A CIDADE ERA O LOCAL DOS GRANDES acontecimentos e das grandes novidades. Lembro-me da passagem de Frei Damião por Patos. Figura magra e baixa, moço ainda, olhos fundos, marcados por olheiras, rosto afilado, com barbas longas, sandálias de couro e batina surrada.

Frei Damião em 3 momentos
Sua voz penetrante e rouca se destacava nas pregações que aconteciam em frente à Igreja de Nossa Senhora da Guia. Era uma verdadeira romaria, nos dias de suas pregações ameaçadoras. Minhas tias e eu íamos sempre ouvi-lo. Seu carisma era a marca de sua personalidade e conseguia influenciar multidões. Sua fala, sempre arrebatadora, levava todos que o ouviam a aceitar suas palavras como se fossem sentenças. Referia-se ao inferno como o lugar para onde iam os que cometiam erros em suas vidas e, levantando o terço e o crucifixo, ele advertia o homem simples, que o ouvia atentamente, para que tivesse cuidado, porque o inferno era muito quente. Os sertanejos, temerosos, entendiam o recado e, quando retornavam aos seus lares, comentavam com pavor tudo que ouviram de Frei Damião. Dava destaque particular aos casais amancebados ou aos que pecavam com outros parceiros, fora do casamento, e, assim, procurava manter e conduzir as ovelhas do seu rebanho, fazendo-as refletir sobre sua vida conjugal, ameaçando-as, insistentemente, com o fogo do inferno. Depois de ouvirem o capuchinho, todos retornavam para suas casas com a certeza de que receberam conselhos que deveriam ser seguidos sem questionamentos. Nesses dias de missões, a cidade vivia um clima de festa, com barraquinhas para a venda de santinhos, medalhas, imagens e quitutes.
Por essa época, corria a notícia de que, na Serra da Borborema, lá pelas bandas do Jabre — um local no meio da selva —, haviam encontrado um filão de ouro e para lá estava indo muita gente que enriquecia rapidamente. O velho Xixi Cabral, ao tomar conhecimento da existência do novo Eldorado, partiu de João Pessoa para Patos com a idéia fixa de reunir um grupo de conhecidos e se instalar no garimpo para também explorá-lo. Formou um pequeno contingente composto de ex-moradores de sua antiga Fazenda Jatobá e, entre eles, eu me incluí com muitas expectativas e as bênçãos de meu avô. Um dia, partimos amontoados na carroceria de um caminhão, cheios de esperança de encontrar a sorte e a riqueza tão sonhadas por todo o grupo.
Eu estava desempregado, sem dinheiro, e não queria mais depender da ajuda de meu avô. Movido por essa situação, pela primeira vez deixei a sua companhia, exercitando a minha independência.
Sr. Xixi, que devia ter 60 anos, parecia o mais jovem de todos. Quando subiu na boléia do caminhão que transportava o grupo, disse: “Voltaremos ricos, podem acreditar!”
Chegamos ao garimpo do Jabre, na Serra do Teixeira, já era noite. Montamos, às pressas, um pequeno acampamento no meio da selva. Advertiram-nos que tivéssemos cuidado com as onças e outros animais perigosos. Porém, no primeiro momento, a nossa coragem, alimentada pela esperança de encontrarmos ali um grande futuro, encobria os nossos temores. Naquela primeira noite custei a dormir. O silêncio profundo da mata, quebrado pelo coaxar de sapos e piados de corujas, além das inúmeras picadas de mosquitos, fizeram com que eu me arrependesse de ter empreendido tal aventura.


A barra no garimpo era pesada. Eu era o mais jovem e minha tarefa era lavar a areia ou o cascalho no leito de um riacho, com água até os joelhos. Eu passava o dia inteiro agachado, girando a bateia, deslocando-me naquele curso d’água lamacento que deslizava da serra, na tentativa de colher alguma pepita. Nas noites seguintes, dormi sem tempo para arrependimentos ou medos. O cansaço físico não permitia pensar nem tampouco conversar com os colegas. O tempo era pouco para recuperar as energias perdidas na ânsia de encontrar a pedra dourada escurecida pelo barro. Na primeira semana conseguimos reunir um grama de ouro. Muito pouco! Decepcionante!
Dois companheiros contraíram febre e, como a região era infestada de mosquitos, logo pensaram que tinham contraído malária. Não havia material de socorro no acampamento. Os dois companheiros doentes tiveram que regressar.
O velho Xixi já andava preocupado, ora com a falta de ouro, ora com a falta de condições para garantir ao grupo sua permanência ali. Percorria-se um longo caminho dentro do mato para comprar mantimentos em um lugarejo onde não havia remédios à venda.
Depois de algumas semanas, o velho Xixi, triste e desolado, reuniu o grupo e disse:
— O garimpo para mim não passou de uma simples busca de um tesouro inexistente, foi uma vã esperança. Estou definitivamente decidido a regressar. Já vi que não nasci para morrer rico. Se algum de vocês desejar ficar, que fique.
O velho Xixi era um homem bom, uma grande alma. Ouvia com calma e costumava emitir conselhos sábios. Era uma figura respeitável. Seu desencanto contagiou e entristeceu todos e, sem demora, cada um começou a arrumar seus trapos para logo tomar o caminho de volta.
Retornei a Jatobá. Manifestei ao meu avô a insatisfação comigo mesmo. Deveria haver um lugar onde eu pudesse trabalhar. Meu avô ficou preocupado, temia perder-me para um mundo desconhecido.
Ele tentou novamente me ajudar. Voltou a falar com o Dr. Aurélio e com D. Luíza, mas eles não me deram chances, permaneceram irredutíveis. Era grande o descontentamento de meu avô com a atitude irracional dos dirigentes do Campo.
— Eles não percebem que Chiquinho é um menino bom e que rir dos gatos não foi um motivo tão desabonador assim... — falava com amigos e conhecidos, na tentativa de fazer com que todos se convencessem da injustiça cometida. — Afinal de contas, Chiquinho é meu neto, como se fosse filho, e eu moro e trabalho em Jatobá, e sempre fui respeitado e considerado por todos os administradores que por aqui passaram.
