segunda-feira, 11 de maio de 2020

1ºCapítulo - 2º Episódio: "Na fazenda de São Pedro..."



NA FAZENDA SÃO PEDRO, em Patos, vivi grandes emoções. Por isso, as lembranças mais ricas da minha infância se concentram naquele pedaço de terra banhado pelo rio da Cruz.
Nossa casa ficava às suas margens. Quando enchia, as águas se aproximavam e ficávamos todos tomados de medo, embora criasse uma visão maravilhosa que jamais esquecerei. Suas águas se espalhavam devastando as plantações, numa demonstração de força contra a qual não adiantava reclamar. Todos lamentavam os prejuízos. Eu contemplava aquele espetáculo e o achava indescritível. Melancias e jerimuns passavam boiando, carregados pela correnteza, fazendo-me dar muitas gargalhadas.  Quando as águas baixavam, meu avô e minhas tias iam ver o estrago.
— O que não foi levado, ficou debaixo da lama — diziam.
E, em atitude contemplativa, meu avô balbuciava palavras de desencanto:
— Este será um ano de grandes dificuldades!
            O milho, o feijão e a mandioca, prioritários para nossa subsistência, dificilmente eram aproveitados, devido à lama deixada pela enchente e ao sol que vinha depois. Era desolador! Mas aquilo era a natureza em toda a sua força desafiadora, passando diante de nós, alheia a qualquer protesto. Então, após o escoamento das águas, tínhamos que esperar que a chuva lavasse a lama, para então formar o mutirão em que todos tomavam parte, eu inclusive, numa tentativa de aproveitar o que ainda poderia ser salvo da plantação. Geralmente não se aproveitava muita coisa, mas sempre se garantia uma pequena colheita.

Além dessa imagem que guardo do rio da Cruz, afloram-me muitas outras, da Fazenda São Pedro, que eu considero inesquecíveis.
Lá começou o meu mundo, conduzido pela mão rude, mas honesta, do meu avô Ezequiel. Carinho nunca me faltou, pois meu avô, de vez em quando, sentava-se ao meu lado, passava o braço pelos meus ombros, puxava minha cabeça contra o seu peito, demonstrando o imenso prazer que esse gesto lhe causava, apesar de não ser hábito das pessoas daquela época demonstrar seus sentimentos através de beijos, abraços e outros afagos.

Meu avô se orgulhava da sua condição de sertanejo e homem do campo.
            Não temia caminhar pelo mato nem temia as onças que ele sabia existir na região. Ia diariamente apanhar lenha na mata fechada e não pensava na possibilidade de deparar-se com algum daqueles felinos, por mais fantásticas que fossem as estórias contadas por caçadores, seus conhecidos. Se alguém se mostrasse temeroso, dizia:
— Estou nesta idade e jamais vi algo que me assombrasse nas minhas andanças pelo mato.
Ele comentava que as pessoas supunham ver, de vez em quando, onças-pintadas vindas de serras e grutas. Mas o único felino pintado que ele viu, por aquelas terras, foi o gato maracajá. Dizia que as pessoas confundiam um animal com outro. Afirmava que a onça comum, cor de veado, geralmente aparecia dentro de matas densas, para as bandas da Borborema. Mas, mesmo esta, era rara. Lembro-me do dia em que Provedor, cachorro grande e valente, atacou uma delas, na mata, deixando-a sangrar até à morte.


(foto retirada da internet)

Meu avô conversava muito comigo, como se desejasse ensinar-me todas as coisas que ele havia aprendido. Conhecia como ninguém os segredos da mata e de suas criaturas. Era capaz de traduzir com impressionante sabedoria as manifestações da natureza através da direção do vento ou do deslocamento das nuvens no céu.

Entendia o canto dos pássaros.
concriz
Parava, concentrado, para escutá-los. O concriz, de linda plumagem preta e amarela, era o seu preferido por sua beleza e por seu canto parecido com o do sabiá.
Fascinavam-no o voo e as evoluções incrivelmente rápidas dos beija-flores. 
Ficava a acompanhá-los com o olhar interrogativo, tentando compreender a rapidez de suas asas. 
canário da terra


O canto do canário-da-terra exercia sobre ele uma espécie de magia. Dizia que o canário era o guardião da floresta e seu silvo uma saudação às pessoas do lugar. Admirava a beleza do galo-de-campina, como também a excentricidade do bacurau — uma ave noturna de pernas curtas que ficava parada, agachada no chão, e, quando alguém se aproximava, pulava, distanciando-se, produzindo um piado chiante.


bacurau
galo de campina

Preocupava-se com o piado agourento da coruja dentro da noite, porque considerava aquilo um mau presságio, um aviso que, muitas vezes, confirmava-se.
Era também, por tradição, apaixonado pela agricultura.
Trabalhava a terra com grande dedicação para que ela fosse fértil e produzisse os alimentos necessários.
A região onde ficava a Fazenda São Pedro produzia de tudo. Era uma área beneficiada pela qualidade da terra. E tinha uma paisagem fascinante, pontilhada de frondosos juazeiros, oitizeiros e ingazeiras, sob cujas sombras costumávamos descansarA mata densa, formada por grandes juremais e altas faveleiras, de onde meu avô retirava a lenha, também fazia parte desse seu mundo. 
Umbuzeiro


Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história  para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com                                                     

5 comentários:

  1. O sertão é lindo. Tem uma grande sabedoria. Aprende-se tudo com a natureza. Minha mãe teve um concris que ela amava. Eu tive o galo campina e o canário da terra. Todos com um canto lindo.

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  2. Ana, acho que o meu parentesco com seu marido vem dos Oliveiras. Estou adorando ler.

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  3. Ana, tomei muito banho no rio da Cruz. Era muito gostoso. Saia para levar o lanche da minha irmã mais velha Socorro que ensinava em uma escola na rua Santana, aí fugia com uma irmã e uma amiga e iamos tomar banho escondida de mãe. Ah qta saudade eu sinto de um tempo bom bem vivido. Esse texto me fez resgatar também momentos felizes. Bjos

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  4. Parece que me transportei para a fazenda São Pedro e pude contemplar toda a beleza do lugar. Belíssima descrição cheia de emoção ♥️

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  5. Recordar nossa história cm lembranças
    tão ricas de detalhes,nos faz viajar junto...nossa imaginação se cola as suas lembranças e nos emocionam....parabéns, há se tds nós conseguíssemos nos expressar e reviver cm afeto nosso caminho por este mundo!

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