segunda-feira, 11 de maio de 2020

2ºCapítulo - 1º Episódio: "... o reencontro com a mãe..."



Neste segundo capítulo, alguns personagens receberam nomes fictícios para resguardar suas identidades.


                    2




DESCI EM JOÃO PESSOA JÁ ERA QUASE NOITECheguei, como todo sertanejo, na terra alheia, cheio de confiança no futuro.


Praça Pedro Américo, PB, anos 40

O caminhão parou numa praça grande e arborizada, em frente a um prédio, que chamou a minha atenção pela suntuosidade. Disseram-me que ali funcionavam os Correios e Telégrafos. Não poderia imaginar, naquela ocasião, que, um dia, a minha vida estaria ligada a ele. Toda a minha bagagem se resumia a umas poucas peças de roupas, dobradas dentro de um pacote amarrado com barbante, com uma alça improvisada, imitando uma mala. Situação semelhante de quando saí de Jatobá. Agora trazia mais um paletó mandado confeccionar por meu pai, em Brejo do Cruz, aproveitando um corte de tecido cáqui destinado ao seu fardamento.
 Enfim, estava eu na capital! Vestia a melhor roupa que possuía: calça e paletó feitos pelo Chiru, camisa branca e aquele desconfortável par de sapatos que quase me atrapalhou a viagem.
Uma larga e longa avenida iluminada deixava a noite clara. O caminhão ficou parado, na praça, algum tempo. Algumas pessoas, como eu, olhavam deslumbradas ao redor. Pousei o incômodo pacote na beira da calçada e fiquei, sem dizer nada, observando extasiado. Aquele era um momento mágico em minha vida, o meu primeiro contato com a cidade grande, a capital, que eu conhecia apenas através de alguns comentários de meu pai e do meu amigo Ivo.
O motorista, enquanto ajudava as pessoas a descer do caminhão, não tirava o olho de mim.
 Relaxei.
Eu estava completamente perdido, mas sabia que ele me ajudaria.
Depois que todos os passageiros se foram, ele se aproximou de mim e disse:
— Agora vamos ver o que posso fazer por você.
Fez sinal para um policial que passava e indagou se sabia onde poderíamos encontrar transporte para Bahia da Traição.
— É difícil, pelo avançado da hora — disse o militar ajeitando o bibico na cabeça. — Tem que ir para Cabedelo e lá pegar uma barca de pescadores. Não sei se conseguirão isso ainda hoje!
O motorista agradeceu, coçou a cabeça, pensativo, e aconselhou-me a procurar uma pensão para passar a noite e, no dia seguinte, logo cedo, seguir para Cabedelo, onde embarcaria para Bahia da Traição. 
Pensei melhor e disse:
— Não, eu tenho outra opção. Minha mãe reside aqui em João Pessoa — expliquei. — É separada de meu pai. Há muito tempo que não a vejo. Ele falou-me, certa vez, que ela residia atrás da Cadeia Pública. Acho melhor procurá-la e ficar em sua casa esta noite.
O motorista ficou mais aliviado. Estava preocupado com a minha pouca idade e queria atender às recomendações de meu “tio”.
Ele demonstrou conhecer o local onde ficava a Cadeia. Convidou-me a subir na boléia do caminhão, seguiu por uma rua, deu a volta no quarteirão e parou numa esquina, exatamente nos fundos da Cadeia Pública. Descemos para tentar encontrar a casa de minha mãe. Deviam ser 21 horas. As ruas estavam desertas. Alguns policiais se movimentavam, ao longe. Vi que uma senhora de meia-idade se aproximava e indaguei:
— A senhora conhece Severina Emília de Oliveira, que mora aqui por perto?
Ela arredou uns dois passos e, apontando para uma parte mais baixa da rua, disse:
—  Ela mora ali naquela casa pequena.
Agradeci, eu estava no caminho certo. Voltei-me para o atencioso motorista, despedindo-me:
— Pode ir, amigo, achei a minha mãe. Muito obrigado, Deus o recompense!
Sozinho, segui na direção indicada. Meu coração estava acelerado e, enquanto caminhava, eu pensava: “Quem diria?! Saí de São Bento disposto a encontrar meu pai e, de uma hora para outra, estou indo ao encontro de minha mãe, coisa que nem passou pela minha cabeça, desde que deixei a casa de meu avô.”
