segunda-feira, 11 de maio de 2020

1ºCapítulo - 3º Episódio: "Aprendendo a viver..."





Quando eu me afastava da casa e ia até as grandes pedras próximas, ouvia o grito de uma das tias:
— Cuidado, Chiquinho! Tu estás te arriscando muito. Papai disse que por aqui tem onça e também caipora!




O caipora era descrito por elas como sendo um molequinho barrigudo, de cabelos encarapinhados, olhos grandes, que, ao encontrar alguém na mata, costumava pedir fumo, para alimentar seu vício. Se não fosse atendido, batia com uma chibata. Muitas pessoas diziam que já haviam encontrado esse moleque e recebido grandes surras. No íntimo, eu ficava amedrontado.
       Na água, diziam que eu devia ter medo da moça de cabelos longos, que costumava amarrar as crianças em suas tranças e sumir com elas na correnteza do rio. Nas grutas, eu devia temer as onças. Além disso, falavam em mal-assombro na várzea e de pequenas luzes debaixo dos frondosos cajueiros e juazeiros. Com tudo isso assustavam-me para que eu não fosse brincar distante de nossa casa.
       Durante a infância, temi inocentemente todas essas crendices. Aos poucos, fui me soltando e, por intuição, logo me senti dono de todo aquele esplêndido mundo agreste.  Passei a me relacionar com a natureza sem nenhum temor. Percebi que a orientação que me era transmitida capacitava-me, unicamente, para enxergar o mundo ao meu redor. Devia eu aprender a falar com o “espírito silvestre”, compreender a sua linguagem maravilhosa no diálogo com as plantas, com os pássaros e outros animais, com o riacho, com a chuva e até com os relâmpagos e trovões, que eu tanto temia.
Nas noites de tempestades, meu avô juntava foices, enxadas e machados num canto da casa e os envolvia em sacos de estopa para isolá-los da fúria dos relâmpagos. O mesmo ele fazia com os pequenos espelhos que tínhamos pendurados nas paredes. Até hoje temo as tempestades. 

Em São Pedro sempre recebíamos visitas de familiares que residiam na Serra do Teixeira e nas proximidades, ou de violeiros da região. Sabiam que seriam bem recebidos e nos traziam presentes, geralmente víveres, que eram aceitos com alegria. Eu ficava muito animado quando essas visitas vinham acompanhadas de seus filhos, pois com eles eu tinha diversão garantida enquanto seus pais demorassem na prosa ou na cantoria, e, na despedida, eu prestava atenção se nos convidavam para que os visitássemos.
Esses momentos de simplicidade emolduram na minha mente a figura eternamente viva de meu avô, Ezequiel Nunes da Costa: físico bem distribuído, pele seca, avermelhada e enrugada, cabeleira branca, gestos desembaraçados e andar firme, apesar da idade.
Muito conservador com relação a costumes e hábitos familiares, rigoroso quanto ao horário de repouso e à hora da alimentação, fazia questão que fossem servidos almoço, jantar e ceia, diariamente. Seu único vício consistia em tragar um cigarro de palha feito de fumo de rolo que ele próprio, pacientemente, preparava.
Viúvo, demonstrava o quanto sentia a ausência da companheira Francisca, e procurava ignorar deliberadamente a existência de outras mulheres. Jamais nos chegou a notícia de que tivesse alguma inclinação romântica. Levava uma vida cheia de angústias e recordações. Na sua idade bem vivida, conquistara o respeito na redondeza, mostrando sempre uma conduta irrepreensível. Era admirado por todos.


Vovó, eu não conheci. Faleceu em 1905.
O retrato verbal que vovô desenhara dela, e que se perpetuou em todos nós, deixava extravasar, nas suas descrições, uma profunda ternura, terminando sempre com uma lágrima. Eu nunca soube da história de amor que os envolveu nem o motivo que os levou ao isolamento, fazendo com que meu avô vivesse afastado de seu pai.
Vez por outra, ele se reportava aos velhos tempos, com saudades, afirmando que seu pai, Nicandro, era de família tradicional e conceituada nas cercanias de Teixeira e Riacho Verde. Nesses lampejos de saudade, lamentava não ter ido vê-lo antes de sua morte, apesar da pequena distância que os separava.
Hoje, lembro-me dos seus momentos de nostalgia e lamento não ter tido curiosidade para indagar sobre seu passado. Fico imaginando os possíveis porquês daquele isolamento para viver exclusivamente seu grande e breve amor com Francisca Maria da Conceição.
Vovó e seu filho Alfredo faleceram vitimados pela varíola, a terrível doença da época. Foram sepultados, um ao lado do outro, em um matagal que havia na vizinha Fazenda Jatobá, a pouca distância de nossa casa.
 Naquele tempo, as pessoas que faleciam vitimadas pela varíola não podiam ser sepultadas em cemitérios públicos, e suas famílias as sepultavam em algum lugar não habitado da mata, onde jamais fosse feito qualquer plantio.
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Lembro-me da primeira vez em que vi o santuário de meu avô, onde ficou sepultado também todo o mistério de sua vida. Era domingo. Dia de Finados. Ele próprio fez duas cruzes de madeira, pintou cuidadosamente os nomes de vovó Francisca e do tio Alfredo, reuniu a família e nos embrenhamos pelo matagal até encontrarmos as duas sepulturas, à margem de um caminho, cobertas de mato e pedra, que ele, com zelo, limpou e depois fincou nelas as novas cruzes que fizera. Oramos.
Meu avô sempre visitava esse lugar como um preito de saudades àqueles dois entes queridos. Às vezes eu o seguia naquele ritual, sem nada entender. Mas, embora criança, já podia perceber o verdadeiro sentido das suas palavras, quando dizia: “Em Jatobá está a metade de mim!” E, assim, ele curtia o vazio de sua viuvez, como se tivesse feito um juramento de nunca dividir com outra mulher suas alegrias ou angústias. Preferiu levar uma vida povoada de recordações, acompanhado apenas dos seus filhos: Maria, Alice, Nicodemos, Apolônio, Antônio, João, Eufrozina e Inocência. 


Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história  para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com                                                                                        


  

2 comentários:

  1. Como nordestino que sou, também convivi com o medo do caipira. Gostei muito deste episódio.

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  2. Belíssimo! Lembrei do meu avô com o seu cigarro de palha. Boas memórias ♥️

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