palavras, e para confirmar o que eu lhes dizia apontei, ao longe, um conjunto de árvores que se destacava, explicando que ali eu havia plantado, quando menino, um pé de jatobá. 

Ficaram espantados, tentando localizá-lo no meio da pequena mata. Contemplei o rostinho surpreso de cada um deles. Naquele exato momento, nasceu a ideia de escrever este livro: a história da minha vida.










Passeamos por alguns lugares e, no açude, ficaram admirados ao saber que tanta água era, na verdade, um reservatório construído pela mão do homem para represar a água da chuva e as  vindas de pequenas nascentes, atendendo às necessidades do povo da região. E espantados ficaram quando souberam que a casinha em que eu morei agora estava debaixo daquele imenso lago artificial. 


Mostrei-lhes o caminho seco do riacho, o mesmo em que, a pequena distância de suas margens, foi sepultado o grande amor de meu avô.


A capela da Cruz da Menina

Demoramos o suficiente para cumprir a promessa que eu havia feito a Inocência: levá-los para que ela os conhecesse e, ao mesmo tempo, para que eles tivessem a noção exata da região onde eu passei a minha infância e o início da minha juventude.



Naquela noite dormimos no Hotel JK, em Patos. 



Hotel JK

        No dia seguinte, logo cedo, voltamos para João Pessoa.

Eu insistia em ver Eliane e, por intermédio de nossa amiga Edna, Ana entrou em contato com ela, no interior, e ficou combinado que, na manhã seguinte, iríamos nos encontrar em Guarabira, cidade onde ela trabalhava como médica de um hospital público.
Eu estava preocupado com a possibilidade de não a reconhecer. Aquele encontro que tivemos em 76, na rodoviária, foi tão rápido e carregado de tanta emoção que não me permitiu guardar sequer a sua fisionomia. Quando chegamos à cidadezinha, paramos na agência do Banco do Brasil. Ana entrou acompanhada das crianças e eu fiquei aguardando na calçada, uma vez que aquele lugar fora o convencionado para o nosso encontro. De repente, uma jovem senhora, vestida de branco, saiu de dentro de um carro, veio em minha direção, apertou-me contra seu peito e falou, ofegante:
— Bênção, papai!  Onde estão Ana e os meninos?
Eu, sob forte emoção, percebi que Eliane havia quebrado as resistências que tinha contra Ana. O caminho agora estava livre para eu me apresentar a minha filha, depois de 31 longos anos.
Apontei para o interior do banco.
Ela chamou seus filhos, Eliana e Junior, que estavam no carro, e, sorridente, me apresentou a cada um, dizendo:
— Este é o meu pai. Avô de vocês!
     De repente, um avô apareceu do nada. Meus netos pareciam perplexos, sem entender o que se passava. O genro me abraçou cordialmente, e ficamos conversando. Quando Ana e os meninos saíram do banco, foram cordialmente recebidos por Eliane, que nos convidou para um almoço. 
     Na churrascaria modesta, conversamos à vontade em meio à agitação das cinco crianças. 


 Elas logo se entrosaram, enquanto nós, adultos, tentávamos vencer o grande hiato que nos separava. Não sei quantas horas foram necessárias para recolher os cacos de tantas amarguras e de tantas verdades. 
     Eliane, embora disfarçasse, mostrava-se bastante nervosa. 




    Franzia o cenho e fumava sem parar. Era tão visível a sua perturbação que chegou a confessar que estava com falta de ar. Mas eu tentava compreendê-la. Afinal de contas, era o nosso primeiro encontro. Seu estado de espírito não devia estar normal. 




       Foi, talvez, o momento mais difícil e embaraçoso para nós: eu olhava cada detalhe da sua face crispada, tentando reconhecer o bebê sorridente e vívido da minha lembrança; ela, de soslaio, me olhava, na tentativa, talvez, de encontrar o pai idealizado por toda uma eternidade. Mas estávamos ali para ultrapassar aquele obstáculo, o primeiro sorriso deveria ser correspondido e o primeiro abraço vivido intensamente como sinal de uma afinidade finalmente alcançada. Sem dúvida, devíamos nos despir de ódios e culpas, de ressentimentos e de justificativas, sentimentos que um dia nos distanciou um do outro, e deixar emergir um amor sem fronteiras negado pelo tempo e pelas circunstâncias.











Era compreensível a confusão que se passava em sua mente, eu também a sentia. E, em meio a divagações e frases com revoltas partidas, aos poucos, o diálogo amadureceu, o ambiente se desanuviou, e acabamos conversando fraternalmente, como era esperado.
Depois do almoço, ela nos levou para conhecermos o hospital onde trabalhava e me apresentou a todos que ia encontrando pelo caminho, orgulhosamente, como seu pai.
Parecia feliz, naquela tarde. Como eu.
Ao me apresentar à diretora do hospital, esta, com um sorriso irônico, disse:
— É esse o artista?
Não entendi a insinuação, mas imediatamente, acrescentei:
— É, estou aqui para gravar um filme...
Depois de conhecer as dependências do hospital, despedimos-nos, e eu saí dali aliviado de um enorme aperto que pressionara o meu coração durante tantos anos.
    Sentia agora quantos momentos deixei de viver, mesmo à distância, com a minha filha e meus netos, que não tinham culpa daquele casamento infeliz e não mereciam ter estado ausentes da minha vida. Precisava recuperar aquele tempo e sabia que podia contar com Ana para isso. Ela me ajudaria, como me ajudou, e nossos filhos  teriam a certeza de que eu não seria capaz de esquecer uma filha pelo mundo. Era esse também o pensamento de Ana.
   

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