segunda-feira, 11 de maio de 2020

1ºCapítulo - 8º Episódio: "... e o menino deixa de ser..."


PASSADOS ALGUNS MESES de nossa chegada a Jatobá, fomos surpreendidos com uma notícia-bomba que preocupou todos os moradores. A fazenda fora vendida ao Ministério da Agricultura para que, ali, fosse criado o Campo Experimental de Plantas Têxteis. Por sua dimensão e localização, tal campo transformar-se-ia, segundo as notícias correntes, num grande núcleo de trabalho.
Pensando que teríamos que nos mudar, meu avô passou a viver novos momentos de angústia e procurou seu protetor, Xixi, a quem expôs mais uma vez a sua inquietação. O velho amigo o tranquilizou, dizendo:
— Meu genro, Frederico, será o administrador provisório e caberá a ele escolher quem será aproveitado no novo trabalho. Recomendarei para que não mexa com vocês, por enquanto.
Sr. Frederico, que já administrava a fazenda, percebendo que o pânico se instalara entre os moradores, chamou todos à sua casa e procurou acalmá-los, informando que o Governo Federal, adquiridor da Fazenda Jatobá, iria manter todos os moradores, a princípio. Ele permaneceria à frente da fazenda até que fosse designado, pelo Ministério da Agricultura, o administrador definitivo.
Compareci com meu avô a essa reunião. Eu sabia da gravidade da situação e me detive na figura de “seu” Frederico: fala trepidante, gestos vacilantes, olhar circundante como se estivesse sendo vigiado, atitudes medíocres nada adequadas para a função que lhe estavam confiando. Era um vulgar representante do sogro à frente da fazenda e não possuía instrução.
Ninguém entendeu muito bem o que ele tentava explicar. Mas, como era uma função provisória, aguardava-se que surgisse alguém com outra visão para que aqueles homens pudessem se acalmar e entender o que estava por vir. 
Viúvo, Sr. Frederico perdera a esposa recentemente. Residia na casa-grande, com a família: três filhas moças e um filho de 10 anos, com quem eu costumava brincar quando meu avô ia à casa da fazenda. Francisco era o nome do meu amigo. Quando nos encontrávamos, eu vivia horas agradáveis, porque ele sempre estava acompanhado de outras crianças.
Certo dia, os moradores foram chamados à sede da fazenda e o Sr. Frederico anunciou os nomes dos que ficariam para compor as equipes de trabalho, tendo, antes, feito algumas avaliações pessoais. Como prometido, o nome de meu avô constava da lista de selecionados. Poucos foram dispensados e a notícia tranqüilizou a grande maioria. A vida poderia, então, voltar à normalidade.
Algum tempo depois, chegou da capital um técnico de Agronomia para substituí-lo na administração do futuro Campo de Plantas Têxteis. O novo técnico, Sr. Raul, quis conhecer os moradores e os convocou para uma reunião.
Nova aflição! Nova expectativa!
Meu avô, destacando-se por seus cabelos brancos, foi o primeiro a ser chamado. Indagado por “seu” Raul, pôde falar de sua experiência como agricultor e, ao final, ouviu do novo administrador: 
— Conto com o senhor!
Da mesma forma, ele foi procedendo com cada um dos que estavam ali presentes.
Todos voltaram para casa, aliviados. Meu avô trazia estampada no rosto a felicidade de uma criança que recebe o brinquedo que mais quer.
Novos funcionários vieram da capital para compor a estrutura do recém-criado Campo Experimental. O novo administrador impôs uma orientação padrão recomendada para todos os Campos Experimentais: o plantio do algodão deveria obedecer a um planejamento geométrico, de modo que, de qualquer ponto, pudessem ser vistas fileiras de algodoeiros, simetricamente dispostas.
Na semana seguinte, meu avô, por ser o mais idoso, recebeu a incumbência de encabeçar o primeiro grupo de trabalhadores. Deveria escolher, para trabalhar, um dos seis lotes, onde seriam plantados e cultivados vários tipos de algodão.
O Lote 1 ficava próximo à entrada da fazenda, a pequena distância de nossa casa, às margens do riacho de que falei antes, compreendendo, exatamente, aquela parte que meu avô considerava sagrada por conter as sepulturas de sua esposa e seu filho. Sem muito pensar, esse foi o lote escolhido por ele.
Aquelas áreas eram destinadas às equipes para que cuidassem da limpeza do mato, da plantação, da poda e da colheita do algodão. Embora todos convivessem em harmonia e com o mesmo compromisso, havia, vez por outra, troca de palavras pouco cordiais no grupo, resultando na quebra da rígida disciplina recomendada pelo administrador. Meu avô, por ser o responsável pelo grupo, tomava para si a incumbência de controlar a disciplina, evitando a dispensa do infrator.
Mantendo-se reservado, garantia a respeitabilidade ressaltada por sua alva cabeleira, o que o tornava exemplo de resistência e amor ao trabalho. Nem bem surgia o sol da manhã e meu avô já estava saindo para sua lida, sempre disposto, sempre determinado.
Por ser bem conceituado, ele recebia 3.500 réis por dia, 500 réis a mais que os demais. Trabalhavam cinco dias por semana. O domingo era o dia dedicado ao repouso e a segunda-feira, às compras na cidade.
A nova rotina instalara-se em nossa casa. Eu crescia e começava a observar as pessoas com outro olhar. Meu avô já não tinha tanto tempo para conversar comigo. O trabalho era intenso e a exigência de horário, severa. Minhas tias trabalhavam no roçado familiar e nos afazeres domésticos.