Outra tentativa. Meu avô recorreu, desta vez, a um sobrinho que possuía uma oficina mecânica em Patos. Pediu-lhe que me ensinasse o ofício de mecânico de automóvel. Pensava que a oportunidade de trabalhar numa oficina certamente me abriria caminhos e eu teria uma profissão.
O primo Manuel, filho de Delmiro, atendeu, imediatamente, ao pedido, como também me inscreveu no Grupo Escolar Rio Branco. Meu avô exultou. Comecei a trabalhar na oficina no horário da tarde.
O primo Manuel, filho de Delmiro, atendeu, imediatamente, ao pedido, como também me inscreveu no Grupo Escolar Rio Branco. Meu avô exultou. Comecei a trabalhar na oficina no horário da tarde.
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| Grupo Escolar Rio Branco, em Patos |
Inicialmente, meu trabalho consistia em separar as chaves que os mecânicos pediam para usar no desmonte ou na montagem de motores, ou, então, arriar o óleo dos carros. Manuel dizia que eu era muito jovem ainda e franzino demais para tarefas pesadas e, por isso, deveria começar por essas coisas mais simples.
Eu dormia em Jatobá e, pela manhã, logo cedo, tomava a estrada para a cidade. Assistia às aulas até às 12 horas, almoçava na casa do primo e ia para a oficina, permanecendo até o final do dia, quando retornava a casa.
Esse contato diário com a vida de Patos, única cidade que eu conhecia, fazia com que eu me sentisse cada vez mais atraído por ela, seduzido pelo que oferecia aos jovens, sonhando com um futuro diferente. Nascia em mim um espírito novo que me tangia para longe da vida simples do campo. Uma vida que parecia engolir a minha juventude.
Na oficina, via com interesse os motoristas ligarem os carros e caminhões e achava que, uma vez com um volante nas mãos, seria capaz de dirigir, tornando-me um motorista profissional, percorrendo longas estradas e conhecendo novos lugares. Sonhava com esse dia. Mas o tempo ia passando e eu não via avanços naquilo que fazia.
Em casa, meu avô perguntava sobre meus progressos. Queria saber se eu já era capaz de “mexer em carros”. Eu respondia que estava tudo bem, tentava conversar sobre a rotina na oficina, mas certa vez manifestei a minha insatisfação:
— Até aqui, só tenho decorado a numeração de chaves e arriado óleo, e isso, para mim, não significa mexer em carro. Procurar chaves por tamanho e entregá-las aos mecânicos, melar de óleo as mãos e a roupa é trabalho sem futuro.
Meio surpreso, ele foi reclamar com o primo Manuel, tendo ouvido, como resposta, que eu não dava para a mecânica, pois já fazia algum tempo que eu estava em sua oficina e não demonstrara qualquer interesse em aprender. Por isso, não valia a pena continuar lá.
— Ele não devia ter reclamado por só fazer as tarefas mais simples. Que outra coisa ele saberia fazer? — disse Manuel, aborrecido.
Meu avô retornou desanimado. Primeiro, porque esperava que eu pudesse ser mecânico ou motorista; segundo, porque, a seu pedido, o primo havia me matriculado na escola, o que o deixou muito feliz; finalmente, porque eu tinha alimentação boa, diariamente.
Eu admiti que meu avô tinha razão. Sua preocupação comigo era justa. Por algum tempo, a sua fisionomia foi de repreensão por eu não ter entendido o seu esforço para me ajudar a encontrar um caminho seguro, sem depender de alguém.
As poucas palavras que ele me dirigia traduziam claramente seu descontentamento e sua preocupação com o meu futuro. Perder-me, ele jamais admitiu. Mas as palavras do primo Manuel lhe soaram como um veredicto. Mais cedo ou mais tarde, diante de qualquer caminho que eu seguisse, só lhe restaria a resignação da despedida, uma vez que a vida do campo não mais me seduzia.
Eu sabia que estava causando tristezas. A incerteza do meu futuro trazia sofrimento àquele velho homem que tanto sacrifício fez para me criar. Não era justo. Eu precisava assumir o comando da minha vida. Vi-me de repente diante de um dilema: “permanecer com meu avô em Jatobá, insatisfeito, acompanhando as tias no roçado, ou procurar a ajuda de meu pai?”
A última opção pareceu-me a mais correta. E então comecei a pensar de que maneira deveria tratar do assunto com meu avô.
Esperei o momento apropriado, aproximei-me, e disse-lhe:
— Pai, queria dizer-lhe uma coisa.
— Que é que você quer? — indagou com olhar desconfiado.
— Sei que não será fácil revelar a decisão que acabo de tomar... — continuei, preambulando. — Reconheço o seu enorme esforço para me reabilitar perante D. Luíza e Dr. Aurélio, e também sei que decepcionei o primo Manuel. Não quero mais que o senhor sofra por minha causa.
Eu me culpava em tom de desculpas. E, categórico, afirmei:
— Para não lhe causar mais transtornos, decidi dar um novo rumo à minha vida. Escreverei uma carta ao meu pai, pedindo-lhe ajuda. Está na hora de ele me assumir. Se eu tiver ainda que decepcionar alguém, será ele, que sempre esteve afastado dos meus problemas.
Minhas palavras transtornaram meu avô. Ele se levantou e andou na direção da porta, parou indeciso, depois virou-se para mim e disse:
— Você não vai se dar bem com Eulália e isso só vai piorar a sua vida! Você ainda é uma criança. Não vai dar certo. Fique em Patos, estaremos juntos.
O tom apelativo de seus argumentos me fez silenciar por alguns minutos. Saí para o ar fresco do terreiro, olhei para a estrada que me pareceu larga e longa. Voltei para perto de meu avô, retomando o diálogo:
— Eu já tenho 16 anos e preciso seguir meu caminho. Estou decidido. Vou ao encontro de meu pai!
Ele me olhou pensativo. Vi que ia contra-argumentar. Estava procurando palavras convincentes e, antes que as encontrasse, insisti:
— Decisão tomada, meu avô! Mesmo correndo riscos. Se tudo falhar, eu volto.
