segunda-feira, 11 de maio de 2020

Prefácio e 1ºCapítulo - 1º Episódio: "...e foi assim que tudo começou..."



capa do livro (ISBN 9788590761303)






















MINHA  VIDA  MEU TUDO                                                           


Prefácio


AO REVIRAR papéis amarelados pelo tempo, guardados em uma velha caixa, encontro a foto do meu avô. Então, a sua imagem surge, viva e nítida, lembrando o carinho e a dedicação que ele tinha por mim, desejando que eu crescesse distante das agruras da vida, que ele conhecia tão bem.

Passados tantos anos, afloram à minha memória os seus excessos de cuidados e os ensinamentos que ajudaram a moldar a minha personalidade, só não conseguiram apagar o sentimento de abandono causado pela separação de meus pais.

Encontro também o meu primeiro Registro Civil, datado de 20 de abril de 1939, no município de Patos/PB, cujo cartório nem sei  se ainda existe.
“... foi feito hoje o assentamento de Francisco Nunes de Oliveira, nascido em 10 de janeiro de 1924, às 19 horas, em Patos, do sexo masculino, de cor branca, filho de Apolônio Nunes da Costa, natural de Patos/PB, e Severina Emilia de Oliveira, natural de João Pessoa/PB, sendo avós paternos Ezequiel Nunes da Costa e Francisca Maria da Conceição. Avós maternos...”
Eu tinha 15 anos e vivia em companhia de meu avô Ezequiel.
A minha vida, a partir daquele documento, tornou-se uma seqüência de buscas e fugas. 


1º Capítulo - 1º Episódio: "...e foi assim que tudo começou..."

MEU PAI JÁ SERVIA NA FORÇA POLICIAL Do ESTADO quando conheceu, em João Pessoa, Severina Emília, minha mãe: mulata, físico desenvolvido, não muito alta, mas “um pedaço de mau caminho”, como costumavam dizer. Ambos eram jovens. Apaixonaram-se. Ela deixou a casa de seus pais e foi viver na companhia dele, contrariando sua família.
O casal logo cedo começou a experimentar problemas conjugais, pressionado pelas dificuldades financeiras. Na tentativa de levar uma vida mais simples, meu pai decidiu pedir transferência para o interior. Ficaram residindo em São João do Rio do Peixe por algum tempo. Depois, em Souza, onde nascemos eu e Ernani, que vivera apenas dois meses.
 A mudança, porém, não resolveu a crise que se instalara entre eles. A separação já se anunciava e, numa última tentativa de entendimento, mudamo-nos para Patos, Rua Dezoito do Forte, 46. Pensavam que estando próximos dos parentes de meu pai suas dificuldades diminuiriam e minha mãe não se sentiria tão sozinha.
  Meu avô residia na Fazenda S. Pedro, propriedade dos César, no município de Patos, um pouco distante da cidade. 
 Certo dia, meus pais foram a São Pedro pedir ao velho Ezequiel que ficasse comigo. Minha mãe alegava que a ruptura de sua união com meu pai era inevitável e que seria difícil, para ela, levar-me para João Pessoa. Diziam que eu merecia uma boa criação e meu avô era a única pessoa em quem eles podiam confiar. Reconheciam que ele era um homem zeloso, de personalidade forte e que transmitia grande segurança à família.
E ele não relutou.
Eu tinha três anos.
A partir daquele dia fiquei com meu avô. Não me lembro desse momento, como também não me lembro de ter, um dia, vivido com meus pais.

Dias depois, meus pais se separaram.
Meu pai voltou para João Pessoa. Por carta, mantinha-se informado das minhas necessidades e do meu crescimento. Ele era bastante assíduo nessas correspondências e acompanhava, mesmo de longe, a vida da família.
 Minha mãe permaneceu residindo na mesma casa, por algum tempo. No dia da feira, eu a visitava, levado por meu avô. De repente, minha mãe também decidiu voltar para João Pessoa, afirmando que ia morar com a família.
Dizia que tinha duas irmãs que moravam na capital e um irmão que, rapazola ainda, deixou a casa dos pais e foi para o Rio de Janeiro. 
No início eu sentia saudades dela, minhas tias diziam que eu chorava muito, mas com o tempo fui me acostumando à sua ausência. De vez em quando, ela aparecia, levava-me algum presente e comentava:
 — “Mestre Ezequiel” cuida de você como ninguém.
        Um dia, quando eu tinha 6 anos, ela foi me visitar. Estávamos às margens do rio da Cruz, eu brincava correndo alegremente na areia. Minha mãe me chamou para ficar sentado junto dela e, como eu não lhe desse ouvidos, repetiu ameaçadoramente:
— Se tu não vier, eu te bato!
— Bate, bate! — respondi com indiferença.
 Ela não perdeu tempo. Segurando um chinelo, correu na minha direção. Em ziguezague, tentei ganhar distância, mas afundei o pé na areia fofa e ela conseguiu alcançar-me. Levei umas boas chineladas.
 Corri para os braços do meu avô chorando. Ele ficou exaltado e chegaram a trocar algumas palavras ásperas. Lembrou-lhe que eu estava sendo criado por ele e não por ela, que só aparecia de vez em quando. Minha mãe, contrariada, ameaçou levar-me para a sua companhia. Meu avô sentiu-se apunhalado e chorou. Ela, refletindo melhor, não cumpriu a ameaça e voltou para João Pessoa.
 Continuei morando com ele na  pequena casa de taipa, dividida em três quartos minúsculos e uma cozinha. O banheiro era um pequeno reservado, com telhado de folhas de coqueiro trançadas, fora da casa, tendo ao centro um buraco na terra arrematado por um vaso de barro, feito por minha tia Bá, improvisando, assim, um assento sanitário.  Nessa casa moravam também meus tios, irmãos de meu pai, todos solteiros e adultos. Eu era a única criança.  
            
