1930. NAQUELE TEMPO, falava-se muito em “Revolução”, esse era o assunto em todas as rodas de conversa. Havia inquietação geral e as pessoas quando voltavam da cidade transmitiam para os que moravam na roça tudo o que ouviram.
 |
| Julio Prestes |
 |
| Getúlio Vargas |
Não obstante ser tão criança ainda, eu ouvia com atenção os comentários e gravei bem os nomes de Getúlio Vargas e Julio Prestes, ambos muito falados. Diziam que eram homens importantes e que por suas divergências políticas poderiam desencadear uma revolução. Diziam, ainda, que muito longe de nós estava se formando um foco de rebeldia e que esse movimento poderia chegar à Paraíba do Norte onde o Presidente do Estado (governador), João Pessoa, da corrente Liberal, fazia oposição à corrente Perrepista (PRP — Partido Republicano Paulista), encabeçada por Julio Prestes. Mas essa história de partidos e apoio político eu só fui entender tempos depois.
 |
| João Pessoa |
À medida que o tempo passava, aumentava nas pessoas o medo de que a revolução, caso chegasse à Paraíba, produzisse verdadeiras misérias, como assassinatos, queima de residências e outras atrocidades.
Em Patos, o assunto era esse. As notícias circulavam de boca em boca. Meu avô ia à cidade, para conversar e colher informações sobre os movimentos e, quando voltava, comentava e recomendava para que não disséssemos nada, porque era muito perigoso.
— Na capital, as coisas já começaram a ferver — dizia.
João Pessoa contrariava interesses de grupos poderosos ligados à cultura do algodão e da cana-de-açúcar. Porém, conseguiu o apoio de comerciantes, mulheres, estudantes e funcionários públicos, principalmente da capital.
Não tardou muito para que a revolução explodisse no sertão, principalmente em Teixeira e Princesa, dominadas por poderosos coronéis, que lançaram mão de grupos de cangaceiros bem armados para enfrentar a polícia.
Eu sentia a preocupação das pessoas e, ainda que não entendesse o que aquilo poderia significar, percebia que minhas tias estavam intranquilas com relação ao meu pai. Temiam que, sendo ele militar, poderia, a qualquer momento, integrar a Força que a Paraíba estaria enviando para combater grupos rebeldes naquelas cidades.
Meu pai escreveu uma carta, na qual confirmava as nossas suspeitas: sua Unidade seguiria, a qualquer momento, para Princesa ou Teixeira, e ele iria a São Pedro, rapidamente, para deixar a família aos cuidados de meu avô. Todos choraram ao ler a carta, devido ao tom alarmante e preocupante de suas palavras.
O clima estava tenso. Recordo que numa segunda-feira, eu e meu avô, no final da tarde, retornávamos da cidade, caminhando calmamente pela estrada. Ele carregando sobre o ombro um pesado saco com as compras e eu seguindo à sua frente, chutando pedaços de qualquer coisa para me divertir. Subitamente, percebemos um barulho estranho à nossa retaguarda, na estrada, aproximando-se. Meu avô pediu-me para apressar o passo. Olhei para trás e disse-lhe entre assustado e impressionado:
— Pai! São muitos soldados! E tem também caminhões!
Estávamos próximo do caminho que levava para a nossa casa quando a tropa emparelhou conosco. Meu avô disse em voz baixa:
— É a Revolução, não olhe Chiquinho!
Eu queria muito olhar. Aquele movimento diferente me deixava curioso. Consegui ver que nos caminhões havia armas grandes, e me imaginei em cima de um deles, junto com os soldados que pareciam estar muito alegres.
O medo tomou conta do meu avô e me tirou daquele momento de fantasia. Fui contagiado pelo mesmo sentimento de pavor que o invadia. Lembro que quase nem podíamos caminhar. Eu tropeçava em suas pernas, enquanto ele, firme, cabeça ereta, acelerava os passos e me empurrava para a frente, forçando a não me deter naquelas imagens. Ele sabia que eram as forças leais ao governo que seguiam para Princesa e Teixeira com a finalidade de sufocar os grupos rebeldes. Mesmo assim, ao ver tantos soldados em barulhenta algazarra, alguns parecendo embriagados, meu avô ficou muito nervoso e repetiu:
— Ande depressa! Não olhe para eles!