Um certo alívio estampou-se em sua fisionomia, seus olhos vaguearam pelas paredes. Levantou-se, foi até a janela, temperou a garganta e ficou inerte, como se estivesse assistindo a um filme.
Reabri o diálogo interrompido:
— Queria continuar com o senhor, mas vejo que não terei chances aqui. Mesmo em Patos não conseguirei emprego. Preciso tentar com meu pai.
— Está bem — disse meu avô. — Não insisto mais!
Senti que o sinal fora aberto para mim!
Escrevi uma carta ao meu pai. Nela, eu dizia que gostaria de passar algum tempo em sua companhia. Deixei bem claro que eu estava procurando um novo caminho, pois não desejava me acomodar à vida do campo, sem qualquer perspectiva. Queria fazer como ele, que cedo partiu e nunca se arrependeu.
Meu pai certamente não esperava receber aquela carta. Respondeu-a dias depois, dizendo que eu deveria esperar um pouco até que ele conseguisse um emprego para mim na Prefeitura de Brejo do Cruz, onde ele era delegado de Polícia e possuía boas amizades.
Na semana seguinte, tornou a escrever, pedindo, mais uma vez, que eu aguardasse o momento certo para viajar. Concluí que ele ficara confuso com a minha decisão e confirmei minhas suspeitas quando, certo dia, ao chegar em casa, encontrei-o conversando com meu avô sobre os motivos que me levavam a querer deixar Jatobá, procurando a sua ajuda. Temia que a minha ausência causasse uma profunda dor no coração de seu velho pai, que nunca pensou em se separar de mim.
Pela primeira vez na vida, pude conversar com ele sobre meus sonhos e confessei que confiava na sua proteção e na sua ajuda.
Então, ele me disse:
— Tudo bem! Peço-lhe apenas que aguarde um pouco mais, falarei com o prefeito de Brejo do Cruz e, tão logo tenha uma resposta, escreverei para você.
Na manhã seguinte, meu pai e Eulália me trataram com muita frieza. Senti que me tornara um problema para os dois. Na hora do almoço, eles tomaram seus lugares à mesa e sinalizaram para que eu também o fizesse. Sentei e fiz o meu prato. Eles discutiam sobre qualquer coisa que eu não entendia, mas achava que se referiam a mim. Era muito forte o sentimento de rejeição que me invadia. Eu me sentia um intruso. Engoli a comida com dificuldade.
Meu pai recomendou-me ao cabo Mário Saldanha, subdelegado de São Bento, seu amigo, para que me desse apoio enquanto eu estivesse naquela localidade. Fiquei hospedado no mesmo quarto da pensão ocupado por Saldanha. Saía pela manhã, depois do café, e só retornava no fim do dia para jantar e dormir. O almoço, quase sempre, era-me oferecido nas casas que eu visitava. E eu aceitava, é claro!
— Tudo bem! Peço-lhe apenas que aguarde um pouco mais, falarei com o prefeito de Brejo do Cruz e, tão logo tenha uma resposta, escreverei para você.
— Vou aguardar seu chamado — falei.
Meu pai partiu e me deixou na expectativa.
Passaram-se alguns dias sem que chegasse qualquer notícia. Comecei a desconfiar do seu silêncio e até admiti que ele poderia estar protelando a minha ida por não ter ainda conseguido o emprego prometido.
Entre a dúvida em ficar e o desejo de partir, decidi assumir a grande aventura de deixar Jatobá.
Na manhã de 1o de junho de l940, por volta das 9 horas, peguei os meus poucos objetos pessoais que já estavam amarrados em um grande pacote, dirigi-me ao meu avô e, meio sem jeito, disse-lhe:
— Pai, vou embora.
Eu sabia que qualquer coisa que eu dissesse não tiraria o peso dessas três pequenas palavras. Estava temeroso de lhe causar um grande golpe. Mesmo assim, parei diante dele, coloquei a mão em seu ombro, olhei-o fixamente e, com o pensamento em completa desordem, insisti:
— Pai, vou agora!
Ele parecia não acreditar, era grave demais o que acabava de ouvir. Minhas tias, em silêncio, choravam. Sabiam que a minha decisão estava tomada. Durante alguns segundos meu avô permaneceu impassível, depois retirou do bolso um lenço branco e também chorou.
Naquele momento pensei e concluí que não devemos vacilar quando tomamos uma decisão, pois, se o fizermos, corremos o risco de sermos vencidos pelos nossos medos, obrigando-nos a recuar.
Esperei alguns segundos, abraçamo-nos demoradamente e senti que aquele era o nosso último abraço. Beijei carinhosamente cada uma de minhas tias. Pedi-lhes a bênção, peguei meu pacote e parti.
Era uma clara manhã de segunda-feira. Deixei-os desolados. Abri a porteira e, ao atravessá-la, contemplei à minha frente a longa estrada, antes tão familiar, mas, naquele momento, inteiramente desconhecida. Virei-me para ver a porteira fechar-se atrás de mim. Tomei a estrada, que depois de uma breve descida se desenhava, numa pequena elevação. Olhei para trás, parei e fixei na memória a nossa casa atrás da porteira fechada.
Vi lá distante, na frente daquela casa simples, meus entes queridos reunidos como se estivessem orando por mim. Meu avô, com sua cabeleira branca como o capulho do algodão, era inconfundível na distância. Minhas tias Bá, Inocência e Eufrozina acenavam. Respondi àqueles acenos e continuei estrada afora, olhando para trás até não nos vermos mais. Enquanto caminhava não conseguia me libertar daquela imagem que certamente iria, dali por diante, povoar os meus dias. Para aqueles que deixei, eu me tornara uma eterna lembrança, enquanto que eles, para mim, se tornariam a minha eterna referência.
E chorei.
Chegando a Patos, próximo à feira, eu sabia que encontraria transporte para qualquer lugar da redondeza. Avistei os caminhões parados e procurei me informar qual deles se destinava a Brejo do Cruz.