                   (foto ilustrativa, retirada da internet)  
foto apenas ilustrativa, retirada da internet                                                                                                                        

                                                                                                                                   



5 comentários:

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  2. Uma História de amor superação e fé, fiquei emocionada várias vezes por conhecer uma mulher que insistiu em seus objetivos, me orgulho de conhecer e trabalhar com uma pessoa que com braço de ferro coordenava um imenso Colégio como o CPII mas que tinha um coração açucarado! Um beijo grande para essa família que desconhece a palavra desistir!
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    1. Amiga Lu, companheira e parceira de tantos momentos difíceis, de tantas lágrimas e de tantas alegrias. Agradeço as suas palavras e sei da importância delas para quem viveu aquele período no nosso amado CPII. A nossa amizade e carinho é o resultado daqueles momentos.
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  3. Parabéns, minha amiga, pela iniciativa de disponibilizar, online, as páginas do livro "Minha Vida Meu Tudo" de autoria de Francisco Nunes da Costa, seu esposo, de cuja origem nordestina eu tenho a honra de pertencer. Para quem acredita em destino, ao ler o livro, poderá chegar facilmente à conclusão de que ele, o destino, está "escrito nas estrelas". Para quem acredita que nada é por acaso, a cada capítulo poderá reforçar a sua crença, e na medida em que mergulha no "drama" ou na "trama" da vida do casal compreende que é o amor o elemento essencial de nossas vidas capaz de nos levar para os caminhos da felicidade. Eu concluo dizendo que o que os uniu não foi o destino, tampouco o acaso, foi o imenso amor que desabrochou, floresceu e frutificou, deixando para a posteridade uma lição de vida: Não desista, não desista nunca, por maiores que sejam as adversidades. Beijos, querida, irei acompanhar suas postagens, agora com menos pressa de saber o final dessa linda história de amor, pois além de já ter lido o livro, tive o privilégio de conhecer pessoalmente os personagens envolvidos. Recomendo aos meus amigos, na certeza de que tirarão muito proveito dessa leitura, pela tenacidade, coragem e determinação na marcante trajetória de vida, ora escrita e publicada, tendo como base fatos reais.
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  4. Amiga, mais uma vez agradecemos as suas palavras sinceras e cheias de poesia. Nós podemos sim nos orgulhar da nossa história de muita luta e também de muito amor, mas o que mais nos orgulha nesse nosso caminhar é termos encontrado pessoas maravilhosas como você, Lusa, e seu esposo Carlos Vilar.
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1ºCapítulo - 2º Episódio: "Na fazenda de São Pedro..."



NA FAZENDA SÃO PEDRO, em Patos, vivi grandes emoções. Por isso, as lembranças mais ricas da minha infância se concentram naquele pedaço de terra banhado pelo rio da Cruz.
Nossa casa ficava às suas margens. Quando enchia, as águas se aproximavam e ficávamos todos tomados de medo, embora criasse uma visão maravilhosa que jamais esquecerei. Suas águas se espalhavam devastando as plantações, numa demonstração de força contra a qual não adiantava reclamar. Todos lamentavam os prejuízos. Eu contemplava aquele espetáculo e o achava indescritível. Melancias e jerimuns passavam boiando, carregados pela correnteza, fazendo-me dar muitas gargalhadas.  Quando as águas baixavam, meu avô e minhas tias iam ver o estrago.
— O que não foi levado, ficou debaixo da lama — diziam.
E, em atitude contemplativa, meu avô balbuciava palavras de desencanto:
— Este será um ano de grandes dificuldades!
            O milho, o feijão e a mandioca, prioritários para nossa subsistência, dificilmente eram aproveitados, devido à lama deixada pela enchente e ao sol que vinha depois. Era desolador! Mas aquilo era a natureza em toda a sua força desafiadora, passando diante de nós, alheia a qualquer protesto. Então, após o escoamento das águas, tínhamos que esperar que a chuva lavasse a lama, para então formar o mutirão em que todos tomavam parte, eu inclusive, numa tentativa de aproveitar o que ainda poderia ser salvo da plantação. Geralmente não se aproveitava muita coisa, mas sempre se garantia uma pequena colheita.

Além dessa imagem que guardo do rio da Cruz, afloram-me muitas outras, da Fazenda São Pedro, que eu considero inesquecíveis.
Lá começou o meu mundo, conduzido pela mão rude, mas honesta, do meu avô Ezequiel. Carinho nunca me faltou, pois meu avô, de vez em quando, sentava-se ao meu lado, passava o braço pelos meus ombros, puxava minha cabeça contra o seu peito, demonstrando o imenso prazer que esse gesto lhe causava, apesar de não ser hábito das pessoas daquela época demonstrar seus sentimentos através de beijos, abraços e outros afagos.

Meu avô se orgulhava da sua condição de sertanejo e homem do campo.
            Não temia caminhar pelo mato nem temia as onças que ele sabia existir na região. Ia diariamente apanhar lenha na mata fechada e não pensava na possibilidade de deparar-se com algum daqueles felinos, por mais fantásticas que fossem as estórias contadas por caçadores, seus conhecidos. Se alguém se mostrasse temeroso, dizia:
— Estou nesta idade e jamais vi algo que me assombrasse nas minhas andanças pelo mato.
Ele comentava que as pessoas supunham ver, de vez em quando, onças-pintadas vindas de serras e grutas. Mas o único felino pintado que ele viu, por aquelas terras, foi o gato maracajá. Dizia que as pessoas confundiam um animal com outro. Afirmava que a onça comum, cor de veado, geralmente aparecia dentro de matas densas, para as bandas da Borborema. Mas, mesmo esta, era rara. Lembro-me do dia em que Provedor, cachorro grande e valente, atacou uma delas, na mata, deixando-a sangrar até à morte.


(foto retirada da internet)

Meu avô conversava muito comigo, como se desejasse ensinar-me todas as coisas que ele havia aprendido. Conhecia como ninguém os segredos da mata e de suas criaturas. Era capaz de traduzir com impressionante sabedoria as manifestações da natureza através da direção do vento ou do deslocamento das nuvens no céu.

Entendia o canto dos pássaros.
concriz
Parava, concentrado, para escutá-los. O concriz, de linda plumagem preta e amarela, era o seu preferido por sua beleza e por seu canto parecido com o do sabiá.
Fascinavam-no o voo e as evoluções incrivelmente rápidas dos beija-flores. 
Ficava a acompanhá-los com o olhar interrogativo, tentando compreender a rapidez de suas asas. 
canário da terra


O canto do canário-da-terra exercia sobre ele uma espécie de magia. Dizia que o canário era o guardião da floresta e seu silvo uma saudação às pessoas do lugar. Admirava a beleza do galo-de-campina, como também a excentricidade do bacurau — uma ave noturna de pernas curtas que ficava parada, agachada no chão, e, quando alguém se aproximava, pulava, distanciando-se, produzindo um piado chiante.


bacurau
galo de campina

Preocupava-se com o piado agourento da coruja dentro da noite, porque considerava aquilo um mau presságio, um aviso que, muitas vezes, confirmava-se.
Era também, por tradição, apaixonado pela agricultura.
Trabalhava a terra com grande dedicação para que ela fosse fértil e produzisse os alimentos necessários.
A região onde ficava a Fazenda São Pedro produzia de tudo. Era uma área beneficiada pela qualidade da terra. E tinha uma paisagem fascinante, pontilhada de frondosos juazeiros, oitizeiros e ingazeiras, sob cujas sombras costumávamos descansarA mata densa, formada por grandes juremais e altas faveleiras, de onde meu avô retirava a lenha, também fazia parte desse seu mundo. 
Umbuzeiro


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1ºCapítulo - 3º Episódio: "Aprendendo a viver..."