Era uma casa baixa, pobre, que ficava entre bananeiras. Bati, e veio atender-me uma senhora magra, morena, de pouco mais de 30 anos, tipo desconfiado, de olhar interrogativo. Perguntou-me o que eu desejava, e respondi que estava procurando a senhora Severina Emília. A mulher, sem nada falar, deu-me as costas e retornou para o interior da casa.  Em seguida, voltou e perguntou quem eu era. Ao responder-lhe que era Chiquinho, filho de Severina, minha mãe surgiu, espantada, na porta da casa, abraçou-me demoradamente e perguntou:
— Chiquinho, o que faz por aqui?
E eu, sufocado pela ansiedade, pela falta de intimidade e pelo receio de não ser bem recebido, deixei-me ficar em seus braços por alguns segundos.  Depois, afastei-me, olhei-a nos olhos, e respondi evasivamente:
—  É uma longa história...
— Você deixou Mestre Ezequiel?  Por quê?
        — Não é bem assim! Fui obrigado a deixar Jatobá e procurar a ajuda de meu pai. Quando saí de lá, sabia que estava deixando para trás a proteção de meu avô, mas eu crescia e com isso cresciam também as suas preocupações comigo. Então, resolvi seguir meu caminho. Eu não o deixei. Eu o amo muito e sinto a sua falta. Ele será uma presença eterna em todos os meus dias — falei com voz embargada.
Disse-lhe que estava em João Pessoa para resolver um assunto de serviço, mas que ela não precisava se preocupar, pois eu iria procurar um hotel para ficar.
Eu demonstrava estar ali somente para uma visita, sem deixar transparecer que não tinha condições sequer para pagar uma simples hospedaria e que buscava sua ajuda, naquela noite. 
Minha mãe pareceu despreocupar-se com a minha chegada repentina e começou a bombardear-me com perguntas e mais perguntas que eu respondia evasiva e cuidadosamente.
Em tom lamurioso, ela passou a falar de sua vida. Disse que fornecia refeições para os soldados da guarda do presídio, mas estava pensando em parar com essa atividade, porque eles almoçavam fiado, para pagamento no fim do mês, e, quando eram transferidos para o interior, partiam sem saldar as suas dívidas.
Percebi que ela tentava mostrar-me suas dificuldades financeiras, para que eu não me iludisse. Então, resolvi contar os motivos que me levaram a João Pessoa:
— Através de meu pai consegui um emprego provisório como Agente Recenseador, em Brejo do Cruz. Porém, um mal entendido entre mim e o representante do IBGE resultou no meu desligamento. Sem emprego, sem dinheiro e sem família, ficou impossível a minha permanência naquela cidade. Decidi, então, vir discutir esse meu desligamento junto à Administração do IBGE, uma vez que não recebi o que me é devido. E, se tudo der certo, ficarei por aqui.
Falei também da minha intenção inicial de ir ao encontro de meu pai, mas estava percebendo que ele morava muito longe da capital.
Minha mãe respirou fundo e, com fisionomia preocupada, falou:
— Não estou em condições de lhe oferecer ajuda financeira, mas se você não se incomodar poderá dormir na sala esta noite e almoçar comigo amanhã. Está bem assim?
Desculpou-se, dizendo que a casa era muito pequena, com apenas três cômodos: sala, quarto e cozinha. No quarto, com ela, dormia a amiga Mirian, com quem dividia as despesas da casa, e a sala era utilizada para servir as refeições aos guardas do Presídio.
Não discuti, aceitei imediatamente. Mas a companheira de minha mãe, que me olhava atravessado desde que cheguei, começou a fazer-me indagações por conta própria:
— Quanto você pode pagar pela diária de um hotel? Quanto tempo você pretende ficar na capital? Quanto você tem a receber do IBGE?
Despistei nas respostas, dizendo que tudo ia depender do meu contato com aquele Instituto.
       Naquela noite ficamos até tarde falando de nossas vidas. Minha mãe contou os momentos difíceis por que passou depois que deixou meu pai e teve que, sozinha, na condição de mulher separada, encontrar meios para sobreviver, pois era isso o que ela fazia: sobrevivia.