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| foto ilustrativa retirada da internet |
Dirigi-me ao motorista, que estranhou o fato de eu querer viajar sozinho. E eu, orgulhoso, acrescentei:
— Meu pai é o delegado de Brejo do Cruz, ele está me esperando.
— Sairemos às 16 horas — confirmou o motorista.
Vi que ainda tinha muito tempo. Pensei em procurar meu padrinho para me despedir. Talvez o encontrasse na feira, quem sabe? Dirigi-me novamente ao motorista do caminhão e falei:
— Ei, moço, vou dar uma voltinha e na hora marcada estarei aqui. Eu preciso muito viajar hoje. O senhor não vai partir antes, vai?
O homem me olhou compreensivo e me acalmou dizendo:
— Vá, vá, não se preocupe!
Andei pela feira, meio perdido, procurando meu padrinho. O pacote que eu levava estava pesado e incômodo. Desisti. Ele haveria de entender a minha súbita partida. Parei na barraca de toldo branco onde meu avô costumava me levar. Tomei um café com pão e queijo. Havia em mim uma ansiedade misturada com um sentimento de perda e medo. Mas eu pensava que era assim mesmo. Voltei para perto dos caminhões. Sentei na beira da calçada, encostado em uma árvore, larguei o pacote no chão, encostei a cabeça e adormeci. Acordei com o motorista me cutucando no ombro:
— Se apresse, vamos viajar!
Pulei para a carroceria do caminhão. Começava ali a minha primeira aventura em busca de uma nova vida.
O caminhão partiu.
Além de caixas e toda espécie de volumes, viajavam, também, alguns passageiros. Lembro-me que escolhi um lugar encostado na cabine, no canto da carroceria, e, toda vez que o caminhão enrolava uma curva, eu precisava me agarrar a umas cordas amarradas à cabine, para não cair.
POR VOLTA DAS 20 HORAS, chegamos a Brejo do Cruz. O motorista parou na entrada da cidade e descemos. Paguei o preço combinado, peguei meu pacote, coloquei-o ao ombro e andei alguns passos, sem rumo, procurando alguém que me orientasse.
POR VOLTA DAS 20 HORAS, chegamos a Brejo do Cruz. O motorista parou na entrada da cidade e descemos. Paguei o preço combinado, peguei meu pacote, coloquei-o ao ombro e andei alguns passos, sem rumo, procurando alguém que me orientasse.
Percebi que a cidade era pequena, pouco iluminada, e as ruas, àquela hora, estavam desertas. De repente, vi um senhor de idade. Caminhei em sua direção, e perguntei:
— Por favor, senhor! Estou chegando, não conheço a cidade. Sou filho do delegado, Apolônio. Esqueci o seu endereço, o senhor sabe onde ele mora?
O senhor olhou-me, possivelmente estranhando que um garoto sozinho estivesse procurando o delegado àquela hora da noite, e, prontamente, me conduziu à rua onde ficava a Delegacia e residência do delegado. Era uma casa comum, nada a identificava como sendo uma delegacia. Agradeci.
A casa estava fechada. Bati. Meu pai e Eulália surgiram na porta, curiosos, mas senti frieza na recepção. Não houve espanto, muito menos alegria.
Meu pai foi logo perguntando, em tom de censura:
— Chiquinho! Por que não esperou meu chamado?
Eu, já entrando, dei uma resposta “cabocla”, meio sem jeito, que não o convenceu, e ele continuou:
— Eu lhe disse que só deveria vir quando eu tivesse arranjado o emprego. Já falei com o prefeito. Ele vai arranjar um lugar para você, tenho certeza. Você se apressou. Devia ter esperado meu chamado.
Fiquei calado. Meu pai mostrava-se visivelmente contrariado com a minha presença. Eles estavam jantando e retomaram a refeição, sem puxar conversa comigo. Sentei ao seu lado, sem ser convidado. Eulália levantou-se, colocou à minha frente um prato com feijão, arroz e frango, e desculpou-se:
— Não estávamos esperando você...
Ali na mesa, lembrei-me das preocupações de meu avô.
Após a refeição, e sentindo a fria recepção, saí para caminhar. Tão logo me afastei daquele ambiente carregado, incorporei um caipira deslumbrado e, ainda sob o efeito da cansativa viagem de caminhão, além de tomado pela frustração que sentia, deixei-me levar por divagações.
Na praça principal havia uma igreja. Entrei, atraído pelos cânticos que estava ouvindo. Pensei que, assim, conseguiria aliviar a minha decepção.
A igreja estava lotada. Fiquei de pé num canto junto da porta de entrada, tentando me concentrar na cerimônia, mas meu pensamento se encontrava distante.
Ao meu lado, em pé, vi um militar. Para sair do isolamento puxei conversa e perguntei se ele fazia parte do destacamento, ao que ele, com ar cordial, respondeu-me:
— Não. Eu estou aqui em Brejo do Cruz, convidado pelo prefeito, para organizar a Banda de Música Municipal. E você, de onde é?
— De Patos. Eu sou filho do Sargento Apolônio, delegado da cidade.
— Ah, é?!
Perguntou o meu nome e eu respondi. Ele disse chamar-se Israel. Terminado o ato religioso, ficamos, por algum tempo, no adro da igreja e ele começou a falar dos costumes da cidade. Aos poucos, nosso papo foi se aprofundando e, a certa altura, inadvertidamente, eu disse que meu pai me prometera um emprego na Prefeitura, que dependia apenas da resposta do prefeito.
O militar não desgrudava de mim. Eu já estava meio desconfiado, mas não via como me livrar de sua companhia. Ao dizer-lhe: “Boa Noite, foi um prazer”, ele, em vez de corresponder, convidou-me para visitar o prefeito, que estava doente. Tinha certeza que eu seria bem recebido. Reforçava que o prefeito era amigo de meu pai.
E, virando-se para a outra extremidade da praça, apontou para a casa do prefeito.
Eu tentei não aceitar o convite, dizendo que não me parecia apropriado fazer visitas àquela hora da noite e também porque eu era um estranho, recém-chegado. Mas o pegajoso senhor insistia. Vi que não tinha escapatória e fui instigado por um pensamento: “quem sabe a minha visita ao prefeito vai abreviar a resposta aguardada por meu pai...”