E os soldados, ao passarem por nós, pilheriavam e insultavam meu avô: “Ei, velho!”, como se pretendessem provocar uma reação que justificasse a prática de algum ato perverso.
Aos poucos, o pesadelo foi se distanciando. Ficamos para trás, caminhando e nos refazendo daquele clima de terror por que acabávamos de passar.
Em casa, aliviados do medo e livres das ameaças, ainda ouvíamos, ao longe, o alarido dos soldados. Eu não entendia o porquê de tanta algazarra e tanta euforia, pois diziam que muitos soldados morrem na luta e nunca mais voltam para suas casas.
Pairava sobre toda a região uma atmosfera de pavor, exigindo que cada um se precavesse contra possíveis desajustes emocionais de algum daqueles soldados que, no afã de estar indo para o campo de batalha, poderia praticar uma ação criminosa em nome da causa que ele estava defendendo. Bá e Inocência, a todo instante, arriscavam uma olhadela nas proximidades da casa, preocupadas com os soldados.
Devido ao clima aterrorizante, as portas das casas eram fechadas ao cair da noite, quando todos se recolhiam, como naquela segunda-feira, por se temer que alguns soldados se desviassem da estrada e as invadissem. Diziam que eles, por onde passavam, deixavam marcas de grande vandalismo: casas destruídas ou saqueadas, mulheres agredidas ou violentadas.
Nesse clima ameaçador, meu pai era permanentemente lembrado, e eu via minhas tias em súplicas fervorosas a Deus para que o protegesse.
Soubemos que ele havia partido, e só.
Em uma carta, antes de partir, ele próprio disse que não poderia enviar notícias e sabia que sua mulher e filhas estavam protegidas em nossa casa.
Dias depois, soubemos que meu pai também passara por ali integrando um novo contingente policial, sob o comando do major João Costa, da Força Policial da Paraíba.
 |
| foto retirada da internet, Princesa Isabel 1930 |
Na cidade corriam boatos de que havia muitos mortos em batalha. E imaginávamos que meu pai poderia ser um daqueles. A dúvida sobre se ele estaria morto ou ferido e a incerteza de como e quando seria a sua volta nos deixava profundamente angustiados.
Nesse cenário, ganhei um broche com o retrato de Juarez Távora. Orgulhoso, o coloquei no peito e minhas tias foram logo me prevenindo:
— Se te perguntarem qual é o teu partido, deves responder: Partido Liberal.
Quinzenalmente eu acompanhava meu avô à cidade onde ele comparecia ao Quartel da Força Policial e recebia parte dos vencimentos de meu pai, que seriam utilizados nas despesas de sua família, enquanto ela estivesse conosco.
 |
| Adicionar legenda |
Um dia, espalhou-se a notícia apavorante:
O assunto correu como um rastilho de pólvora. Imediatamente, por toda parte, havia pessoas curiosas por mais notícias. Espalhados pela cidade, viam-se piquetes e soldados com seus fuzis ensarilhados sob o olhar dos civis. A revolta do povo era grande já que João Pessoa era muito estimado. No país, a revolução parcialmente reprimida, de repente tomou impulso, tendo como bandeira o sacrifício do presidente paraibano, que culminou com os acontecimentos políticos de outubro de 1930.
Finalmente, tempos depois, as escaramuças foram contidas e meu pai escreveu comunicando que estava se apresentando, são e salvo, à sede da Força, na capital.
Os movimentos revolucionários haviam cessado, no Estado. Meu pai pôde voltar para casa. Lembro a grande alegria que tomou conta de nós, naquele dia. Ele chegou a São Pedro inesperadamente. Eu estava brincando com as meninas em cima do lajedo e ouvi quando minhas tias gritaram:
— Graças a Deus você voltou!
