segunda-feira, 11 de maio de 2020

1ºCapítulo - 4º Episódio: "...conhecendo a doença e a morte..."







MARIA, OU BÁ COMO A CHAMÁVAMOS, era a mais velha dos filhos e sabia desempenhar muito bem o papel de mãe extremosa de uma família numerosa, sem reclamar da missão que o destino lhe reservou. Recordo-a franzina, cabelos lisos, olhar triste, tranqüila, já meio madura e com bastante eficiência na lida da casa, função que assumira após a morte de vovó, quando tinha apenas dez anos de idade. Meu avô a consultava nos momentos de decisões, pois sua opinião era sempre consciente e equilibrada. Ninguém a desobedecia e suas determinações eram acatadas sem discussão.
Era uma mulher prendada. Operava um pequeno tear, feito artesanalmente por João, para tecer as redes e mantas de uso da casa. Com suas mãos franzinas, trabalhava no fuso, pacientemente, o fio de algodão, algumas vezes ajudada pelas mãos de tia Alice.
Transformava qualquer corte de tecido em camisas e calças para os homens e vestidos, saias e blusas para as mulheres, costurando-os em uma velha máquina movida a manivela. As roupas femininas eram adornadas com mimosas rendas brancas feitas por ela e tia Alice na almofada de bilros.
Com habilidade manual e grande espírito criativo, Bá amassava e trabalhava o barro criando peças resistentes e perfeitas. Esmerava-se na modelagem de peças utilitárias, como alguidar, panela, cuscuzeira, moringa e pote com tampa, que eram utilizadas em nossa casa e muito admiradas por todos que nos visitavam. Pena que o tempo que lhe sobrava dos afazeres domésticos, sempre dedicado a tantos filhos-irmãos, não lhe permitiu crescer na arte do barro.