Fomos bem recebidos. Fui apresentado ao prefeito, na condição de filho do delegado Apolônio, e ele, cordialmente, apertou-me a mão e perguntou:
— O que faz na cidade, meu rapaz?
Fiquei meio confuso. Um suor frio correu pelo meu corpo, eu tinha que atender à curiosidade dele e, inabilmente, respondi:
— Meu pai já deve ter falado com o senhor a meu respeito, sobre um emprego na Prefeitura.
O prefeito ficou embaraçado. Só então percebi na sua fisionomia que meu pai jamais lhe falou sobre mim e, portanto, não havia promessa de emprego algum. Sem nada dizer, desviou o olhar para o meu cicerone e ambos passaram a conversar sobre a sua doença. Eu assistia ao diálogo dos dois, fingindo que não me dera conta de minha imprudência. Dei graças a Deus quando o músico encerrou a conversa e despediu-se, desejando-lhe pronto restabelecimento, gesto que eu imitei.
Ao voltar, meu pai me indagou onde eu estive e contei o acontecido.
Ele me fitou com desaprovação:
— Quem mandou visitar o prefeito?! Você não podia fazer isso sem me consultar.
Ele estava visivelmente contrariado. Depois de um breve silêncio, voltou a perguntar:
— Mas você, Chiquinho, falou de emprego?
— Falei, sim.
— E o que disse o prefeito?
— Nada! — respondi convencido de que ele nada havia falado a respeito do emprego, como mencionara em sua carta.
Meu pai parecia muito nervoso, dando a entender que eu havia cometido uma grande imprudência e criado, para ele, um sério problema. Diante do mal-estar, tentei contornar a situação, assumindo a culpa. E meu pai, ao mesmo tempo em que ouvia o meu arrependimento, contra-argumentava que eu não podia, no primeiro encontro com um desconhecido, ainda que fardado de policial, acompanhá-lo a algum lugar. Era visível a sua revolta contra a minha irresponsabilidade. A cada recriminação que eu ouvia, refluíam em minha mente as palavras preocupadas de meu avô, antes da minha partida de Jatobá.
Na manhã seguinte, meu pai e Eulália me trataram com muita frieza. Senti que me tornara um problema para os dois. Na hora do almoço, eles tomaram seus lugares à mesa e sinalizaram para que eu também o fizesse. Sentei e fiz o meu prato. Eles discutiam sobre qualquer coisa que eu não entendia, mas achava que se referiam a mim. Era muito forte o sentimento de rejeição que me invadia. Eu me sentia um intruso. Engoli a comida com dificuldade.
Terminado o almoço, meu pai continuou de cara amarrada, sem me dirigir a palavra. Levantei-me e avisei:
— Vou dar uma volta na cidade.
— Cuidado para não fazer mais uma besteira! — falou, olhando-me severamente.
Enquanto caminhava, eu maquinava uma fórmula pela qual pudesse reparar o meu erro e conquistar a amizade e a confiança de meu pai.
Por mais que me esforçasse, não encontrava argumentação capaz de modificar a primeira impressão que lhe causei e pensei: “Tenho que reverter essa situação! Voltarei a conversar com ele. Vou me redimir. Ele vai me aceitar. Não voltarei para Jatobá.”
No fim do dia, sentei ao seu lado e puxei assunto. Falei que tinha achado Brejo do Cruz uma cidade belíssima, com pessoas cordiais e completei:
— Da igreja, cada um vai para sua casa, não ficam até tarde na rua. Acho que o senhor, aqui, deve estar levando uma vida calma.
Assim que externei essas minhas primeiras impressões, senti que minhas palavras produziram o efeito mágico que eu precisava. A fisionomia de meu pai, de repente, mudou, e ele passou a conversar comigo. Elogiou as minhas observações e pediu que eu tivesse calma, pois pensou muito na maneira ingênua, sem malícia, com que eu me deixei influenciar pelo músico Israel.
E, talvez, para me tranquilizar, acrescentou:
— O Israel foi o culpado!
A partir desse dia, meu pai mudou. Passamos a conversar e até a sairmos juntos, ele me apresentava às pessoas como seu filho, e fui me tornando um pouco mais seguro.
A partir desse dia, meu pai mudou. Passamos a conversar e até a sairmos juntos, ele me apresentava às pessoas como seu filho, e fui me tornando um pouco mais seguro.
Embora eu sentisse que o clima tinha melhorado, não via meu pai se mexer para arranjar o emprego que eu, há muito, aguardava. As esperanças que me levaram até ali estavam se desfazendo, uma a uma. Pensei em falar do assunto com ele, mas temi aborrecê-lo, não tive coragem. Vi que teria que me mexer sozinho, não podia continuar esperando dos outros.
Um dia, meu pai entrou em casa, animado. Havia tomado conhecimento da Portaria do Departamento de Estatística, na capital, anunciando o Recenseamento Nacional, a ser realizado ainda naquele ano de 1940. A Portaria convocava candidatos a Agente Recenseador, residentes nas várias cidades do país.
Meu pai procurou o responsável pelo Setor de Estatística do IBGE em Brejo do Cruz, Antônio Umbelino, e lhe pediu que me ajudasse a conseguir uma vaga de agente recenseador, justificando que eu precisava muito de um emprego. O agente estatístico comprometeu-se a me inscrever como candidato. Pediu que eu levasse, no dia seguinte, a certidão de idade.
Meu pai fez questão de ir comigo fazer a inscrição. Quando o agente viu o documento virou-se para meu pai e disse:
— Infelizmente eu não poderei inscrever seu filho, delegado. A Portaria exige idade mínima de 18 anos de idade, para os candidatos.
Saímos dali decepcionados.
Sem me consultar, meu pai me levou ao Cartório de Registro Civil, onde ele expôs o meu problema. O oficial se propôs a ajudar e foi, então, emitida uma segunda Certidão de Idade na qual passou a constar 21 de janeiro de 1922 como minha data de nascimento. Meu nome foi alterado para Francisco Nunes da Costa.