Corremos para casa. As meninas agarraram-se a ele solicitando carinho. Mariinha, sua esposa, quase nem podia dar vazão à sua saudade. As tias, entre risos e choros, tentavam abraçá-lo, emocionadas. Eu consegui furar aquela barreira feminina e também o abracei. Meu avô contemplava de perto a cena e, feliz, agradecia a Deus por tudo que assistia. Esse momento de reencontro nunca se apagou de minha mente. Eu o via como resultado das muitas orações que fui obrigado a fazer, reunido com minhas tias para que nada acontecesse a meu pai nas lutas de que ele participava em Princesa Isabel.
Depois disso, meu pai, ainda traumatizado pelas experiências vividas no campo de batalha, nos contou os horrores por que passara com seus companheiros; os momentos de privação e de desânimo; as vezes que tiveram que se alimentar de milho cru e beber água suja; as noites mal dormidas protegendo-se dos cangaceiros e das muriçocas. Eu ficava calado, boquiaberto, imaginando meu pai como um grande herói, já que nenhuma daquelas balas inimigas o atingiu.
Meu pai foi promovido ao posto de sargento e passou a integrar o destacamento de Patos. Alugou a mesma casa na Rua Dezoito do Forte, onde viveu com a minha mãe. E, nessa casa, passou a residir com Mariinha e as filhas.
Mariinha tinha a pele morena bem queimada, era rechonchuda, de olhos negros, com acentuadas características indígenas. Não hesitara em se unir ao meu pai e formar uma família quando se apaixonaram em João Pessoa. As meninas eram lindas e sadias, Dulcídia tinha três anos e Diva um ano e meio.
Lembro-me exatamente de suas feições, pois no tempo que ficaram em São Pedro nos tornamos grandes amigos. Dulcídia era magra e tinha cabelos crespos, olhos pequenos e claros, voz meiga, gestos moderados. Diva era miudinha, olhos claros e meigos, cabelos claros e escassos, sempre arrumados no alto da cabeça formando um coque. Caía à toa e só balbuciava algumas poucas palavras. Eram, ambas, muito apegadas ao meu pai.
Passado algum tempo, Dulcídia contraiu sarampo - doença que se alastrava na região, matando muitas crianças. Uma febre alta, insistente, acompanhada de vômitos constantes fê-la, de repente, cair em estado de prostração, ficando com a fisionomia muito abatida, profundamente pálida. Seus movimentos foram desaparecendo e, finalmente, Dulcídia morreu em pouco mais de uma semana. Ficaram as insinuações nas perguntas: “Será que a morte de Dulcídia poderia ter sido evitada?” “Teria havido negligência da mãe?” “Seria culpa do rudimentar tratamento à base de ervas, tão comum na região?”
Meu pai chorou muito. Andava na calçada de um lado para outro, parava na porta da casa, de vez em quando, não querendo acreditar no que estava acontecendo. Ora apertava as mãos, inconsolado, ora as pressionava contra a fronte ou comprimindo a nuca. A um canto da sala, cabisbaixos, estavam meu avô, agarrando o seu chapéu de couro com as mãos trêmulas, e minhas tias, rezando o terço. Todos choravam. E quando o pequenino esquife branco ia ser fechado, conduziram-me até ele e me mostraram Dulcídia entre muitas flores. O ambiente tinha, para mim, um aspecto muito estranho. Parecia que ninguém sabia o que dizer ou fazer.
Vi que o sol caminhava para a sua despedida. Uma nesga de luz apareceu, transversalmente, através da janela e invadiu a sala com uma cor dourada, como um sinal, e alguém disse:
— Já é hora de levar!
Aquele foi um momento de muita dor. Vi o pequeno ataúde com Dulcídia ser levado por uma multidão. Fiquei ali, sentado na beira da calçada, sozinho. Não me deixaram acompanhar, mas ouvi de meu avô e de minhas tias, quando voltaram do cemitério, que foi muito triste a descida do corpo. Meu pai e Mariinha caíram em total descontrole ao verem o caixão de Dulcídia ser colocado na sepultura e tiveram, a grande custo, que ser retirados do local.