DE TODAS, INOCÊNCIA, a mais nova, era a que mais me entendia. Com ela eu conversava e trocava algumas confidências. Quando minha avó faleceu, em 1905, ela tinha apenas oito meses de idade. Adulta, tornou-se uma morena bonita, de fala tranquila e pausada, sempre atenta ao que via e ouvia.
  


            Atenciosa, demonstrava carinho com todos. Tinha paixão pelos animais e possuía alguns gatos que viviam ao redor de suas pernas, solicitando seu afago. E era tanto o carinho que ela lhes dedicava, que costumava enfeitá-los com toquinhas e laços de fita.
            Executando seus afazeres, na casa ou no roçado, Inocência não dispensava uma cantoria em voz alta. Um de seus versos preferidos era: “No Rancho Fundo, bem pra lá do fim do mundo...” Bá não gostava dessa música e, com a autoridade que lhe era concedida, a repreendia, com seriedade, usando, como reforço, as palavras ameaçadoras do padre na missa de domingo, que proibia seus fiéis de cantar essa melodia por considerá-la do demônio. Inocência ria e se afastava de Bá, ironicamente, cantarolando baixinho...





“No rancho fundo”, um clássico da música brasileira, nasceu como “Este mulato vai ser meu” (com o subtítulo “Na grota funda”) e tinha versos do caricaturista J. Carlos para a melodia de Ary Barroso. Ao ouvir a canção na estreia da revista “É do balacobaco”, em 1931, Lamartine Babo decidiu sugerir a Ary uma nova letra, como conta o escritor e jornalista João Máximo.

J. Carlos não gostou nada da história, mas foi a letra de Larmartine que entrou para a história, com gravação original de Elisa Coelho, uma moça da alta sociedade, delicada e elegante, uma das vozes favoritas do criador de Aquarela do Brasil.





Ainda moça, Inocência enamorou-se de um rapaz da redondeza, Antônio das Chagas, filho do velho Francisco das Chagas, figura respeitável nas cercanias e amigo de meu avô. O noivado logo aconteceu. Antônio era um rapaz calmo, educado, que sabia chegar e sair. Por ser portador de uma corcunda que servia de motivo para brincadeiras jocosas por parte da garotada, o que muito o incomodava, tornou-se arredio e de aparência tímida, na tentativa inútil de ocultar o seu defeito físico.
       
Lembro-me que aos domingos, quando ele aparecia em nossa casa para namorar Inocência, me dava uma moeda de 400 réis. Certa vez, ele me deu uma que apresentava um pequeno trincado na beira de uma das faces, e minha madrinha Alice, que gostava de implicar com as irmãs, disse:
— Eita! Ele está mordendo tudo...
       Esse noivado, entretanto, logo terminou, sem que eu soubesse o motivo.
            Tempos depois, Inocência assumiu outro compromisso com o primo Manuel, filho de Delmiro, que possuía uma oficina mecânica na cidade. Este namoro também não evoluiu, pois quando ela soube que ele tinha fama de namorador teve receio de ser apenas mais uma das suas conquistas. Assim, apesar dessas e outras poucas tentativas, Inocência foi envelhecendo solteira, sem conseguir encontrar a sua outra metade.

TIA EUFROZINA ERA TAMBÉM morena e bonita, apesar do rosto marcado pela varíola. Tinha um sorriso largo, uma dentadura que chamava a atenção e cabelos castanhos não muito longos. Era a mais desinibida da casa.
      João de Aninha, um de nossos vizinhos, casado com uma prima de Iraci, resolveu proceder erradamente com ela, engravidando-a.

Fotos conseguidas anos depois do fato narrado

            Por algum tempo, o silêncio os protegeu, mas, à medida que se passavam os meses, Eufrozina vendo que não conseguia ocultar a sua gravidez, tomou uma atitude desesperada e, certo dia, desapareceu. Veio a noite e ninguém sabia dela. Meu avô, Bá, Alice, Inocência, João e eu ficamos inquietos e preocupados. Foi um grande rebuliço! A nossa aflição espalhou-se por toda a redondeza.
No dia seguinte, pela manhã, chegou um emissário do meu padrinho trazendo um recado para que meu avô fosse, urgentemente, à Fazenda Pilões, acrescentando que Eufrozina lá se encontrava. Meu avô, como todos, ficou sem entender o que levara Eufrozina a proceder daquela maneira.
Rápido, partimos na direção de Pilões. Ele caminhava na frente, em passos apressados, sem se incomodar com os que vinham atrás.
    Chegando à fazenda, meu padrinho, fisionomia fechada, conduziu meu avô a um quarto da casa onde Eufrozina o aguardava. Logo depois, ouvimos meu avô esbravejar, em total descontrole, como se estivesse para cometer algum desatino. Era perceptível a sua revolta. Na sala, nós todos, abraçados uns aos outros, aguardávamos, apavorados, o desfecho. As mulheres já presumiam a gravidade da situação, mas eu nada entendia. Por fim, ambos saíram do quarto e meu avô transtornado e chorando, gritou:
— Vá embora, desapareça, não quero mais saber de você!
      Agarrados a Eufrozina, choramos copiosamente enquanto meu avô saía porta afora. Só então presumi que ela esperava um filho.
      Fomos obrigados a acompanhar meu avô e deixamos Eufrozina ali, para trás, a fim de seguir seu destino errante...
     No dia seguinte, a história se espalhou por todo Jatobá. Tio João, envergonhado, conseguiu uma arma emprestada e foi ao encontro de Eufrozina na Fazenda Pilões, com a intenção de “limpar a honra da família”. Sorte que ela já havia viajado.
Eu ouvi dizer, tempos depois, que ela fora viver numa cidade, no interior da Bahia, onde deu à luz uma criança, da qual nunca ouvi falar, e que foi criada não sei por quem.
     Muito tempo depois, Eufrozina escreveu ao meu avô dizendo que havia casado com um rapaz muito bom, trabalhador, que se chamava Artur e que desejava apresentá-lo, dizia ainda: “Estou vivendo uma vida decente, como o senhor sempre sonhou.”
      Certo dia, pela manhã, fomos surpreendidos com a chegada do casal, que foi recebido sem questionamentos sobre o destino do filho, ou filha, de Eufrozina.
     Assim, aquele episódio triste da gravidez da minha tia deixou em mim a certeza de que, entre todos os filhos de meu avô, foi ela quem mais sofreu por culpa de uma cultura que norteava o comportamento das pessoas daquela época.
      O casal passou a residir em uma pequena casa de taipa, próxima à nossa, e vivemos todos em união, outra vez. Não tiveram filhos.