Quando eu me afastava da casa e ia até as grandes pedras próximas, ouvia o grito de uma das tias:
— Cuidado, Chiquinho! Tu estás te arriscando muito. Papai disse que por aqui tem onça e também caipora!




O caipora era descrito por elas como sendo um molequinho barrigudo, de cabelos encarapinhados, olhos grandes, que, ao encontrar alguém na mata, costumava pedir fumo, para alimentar seu vício. Se não fosse atendido, batia com uma chibata. Muitas pessoas diziam que já haviam encontrado esse moleque e recebido grandes surras. No íntimo, eu ficava amedrontado.
       Na água, diziam que eu devia ter medo da moça de cabelos longos, que costumava amarrar as crianças em suas tranças e sumir com elas na correnteza do rio. Nas grutas, eu devia temer as onças. Além disso, falavam em mal-assombro na várzea e de pequenas luzes debaixo dos frondosos cajueiros e juazeiros. Com tudo isso assustavam-me para que eu não fosse brincar distante de nossa casa.
       Durante a infância, temi inocentemente todas essas crendices. Aos poucos, fui me soltando e, por intuição, logo me senti dono de todo aquele esplêndido mundo agreste.  Passei a me relacionar com a natureza sem nenhum temor. Percebi que a orientação que me era transmitida capacitava-me, unicamente, para enxergar o mundo ao meu redor. Devia eu aprender a falar com o “espírito silvestre”, compreender a sua linguagem maravilhosa no diálogo com as plantas, com os pássaros e outros animais, com o riacho, com a chuva e até com os relâmpagos e trovões, que eu tanto temia.
Nas noites de tempestades, meu avô juntava foices, enxadas e machados num canto da casa e os envolvia em sacos de estopa para isolá-los da fúria dos relâmpagos. O mesmo ele fazia com os pequenos espelhos que tínhamos pendurados nas paredes. Até hoje temo as tempestades. 

Em São Pedro sempre recebíamos visitas de familiares que residiam na Serra do Teixeira e nas proximidades, ou de violeiros da região. Sabiam que seriam bem recebidos e nos traziam presentes, geralmente víveres, que eram aceitos com alegria. Eu ficava muito animado quando essas visitas vinham acompanhadas de seus filhos, pois com eles eu tinha diversão garantida enquanto seus pais demorassem na prosa ou na cantoria, e, na despedida, eu prestava atenção se nos convidavam para que os visitássemos.
Esses momentos de simplicidade emolduram na minha mente a figura eternamente viva de meu avô, Ezequiel Nunes da Costa: físico bem distribuído, pele seca, avermelhada e enrugada, cabeleira branca, gestos desembaraçados e andar firme, apesar da idade.
Muito conservador com relação a costumes e hábitos familiares, rigoroso quanto ao horário de repouso e à hora da alimentação, fazia questão que fossem servidos almoço, jantar e ceia, diariamente. Seu único vício consistia em tragar um cigarro de palha feito de fumo de rolo que ele próprio, pacientemente, preparava.
Viúvo, demonstrava o quanto sentia a ausência da companheira Francisca, e procurava ignorar deliberadamente a existência de outras mulheres. Jamais nos chegou a notícia de que tivesse alguma inclinação romântica. Levava uma vida cheia de angústias e recordações. Na sua idade bem vivida, conquistara o respeito na redondeza, mostrando sempre uma conduta irrepreensível. Era admirado por todos.


Vovó, eu não conheci. Faleceu em 1905.
O retrato verbal que vovô desenhara dela, e que se perpetuou em todos nós, deixava extravasar, nas suas descrições, uma profunda ternura, terminando sempre com uma lágrima. Eu nunca soube da história de amor que os envolveu nem o motivo que os levou ao isolamento, fazendo com que meu avô vivesse afastado de seu pai.
Vez por outra, ele se reportava aos velhos tempos, com saudades, afirmando que seu pai, Nicandro, era de família tradicional e conceituada nas cercanias de Teixeira e Riacho Verde. Nesses lampejos de saudade, lamentava não ter ido vê-lo antes de sua morte, apesar da pequena distância que os separava.
Hoje, lembro-me dos seus momentos de nostalgia e lamento não ter tido curiosidade para indagar sobre seu passado. Fico imaginando os possíveis porquês daquele isolamento para viver exclusivamente seu grande e breve amor com Francisca Maria da Conceição.
Vovó e seu filho Alfredo faleceram vitimados pela varíola, a terrível doença da época. Foram sepultados, um ao lado do outro, em um matagal que havia na vizinha Fazenda Jatobá, a pouca distância de nossa casa.
 Naquele tempo, as pessoas que faleciam vitimadas pela varíola não podiam ser sepultadas em cemitérios públicos, e suas famílias as sepultavam em algum lugar não habitado da mata, onde jamais fosse feito qualquer plantio.
Adicionar legenda
Lembro-me da primeira vez em que vi o santuário de meu avô, onde ficou sepultado também todo o mistério de sua vida. Era domingo. Dia de Finados. Ele próprio fez duas cruzes de madeira, pintou cuidadosamente os nomes de vovó Francisca e do tio Alfredo, reuniu a família e nos embrenhamos pelo matagal até encontrarmos as duas sepulturas, à margem de um caminho, cobertas de mato e pedra, que ele, com zelo, limpou e depois fincou nelas as novas cruzes que fizera. Oramos.
Meu avô sempre visitava esse lugar como um preito de saudades àqueles dois entes queridos. Às vezes eu o seguia naquele ritual, sem nada entender. Mas, embora criança, já podia perceber o verdadeiro sentido das suas palavras, quando dizia: “Em Jatobá está a metade de mim!” E, assim, ele curtia o vazio de sua viuvez, como se tivesse feito um juramento de nunca dividir com outra mulher suas alegrias ou angústias. Preferiu levar uma vida povoada de recordações, acompanhado apenas dos seus filhos: Maria, Alice, Nicodemos, Apolônio, Antônio, João, Eufrozina e Inocência. 


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1ºCapítulo - 4º Episódio: "...conhecendo a doença e a morte..."