Era fim de tarde quando voltamos para São Pedro. Enquanto caminhávamos, lastimávamos a terrível tragédia da morte de Dulcídia e o estado deplorável em que ficou meu pai. Eu não sabia se sofria pela perda de minha irmã e amiga de brincadeiras ou pelo sofrimento dele.
Não havia se passado um mês e Diva também contraiu sarampo. Dulcídia e sua morte ainda estavam bem nítidas para nós. No entanto, um fantasma idêntico parecia estar novamente à nossa volta e ficamos assustados. Diva apresentava o mesmo quadro de Dulcídia: febre alta, insistentes vômitos, palidez e olhar indiferente. Mesmo assim, as pessoas que iam vê-la, diziam:
— Não é nada! Dá aquele chá...
— Ela vai melhorar.
— O sarampo dela é bem fraco.
Meu avô e minhas tias iam à cidade todos os dias para vê-la e, ao voltar, faziam os mesmos comentários otimistas.
Uma manhã, cedo ainda, fomos surpreendidos pela notícia de que Diva havia falecido. Repetiu-se o alvoroço. Meu avô e minhas tias imediatamente se arrumaram para sair. No caminho, só se falava em Dulcídia e Diva e na repetição da desgraça que, mais uma vez, se abatia sobre a família, reproduzindo aquela mesma tristeza de dias atrás. Meu avô e minhas tias comentavam que a tragédia poderia significar a volta do casal para a capital. Meu pai poderia desistir de permanecer próximo de São Pedro, lugar de que as crianças tanto gostavam.
Eu ouvia esses comentários enquanto caminhávamos, mas em minha mente infantil havia uma grande inquietação que eu não conseguia traduzir, só pensava que mais uma vez eu corria o risco de meu pai se afastar de mim.
Conhecia muito bem a cena que ia assistir: muita gente chorando, um ataúde branco cheio de flores e, no meio delas, Diva, minha última irmã. Tudo aquilo me parecia muito cruel, mas sabia também que nada poderia ser feito.
Diva morreu.
Então, na sala da casa de meu pai, estávamos todos ali, para o último pranto. Outra vez eu vivia a tristeza da morte. Conduziram-me até o ataúde para que eu visse Diva, antes que a levassem. Eu a olhei e preferi pensar que ela estava dormindo entre rosas.
Como podia entender tanta crueldade do destino?!
Meu pai chorava muito e dizia:
— Acabou-se a felicidade. Vou embora e nunca mais porei os pés aqui nesta terra!
Os amigos e conhecidos tentavam consolá-lo, mas ele não os ouvia e se desvencilhava, nervoso, das mãos que tentavam confortá-lo.
Eu tinha sete anos e não sabia o que fazer. Senti-me só. Parecia que a minha dor era diferente da dor dos adultos. Naquele momento, o meu sofrimento não importava a ninguém. Solucei, em desespero. Perdi minhas irmãs e ia perder meu pai.
O desaparecimento prematuro de Dulcídia e Diva produziu-lhe um choque emocional muito violento. Ele se tornou um revoltado. Culpava a cidade pela falta de estrutura e as autoridades pelo descaso com o sarampo que estava matando muitas crianças. Culpava Mariinha, principalmente, por não ter sido rigorosa nos cuidados com a saúde das meninas. Embora parecesse um contra-senso, sendo ela a mãe, ele afirmava que sua indiferença e falta de sensibilidade não permitiram salvar suas filhas.
Algum tempo depois, meu pai e Mariinha foram embora de Patos.
Ficamos aguardando notícias, sequer sabíamos o endereço deles, na capital. Decorrido quase um ano, meu pai escreveu uma carta na qual informava a sua separação de Mariinha. Meu avô refletiu um pouco e disse:
— Apolônio novamente está só. Decidiu caminhar sem ninguém. Não é possível que depois de tanto sofrimento e de tantas tolices que fez, não arrume a cabeça agora!