Enquanto ela falava, meu pensamento vagava e eu me lembrei da última vez em que nos vimos, em São Pedro, quando ela me levou de presente um caminhãozinho de lata, na cor vermelha. Eu tinha 8 anos. 


Da imagem que eu guardara dela pouco havia se modificado. Porém, percebia que minha mãe se tornara uma mulher sofrida, e essa constatação me chocou.
O vento soprava fresco por entre as folhas das bananeiras, produzindo um sibilado incomum. Caminhei até a porta e virando-me para ela disse:
— Se acontecer o que eu estou pensando, ficarei por aqui.

Minha mãe parecia absorta, olhar distante, sem fazer a menor ideia das minhas palavras. Eu não estava muito otimista com os resultados da minha visita ao IBGE.  Poderia ser insatisfatório e, se eu tivesse que começar do zero, seu apoio, na verdade, estaria apenas começando naquela noite.
  Dormi pela primeira vez na casa da minha mãe.
     
No dia seguinte, acordei cedo, animado, tomei café e fui procurar o Departamento de Estatística do IBGE. Fui informado que aquele órgão ficava na Praça Venâncio Neiva, próximo ao Palácio da Redenção. Segui na direção indicada. Na escada do sobrado, uma placa indicava o Departamento. Subi e cheguei a uma espaçosa sala, com muitos funcionários trabalhando ao redor de uma grande mesa, repleta de formulários do Recenseamento.
        Ao me ver, um dos funcionários levantou-se e perguntou o que eu desejava. Era um senhor de meia idade, careca, cabeça chata. Disse-lhe que desejava falar com o diretor geral. Ele, fala mansa, insistiu para que eu lhe adiantasse o assunto. Acabei revelando. Ele quis saber mais alguns detalhes e, mostrando-se cada vez mais interessado, convidou-me a sentar ao seu lado. Eu estava tenso, as palavras saíam com dificuldade. Educadamente, procurando me acalmar, o simpático homem insistia para que eu explicasse melhor o que me acontecera e o que eu esperava do Prof. Sizenando Costa. Mais calmo, fiz um relato completo. Depois de me ouvir, dirigiu-se ao gabinete, prometendo levar o caso ao diretor, no mesmo instante.
        Fiquei aguardando.
Senti, nos gestos daquele homem, que ele tinha ido com a minha cara. Alguns minutos depois ele retornou e disse que eu seria recebido pelo diretor. Enquanto isso, ele continuou investigando a minha vida. Eu já havia lhe falado de minhas dificuldades financeiras, das ameaças de ficar sem refeições na pensão, da saída de meu pai da Delegacia de Brejo do Cruz, do peso que eu representava para meu amigo Mário, enfim, tentei explicar de forma muito clara por que procurei a ajuda do Sr. Guttenberg:
— Eu estava sozinho e em desespero, inclusive ameaçado de não poder terminar o meu trabalho. Talvez eu tenha sido o único agente a procurá-lo, mas o fiz num momento difícil e preocupado em concluir minhas tarefas. Esperava que ele me ajudasse, mas ele procedeu de maneira deselegante, arbitrária e desumana, conseguindo, inclusive, que o delegado da cidade recolhesse o meu Cartão de Identidade como se eu tivesse praticado alguma irregularidade grave na função. E, ainda, demonstrou muita arrogância ao se negar a aceitar, sob recibo, os formulários do meu distrito, devidamente preenchidos. Expulsou-me de sua sala, sem me dar qualquer comprovante de que concluí meu distrito.
     Ele ouvia com atenção, e eu falava sem parar. Levantou-se e disse:
       — Já entendi tudo. Vamos entrar.  
      O Prof. Sizenando era um homem elegante e, de forma polida, estendeu-me a mão, dizendo:
    — Domingos já me contou a sua história. Vou tomar as providências, você vai receber o que tem direito, fique tranqüilo. Os trabalhos do Censo estão quase finalizados, mas se você quiser nos ajudar na conferência dos formulários poderá retornar amanhã, às 8 horas. Será bem-vindo na equipe de Domingos Trindade.
    Despedimo-nos cordialmente. Saí do gabinete orgulhoso da minha coragem. Aquelas pessoas me ouviram, tiveram consideração por mim. Eu fora aprovado no teste que eu mesmo me propus. Estava certo que as portas se abririam.