Naquela época, eu não tinha noção de que a criação daquele novo documento seria um ato ilícito. Sei que ganhei uma nova identidade e com ela norteei, a partir dali, toda a minha vida de cidadão. Portanto, Francisco Nunes de Oliveira, nascido em 10 de janeiro de 1924, deixou de existir.
Eu era um tipo franzino, com aparência de criança e em um só dia ficara mais velho dois anos. Fui obrigado a me parecer adulto e confesso que me senti feliz.
Depois de algumas explicações, meu pai entregou o novo documento ao agente. Fui inscrito. Frequentei o curso preparatório de recenseador durante uma semana, fui aprovado e passei a aguardar a chamada. Com isso, eu deixava de ser uma preocupação para meu pai.
FAZIA ALGUM TEMPO QUE EU estava em Brejo do Cruz e andava sempre em busca de algo novo que pudesse preencher as minhas horas. Um dia, descobri que os músicos da banda se reuniam à noite, para os ensaios, em uma casa na praça principal. Assistir, pela janela, àqueles ensaios passou a ser a rotina de todas as minhas noites. Devagar, fui penetrando no ambiente e, quando percebi, estava sentado num banco que havia ao lado dos músicos, no interior da casa. O meu encanto era total. Sempre me fascinei com a execução de um instrumento de sopro e acho que é uma das minhas frustrações até hoje. Eu nem percebia que estava sendo observado pelo maestro, pois a minha presença era diária e eu ali permanecia até o último acorde da última música.
Como dizia, o maestro me observava e, achando que eu estivesse interessado em participar do grupo, certa noite dirigiu-se a mim e perguntou:
— Quer tocar?
Espantado e embaraçado, sem saber o que responder, balancei a cabeça lenta e afirmativamente, pensando que ele me daria orientações iniciais sobre o uso de algum instrumento. Mas ele, mais que depressa, ajeitou uma estante, colocou sobre ela uma partitura musical — que para mim era grego —, entregou-me uma trompa e retornou para o seu pedestal, aprumando-se para iniciar a regência da próxima música.
Desorientado, olhei para o colega ao lado, que tinha um instrumento parecido, imitei seu modo de segurar e coloquei a trompa na boca. Quando o maestro fez os primeiros movimentos com a batuta, eu “entrei no clima”: sem emitir qualquer som, eu enchia e esvaziava as bochechas, acreditando que o maestro não percebia a minha farsa. Sempre que podia eu, de olhos arregalados, olhava para o lado e, atento, repetia os movimentos do meu colega, tentando, ao mesmo tempo, marcar o ritmo da música com a ponta dos pés.
Eu já suava por todos os poros, aquela situação não dava para segurar por muito tempo, e pensei que passaria por um ridículo maior na presença de todos aqueles senhores.
Quando o maestro baixou a batuta, dando por encerrada a música, eu, mais que depressa, levantei, larguei a trompa sobre a cadeira, e caí fora, em disparada, sem nem olhar para trás.
Nunca mais apareci para ver a banda tocar e, até hoje, quando ouço de perto o som de uma banda, sinto a mesma emoção daquela noite em que eu não tive coragem de dizer que não era músico.
ENQUANTO EU AGUARDAVA a convocação do IBGE, um vizinho, Sr. Agnelo, fiscal da Prefeitura, amigo de meu pai, ofereceu-me ajuda. Eu deveria fazer a cobrança de impostos em seu lugar, e ele me daria um percentual sobre os valores constantes das guias. Aceitei a missão imediatamente e ele me ensinou como eu deveria proceder. Entregou-me várias guias e parti em busca dos contribuintes. Ocorreu que alguns impostos, na área rural, também eram cobrados pela Mesa de Rendas (como era chamada a Receita Federal), e eu, em vez de cobrar o Imposto Municipal, que me cabia, cobrei o outro valor que constava na guia do contribuinte. Cheguei a fazer muitas cobranças erradas.
Na ânsia de faturar algum dinheiro, criei um sério problema para o Sr. Agnelo, que ficou em dificuldades para justificar a confusão. Não fosse o fiscal de rendas — amigo de meu pai —, homem de grande sensibilidade, eu teria prejudicado o fiscal da Prefeitura. A situação criada por mim foi consertada por eles e fui descartado daquela tarefa.
Algum tempo depois, chegou a designação dos agentes recenseadores. Todos receberam um Cartão de Identidade e o material que deveriam usar. As áreas foram definidas (urbana e rural) e, quando foi determinado o início do recenseamento, coube-me a área rural de São Bento, localidade próxima de Brejo do Cruz.
Meu pai recomendou-me ao cabo Mário Saldanha, subdelegado de São Bento, seu amigo, para que me desse apoio enquanto eu estivesse naquela localidade. Fiquei hospedado no mesmo quarto da pensão ocupado por Saldanha. Saía pela manhã, depois do café, e só retornava no fim do dia para jantar e dormir. O almoço, quase sempre, era-me oferecido nas casas que eu visitava. E eu aceitava, é claro!
No final do primeiro mês, os donos da pensão começaram a reclamar da demora no pagamento das refeições que me forneciam, embora estivesse sob o aval do cabo Saldanha. Ele garantia que eu pagaria a conta tão logo fosse liberado o dinheiro de minha produção no censo, e isso dependia de uma ordem de pagamento que, a qualquer momento, poderia chegar. No café da manhã, ou no jantar, os donos da pensão me tratavam com uma certa falta de atenção. Eu era o último a ser servido.
Escrevi ao meu pai expondo-lhe as minhas dificuldades em São Bento. Ele respondeu, aconselhando que eu tivesse paciência.
De repente, em uma outra carta, datada de 18 de outubro, meu pai comunicou que estava sendo recolhido à sede do Batalhão, em João Pessoa, para nova designação. Sem dinheiro, ameaçado de ter cortado o fornecimento de alimentação, já precisando de roupas e com o meu pai residindo longe de mim, tive a sensação de estar entrando em um profundo buraco escuro. Fiquei em desespero.