MARIA, OU BÁ COMO A CHAMÁVAMOS, era a mais velha dos filhos e sabia desempenhar muito bem o papel de mãe extremosa de uma família numerosa, sem reclamar da missão que o destino lhe reservou. Recordo-a franzina, cabelos lisos, olhar triste, tranqüila, já meio madura e com bastante eficiência na lida da casa, função que assumira após a morte de vovó, quando tinha apenas dez anos de idade. Meu avô a consultava nos momentos de decisões, pois sua opinião era sempre consciente e equilibrada. Ninguém a desobedecia e suas determinações eram acatadas sem discussão.
Era uma mulher prendada. Operava um pequeno tear, feito artesanalmente por João, para tecer as redes e mantas de uso da casa. Com suas mãos franzinas, trabalhava no fuso, pacientemente, o fio de algodão, algumas vezes ajudada pelas mãos de tia Alice.
Transformava qualquer corte de tecido em camisas e calças para os homens e vestidos, saias e blusas para as mulheres, costurando-os em uma velha máquina movida a manivela. As roupas femininas eram adornadas com mimosas rendas brancas feitas por ela e tia Alice na almofada de bilros.
Com habilidade manual e grande espírito criativo, Bá amassava e trabalhava o barro criando peças resistentes e perfeitas. Esmerava-se na modelagem de peças utilitárias, como alguidar, panela, cuscuzeira, moringa e pote com tampa, que eram utilizadas em nossa casa e muito admiradas por todos que nos visitavam. Pena que o tempo que lhe sobrava dos afazeres domésticos, sempre dedicado a tantos filhos-irmãos, não lhe permitiu crescer na arte do barro.

foto ilustrativa, retirada da internet
DOS FILHOS DO MEU AVÔ, Antônio foi o único que se destacou na poesia. Era, pela ordem, o sétimo dos nove filhos. Jovem ainda saiu de casa em busca da glória em outras terras. Jamais aceitou viver em São Pedro, cuidando da lavoura, limitado às condições e às imposições dos senhores da terra. Vivia como andarilho, percorrendo o sertão, sempre cantando e dedilhando sua viola, alegrando as pessoas com versos que destacavam as belezas da região. De vez em quando, aparecia em São Pedro.
Depois de percorrer meio mundo, um dia, Antônio chegou seriamente doente, quase não conseguia andar. Fora surpreendido por uma enfermidade desconhecida e, quando não lhe restavam mais forças para as andanças, resolveu tomar a difícil decisão de voltar à casa paterna, para aguardar seu fim, contemplando o manso rio da Cruz que o  inspirou tantas vezes e em cujas águas brincara na infância.
Meu avô recebeu-o com um carinhoso abraço.
 A viola e os poucos pertences que trazia foram colocados em um canto da casa e, logo depois, meu avô se embrenhou na mata. Retornou trazendo umas poucas varas delgadas escolhidas com cuidado e, cruzando umas sobre as outras, construiu uma cama, na qual Antônio se deitou e passou a viver seus dias de agonia.
Seu estado de saúde era penoso e agravava-se a cada anoitecer, sua resistência desaparecia rapidamente, como também as esperanças da família. De vez em quando, Bá, a irmã mais velha, entrava em seu quarto para levar-lhe alguma ajuda. 
Com o olhar distante, Antônio via a paisagem sem qualquer emoção, como se tudo que um dia servira de inspiração para seus versos tivesse perdido o encanto, reduzindo-o a um vulgar espectador, transformado em farrapo, apodrecendo aos poucos sobre uma cama de varas, forrada com um velho cobertor, malcheiroso devido à purulência de suas chagas. Ali, aguardava o fim. Minhas tias falavam que ele fora vítima de um catimbó feito por uma mulher que ele conhecera. Verdade? Não sei.
Conformar-se diante de tão trágica realidade era impossível, mas, a cada dia que passava, a enfermidade o destruía com maior intensidade, e o pobre poeta, qual um náufrago, agarrava-se a um galho de vida que lhe restava para, entre lamentações e lembranças de sua infância, juventude e aventuras, despedir-se arrependido por ter  vivido afastado da família, causando sofrimento às pessoas que o amavam.
Esses desabafos soavam de sua alma como um pedido de desculpas, ao mesmo tempo em que, como qualquer criatura temente a Deus, fazia um pedido de clemência. Depois, mergulhava em silêncio profundo, pois sabia que não tinha direito de reclamar inutilmente.
Meu avô construiu uma puxada na casa e ali o tio Antônio permanecia imóvel, o olhar fixo no teto, emitindo de vez em quando longos gemidos. Era uma verdadeira “câmara mortuária” na qual eu era proibido de entrar. Seu corpo extenuado e esquálido já não aceitava o alimento. Porém, Bá, sua fiel escudeira, permanecia ao seu lado, virava-lhe o corpo sobre a cama improvisada, trocava os panos com cheiro de clorofórmio e de creolina, já que diariamente ela despejava certa quantidade daqueles fedorentos líquidos em uma enorme ferida que lhe devorava a face esquerda. Era possível ver alguns pequenos bichos agitando-se entre ossos desnudos, uma visão dantesca! Bá cumpria sua missão com absoluta abnegação.
Bá e Antônio, desde crianças, sempre foram bons amigos, e por isso ele a escolheu como co-participante de seu sofrimento. “Badi”, era como ele a chamava, e ela, carinhosamente, dispunha-se a atendê-lo em todas as necessidades. Quando ela entrava no aposento percebia-se que sua presença era um bálsamo. Só ela sabia encher de consolo o mundo interior daquele resto humano. E isso Bá fazia muito bem, já que sempre dedicou aos irmãos atenções maternais.
Certa manhã, meu avô chegou do roçado antes do habitual e sentou-se na rede, preocupado. Tio Antônio havia sofrido muito na noite anterior, todos pensavam que ele não viveria até o amanhecer. Lá de dentro ouviam-se seus gemidos enfraquecidos que morriam abafados na garganta obstruída pelos bichos.
De repente, ouviu-se um sussurro estranho e Bá correu para ver o que estava acontecendo. Voltou rápido, gritando:
— Antônio está morrendo! Depressa!
— Meu Deus! — gritou meu avô, levantando-se ligeiro em direção ao pequeno aposento do filho.
Foi um grande alvoroço!
Minha tia Alice rapidamente me segurou pela mão e, levando-me para um canto do terreiro, disse:
— Você não pode entrar. Fique aqui fora.
De onde eu estava, podia ouvir o vozerio e a inquietação de todos administrando uma espécie de extrema-unção. Fez-se um sepulcral silêncio. Tia Alice correu e foi juntar-se aos demais. Nesse momento me aproximei e vi, pela pequena janela, todos juntos, à beira do leito do tio Antônio, abraçados e chorando, com os olhares cravados no morto.
E ouvi meu avô dizer: 
— Está tudo acabado. O sofrimento dele terminou!
Tentei ficar ali, mas não me permitiram. De qualquer maneira, arrisquei um olhar rápido no interior daquele minúsculo compartimento, e, sem compreender os motivos por que não me deixavam ver o tio Antônio, acabei por me conformar e voltei para o terreiro que circundava a casa.
Dali, eu observava que todos continuavam chorando. Meu avô e meu tio João saíram para avisar à vizinhança. Pouco a pouco, foi chegando gente. Logo a casa ficou cheia. A um canto, em sua cama rústica, estava o morto, enrijecido, com uma das pernas encurvada, aguardando ser retirado.
Intrigado, vi quando minha madrinha, Alice, passou segurando uma tesoura, dizendo:
— Vou cortar as unhas de Antônio.
Enquanto isso, Bá costurava a mortalha com que se vestiam os mortos: uma roupa branca, semelhante às vestes usadas pelos antigos.Na nossa pequena casa, os avisados eram tantos que boa parte deles se espalhou pelo terreiro. Seguindo a tradição da região, grupos se revezaram no interior do quarto para entoar litanias — cânticos fúnebres — que se estenderam por toda a noite.Cedo, na manhã seguinte, vi meu avô, chegar da mata trazendo quatro longas e resistentes varas para fazer a estrutura em que seria amarrada a rede que transportaria o cadáver para o cemitério da cidade. Observei que vovô chorava, enquanto preparava a grade.E eu lhe perguntei:
— Por que está chorando, “pai”?
— Porque se foi mais um...
Depois, vi o corpo ser colocado em uma rede branca, limpa, e esta amarrada pelos punhos às extremidades da grade, de forma a permitir que quatro homens pudessem carregá-la com as pontas de madeira apoiadas em seus ombros. Na hora da partida, a grade foi içada, tendo à frente meu avô e o tio João.
Traduzo, hoje, em palavras, o profundo sentimento de tristeza que se apoderou de mim naquele momento:
“O tio Antônio parte, sem sua viola, sem sua grande companheira. Ela agora ficará sozinha, no quarto vazio, ao lado daquele caixote cheio de poesias que falam das belezas de sua terra, de suas andanças e aventuras; saudosa dos dedos ágeis de Antônio, para fazer vibrar as suas cordas, obrigada a calar-se para sempre, como ele.”
Levaram o tio Antônio.
Fiquei sentado sobre uma pedra, no alto de uma colina, a observar o cortejo. Naquela atitude solitária eu estava me despedindo dele e gravando para sempre, em minha memória, o momento de sua última viagem. Embora eu tivesse presenciado tanto sofrimento, não conseguia entender por que não me permitiram participar da despedida.
E chorei só.



Dias depois, vi serem queimados seus papéis, suas roupas e sua viola. Suas poesias e lembranças esfumaçaram-se para sempre.
  

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1ºCapítulo - 5º Episódio: "A Revolução de 30"


1930. NAQUELE TEMPO, falava-se muito em “Revolução”, esse era o assunto em todas as rodas de conversa. Havia inquietação geral e as pessoas quando voltavam da cidade transmitiam para os que moravam na roça tudo o que ouviram.


Julio Prestes
Getúlio Vargas














Não obstante ser tão criança ainda, eu ouvia com atenção os comentários e gravei bem os nomes de Getúlio Vargas e Julio Prestes, ambos muito falados. Diziam que eram homens importantes e que por suas divergências políticas poderiam desencadear uma revolução. Diziam, ainda, que muito longe de nós estava se formando um foco de rebeldia e que esse movimento poderia chegar à Paraíba do Norte onde o Presidente do Estado (governador), João Pessoa, da corrente Liberal, fazia oposição à corrente Perrepista (PRP — Partido Republicano Paulista), encabeçada por Julio Prestes. Mas essa história de partidos e apoio político eu só fui entender tempos depois.

João Pessoa
À medida que o tempo passava, aumentava nas pessoas o medo de que a revolução, caso chegasse à Paraíba, produzisse verdadeiras misérias, como assassinatos, queima de residências e outras atrocidades.
Em Patos, o assunto era esse. As notícias circulavam de boca em boca. Meu avô ia à cidade, para conversar e colher informações sobre os movimentos e, quando voltava, comentava e recomendava para que não disséssemos nada, porque era muito perigoso.
— Na capital, as coisas já começaram a ferver — dizia.
João Pessoa contrariava interesses de grupos poderosos ligados à cultura do algodão e da cana-de-açúcar. Porém, conseguiu o apoio de comerciantes, mulheres, estudantes e funcionários públicos, principalmente da capital.
Não tardou muito para que a revolução explodisse no sertão, principalmente em Teixeira e Princesa, dominadas por poderosos coronéis, que lançaram mão de grupos de cangaceiros bem armados para enfrentar a polícia.
Eu sentia a preocupação das pessoas e, ainda que não entendesse o que aquilo poderia significar, percebia que minhas tias estavam intranquilas com relação ao meu pai. Temiam que, sendo ele militar, poderia, a qualquer momento, integrar a Força que a Paraíba estaria enviando para combater grupos rebeldes naquelas cidades.
Meu pai escreveu uma carta, na qual confirmava as nossas suspeitas: sua Unidade seguiria, a qualquer momento, para Princesa ou Teixeira, e ele iria a São Pedro, rapidamente, para deixar a família aos cuidados de meu avô. Todos choraram ao ler a carta, devido ao tom alarmante e preocupante de suas palavras.
O clima estava tenso. Recordo que numa segunda-feira, eu e meu avô, no final da tarde, retornávamos da cidade, caminhando calmamente pela estrada. Ele carregando sobre o ombro um pesado saco com as compras e eu seguindo à sua frente, chutando pedaços de qualquer coisa para me divertir. Subitamente, percebemos um barulho estranho à nossa retaguarda, na estrada, aproximando-se. Meu avô pediu-me para apressar o passo. Olhei para trás e disse-lhe entre assustado e impressionado:
— Pai! São muitos soldados! E tem também caminhões!
Estávamos próximo do caminho que levava para a nossa casa quando a tropa emparelhou conosco. Meu avô disse em voz baixa:
— É a Revolução, não olhe Chiquinho!
Eu queria muito olhar. Aquele movimento diferente me deixava curioso. Consegui ver que nos caminhões havia armas grandes, e me imaginei em cima de um deles, junto com os soldados que pareciam estar muito alegres.
O medo tomou conta do meu avô e me tirou daquele momento de fantasia. Fui contagiado pelo mesmo sentimento de pavor que o invadia. Lembro que quase nem podíamos caminhar. Eu tropeçava em suas pernas, enquanto ele, firme, cabeça ereta, acelerava os passos e me empurrava para a frente, forçando a não me deter naquelas imagens. Ele sabia que eram as forças leais ao governo que seguiam para Princesa e Teixeira com a finalidade de sufocar os grupos rebeldes. Mesmo assim, ao ver tantos soldados em barulhenta algazarra, alguns parecendo embriagados, meu avô ficou muito nervoso e repetiu:
— Ande depressa! Não olhe para eles!
E os soldados, ao passarem por nós, pilheriavam e insultavam meu avô: “Ei, velho!”,  como se pretendessem provocar uma reação que justificasse a prática de algum ato perverso.
Aos poucos, o pesadelo foi se distanciando. Ficamos para trás, caminhando e nos refazendo daquele clima de terror por que acabávamos de passar.
Em casa, aliviados do medo e livres das ameaças, ainda ouvíamos, ao longe, o alarido dos soldados. Eu não entendia o porquê de tanta algazarra e tanta euforia, pois diziam que muitos soldados morrem na luta e nunca mais voltam para suas casas.
Pairava sobre toda a região uma atmosfera de pavor, exigindo que cada um se precavesse contra possíveis desajustes emocionais de algum daqueles soldados que, no afã de estar indo para o campo de batalha, poderia praticar uma ação criminosa em nome da causa que ele estava defendendo. Bá e Inocência, a todo instante, arriscavam uma olhadela nas proximidades da casa, preocupadas com os soldados.
Devido ao clima aterrorizante, as portas das casas eram fechadas ao cair da noite, quando todos se recolhiam, como naquela segunda-feira, por se temer que alguns soldados se desviassem da estrada e as invadissem. Diziam que eles, por onde passavam, deixavam marcas de grande vandalismo: casas destruídas ou saqueadas, mulheres agredidas ou violentadas.
Nesse clima ameaçador, meu pai era permanentemente lembrado, e eu via minhas tias em súplicas fervorosas a Deus para que o protegesse.
Soubemos que ele havia partido, e só.
Em uma carta, antes de partir, ele próprio disse que não poderia enviar notícias e sabia que sua mulher e filhas estavam protegidas em nossa casa.
Dias depois, soubemos que meu pai também passara por ali integrando um novo contingente policial, sob o comando do major João Costa, da Força Policial da Paraíba.

foto retirada da internet, Princesa Isabel 1930
Na cidade corriam boatos de que havia muitos mortos em batalha. E imaginávamos que meu pai poderia ser um daqueles. A dúvida sobre se ele estaria morto ou ferido e a incerteza de como e quando seria a sua volta nos deixava profundamente angustiados.
Nesse cenário, ganhei um broche com o retrato de Juarez Távora. Orgulhoso, o coloquei no peito e minhas tias foram logo me prevenindo:
— Se te perguntarem qual é o teu partido, deves responder: Partido Liberal. 
Quinzenalmente eu acompanhava meu avô à cidade onde ele comparecia ao Quartel da Força Policial e recebia parte dos vencimentos de meu pai, que seriam utilizados nas despesas de sua família, enquanto ela estivesse conosco.

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Um dia, espalhou-se a notícia apavorante:
— Mataram João Pessoa!



O assunto correu como um rastilho de pólvora. Imediatamente, por toda parte, havia pessoas curiosas por mais notícias. Espalhados pela cidade, viam-se piquetes e soldados com seus fuzis ensarilhados sob o olhar dos civis. A revolta do povo era grande já que João Pessoa era muito estimado. No país, a revolução parcialmente reprimida, de repente tomou impulso, tendo como bandeira o sacrifício do presidente paraibano, que culminou com os acontecimentos políticos de outubro de 1930. 
Finalmente, tempos depois, as escaramuças foram contidas e meu pai escreveu comunicando que estava se apresentando, são e salvo, à sede da Força, na capital.
Os movimentos revolucionários haviam cessado, no Estado. Meu pai pôde voltar para casa. Lembro a grande alegria que tomou conta de nós, naquele dia. Ele chegou a São Pedro inesperadamente. Eu estava brincando com as meninas em cima do lajedo e ouvi quando minhas tias gritaram:
— Graças a Deus você voltou!
Corremos para casa. As meninas agarraram-se a ele solicitando carinho. Mariinha, sua esposa, quase nem podia dar vazão à sua saudade. As tias, entre risos e choros, tentavam abraçá-lo, emocionadas. Eu consegui furar aquela barreira feminina e também o abracei. Meu avô contemplava de perto a cena e, feliz, agradecia a Deus por tudo que assistia. Esse momento de reencontro nunca se apagou de minha mente. Eu o via como resultado das muitas orações que fui obrigado a fazer, reunido com minhas tias para que nada acontecesse a meu pai nas lutas de que ele participava em Princesa Isabel. 
Depois disso, meu pai, ainda traumatizado pelas experiências vividas no campo de batalha, nos contou os horrores por que passara com seus companheiros; os momentos de privação e de desânimo; as vezes que tiveram que se alimentar de milho cru e beber água suja; as noites mal dormidas protegendo-se dos cangaceiros e das muriçocas. Eu ficava calado, boquiaberto, imaginando meu pai como um grande herói, já que nenhuma daquelas balas inimigas o atingiu.
Meu pai foi promovido ao posto de sargento e passou a integrar o destacamento de Patos.  Alugou a mesma casa na Rua Dezoito do Forte, onde viveu com a minha mãe. E, nessa casa, passou a residir com Mariinha e as filhas. 
Mariinha tinha a pele morena bem queimada, era rechonchuda, de olhos negros, com acentuadas características indígenas. Não hesitara em se unir ao meu pai e formar uma família quando se apaixonaram em João Pessoa. As meninas eram lindas e sadias, Dulcídia tinha três anos e Diva um ano e meio.
Lembro-me exatamente de suas feições, pois no tempo que ficaram em São Pedro nos tornamos grandes amigos. Dulcídia era magra e tinha cabelos crespos, olhos pequenos e claros, voz meiga, gestos moderados. Diva era miudinha, olhos claros e meigos, cabelos claros e escassos, sempre arrumados no alto da cabeça formando um coque. Caía à toa e só balbuciava algumas poucas palavras. Eram, ambas, muito apegadas ao meu pai.
Passado algum tempo, Dulcídia contraiu sarampo - doença que se alastrava na região, matando muitas crianças. Uma febre alta, insistente, acompanhada de vômitos constantes fê-la, de repente, cair em estado de prostração, ficando com a fisionomia muito abatida, profundamente pálida. Seus movimentos foram desaparecendo e, finalmente, Dulcídia morreu em pouco mais de uma semana. Ficaram as insinuações nas perguntas: “Será que a morte de Dulcídia poderia ter sido evitada?” “Teria havido negligência da mãe?” “Seria culpa do rudimentar tratamento à base de ervas, tão comum na região?”
Meu pai chorou muito. Andava na calçada de um lado para outro, parava na porta da casa, de vez em quando, não querendo acreditar no que estava acontecendo. Ora apertava as mãos, inconsolado, ora as pressionava contra a fronte ou comprimindo a nuca. A um canto da sala, cabisbaixos, estavam meu avô, agarrando o seu chapéu de couro com as mãos trêmulas, e minhas tias, rezando o terço. Todos choravam. E quando o pequenino esquife branco ia ser fechado, conduziram-me até ele e me mostraram Dulcídia entre muitas flores. O ambiente tinha, para mim, um aspecto muito estranho. Parecia que ninguém sabia o que dizer ou fazer.
Vi que o sol caminhava para a sua despedida. Uma nesga de luz apareceu, transversalmente, através da janela e invadiu a sala com uma cor dourada, como um sinal, e alguém disse:
— Já é hora de levar!
Aquele foi um momento de muita dor. Vi o pequeno ataúde com Dulcídia ser levado por uma multidão. Fiquei ali, sentado na beira da calçada, sozinho. Não me deixaram acompanhar, mas ouvi de meu avô e de minhas tias, quando voltaram do cemitério, que foi muito triste a descida do corpo. Meu pai e Mariinha caíram em total descontrole ao verem o caixão de Dulcídia ser colocado na sepultura e tiveram, a grande custo, que ser retirados do local.
Era fim de tarde quando voltamos para São Pedro. Enquanto caminhávamos, lastimávamos a terrível tragédia da morte de Dulcídia e o estado deplorável em que ficou meu pai. Eu não sabia se sofria pela perda de minha irmã e amiga de brincadeiras ou pelo sofrimento dele.
Não havia se passado um mês e Diva também contraiu sarampo. Dulcídia e sua morte ainda estavam bem nítidas para nós. No entanto, um fantasma idêntico parecia estar novamente à nossa volta e ficamos assustados. Diva apresentava o mesmo quadro de Dulcídia: febre alta, insistentes vômitos, palidez e olhar indiferente. Mesmo assim, as pessoas que iam vê-la, diziam:
— Não é nada! Dá aquele chá...
— Ela vai melhorar.
— O sarampo dela é bem fraco.       
Meu avô e minhas tias iam à cidade todos os dias para vê-la e, ao voltar, faziam os mesmos comentários otimistas.
Uma manhã, cedo ainda, fomos surpreendidos pela notícia de que Diva havia falecido. Repetiu-se o alvoroço. Meu avô e minhas tias imediatamente se arrumaram para sair. No caminho, só se falava em Dulcídia e Diva e na repetição da desgraça que, mais uma vez, se abatia sobre a família, reproduzindo aquela mesma tristeza de dias atrás. Meu avô e minhas tias comentavam que a tragédia poderia significar a volta do casal para a capital. Meu pai poderia desistir de permanecer próximo de São Pedro, lugar de que as crianças tanto gostavam.
Eu ouvia esses comentários enquanto caminhávamos, mas em minha mente infantil havia uma grande inquietação que eu não conseguia traduzir, só pensava que mais uma vez eu corria o risco de meu pai se afastar de mim.
Conhecia muito bem a cena que ia assistir: muita gente chorando, um ataúde branco cheio de flores e, no meio delas, Diva, minha última irmã. Tudo aquilo me parecia muito cruel, mas sabia também que nada poderia ser feito.
Diva morreu.
Então, na sala da casa de meu pai, estávamos todos ali, para o último pranto. Outra vez eu vivia a tristeza da morte. Conduziram-me até o ataúde para que eu visse Diva, antes que a levassem. Eu a olhei e preferi pensar que ela estava dormindo entre rosas.
Como podia entender tanta crueldade do destino?!
Meu pai chorava muito e dizia:
— Acabou-se a felicidade. Vou embora e nunca mais porei os pés aqui nesta terra!
 Os amigos e conhecidos tentavam consolá-lo, mas ele não os ouvia e se desvencilhava, nervoso, das mãos que tentavam confortá-lo. 
Eu tinha sete anos e não sabia o que fazer. Senti-me só. Parecia que a minha dor era diferente da dor dos adultos. Naquele momento, o meu sofrimento não importava a ninguém. Solucei, em desespero. Perdi minhas irmãs e ia perder meu pai.        
O desaparecimento prematuro de Dulcídia e Diva produziu-lhe um choque emocional muito violento. Ele se tornou um revoltado. Culpava a cidade pela falta de estrutura e as autoridades pelo descaso com o sarampo que estava matando muitas crianças. Culpava Mariinha, principalmente, por não ter sido rigorosa nos cuidados com a saúde das meninas. Embora parecesse um contra-senso, sendo ela a mãe, ele afirmava que sua indiferença e falta de sensibilidade não permitiram salvar suas filhas.
Algum tempo depois, meu pai e Mariinha foram embora de Patos.
Ficamos aguardando notícias, sequer sabíamos o endereço deles, na capital.  Decorrido quase um ano, meu pai escreveu uma carta na qual informava a sua separação de Mariinha. Meu avô refletiu um pouco e disse:
— Apolônio novamente está só. Decidiu caminhar sem ninguém. Não é possível que depois de tanto sofrimento e de tantas tolices que fez, não arrume a cabeça agora!
Passado algum tempo, meu pai foi designado delegado de Polícia de Galante, um pequeno povoado do Município de Campina Grande. Ali ele conheceu a jovem Eulália, de Umbuzeiro, por quem se apaixonou sendo obrigado a casar-se legalmente, sob protestos da família, pois ela era menor.
Novamente, escreveu uma carta ao meu avô na qual relatava o acontecido e dizia que fora forçado a tomar tal decisão, embora ainda não tivesse esquecido o passado. Meu avô, depois de ler a carta, falou:
— Apolônio mergulhou novamente em confusão. Nem bem saiu de Mariinha... Pensei que tivesse arrumado a cabeça...
Eu ouvia comentários desse tipo e percebia a preocupação de meu avô, mas não conseguia alcançar o que ele queria dizer. Meu avô era reticente, demonstrando não aprovar aquela nova relação de meu pai. No falatório entre minhas tias, Apolônio era o assunto principal.
Meu pai, em outra carta, pediu ao meu avô consentimento para que Eulália ficasse algum tempo em São Pedro até que seus familiares os esquecessem, pois não se conformavam com a maneira como se deu o casamento. Meu avô ficou algum tempo com a carta na mão, refletindo sobre a resposta, e dirigindo-se às minhas tias, perguntou:
— Vocês acham que essa moça vai se acostumar aqui?!
— Na situação dela — respondeu, Bá — não há por que estranhar nada. Apolônio deve ter dito como é a vida em São Pedro.
Meu avô concordou.
Dias depois, meu pai respondeu, informando que a jovem Eulália partiria, para Patos, imediatamente.
Era dia de feira. Meu avô e minhas tias prepararam-se para receber a nova esposa de meu pai, que chegaria de Campina Grande. Havia grande expectativa para conhecer a moça.
Meu pai a descrevera com detalhes para que não a confundíssemos quando chegássemos ao lugar combinado. Pela descrição precisa, não houve dificuldade em reconhecê-la. Ela estava de pé, em frente a um boteco, segurando uma pequena mala.  Meu avô caminhou em sua direção, meio sem-jeito, e estendeu a mão para cumprimentá-la, apresentando-nos em seguida, um a um.
Depois, seguimos para a feira onde ele comprou alguns mantimentos.
Meu avô andava rápido pela cidade e, inconscientemente, resmungava como se não se sentisse bem em acolher aquela jovem desconhecida em sua casa. Era visível o seu mal-estar.
Eu a observava curioso: ainda muito jovem, bonita, magra, branca, de cabelos castanhos, finos e ondulados, estatura baixa, pouco falante e olhar meio disperso, demonstrando alguma insegurança.
Na estrada, meu avô ia à frente, logo depois Bá, Alice e Inocência e, atrás delas, Eulália e eu, todo troncho, carregando a pequena e pesada maleta de madeira que ela trouxera com os seus pertences. Inacreditável! Eu fazia todo aquele esforço sem me aperceber do ridículo da minha atitude, apenas para me tornar simpático àquela que agora era a nova mulher de meu pai. Só lhe enxergava os sorrisos.
E, somando mais um, a família chegou a São Pedro. Meu avô indicou o lugar que Eulália deveria ocupar, entregou-lhe uma rede limpa e disse:
— É o que podemos lhe oferecer, além da alimentação.
Ela segurou a rede, olhou ao redor e, sem nada dizer, ficou parada por alguns segundos, observando. Então, perguntou onde poderia tomar um banho. Foi-lhe mostrada uma cacimba, no terreiro, de onde poderia retirar água e o reservado feito de madeira onde nos ocultávamos para o banho e para outras necessidades. Abriu sua maleta, separou algumas roupas, retirou água da cacimba utilizando-se de uma lata com um pedaço de madeira que lhe servia de alça, entrou no reservado e tomou um rápido banho de cuia. Ao sair, pude notar que havia trocado as roupas empoeiradas com que viajara e vestiu-se com roupas limpas.
 Entrou em casa com ar de decepção. Era o início de uma vida difícil que ela não imaginara antes. Sabia que não poderia demonstrar qualquer desencanto, o que certamente causaria mal-estar e dificultaria sua permanência entre nós, em São Pedro.
Na hora da ceia nos reunimos em torno da velha mesa. Meu avô iniciou uma longa conversa com Eulália, demonstrando preocupação com a união de seu filho com uma moça tão jovem, dezesseis anos apenas. Enquanto ele falava, apoiado na experiência que a idade lhe conferia, percebia-se que Eulália procurava de toda maneira ocultar sua insegurança, dizendo-se uma mulher apaixonada, que conhecia as conseqüências dos seus atos e os rumos que estava dando à sua própria vida.
Sorridente, decidida, deixava claro que jamais voltaria atrás na decisão que tomara de se tornar esposa de meu pai.
Meu avô lançou um olhar indefinido aos que estavam ali e soltou:
— Está bem!
 Apoiou as mãos sobre a mesa, levantou-se devagar e foi fumar seu cigarro de palha lá fora. E, pensativo permaneceu, por algum tempo, sentado no velho tronco de aroeira. A partir daquele momento, Eulália tornou-se, de fato, membro da família.  Depois da ceia eles ficaram conversando até tarde, sentados em tamboretes no terreiro. Lembro que era noite de lua e estrelas e também de muitas muriçocas. Para espantá-las, Bá retirou de um saco de estopa rodilhas de bosta de boi, espalhou-as pelos quatro cantos do terreiro e acendeu-lhes uma chama cuja fumaça exalava um odor característico, permitindo a nossa permanência ao luar sem as incômodas picadas. Eulália não estranhou o procedimento rudimentar. Depois de muita conversa jogada fora, todos armaram suas redes e foram dormir.
Por algum tempo, ela esforçou-se para não deixar transparecer qualquer  decepção, mas era visível a mudança do seu comportamento a cada dia que passava, deixando-se flagrar em prantos algumas vezes.  Meu avô ao tomar conhecimento, por Bá, que Eulália parecia não estar se adaptando às condições do meio em que vivíamos, escreveu uma carta ao meu pai para que viesse buscá-la.  E justificava, reconhecendo as razões de Eulália para não se adaptar à vida dura de São Pedro, onde ela só via  mato,  caatinga e estrelas.  Era muito jovem ainda para se submeter a uma vida tão rude e distante do homem que amava.
Meu pai veio imediatamente. Entrou em casa, conversou ligeiramente com meu avô, tomou Eulália pela mão e rumaram, os dois, para a cidade. Quando voltaram, Eulália quase nem se despediu, pegou a mala que já havia arrumado e partiu na companhia de meu pai.
—  Foram embora — disse meu avô. — Deus queira que se acertem!
— Tomara que sejam felizes — reiterou Bá, acenando para o casal que já se distanciava. 
E mais uma vez eu via meu pai partir. A mim coube, apenas, um ligeiro afago na cabeça no momento em que me aproximei dele para pedir-lhe a bênção. Nenhuma palavra, nenhuma conversa. Fiquei de longe vendo os dois se afastarem, imaginando o dia em que nos veríamos outra vez e em que circunstâncias.
Tempos depois, meu avô recebeu mais uma carta de meu pai, na qual dizia que viria nos visitar. Ele fora designado delegado de Polícia de Piancó e passaria por Patos. A notícia nos agitou, pois nada sabíamos deles, desde que partiram. Alguns dias depois, meu pai e Eulália chegaram. Era uma manhã de segunda-feira. Após uma conversa descontraída, foi posto o almoço — pratos de refeição caseira — e terminado este, meu pai anunciou que era hora de partir. Todos estavam alegres, não havia ressentimentos e meu avô ficou satisfeito ao ver a harmonia do casal.
Fomos até Patos para as despedidas.  


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