            TIA ALICE, MINHA MADRINHA de batismo, era a mais velha, depois de Bá. Físico robusto, de boa altura, pele clara, gestos moderados. Diziam que ela se parecia com a família do meu avô. Como Bá, destacava-se na rotina das atividades da casa. Cuidava da horta, lavava as roupas e se esmerava no ferro de engomar. Era exímia engomadeira! Por isso, foi escolhida para passar a roupa do administrador de Jatobá, Sr. Raul. Eu sempre a acompanhava quando ia entregar as peças no escritório da administração.
            Em Jatobá, conheceu João Marinheiro, filho de uma viúva. Ele era dez anos mais jovem que minha madrinha. D. Antônia, sua mãe, não aprovou o noivado, a princípio. Dizia que, embora os Nunes da Costa fossem uma boa família, preferia que seu filho, por ser o mais velho, continuasse morando com ela, como arrimo de família.
            Meu avô achava natural a preocupação de D. Antônia, mas evitava interferir para não atrapalhar os planos de minha madrinha, que já se preocupava com a idade.
       Começaram, finalmente, os preparativos para a festa do matrimônio. Era a primeira vez que meu avô experimentava essa sensação: casar na igreja uma de suas filhas, e a sua alegria contagiava  todos.
           Sr. Zezinho, sacristão da Igreja N. Sa. da Conceição, possuía um Ford 29 e foi chamado para transportar os noivos, de Jatobá até a igreja, em Patos.



            Este foi, para mim, o momento áureo do casamento, já que eu nunca havia entrado em um carro e ia agora, junto com os noivos, sentado no banco de trás. Ao lado do motorista ia o meu avô, orgulhoso, acenando para os que paravam no caminho para apreciar o cortejo. Hoje, fico analisando e concluo que, para meu avô, aquele momento deve ter sido também muito especial, porque ele nunca havia andado num automóvel.
Acompanhando o velho ford-de-bigode, que andava em marcha lenta, seguiam, a pé, os demais membros da família e convidados, vestindo os seus melhores trajes. A cidade não ficava muito distante e lembro que o cortejo mais parecia uma caravana de beduínos viajando por aquela estrada poeirenta.
     Na porta da igreja, meu avô colocou-se na frente dos convidados, ergueu ou braços e falou:
— Quero todos alegres, afinal, Alice se livrou de ficar no caritó! — E todos riam.
     Ao retornarmos da igreja, a vizinhança se reuniu para as comilanças de dia de festa: galinha ensopada com batatas, tingida com muito açafrão, acompanhada de cachaça e outras iguarias da região.
         As alegrias entraram noite adentro, e meu avô parecia que era o noivo, de tanta empolgação. Quando a festa terminou, os recém-casados encaminharam-se para uma casa de taipa, que meu avô havia preparado, do outro lado do riacho, onde passaram a viver.
         Eles também não tiveram filhos.     
   

AS MULHERES NÃO ERAM ACEITAS nos trabalhos do Campo Têxtil, reservando-se às tarefas domésticas e aos cuidados com o próprio roçado. Eu acompanhava minhas tias na enxada já que era esse o destino de todos os meninos que permanecessem na roça. Assim, fui crescendo e me afastando da vida de criança. Os meus dias passaram a ser vividos sob o sol escaldante, e minhas mãos, aos poucos, deixavam de ser infantis para assumirem as marcas grosseiras das mãos do homem do campo. Ao mesmo tempo em que meu corpo adquiria resistência física para trabalhos mais pesados, eu percebia que tudo em mim se modificava e não me sentia mais criança.
Meu avô também observava as minhas mudanças e um dia disse:
— Vou falar com o administrador para que você possa trabalhar comigo, no Campo.
— Gostei dessa ideia de ganhar dinheiro em troca de trabalho! — respondi, animado.
Como entre os trabalhadores havia também menores de idade, ele recebeu permissão e incluiu-me no grupo, mas, por exigência do Ministério de Agricultura, eu deveria ter Registro Civil, e assim meu avô correu ao cartório para fazê-lo, conforme narrei no início desta história.