Era visível o mal-estar dos donos da pensão. Além disso, pesava-me o fato de já ter acabado com um par de sapatos, obrigando-me a comprar outro, fiado, numa loja de Brejo do Cruz, usando o nome de meu pai, prometendo pagar quando saísse o dinheiro dos agentes do recenseamento.
Eu me sentia envergonhado. Decidi reclamar a demora do pagamento, junto ao responsável pelo recenseamento, Sr. Guttenberg, em Brejo do Cruz. Ele, depois de me ouvir com atenção, rodopiou na cadeira de braços, jogou o corpo para trás, olhou-me com descaso, e disse:
— Volte para continuar seu trabalho e diga aos donos da pensão que a liberação do dinheiro ocorrerá dentro de alguns dias, quando você pagará o que deve.
Retornei a São Bento e transmiti aos mal-humorados donos da pensão o recado do Sr. Guttenberg. Eles ficaram mais tranquilos. Passaram-se 15 dias sem receber qualquer pagamento, a fatura a cada dia aumentava, e eles voltaram à carga, desta vez anunciando que não mais me forneceriam refeições. Eu não tinha como me manter e, algumas vezes, recorria ao Mário Saldanha, em nome de meu pai, quando precisava comprar alguma coisa de uso pessoal. Era uma situação constrangedora, mas eu só podia contar com ele.
Pedi dinheiro emprestado ao Mário, outra vez subi na carroceria de um caminhão, voltei a Brejo do Cruz e falei com o Sr. Guttenberg:
— Queria pedir-lhe um pequeno adiantamento, por conta do que tenho a receber.
— Volte para completar seu trabalho ou eu lhe tomo o Cartão de Identidade de Agente Recenseador — respondeu-me de maneira grosseira.
Vi que era inútil argumentar com aquela toupeira e o que eu precisava agora era terminar o meu distrito para fazer jus ao pagamento do IBGE, quando viesse.
Meu pai fora designado delegado de Bahia da Traição. Em Brejo do Cruz, o tenente Maurício assumira o cargo de delegado.
Aproveitei minha passagem por Brejo e, com o intuito de desanuviar a mente, procurei por Ivo, um rapaz que se tornara meu amigo quando ali residi. Ele era mecânico e também responsável pela Estação de Luz da cidade. Talvez a pessoa mais conhecida na localidade porque, além de consertar carros e carroças puxadas a burro, era um excelente eletricista.
Encontrei-o parado na frente de um caminhão modelo 34. Saudou-me:
— Olá! Quanto tempo! Quase não me encontrava. Vou sair para testar este caminhão. Quer ir comigo?
— Claro, quero sim — respondi empolgado, correspondendo ao seu aperto de mão.
Ele deu várias voltas na manivela e, quando a geringonça funcionou, subimos na boleia do “bicho” e Ivo saiu dirigindo. Atravessamos a praça e seguimos por uma estrada que conduz a Patu. Depois de rodarmos uma boa distância, ele manobrou, voltando. Eu observava sua habilidade de motorista e me imaginava capaz de dirigir aquele monstro de ferro. Irresponsavelmente, pedi ao Ivo que me entregasse a direção. Ele parou e trocamos de lugar. Saí devagar e, aos poucos, fui tomando gosto. Já que o amigo sentado ao lado não se mostrava decepcionado com o meu desempenho, continuei acelerando. Atolei o pé até que não consegui mais dominar a velocidade. Ultrapassei uma cancela aberta, passei em frente à Delegacia, atravessei a praça no centro da cidade, perigosamente, em ziguezague, e acabei me descontrolando. Quando dei por mim, a geringonça estava espatifada contra o muro de uma casa, causando sério dano ao muro e ao próprio caminhão, que teve o eixo dianteiro empenado. Nem Ivo teve tempo de me ajudar, pois eu me comportava como um exímio motorista. Ivo saiu pálido, do caminhão, visivelmente assustado. Eu não conseguia coordenar as idéias, nem as palavras, nem as pernas.
O proprietário da casa invadida ficou muito nervoso. Saiu sem querer ouvir qualquer argumento, atravessou a praça e foi diretamente falar com o delegado. Contou que o responsável pelo acidente, com o caminhão do Sr. Targino no seu muro, fora o filho do ex-delegado.
O tenente Mauricio me intimou para esclarecer o ocorrido e determinou que eu levantasse o muro destruído, imediatamente. Envergonhado, tentei me desculpar e disse que, no momento, era impossível, não dispunha de recursos, mas, tão logo recebesse o dinheiro que o IBGE me devia, providenciaria o reparo do muro.
De maneira nada cordial, o delegado me ameaçou, dizendo:
— Não pense que porque você é filho do ex-delegado eu não mando prendê-lo. Vou comunicar ao seu pai o desastre que você causou. Alguém vai ter que levantar o muro. Você ou ele.
Como eu apresentei o argumento de que dependia do dinheiro que o IBGE me devia para reparar aquele dano, imediatamente ele foi procurar justamente o Sr. Guttenberg, a quem relatou o acontecido. Não sei o que conversaram, mas voltei a ser convocado à Delegacia. Ao entrar, sem nenhuma introdução, o delegado foi logo pedindo que eu lhe entregasse o Cartão de Identidade de Agente Recenseador, afirmando que era uma exigência do meu chefe.
— Por quê? — perguntei.
E ele, de forma descortês, insistiu para que eu não desobedecesse.
— Vamos! Entregue-me seu Cartão.
E assim fiz.
Acho que fiquei com medo de ir parar atrás das grades por desobediência à autoridade. Só me faltava essa!
Saí dali furioso, direto para o gabinete do Sr. Guttenberg. Nem pedi licença, fui entrando e perguntando:
— Por que o senhor pediu ao delegado que tomasse o meu Cartão de Identidade?
Ele rodopiou na cadeira, como de costume, olhou-me fixo, com um leve sorriso irônico, e me informou que eu não era mais agente recenseador. Reagi, argumentando:
— O senhor está exagerando na sua atitude. Faltam poucos formulários para encerrar o meu Distrito e até agora não recebi um tostão do que me foi prometido. Procurei-o algumas vezes para expor minhas dificuldades financeiras, o senhor sabia que eu estava sofrendo humilhações e privações e, mesmo assim, tenta me prejudicar mais ainda? Tenho cumprido minhas obrigações com o IBGE. Vou pagar o muro. Isso não é motivo para me desligar, a menos que me paguem o que tenho direito. Caso contrário, vou decidir eu mesmo essa situação — e me retirei antes que a minha revolta se transformasse em lágrimas.
Nesse momento me veio à mente o episódio que motivou a minha expulsão da escola e a maneira como fui tratado por D. Luíza.
Retornei a São Bento na manhã seguinte, com a alma angustiada. Pensava na dívida da pensão, no sapato comprado fiado na loja do Sr. Pimenta, nos trocados que eu devia ao cabo Mário e agora no muro que eu tinha que reparar.
Minha mente parecia em ebulição, e a maior dificuldade agora era como eu poderia disfarçar uma fuga e desaparecer.
Só pensava nisso.
À noite, antes de dormir, contei ao Mário o que havia acontecido durante minha estada em Brejo do Cruz.
Ele lamentou muito e concordou comigo:
— Agora não dá mais para você ficar aqui. Não seria melhor você procurar seu pai? Posso ajudá-lo.
— Não tenho outra saída. Além das dívidas que fiz, preocupa-me decepcionar as pessoas que me ajudaram, principalmente você.
Ele, em tom emocionado, disse:
— Deixe isso comigo. Pagarei sua passagem. Viaje sem se preocupar com dívidas.
Na manhã seguinte, mais calmo, pensei nos poucos formulários que faltavam ser preenchidos para que eu pudesse dar por encerrado o meu trabalho. Reuni todo o material, coloquei-o na devida ordem, peguei os formulários que ainda deveriam ser preenchidos, coloquei tudo na bolsa do recenseamento e fui em busca das pessoas que ainda deveriam ser recenseadas. Voltei, no final do dia, com a tarefa cumprida. Acreditava que esse fecho iria justificar o reconhecimento ao cumprimento de minha missão.
Mário me emprestou mais 10 mil réis e, no dia seguinte, fui a Brejo do Cruz, pela última vez. Precisava devolver a bolsa de agente e entregar todos os formulários.
Lá, frente a frente com o Sr. Guttenberg, disse-lhe:
— Aqui estão todos os formulários, preenchidos. Não falta nada! Peço a gentileza de recebê-los mediante recibo. E continuei: — foi como recebi e agora exijo um comprovante de que devolvi tudo completo, em ordem.
— Eu não vou dar recibo nenhum — falou ele do alto de sua arrogância.
— O Sr. mandou que o delegado tomasse meu Cartão de Agente, desligou-me do recenseamento injustamente e, agora que eu estou lhe devolvendo o material concluído, ainda se recusa a recebê-lo?
Ele, olhando-me de cima a baixo, numa atitude de menosprezo, falou:
— Quando o dinheiro chegar eu mando chamá-lo. Não tenho mais nada a falar. Levantou-se, deixando-me ali sozinho.
Saí espumando de raiva. Felizmente encontrei logo um caminhão que estava levando uma carga para São Bento.
Quando cheguei, desabafei com Mário. Ele, depois de me ouvir, disse:
— Prepare-se para viajar. Segunda-feira, às 14 horas, sairá daqui um caminhão para João Pessoa, e eu já tratei com o motorista para levá-lo.
Era uma sexta-feira. Aqueles dois dias seguintes passaram devagar, como nunca. Isolei-me o máximo que pude para não ser cobrado por ninguém. Olhava para as pessoas, imaginando que todas sabiam das minhas dívidas e me sentia envergonhado.
Na segunda-feira, às 13 horas, chegamos ao local onde os caminhões faziam ponto. Mário disse ao motorista que eu era seu sobrinho e pediu-lhe que me desse toda a orientação, em João Pessoa, para que eu pudesse seguir viagem para Bahia da Traição. O motorista tranquilizou-o.
Enquanto as pessoas arrumavam suas cargas na carroceria, Mário me chamou, reservadamente, e aconselhou:
— Quando você chegar lá, vá procurar seu pai. Fale com ele das dificuldades que você passou aqui. E acrescentou: — ninguém vai ficar sabendo que você foi embora de São Bento. Viaje tranqüilo. Não se preocupe. Um dia a gente se encontra...
Meteu a mão no bolso, tirou quatro notas de 10 mil réis e me entregou.
Olhei nos seus olhos sem saber o que dizer, não sabia se agradecia com palavras ou com um apertado abraço. Resolvi abraçá-lo silenciosamente, mesmo porque as palavras não passavam pela garganta. Deixei por sua conta a tradução mais correta do meu gesto emocionado, pois que foram muitos os momentos de grandeza de Mário Saldanha para comigo. “Um dia a gente se encontra...” — essas palavras ficaram ecoando por muito tempo em minha mente.
Anonimamente, sentado no meio daquela gente que enchia a carroceria do caminhão, eu me imaginava seguro, certamente ninguém me notava ali.
De repente, vi correndo, em minha direção, o dono da loja de Brejo do Cruz, a quem eu comprara o sapato para pagar quando recebesse o dinheiro do recenseamento. O homem estava ofegante e queria saber para onde eu ia, sem lhe pagar. Eu disse que ia para Campina Grande e que voltaria no dia seguinte. Ele pareceu não acreditar. Por sorte, naquele momento, o motorista entrou na cabine, ligou o motor e deu partida. Sr. Pimenta, ardido de raiva, impotente, com as mãos na cintura, balançando a cabeça, ficou, no meio da nuvem de poeira, assistindo ao caminhão se distanciar daquele lugar. Não pude deixar de comemorar, intimamente, aquela imagem que foi diminuindo, diminuindo, até desaparecer...
Virei-me de costas para São Bento, sem querer olhar para trás, mas não percebia o quanto de estrada ainda teria que caminhar...
FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO











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