Passado algum tempo, meu pai foi designado delegado de Polícia de Galante, um pequeno povoado do Município de Campina Grande. Ali ele conheceu a jovem Eulália, de Umbuzeiro, por quem se apaixonou sendo obrigado a casar-se legalmente, sob protestos da família, pois ela era menor.
Novamente, escreveu uma carta ao meu avô na qual relatava o acontecido e dizia que fora forçado a tomar tal decisão, embora ainda não tivesse esquecido o passado. Meu avô, depois de ler a carta, falou:
— Apolônio mergulhou novamente em confusão. Nem bem saiu de Mariinha... Pensei que tivesse arrumado a cabeça...
Eu ouvia comentários desse tipo e percebia a preocupação de meu avô, mas não conseguia alcançar o que ele queria dizer. Meu avô era reticente, demonstrando não aprovar aquela nova relação de meu pai. No falatório entre minhas tias, Apolônio era o assunto principal.
Meu pai, em outra carta, pediu ao meu avô consentimento para que Eulália ficasse algum tempo em São Pedro até que seus familiares os esquecessem, pois não se conformavam com a maneira como se deu o casamento. Meu avô ficou algum tempo com a carta na mão, refletindo sobre a resposta, e dirigindo-se às minhas tias, perguntou:
— Vocês acham que essa moça vai se acostumar aqui?!
— Na situação dela — respondeu, Bá — não há por que estranhar nada. Apolônio deve ter dito como é a vida em São Pedro.
Meu avô concordou.
Dias depois, meu pai respondeu, informando que a jovem Eulália partiria, para Patos, imediatamente.
Era dia de feira. Meu avô e minhas tias prepararam-se para receber a nova esposa de meu pai, que chegaria de Campina Grande. Havia grande expectativa para conhecer a moça.
Meu pai a descrevera com detalhes para que não a confundíssemos quando chegássemos ao lugar combinado. Pela descrição precisa, não houve dificuldade em reconhecê-la. Ela estava de pé, em frente a um boteco, segurando uma pequena mala. Meu avô caminhou em sua direção, meio sem-jeito, e estendeu a mão para cumprimentá-la, apresentando-nos em seguida, um a um.
Depois, seguimos para a feira onde ele comprou alguns mantimentos.
Meu avô andava rápido pela cidade e, inconscientemente, resmungava como se não se sentisse bem em acolher aquela jovem desconhecida em sua casa. Era visível o seu mal-estar.
Eu a observava curioso: ainda muito jovem, bonita, magra, branca, de cabelos castanhos, finos e ondulados, estatura baixa, pouco falante e olhar meio disperso, demonstrando alguma insegurança.
Na estrada, meu avô ia à frente, logo depois Bá, Alice e Inocência e, atrás delas, Eulália e eu, todo troncho, carregando a pequena e pesada maleta de madeira que ela trouxera com os seus pertences. Inacreditável! Eu fazia todo aquele esforço sem me aperceber do ridículo da minha atitude, apenas para me tornar simpático àquela que agora era a nova mulher de meu pai. Só lhe enxergava os sorrisos.
E, somando mais um, a família chegou a São Pedro. Meu avô indicou o lugar que Eulália deveria ocupar, entregou-lhe uma rede limpa e disse:
— É o que podemos lhe oferecer, além da alimentação.
Ela segurou a rede, olhou ao redor e, sem nada dizer, ficou parada por alguns segundos, observando. Então, perguntou onde poderia tomar um banho. Foi-lhe mostrada uma cacimba, no terreiro, de onde poderia retirar água e o reservado feito de madeira onde nos ocultávamos para o banho e para outras necessidades. Abriu sua maleta, separou algumas roupas, retirou água da cacimba utilizando-se de uma lata com um pedaço de madeira que lhe servia de alça, entrou no reservado e tomou um rápido banho de cuia. Ao sair, pude notar que havia trocado as roupas empoeiradas com que viajara e vestiu-se com roupas limpas.