       Deveria retornar para a casa da minha mãe, mas não era hora do almoço. Então resolvi conhecer um pouco da cidade. Caminhei despreocupado e, quando dei por mim,  estava numa grande praça,  apreciando o belíssimo Palácio da Redenção. Nunca havia visto nada igual. No centro da praça uma estátua retratava a efervescência política de 1930 e homenageava João Pessoa. Contemplei-a demoradamente e lembrei-me de meu avô e daquela tarde de segunda-feira quando soldados barulhentos nos causaram tanto medo ao caminharmos pela estrada.
Olhei para todos os lados e me senti enlevado com a beleza dos prédios e o movimento das pessoas. Por um momento, senti-me distante no tempo e no espaço, as imagens da cidade se misturavam às do meu Jatobá: o Serrote do Espinho Branco, os grandes lajedos e a porteira fechando-se atrás de mim.
       Parava em cada esquina para memorizar os nomes das ruas. Atravessei e segui pela Rua da República, que me parecia interminável. Caminhava e observava com atenção tudo que ia encontrando, tentando me familiarizar com os lugares por onde passava. Mais à frente, e no meio de uma pequena praça, um monumento chamou a minha atenção: uma grande pedra pontiaguda. Fiquei curioso em saber como aquela pedra teria sido levada até lá.
João Pessoa me encantava pelo seu verde exuberante, por suas muitas praças e por seu clima fresco, diferente do clima a que eu me acostumara no sertão.
Já era quase hora do almoço quando tomei o caminho de volta para a casa de minha mãe.
      Ao entrar, fui relatando para ela tudo que aconteceu na visita que fiz ao IBGE. Meu entusiasmo contagiou minha mãe e ela me abraçou, dizendo:
— Tomara que as coisas comecem a clarear para você, meu filho!
Fiquei na sala, pensativo, por algum tempo, enquanto minha mãe e sua amiga terminavam os preparativos para o almoço. Os guardas do Presídio começaram a chegar. O almoço foi colocado na mesa em grandes travessas e eu tomei um lugar no meio daqueles homens fardados, pela primeira vez. Observei que eles podiam comer à vontade e, no final, aqueles que não pagavam na hora tinham seus nomes anotados em uma caderneta, para saldarem suas dívidas no final do mês, como minha mãe explicou.
Terminado o almoço, a sala se esvaziou. Os guardas voltaram para o serviço. Eu ainda não me sentia à vontade com minha mãe, nem ela, tampouco, se sentia com intimidade para falar de alguns aspectos de sua vida.
De qualquer forma, houve entre nós um diálogo positivo, deixando-nos envolvidos emocionalmente, a ponto de, mesmo não dispondo de espaço em sua casa, minha mãe insistir para que eu permanecesse com ela, evitando gastos, o que me deu uma sensação de segurança. Decidi, então, revelar-lhe a verdade:
— Ontem à noite, quando cheguei, não tinha condições de ficar em hotel algum e se a senhora não tivesse me acolhido eu teria tentado ir, mesmo àquela hora, para Bahia da Traição, como estava previsto.
Ela, carinhosamente, colocou a mão em meu ombro e replicou:
— Você não precisava mentir!
Dirigi-lhe um olhar constrangido, segurei suas mãos e falei:
— Desculpe! Não queria lhe causar problemas...
Minha mãe voltou a falar das suas dificuldades financeiras. Eu me sentia intranquilo por estar lhe trazendo mais uma preocupação, uma vez que não me prometeram qualquer retribuição por minha participação no trabalho de revisão. De qualquer forma, naquele momento, pensava ser conveniente não assustá-la em demasia. Quem sabe as coisas se resolveriam? 
Tranquilizei-a, explicando que aceitaria o convite do diretor do IBGE e que, embora a revisão dos formulários já estivesse no fim, esperava, ao término do Recenseamento, receber o que me era devido. Claro que trabalhando com eles, tornar-se-ia mais fácil.
        Às 8 horas da manhã, em ponto, eu cheguei no Departamento de Estatística e dirigi-me ao Sr. Domingos. Ele me apresentou aos demais funcionários e, em seguida, entregou-me certa quantidade de boletins, orientando-me no que eu deveria fazer e disse:
— Considere-se nosso colega a partir de hoje, fique à vontade e qualquer dúvida nos pergunte.
       Diariamente, eu era sempre dos primeiros a chegar. Aguardava ansioso o dia seguinte, queria ser observado na minha dedicação ao trabalho. Talvez fosse aproveitado posteriormente. Segui essa rotina durante todo o mês.
Depois desse tempo sem que eu contribuísse para as despesas da casa, minha mãe falou:
— Chiquinho, como você pode ver, a minha situação financeira não é boa. Gasto muito para fornecer refeições diárias e preciso de sua ajuda.
 Fiquei calado e confuso. Levantei da cadeira, fui até a janela, olhei para a rua, depois voltei a sentar-me de frente para ela, e concordei:
— Ainda possuo uma pequena quantia que sobrou do que Mário Saldanha me emprestou. Sei que é pouco, mas vou lhe dar. Tenho certeza de que receberei do IBGE e, quando isso acontecer, prometo recompensá-la melhor.
Minha mãe tinha um jeito peculiar de olhar para o chão quando o assunto lhe causava impacto e, assim, respondeu:
— Aceito e vou esperar.
Lembrei-me do meu pai. Até aquele momento eu não me animara a ir ao seu encontro em Bahia da Traição. Não sabia se ele estaria em condições de me ajudar financeiramente, para que eu pudesse tirar minha mãe daquela angústia. Eu não tinha seu endereço, mas pensava em procurá-lo, pessoalmente, tão logo terminasse o trabalho de conferência dos boletins, porém o destino facilitou as coisas. Um dia, ele apareceu no IBGE. Soube, por Mário Saldanha, que eu estava em João Pessoa e foi procurar-me na casa de minha mãe, onde foi informado que eu trabalhava lá.
Quando me viu, demonstrou orgulho por eu estar executando um trabalho burocrático, num ambiente limpo, cercado de pessoas de boa aparência. Fiquei feliz com a surpresa e correspondi ao seu abraço. Ele fora a João Pessoa para resolver pendências sobre sua reforma que acontecera em dezembro último e avisar-me que estava de mudança para Campina Grande. Ficou alguns minutos comigo. Conversamos banalidades, debruçados na janela, e nos despedimos sem que eu tivesse coragem de lhe pedir qualquer ajuda. Ele também não se ofereceu. Pensou, provavelmente, que meu trabalho era remunerado.
Em fins de março, a revisão de formulários terminou e a equipe foi desfeita. Agora, restava esperar o pagamento. Mas, até quando? Era a pergunta que eu me fazia todas as noites, antes de dormir.
        Minha mãe não disfarçava a sua ansiedade desde o dia em que soube do término dos trabalhos. Esperava que eu recebesse imediatamente o que tinha direito. Eu, apesar de aguardar ansioso por esse momento, não me deixava levar por ilusões otimistas. Já havia me decepcionado com o IBGE uma vez e não ia agora criar expectativas vãs.
Certa vez, para colocar um ponto final no assunto e acalmar a sua euforia, disse-lhe que não tinha a menor ideia de quando iria receber. Ela me olhou pensativa, mordeu os lábios e fez a pergunta que jamais esperei ouvir:
— Chiquinho, você não gostaria de sentar praça na Polícia? Eu tenho um grande amigo lá, se você quiser eu falo com ele.
— E eu tenho escolha? — sem opção, concordei e combinamos de, na manhã seguinte, irmos ao quartel da Polícia.



Para ler outros episódios deste 2o. capítulo, clica em "Postagens mais antigas”, aí embaixo.



Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história  para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com                                                     

Um comentário:

  1. Engraçado como esse episódio parece um pouco com a minha história ao sair para estudar em João Pessoa em 1972. Chegando na rodoviária não sabia para onde ir. Conheci uma bondosa senhora que me cedeu sua casa para eu e minha colega ficarmos. E como chegaria lá? Pela rua da República, pois a casa ficaria na rua São Miguel.

    ResponderExcluir