foto ilustrativa, retirada da internet
DOS FILHOS DO MEU AVÔ, Antônio foi o único que se destacou na poesia. Era, pela ordem, o sétimo dos nove filhos. Jovem ainda saiu de casa em busca da glória em outras terras. Jamais aceitou viver em São Pedro, cuidando da lavoura, limitado às condições e às imposições dos senhores da terra. Vivia como andarilho, percorrendo o sertão, sempre cantando e dedilhando sua viola, alegrando as pessoas com versos que destacavam as belezas da região. De vez em quando, aparecia em São Pedro.
Depois de percorrer meio mundo, um dia, Antônio chegou seriamente doente, quase não conseguia andar. Fora surpreendido por uma enfermidade desconhecida e, quando não lhe restavam mais forças para as andanças, resolveu tomar a difícil decisão de voltar à casa paterna, para aguardar seu fim, contemplando o manso rio da Cruz que o  inspirou tantas vezes e em cujas águas brincara na infância.
Meu avô recebeu-o com um carinhoso abraço.
 A viola e os poucos pertences que trazia foram colocados em um canto da casa e, logo depois, meu avô se embrenhou na mata. Retornou trazendo umas poucas varas delgadas escolhidas com cuidado e, cruzando umas sobre as outras, construiu uma cama, na qual Antônio se deitou e passou a viver seus dias de agonia.
Seu estado de saúde era penoso e agravava-se a cada anoitecer, sua resistência desaparecia rapidamente, como também as esperanças da família. De vez em quando, Bá, a irmã mais velha, entrava em seu quarto para levar-lhe alguma ajuda. 
Com o olhar distante, Antônio via a paisagem sem qualquer emoção, como se tudo que um dia servira de inspiração para seus versos tivesse perdido o encanto, reduzindo-o a um vulgar espectador, transformado em farrapo, apodrecendo aos poucos sobre uma cama de varas, forrada com um velho cobertor, malcheiroso devido à purulência de suas chagas. Ali, aguardava o fim. Minhas tias falavam que ele fora vítima de um catimbó feito por uma mulher que ele conhecera. Verdade? Não sei.
Conformar-se diante de tão trágica realidade era impossível, mas, a cada dia que passava, a enfermidade o destruía com maior intensidade, e o pobre poeta, qual um náufrago, agarrava-se a um galho de vida que lhe restava para, entre lamentações e lembranças de sua infância, juventude e aventuras, despedir-se arrependido por ter  vivido afastado da família, causando sofrimento às pessoas que o amavam.
Esses desabafos soavam de sua alma como um pedido de desculpas, ao mesmo tempo em que, como qualquer criatura temente a Deus, fazia um pedido de clemência. Depois, mergulhava em silêncio profundo, pois sabia que não tinha direito de reclamar inutilmente.
Meu avô construiu uma puxada na casa e ali o tio Antônio permanecia imóvel, o olhar fixo no teto, emitindo de vez em quando longos gemidos. Era uma verdadeira “câmara mortuária” na qual eu era proibido de entrar. Seu corpo extenuado e esquálido já não aceitava o alimento. Porém, Bá, sua fiel escudeira, permanecia ao seu lado, virava-lhe o corpo sobre a cama improvisada, trocava os panos com cheiro de clorofórmio e de creolina, já que diariamente ela despejava certa quantidade daqueles fedorentos líquidos em uma enorme ferida que lhe devorava a face esquerda. Era possível ver alguns pequenos bichos agitando-se entre ossos desnudos, uma visão dantesca! Bá cumpria sua missão com absoluta abnegação.
Bá e Antônio, desde crianças, sempre foram bons amigos, e por isso ele a escolheu como co-participante de seu sofrimento. “Badi”, era como ele a chamava, e ela, carinhosamente, dispunha-se a atendê-lo em todas as necessidades. Quando ela entrava no aposento percebia-se que sua presença era um bálsamo. Só ela sabia encher de consolo o mundo interior daquele resto humano. E isso Bá fazia muito bem, já que sempre dedicou aos irmãos atenções maternais.
Certa manhã, meu avô chegou do roçado antes do habitual e sentou-se na rede, preocupado. Tio Antônio havia sofrido muito na noite anterior, todos pensavam que ele não viveria até o amanhecer. Lá de dentro ouviam-se seus gemidos enfraquecidos que morriam abafados na garganta obstruída pelos bichos.
De repente, ouviu-se um sussurro estranho e Bá correu para ver o que estava acontecendo. Voltou rápido, gritando:
— Antônio está morrendo! Depressa!
— Meu Deus! — gritou meu avô, levantando-se ligeiro em direção ao pequeno aposento do filho.
Foi um grande alvoroço!
Minha tia Alice rapidamente me segurou pela mão e, levando-me para um canto do terreiro, disse:
— Você não pode entrar. Fique aqui fora.
De onde eu estava, podia ouvir o vozerio e a inquietação de todos administrando uma espécie de extrema-unção. Fez-se um sepulcral silêncio. Tia Alice correu e foi juntar-se aos demais. Nesse momento me aproximei e vi, pela pequena janela, todos juntos, à beira do leito do tio Antônio, abraçados e chorando, com os olhares cravados no morto.
E ouvi meu avô dizer: 
— Está tudo acabado. O sofrimento dele terminou!
Tentei ficar ali, mas não me permitiram. De qualquer maneira, arrisquei um olhar rápido no interior daquele minúsculo compartimento, e, sem compreender os motivos por que não me deixavam ver o tio Antônio, acabei por me conformar e voltei para o terreiro que circundava a casa.
Dali, eu observava que todos continuavam chorando. Meu avô e meu tio João saíram para avisar à vizinhança. Pouco a pouco, foi chegando gente. Logo a casa ficou cheia. A um canto, em sua cama rústica, estava o morto, enrijecido, com uma das pernas encurvada, aguardando ser retirado.
Intrigado, vi quando minha madrinha, Alice, passou segurando uma tesoura, dizendo:
— Vou cortar as unhas de Antônio.
Enquanto isso, Bá costurava a mortalha com que se vestiam os mortos: uma roupa branca, semelhante às vestes usadas pelos antigos.Na nossa pequena casa, os avisados eram tantos que boa parte deles se espalhou pelo terreiro. Seguindo a tradição da região, grupos se revezaram no interior do quarto para entoar litanias — cânticos fúnebres — que se estenderam por toda a noite.Cedo, na manhã seguinte, vi meu avô, chegar da mata trazendo quatro longas e resistentes varas para fazer a estrutura em que seria amarrada a rede que transportaria o cadáver para o cemitério da cidade. Observei que vovô chorava, enquanto preparava a grade.E eu lhe perguntei:
— Por que está chorando, “pai”?
— Porque se foi mais um...
Depois, vi o corpo ser colocado em uma rede branca, limpa, e esta amarrada pelos punhos às extremidades da grade, de forma a permitir que quatro homens pudessem carregá-la com as pontas de madeira apoiadas em seus ombros. Na hora da partida, a grade foi içada, tendo à frente meu avô e o tio João.
Traduzo, hoje, em palavras, o profundo sentimento de tristeza que se apoderou de mim naquele momento:
“O tio Antônio parte, sem sua viola, sem sua grande companheira. Ela agora ficará sozinha, no quarto vazio, ao lado daquele caixote cheio de poesias que falam das belezas de sua terra, de suas andanças e aventuras; saudosa dos dedos ágeis de Antônio, para fazer vibrar as suas cordas, obrigada a calar-se para sempre, como ele.”
Levaram o tio Antônio.
Fiquei sentado sobre uma pedra, no alto de uma colina, a observar o cortejo. Naquela atitude solitária eu estava me despedindo dele e gravando para sempre, em minha memória, o momento de sua última viagem. Embora eu tivesse presenciado tanto sofrimento, não conseguia entender por que não me permitiram participar da despedida.
E chorei só.



Dias depois, vi serem queimados seus papéis, suas roupas e sua viola. Suas poesias e lembranças esfumaçaram-se para sempre.
  

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