Eu acabara de completar 15 anos e não possuía qualquer documento.


foto tirada para os documentos
Naquela época, muitos sertanejos nascidos na caatinga existiam de fato, mas não de direito. A vida na roça não exigia documento, a única exigência era a força bruta do braço. Quando chegava à idade para prestar o serviço militar, o jovem tirava o Registro Civil, comparecia a uma representação do Exército e, então, se alistava.
Alguns se omitiam, com medo da disciplina militar e tentavam esconder-se na vida do campo. Quando “dedurados”, eram levados presos para a capital, a fim de prestarem o serviço militar obrigatório.
Alguns homens permaneceram toda a vida ocultos, embrenhados em seus rincões, marginalizados na contagem do número exato de habitantes naquelas regiões.
Quanto às mulheres, ninguém se preocupava com elas... Registro, talvez na época do casamento.
Assim crescia o Brasil, sem conhecer exatamente a sua população.

EU JÁ ACOMPANHAVA MINHAS TIAS na lavra da terra e não estranharia pegar em uma enxada para capinar ou em uma tesoura para podar algodoeiros. Passei a receber 2.500 réis por dia, o que me fazia pensar que já era um adulto.
Fui incluído na equipe do meu avô: capinava ou puxava bois à frente de arado, empunhava o ancinho na limpeza do terreno, plantava e colhia o algodão, enfim, cumpria todas as tarefas que competia ao grupo, que era, por sinal, muito divertido. Eu preferia pegar na enxada só para ficar no meio dos colegas ouvindo as besteiras que eles diziam. E, assim, vivi o início da minha juventude. Já não brincava, durante a semana, porém me alegrava saber que ajudava meu avô. 
Aos domingos, podia me soltar um pouco. Ia jogar futebol no Arranca-Toco, onde havia um pequeno campo tão empoeirado que, ao término da pelada, quase ninguém se reconhecia.  Mas o clima era gostoso, sem brigas.
 Também havia um grande terreiro em frente à casa da fazenda onde se jogava bola e, muitas vezes, era ali que eu curtia meus domingos, na companhia dos amigos com os quais passava a semana no eito.
Por esse tempo, “seu” Frederico ainda permanecia em Jatobá e continuava residindo na casa da administração do Campo, onde também passou a residir o administrador, Sr. Raul. Corria o boato que o novo administrador se engraçara com uma das filhas de “seu” Frederico.
Era domingo, eu tinha ido à casa da Fazenda para me encontrar com meu amigo Francisco. Ao chegar, percebi que algo estranho estava acontecendo. Vi a família reunida em torno de uma grande mesa. À cabeceira estava “seu” Frederico ladeado por um homem vestido de branco, tendo à sua frente, sobre a mesa, um revólver. Na outra extremidade estava “seu” Raul, a quem o tal homem agredia com palavras violentas. De onde eu me encontrava, podia acompanhar os diálogos. Vi “seu” Raul sendo humilhado. Ele se mostrava arrasado, pedindo, insistentemente, que o desculpassem. E o agressor insistia. De repente, levantou-se da mesa e caminhou na direção do agredido que, visivelmente apavorado, pedia clemência. Pensei que ia ser testemunha de um crime, mas o agressor, peito estofado, apenas lhe deu um empurrão, dizendo:
— A partir de agora, você não poderá sequer olhar para a sombra de minha cunhada... Sr. Raul saiu do recinto acabrunhado, ridicularizado.
Essa cena muito me chocou pelo grau de violência e mostrou-me as conseqüências de um procedimento leviano.
       O caso foi levado à Secretaria do Ministério da Agricultura, na capital, e, dias depois, veio a Jatobá um engenheiro com a missão de apurar o acontecido. “Seu” Frederico recebeu ordem para deixar Jatobá. Quanto a “seu” Raul, deveria aguardar decisão da Secretaria.
            Os trabalhadores de Jatobá ficaram muito revoltados com a humilhação imposta ao administrador do Campo.
            O agressor era um policial que se tornara famoso por ter assassinado Nego Heleno, um dos bandidos mais perigosos e que, por muito tempo, aterrorizou toda a região.
            Depois disso, “seu” Raul ficou poucos meses em Jatobá. O tempo suficiente para que o novo administrador fosse designado: Dr. Aurélio Alves, engenheiro agrônomo, mineiro de Caxambu, que, ao assumir, imediatamente liberou o Sr. Raul. Nunca mais ouvimos falar nele.
           

DR. AURÉLIO ERA UM TIPO FRANZINO, alto, de olhos azuis, sotaque sulino bem carregado, trazia sempre na boca um cigarro aceso, tossia muito. Tinha um andar curvado e serpentante, usava botas longas e um chapéu próprio dos engenheiros. Logo contagiou todos com sua maneira educada de tratar os trabalhadores e ver as necessidades de cada um.
Conseguiu a construção de algumas casas para acomodar confortavelmente a administração e prometeu fundar uma escola em Jatobá para os filhos dos trabalhadores.
Sua esposa, D. Luiza, fora professora em Caxambu e se comprometeu a assumir a nova escola, cuja necessidade foi reconhecida pelas autoridades da capital.
      Em poucos meses, os prédios administrativos ficaram prontos, sob a orientação e a responsabilidade de Mestre Gama, famoso construtor de João Pessoa, apoiado por uma grande equipe. O Campo Experimental ganhou uma aparência diferente das fazendas comuns da região. Era agora um núcleo importante, com estrutura para o seu funcionamento.


      A festa de inauguração foi realizada sob o frondoso jatobá centenário, que deu origem ao nome do lugar, onde todos confraternizaram — operários e funcionários do fomento — sem qualquer discriminação.  As novas casas foram entregues. Dr. Aurélio recebeu a principal e as outras foram destinadas a um técnico, um escriturário, um almoxarife e um feitor. Estava, finalmente, instalada a administração. No alto da porteira de entrada da Fazenda foi colocada uma grande placa onde se podia ler: “Campo Experimental de Plantas Têxteis de Jatobá”. 
Agora faltava inaugurar a Escola Rural.
Com o tempo, percebemos que Dr. Aurélio era um tipo meio triste, comedido, mas dispensava a todos um tratamento cordial e se comportava como um homem simples, sem fazer distinção entre uns e outros.
Certa vez, ele convidou os moradores para conhecerem a grande novidade da época que trouxera do sul; uma caixa preta, de madeira, com alguns botões e um pequeno quadro frontal coberto por uma tela. O fio, ele ligou numa bateria de carro e, para espanto de todos, de dentro daquela pequena caixa começaram a sair vozes e músicas. As pessoas que ali estavam permaneceram imóveis, extasiadas pelo som que lhes era tão incomum. 
Nunca mais esqueci o assombro nas fisionomias de cada um. Era domingo, noite de Ano-Novo. Homens, mulheres e crianças, amontoados no alpendre da casa, não tiravam os olhos do rádio modelo Transoceanic, esperando, talvez, que dali de dentro surgisse algo que explicasse aquele fenômeno.
Durante muito tempo, ouvi meu avô falar, impressionado com as vozes e as músicas que vinham de dentro daquela caixa de madeira: “Eles falam e cantam e não vemos ninguém, nem acredito!”
A luz elétrica ainda não havia chegado a Jatobá. O único telefone existente era movido a manivela e ficava na casa do administrador do Campo. Havia um fio telefônico  ligado à cidade de Patos. Lá já existia iluminação elétrica.

O CULTIVO DO ALGODÃO era a principal atividade agrícola da região. Só se falava em qualidade da fibra. Era unânime, entre as equipes, a esperança de que o algodão produzido em Jatobá fosse de excelente qualidade, já que o seu cultivo seguia uma orientação técnica. O melhor tipo de algodão era o produzido lá pelas bandas do Seridó. Todavia, os técnicos de Agronomia do Ministério da Agricultura pensavam em produzir, no novo campo, uma fibra com a mesma qualidade. Para isso, a terra era convenientemente tratada. Jatobá era, por assim dizer, “o Eldorado do capulho”. Meu avô sentia-se orgulhoso por fazer parte de uma equipe tão empenhada nos bons resultados.
A notícia de que ali havia muito trabalho atraía gente de toda parte. Diariamente aparecia uma cara nova.   
Era delicioso contemplar o florescer do algodoal do Lote 1, às margens do riacho, longo e sinuoso, que, nascido na Serra da Borborema, desaguava no rio da Cruz. 
Nossa vida agora, em Jatobá, era bem diferente, mais segura, e meu avô gozava de excelente reputação por parte da administração.
       O administrador, considerando a distância entre a nossa casa, que ficava na outra margem do riacho, e o Lote 1, decidiu que meu avô deveria mudar-se para uma casa que ficava junto à porteira, na entrada do Campo.
Imediatamente, nos mudamos. A casa, em alvenaria, tinha quatro compartimentos: sala, dois quartos, cozinha, além de um amplo corredor.  Do lado de fora havia um pequeno anexo com a fossa, o que era considerado um luxo.
Ir para aquela casa foi um momento de satisfação para a nossa família e muito importante para mim. Não sei bem por que, talvez para fincar raízes, ou não querendo me despedir definitivamente da infância, plantei ali, bem perto, uma muda de jatobá. O grande e frondoso jatobá existente na fazenda sempre me fascinou. Eu o achava majestoso e ficava imaginando quem o teria plantado, um dia. Vivi belos momentos à sua sombra.


O jatobá é uma árvore imponente cujo fruto marrom, em formato de vagem dura, contém no seu interior, quase sempre, três grandes sementes envoltas por uma massa seca, amarelada, de cheiro e gosto fortes. Em guarani, jatobá significa “folha dura” ou “árvore de fruto duro”, e, de fato, suas vagens só podiam ser abertas com o auxílio de uma pedra.
Ao plantar aquela muda, eu pensava que ia vê-la crescer, acompanhar o seu desenvolvimento, pois, embora a cidade me fascinasse, eu ainda não tinha dentro de mim a vontade de partir. Patos era o meu limite.


            NOSSOS DIAS ERAM IGUAIS. Levantávamos às seis da manhã, tomávamos café com tapioca e, em seguida, cada um seguia para cumprir sua tarefa. O feitor, Sr. José Inácio, anotava quem estava presente e depois ficávamos aguardando que ele fizesse soar a sineta, que era ouvida ao longe, anunciando o início dos trabalhos do dia. Às primeiras badaladas, os operários se dispersavam. Horas depois, “seu” José era visto por trás das árvores, observando-nos para anotar em um caderninho quem não trabalhava. Quando um trabalhador parava, ele aparecia. Era uma maneira equivocada de impor autoridade e exercer a vigilância. Na verdade, nós o temíamos. Sua silhueta magra, ensombreada por um chapéu de palha de abas enormes, quando aparecia no horizonte fazia com que todos procurassem demonstrar grande empenho no que estavam fazendo.
Algumas vezes senti cansaço e parei, mas ele logo se aproximava e bradava meu nome à sua maneira:
— Chico None!!!
E eu logo recomeçava.
Ele era um tipo incomum, difícil de esquecer: moreno, magérrimo, vestia sempre calça branca e camisa clara, de mangas compridas, com punhos e colarinho abotoados, e portava na cintura um longo facão para onde quer que fosse.                          
Em 1939, a Escola Rural de Jatobá, finalmente, foi inaugurada. Uma grande casa, circundada por uma ampla varanda, estrategicamente construída numa área verde, de grandes arbustos.
A professora, D. Luíza, convocou os moradores de Jatobá para matricularem seus filhos em idade escolar ou aqueles mais velhos que nunca tivessem estudado. O Dr. Aurélio limitou a idade, decidindo que só os meninos e meninas com até 15 anos podiam frequentar a escola. Os meninos que já trabalhassem deveriam cumprir apenas meia jornada. 
— Agora você vai poder estudar numa escola de verdade! — disse meu avô, exultante.
Embora meu avô contasse com os meus trocados, em nenhum momento reclamou da redução do salário.
Passei a trabalhar na parte da tarde e pela manhã freqüentava a escola.
Eu sabia fazer as quatro operações, lia e escrevia com certa facilidade. Meu avô sempre se preocupou em me iniciar nos poucos conhecimentos que ele possuía.
Lembro-me que a escola começou com dez alunos. Apenas três ou quatro tinham a minha idade. Destaco Francisco Licarião, que sentava ao meu lado, junto à janela que dava para a rua. Ele também era meu companheiro de trabalho pesado no Campo. Tempos mais tarde, por ajuda de seu padrinho, ele foi encaminhado para um seminário em João Pessoa onde se tornou padre.
O primeiro ano na escola conferiu-me uma experiência formidável. Dominei rapidamente História, Geografia, Língua Portuguesa, porém não consegui muito em Matemática e Geometria. Mesmo assim, era capaz de desenvolver algumas expressões  aritméticas.
D. Luíza era muito exigente ou nós éramos indisciplinados sem saberO fato é que ela nos chamava a atenção por qualquer movimento diferente que observasse. Era natural que houvesse alguma agitação e atitudes díspares entre os alunos, já que havia, na mesma sala, meninos e meninas de idades diversas.
D. Luíza tinha certa consideração por mim, achava que eu era o mais preparado e, por isso, sempre me propunha exercícios difíceis.
De fato, eu sempre tive interesse em aprender coisas novas e, embora não  possuísse livros, sabia que eles eram um caminho para o conhecimento.
Recordo que, ainda menino, ao entrar certa vez na Casa Campos, em Patos, uma loja que vendia de tudo, vi na vitrine o livro “A Fada Hygia” e me encantei com a sua capa. Ansioso, não me contive e pedi ao meu avô que o comprasse para mim. Ele me olhou admirado e disse:
— Será que você vai entender esse livro?
— Gostei tanto da figura da capa! Talvez a história seja bonita também — respondi.
 Feliz e orgulhoso, saí da loja com o livro na mão. Em casa, usando os princípios de leitura que meu avô me passou, aos poucos fui mastigando e devorando as palavras contidas naquela história, incorporando-as ao meu vocabulário infantil.
Depois, quando passei a frequentar a escola de D. Luíza, eu o carregava na maleta de madeira, misturado aos outros livros. Não me lembro do seu conteúdo, mas guardo nítido, na memória, o desenho da capa, no qual aparecia uma linda menina, que devia ter 7 ou 8 anos de idade, vestida à moda camponesa. A Fada Hygia foi o primeiro de muitos livros que comprei, durante toda a minha vida.       
O segundo ano na escola transcorria sem novidades quando, em uma manhã, durante a aula, soltei uma sonora gargalhada, ao ouvir os miados eróticos de um casal de gatos que namorava à beira da estrada. Eu sentava junto à janela e não me contive, a cena monopolizava a minha atenção. O meu riso provocou outros risos na classe, e D. Luíza enrubesceu. Caminhou na minha direção, dedo em riste, e falou, irada:
— Você faltou com o respeito a mim e aos seus colegas, pegue seu material e saia por aquela porta e não volte nunca mais!
— Eu?
No momento em que isso aconteceu, D. Luíza escrevia no quadro-negro um “carrilhão”, como ela chamava uma mistura de expressões aritméticas com as quatro operações. Eu estava exatamente copiando o bendito “carrilhão” para desenvolvê-lo.
Não consegui e nem poderia me explicar, se quisesse. Levantei-me, humilhado, cabisbaixo, e saí porta afora com a mente carregada de preocupações.    
Enquanto caminhava, lembrava-me das caras assustadas de meus colegas de classe, e com a mente fervilhando eu me criticava severamente: “Por que diabos me deixei envolver com aqueles gatos miseráveis?! O que vou dizer ao meu avô, quando chegar em casa?”
Até então eu me sentia um garoto feliz. Frequentava uma escola de verdade, recebia aulas ministradas por uma professora formada na cidade grande, aprendia matérias novas e interessantes e vi, em minutos, todo esse meu pequeno mundo desabar sobre mim. Senti-me perdido.
Ao chegar em casa, fui interrogado:
— Por que está chegando mais cedo?
Contei-lhes o acontecido. Minhas tias foram categóricas e unânimes:
— Pai não vai gostar.
Quando ele chegou e soube, por elas, que eu havia sido expulso da escola por ter faltado com o respeito à professora, ficou tão revoltado que, naquela ocasião, pensei que ia levar uma das maiores surras que alguém já poderia ter levado. Meu avô, visivelmente transtornado, sentenciou:
— Se você não pode mais ir para a escola, talvez o administrador, esposo da professora, também o proíba de trabalhar no Campo.
Chorei muito, eu não me sentia merecedor de um castigo tão grande.
No dia seguinte, meu avô procurou D. Luíza, que lhe relatou o acontecido, à moda dela, é claro, e confirmou a minha expulsão. Depois de se desculpar por mim, ele ainda tentou reverter a decisão, mas D. Luíza não arredou pé. Quando ele voltou, tinha muita revolta estampada no rosto.
Dr. Aurélio era apaixonado por D. Luíza, todos sabiam, e esta, obviamente, comentou com ele o ocorrido, pois era visível, depois daquele dia, a sua repulsa ao me ver. Eu tentava me esconder, confiando que o tempo apagaria da memória deles aquele meu comportamento, mas a boataria ganhou vulto e logo comecei a perceber que a ideia que eles tinham de mim começava a mudar, para pior.
Naquela época, eu trabalhava no escritório, na pesagem do algodão. Era um trabalho mais leve, que não me obrigava a ficar ao sol, nem pegar na enxada. De repente, os colegas passaram a me tratar de forma grosseira, e eu percebi que minhas chances em Jatobá estavam chegando ao fim.  Para confirmar as minhas suspeitas, certo dia, ao chegar ao trabalho, o escriturário, um tal Libério, homem forte e metido a atleta, sem qualquer motivo, ensaiou uma repreensão descabida contra mim. Devo ter feito algo errado, mas não percebi. E ele, achando que eu me fazia de desentendido, caminhou na minha direção, ameaçando-me com uns tapas. Só não consumou seu intento porque me humilhei. Deduzi, naquele momento, que era um teatro para forçar a minha dispensa, em face da repercussão exagerada dos motivos de minha expulsão da escola. Enquanto isso, os outros funcionários, perplexos e acovardados, assistiam à cena sem nada dizer.
No dia seguinte, quando cheguei ao escritório, o poderoso Libério foi logo sacramentando:
— A partir de hoje, você não trabalha mais em Jatobá.
Confirmavam-se as previsões do meu avô e as minhas suspeitas. Minha vida, em Jatobá, chegava ao fim.
Vi meu avô agitado. Ele contava com o que eu recebia trabalhando no Campo e agora não mais teria essa ajuda.

Zé Catanduva e família
Zé Catanduva, que residia próximo de nossa casa, na propriedade limítrofe, vendo o nosso drama, ofereceu sua ajuda. Ele era bicheiro, isto é, apontador de apostas do jogo do bicho, e seus domínios iam do Arranca-Toco até os confins de Mares, muito além dos limites de Jatobá. Era uma boa caminhada que ele fazia, todos os dias, começando cedo, pela manhã, e retornando à tarde, a tempo de descarregar as apostas antes da corrida do bicho, na Chave de Ouro, em Patos. Naquela época, o jogo do bicho não era contravenção.
Ele propôs que parte de sua caminhada fosse feita por mim, todos os dias, no horário da manhã. Às 13 horas, devíamos nos encontrar para que eu lhe entregasse as pules e o dinheiro faturado, que às vezes chegava a 7 mil réis diários, garantindo-me uma comissão de 5%, que eu entregava ao meu avô. 
Certo dia, motivado pelas apostas que faturava, eu joguei e ganhei 60 mil réis, na centena.  Dei 15 mil réis ao meu avô e fiquei com o restante. Ele me olhou com olhar atravessado e perguntou:
— Por que você ficou com todo esse dinheiro?
— Quero satisfazer um desejo meu, depois explico — respondi.
Quando eu ia a Patos, principalmente aos domingos, na hora da missa, não me cansava de apreciar a maneira como os rapazes da cidade se vestiam: terno, gravata e sapato com salto mexicano. Além disso, as pessoas diziam que vestir uma roupa feita por Chiru, o melhor alfaiate da cidade, era sinal de bom gosto. E eu, sempre que ouvia isso, dizia para mim mesmo:  “Qualquer dia vão me ver vestido com um bonito terno feito por Chiru! Aí, não vou sentir mais inveja de ninguém!”
Então, comprei um corte de tecido na cor cinza e mandei fazer um terno na Alfaiataria do Chiru. Com isso, gastei 25 mil réis.
Nada contei para minhas tias nem para meu avô e ansioso aguardei o dia de receber o terno. Enquanto isso, comprei também um sapato branco-chocolate com salto mexicano, uma camisa branca e um suspensório. Agora, eu me sentia orgulhoso em saber que  tinha como me vestir para ir à missa, no domingo, ou à feira, na segunda-feira. O terno demorou alguns dias para ficar pronto. Compareci ao alfaiate duas vezes para as provas e, finalmente, num sábado, saí de lá com o terno embrulhado em um papel meio amarelado, amarrado com cordão. Comprei ainda uma gravata listrada.
Naquela noite, não consegui dormir. Olhava pela janela, inquieto, esperando amanhecer. Queria fazer surpresa para meu avô e precisava acordar antes dele. E assim fiz. Ao acordar e me ver arrumado ele deu uma sonora gargalhada de satisfação, coisa que não lhe era comum. Bá, a costureira da família, aproximou-se de mim, pegou a lapela do paletó, virou de um lado, depois do outro e comentou, admirada:
— É! Está bem feito!  
Saí para a cidade muito antes da hora da missa. Pela primeira vez eu calçava sapatos, mas disfarçava muito bem aquele aperto nos pés. O nó da gravata me incomodava e, de vez em quando, eu precisava ajustá-lo. Usei-a pela primeira e última vez.
Chegar na cidade todo paramentado impunha muitas vezes um grande sacrifício, pois, além da longa caminhada pela estrada poeirenta, precisávamos atravessar o rio da Cruz que, às vezes, exigia uma canoa ou um pula pula por cima das pedras ou, ainda, que tirássemos os sapatos e arregaçássemos as calças. Tudo dependia do volume de água do rio.
        Meu amigo Ivo Martins, que sempre me acompanhava a Patos, gostou da minha figura e procurou logo me imitar.  Convenceu seu pai, Sr. Amaro Martins, técnico do Campo Experimental, a encomendar ao Chiru um terno como aquele que eu usava. Ganhou o terno. Agora eu e Ivo éramos vistos como os jovens mais bem vestidos de Jatobá. Embora eu só possuísse um terno, sentia-me importante e igual aos rapazes da cidade.
     Ivo tinha uma irmã bem mais velha do que eu, Penina, simpática e bonita, por quem cheguei a nutrir uma paixão platônica, e aquela minha nova maneira de vestir fazia com que eu me sentisse capaz de atrair a sua atenção. Puro engano! Ela nunca reparou em mim. 
    A minha amizade com Ivo se fortalecia e passamos a ser inseparáveis. Meu avô demonstrava preocupação, recomendando para que eu não me deixasse levar pela cabeça dele. De fato, foi na companhia de Ivo que eu ganhei coragem para me aproximar das moças, como também foi com ele que eu conversei pela primeira vez sobre sexo e relações íntimas entre um homem e uma mulher.
      Numa segunda feira, Ivo me convidou para acompanhá-lo a um lugar que ele havia conhecido recentemente. Fazia mistério, mas, pela expressão maliciosa do meu amigo, pude pressentir aonde iríamos e o acompanhei.      
E, assim, chegamos a um famoso rói-couro da cidade, cabaré popular onde os homens procuravam aventuras sexuais. Eu nunca tinha entrado num lugar como aquele, embora soubesse de sua existência. Sozinho eu não teria ido, mas Ivo me dava segurança, afinal ele era mais velho, já havia morado em João Pessoa e era muito mais desinibido com as meninas do que eu.
O lugar era barulhento, com muito falatório e risadas misturados com um som meio desafinado produzido por uma harmônica velha, marcada por um bumbo oco e um triângulo descompassado. Na frente havia algumas mesas com homens bebendo e mulheres em atitudes provocantes. Atrás, homens em pé, onde ficamos eu e Ivo, encostados na parede observando os casais dançando, suados e agarrados. Tudo era novo, e eu achava estranha aquela euforia coletiva, sem nenhum limite. 
De repente, aproximou-se de nós uma mulher gorducha, morena, feia, que logo reconheci ser a viúva do vigia do Campo, assassinado por um trabalhador, numa briga. Ela me puxou pela cintura, escorregando suas mãos pelo meu corpo, sem qualquer pudor, e me levou para um pequeno quarto pobre e malcheiroso no interior da casa. Eu nunca tinha visto aquilo! Não coloquei resistência, pensava apenas em não fazer feio naquele ambiente lotado de homens e mulheres mais velhos.
Havia entrado naquele cabaré sem saber como me comportar, nem sabia que podia fazer uma escolha, e acabei sendo escolhido. Saí me sentindo mal, enojado e, embora tenha sido a primeira, não foi uma boa experiência.
O inesperado da situação, a lembrança do ex-marido daquela mulher que eu conheci tão bem e a maneira indecente como ela agiu deixaram-me acabrunhado por vários dias.  Mas a minha maior preocupação era com a possibilidade de meu avô vir a saber que eu estive em um rói-couro com a viúva que conversava com as minhas tias, levado pelo meu amigo Ivo. Nunca mais voltei lá.
            Meu avô — eu percebia — não aprovava muito bem “meus pequenos exageros” com relação à minha nova maneira de vestir, pois destoava da simplicidade de nossa casa, mas procurava ser compreensivo.
Minhas andanças diárias, a serviço do bicho, de certa forma, estavam ajudando. Mas eu já sentia um pouco de tédio pelas longas caminhadas e não via naquilo qualquer garantia nem segurança, por eu ser um simples preposto de Zé Catanduva, sem nenhum vínculo empregatício com a Chave de Ouro.
Eu sonhava com uma oportunidade que me permitisse independência financeira e  sabia que o estudo era o caminho para atingir esse objetivo. Abandonei o jogo do bicho.



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Um comentário:

  1. Engraçado é que as pessoas citadas me pareciam tão familiares.
    O Jatobá, hoje é um grande bairro em que se perde-se com tantas ruas.O rio da Cruz no qual tomei tanto banho me fez resgatar a
    minha infância.

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