Entrou em casa com ar de decepção. Era o início de uma vida difícil que ela não imaginara antes. Sabia que não poderia demonstrar qualquer desencanto, o que certamente causaria mal-estar e dificultaria sua permanência entre nós, em São Pedro.
Na hora da ceia nos reunimos em torno da velha mesa. Meu avô iniciou uma longa conversa com Eulália, demonstrando preocupação com a união de seu filho com uma moça tão jovem, dezesseis anos apenas. Enquanto ele falava, apoiado na experiência que a idade lhe conferia, percebia-se que Eulália procurava de toda maneira ocultar sua insegurança, dizendo-se uma mulher apaixonada, que conhecia as conseqüências dos seus atos e os rumos que estava dando à sua própria vida.
Sorridente, decidida, deixava claro que jamais voltaria atrás na decisão que tomara de se tornar esposa de meu pai.
Meu avô lançou um olhar indefinido aos que estavam ali e soltou:
Apoiou as mãos sobre a mesa, levantou-se devagar e foi fumar seu cigarro de palha lá fora. E, pensativo permaneceu, por algum tempo, sentado no velho tronco de aroeira. A partir daquele momento, Eulália tornou-se, de fato, membro da família. Depois da ceia eles ficaram conversando até tarde, sentados em tamboretes no terreiro. Lembro que era noite de lua e estrelas e também de muitas muriçocas. Para espantá-las, Bá retirou de um saco de estopa rodilhas de bosta de boi, espalhou-as pelos quatro cantos do terreiro e acendeu-lhes uma chama cuja fumaça exalava um odor característico, permitindo a nossa permanência ao luar sem as incômodas picadas. Eulália não estranhou o procedimento rudimentar. Depois de muita conversa jogada fora, todos armaram suas redes e foram dormir.
Por algum tempo, ela esforçou-se para não deixar transparecer qualquer decepção, mas era visível a mudança do seu comportamento a cada dia que passava, deixando-se flagrar em prantos algumas vezes. Meu avô ao tomar conhecimento, por Bá, que Eulália parecia não estar se adaptando às condições do meio em que vivíamos, escreveu uma carta ao meu pai para que viesse buscá-la. E justificava, reconhecendo as razões de Eulália para não se adaptar à vida dura de São Pedro, onde ela só via mato, caatinga e estrelas. Era muito jovem ainda para se submeter a uma vida tão rude e distante do homem que amava.
Meu pai veio imediatamente. Entrou em casa, conversou ligeiramente com meu avô, tomou Eulália pela mão e rumaram, os dois, para a cidade. Quando voltaram, Eulália quase nem se despediu, pegou a mala que já havia arrumado e partiu na companhia de meu pai.
— Foram embora — disse meu avô. — Deus queira que se acertem!
— Tomara que sejam felizes — reiterou Bá, acenando para o casal que já se distanciava.
E mais uma vez eu via meu pai partir. A mim coube, apenas, um ligeiro afago na cabeça no momento em que me aproximei dele para pedir-lhe a bênção. Nenhuma palavra, nenhuma conversa. Fiquei de longe vendo os dois se afastarem, imaginando o dia em que nos veríamos outra vez e em que circunstâncias.
Tempos depois, meu avô recebeu mais uma carta de meu pai, na qual dizia que viria nos visitar. Ele fora designado delegado de Polícia de Piancó e passaria por Patos. A notícia nos agitou, pois nada sabíamos deles, desde que partiram. Alguns dias depois, meu pai e Eulália chegaram. Era uma manhã de segunda-feira. Após uma conversa descontraída, foi posto o almoço — pratos de refeição caseira — e terminado este, meu pai anunciou que era hora de partir. Todos estavam alegres, não havia ressentimentos e meu avô ficou satisfeito ao ver a harmonia do casal.
Fomos até Patos para as despedidas.
Para ler outros episódios deste capítulo, clica em "Postagens mais antigas”, aí embaixo.
5 comentários: