AO REVIRAR papéis amarelados pelo tempo, guardados em uma velha caixa, encontro a foto do meu avô. Então, a sua imagem surge, viva e nítida, lembrando o carinho e a dedicação que ele tinha por mim, desejando que eu crescesse distante das agruras da vida, que ele conhecia tão bem.
Passados tantos anos, afloram à minha memória os seus excessos de cuidados e os ensinamentos que ajudaram a moldar a minha personalidade, só não conseguiram apagar o sentimento de abandono causado pela separação de meus pais.
Encontro também o meu primeiro Registro Civil, datado de 20 de abril de 1939, no município de Patos/PB, cujo cartório nem sei se ainda existe.
“... foi feito hoje o assentamento de Francisco Nunes de Oliveira, nascido em 10 de janeiro de 1924, às 19 horas, em Patos, do sexo masculino, de cor branca, filho de Apolônio Nunes da Costa, natural de Patos/PB, e Severina Emilia de Oliveira, natural de João Pessoa/PB, sendo avós paternos Ezequiel Nunes da Costa e Francisca Maria da Conceição. Avós maternos...”
Eu tinha 15 anos e vivia em companhia de meu avô Ezequiel.
A minha vida, a partir daquele documento, tornou-se uma seqüência de buscas e fugas.
1º Capítulo - 1º Episódio: "...e foi assim que tudo começou..."
MEU PAI JÁ SERVIA NA FORÇA POLICIAL Do ESTADO quando conheceu, em João Pessoa, Severina Emília, minha mãe: mulata, físico desenvolvido, não muito alta, mas “um pedaço de mau caminho”, como costumavam dizer. Ambos eram jovens. Apaixonaram-se. Ela deixou a casa de seus pais e foi viver na companhia dele, contrariando sua família.
O casal logo cedo começou a experimentar problemas conjugais, pressionado pelas dificuldades financeiras. Na tentativa de levar uma vida mais simples, meu pai decidiu pedir transferência para o interior. Ficaram residindo em São João do Rio do Peixe por algum tempo. Depois, em Souza, onde nascemos eu e Ernani, que vivera apenas dois meses.
A mudança, porém, não resolveu a crise que se instalara entre eles. A separação já se anunciava e, numa última tentativa de entendimento, mudamo-nos para Patos, Rua Dezoito do Forte, 46. Pensavam que estando próximos dos parentes de meu pai suas dificuldades diminuiriam e minha mãe não se sentiria tão sozinha.
Meu avô residia na Fazenda S. Pedro, propriedade dos César, no município de Patos, um pouco distante da cidade.
Certo dia, meus pais foram a São Pedro pedir ao velho Ezequiel que ficasse comigo. Minha mãe alegava que a ruptura de sua união com meu pai era inevitável e que seria difícil, para ela, levar-me para João Pessoa. Diziam que eu merecia uma boa criação e meu avô era a única pessoa em quem eles podiam confiar. Reconheciam que ele era um homem zeloso, de personalidade forte e que transmitia grande segurança à família.
E ele não relutou.
A partir daquele dia fiquei com meu avô. Não me lembro desse momento, como também não me lembro de ter, um dia, vivido com meus pais.
Dias depois, meus pais se separaram.
Meu pai voltou para João Pessoa. Por carta, mantinha-se informado das minhas necessidades e do meu crescimento. Ele era bastante assíduo nessas correspondências e acompanhava, mesmo de longe, a vida da família.
Minha mãe permaneceu residindo na mesma casa, por algum tempo. No dia da feira, eu a visitava, levado por meu avô. De repente, minha mãe também decidiu voltar para João Pessoa, afirmando que ia morar com a família.
Dizia que tinha duas irmãs que moravam na capital e um irmão que, rapazola ainda, deixou a casa dos pais e foi para o Rio de Janeiro.
No início eu sentia saudades dela, minhas tias diziam que eu chorava muito, mas com o tempo fui me acostumando à sua ausência. De vez em quando, ela aparecia, levava-me algum presente e comentava:
— “Mestre Ezequiel” cuida de você como ninguém.
Um dia, quando eu tinha 6 anos, ela foi me visitar. Estávamos às margens do rio da Cruz, eu brincava correndo alegremente na areia. Minha mãe me chamou para ficar sentado junto dela e, como eu não lhe desse ouvidos, repetiu ameaçadoramente:
— Se tu não vier, eu te bato!
— Bate, bate! — respondi com indiferença.
Ela não perdeu tempo. Segurando um chinelo, correu na minha direção. Em ziguezague, tentei ganhar distância, mas afundei o pé na areia fofa e ela conseguiu alcançar-me. Levei umas boas chineladas.
Corri para os braços do meu avô chorando. Ele ficou exaltado e chegaram a trocar algumas palavras ásperas. Lembrou-lhe que eu estava sendo criado por ele e não por ela, que só aparecia de vez em quando. Minha mãe, contrariada, ameaçou levar-me para a sua companhia. Meu avô sentiu-se apunhalado e chorou. Ela, refletindo melhor, não cumpriu a ameaça e voltou para João Pessoa.
Continuei morando com ele na pequena casa de taipa, dividida em três quartos minúsculos e uma cozinha. O banheiro era um pequeno reservado, com telhado de folhas de coqueiro trançadas, fora da casa, tendo ao centro um buraco na terra arrematado por um vaso de barro, feito por minha tia Bá, improvisando, assim, um assento sanitário. Nessa casa moravam também meus tios, irmãos de meu pai, todos solteiros e adultos. Eu era a única criança.
(foto ilustrativa, retirada da internet)





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