Ser policial, igual ao meu pai, nunca imaginei. Mas a certeza de um salário, alimentação, e talvez até local para dormir, foi, naquele momento, um xeque-mate perfeito no destino. Eu estava na companhia de minha mãe há 40 dias e, até aquele momento, nenhuma oportunidade de emprego surgira. Eu nem sabia por onde começar a procurar.
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| retirada da internet |
Chegando ao quartel, minha mãe se dirigiu ao oficial de dia e disse que gostaria de falar com o Major José Guedes. Prontamente fomos conduzidos ao seu gabinete. Quando entramos, percebi que ela e o major eram amigos de muito tempo. Cumprimentaram-se e ele indagou sobre os motivos da visita.
— Este é meu filho — disse minha mãe. Ele está desempregado e eu queria lhe pedir que o colocasse na Polícia.
O major pegou uma folha de papel que estava sobre a mesa, anotou meu nome e minha idade. Depois, disse-me que comparecesse no dia seguinte para exame médico.
Fiz os exames no dia 3 de abril. Quatro dias depois, recebi a convocação para apresentação no quartel da Força Policial, na manhã seguinte. Comemorei, sem nenhuma noção do que poderia me aguardar. Sentia apenas que minha vida tomaria novo rumo a partir daquela brilhante ideia de minha mãe.
Então, no dia 8 de abril, às 8 horas da manhã, no quartel, apresentei-me ao oficial de dia. e este incumbiu um soldado da guarda de me conduzir à presença do Major José Guedes. No gabinete, fiquei aguardando. Um sargento foi chamado e o major disse, apontando para mim:
— Este é o rapaz de quem lhe falei. O sr. está com o exame médico dele?
— Sim senhor — confirmou o sargento.
— Então — disse o major —, pode incluí-lo na Força, a partir de hoje.
O sargento pediu que eu o acompanhasse. Fui levado a um setor chamado de Furrielança e, ali, me entregaram duas fardas sem ajustes, na cor cáqui, duas camisas de malha, dois pares de meias brancas, um par de borzeguins pretos, um cinto da mesma cor, três cuecas, um bibico e um capacete. Peguei o fardamento, e o sargento me conduziu ao alfaiate para tirar as medidas e fazer o ajuste. Lembrei-me do Chiru e do dia em que lá estive para fazer meu primeiro terno.
Fui informado de que poderia usar roupa civil até que a farda ficasse pronta, mas quando a recebesse, pelo regulamento, só poderia andar fardado, até mesmo nos dias de folga.
Depois, o sargento me mostrou o alojamento onde eu ficaria. Era um grande salão com camas arrumadas uma ao lado da outra, dispostas simetricamente, formando duas alas, com um corredor central. Embora fosse um ambiente limpo, não havia qualquer elemento decorativo. Indicaram a cama que eu deveria ocupar, cuja arrumação ficaria por minha conta a partir daquele momento, e o pequeno armário para guardar meus objetos e minhas roupas.
Depois, o sargento me mostrou o alojamento onde eu ficaria. Era um grande salão com camas arrumadas uma ao lado da outra, dispostas simetricamente, formando duas alas, com um corredor central. Embora fosse um ambiente limpo, não havia qualquer elemento decorativo. Indicaram a cama que eu deveria ocupar, cuja arrumação ficaria por minha conta a partir daquele momento, e o pequeno armário para guardar meus objetos e minhas roupas.
Saí meio intrigado, pensando comigo mesmo: “Como será a vida nesse tal de alojamento?”
No pátio do quartel, o sargento se despediu e sentenciou:
— Aqui, agora, começa sua nova vida... Seja disciplinado e boa sorte!
Fiquei perambulando pelo quartel, durante aquele dia, conhecendo as instalações e observando o procedimento dos recrutas e soldados. Mandaram-me para a barbearia onde me barbearam e apararam meu cabelo ao jeito militar.
Foi a primeira noite que dormi ali.
Cedo, muito cedo, às 5 horas da manhã, acordei, pela primeira vez, ao som frenético de uma corneta, e vi todos agitados, arrumando suas camas, preocupados em dobrar o cobertor em forma de “V”; uma cama parecia cópia da outra. Imitei.
Outra vez, a corneta. E gritaram:
— Formar, para o rancho!
— O que é rancho? — perguntei.
— O café — responderam.
Descemos para o pátio e uma fila se formou para entrarmos no refeitório. Após o café, outra vez, no pátio, apareceu um sargento sisudo, de apito na boca, segurando uma prancheta. Chamava cada um pelo nome, separando alguns para a direita e mandando outros entrarem em forma. Eu fiquei entre estes últimos, em forma. Finalmente, ele soprou o apito e disse apontando para um grupo de cada vez:
— Vocês estão na escala de serviço do dia, e vocês, que estão em forma, irão para a ordem-unida.
Eu perguntei ao companheiro do lado o que significava ordem-unida, e ele, de pescoço duro, sem me olhar, respondeu em voz baixa:
— Exercícios de marcha, caminhar olhando para a nuca do companheiro à sua frente.
— Ah, sei... — respondi, vacilante.
Naquele mesmo dia, recebi a farda. Vesti-a, orgulhoso. Olhei-me no espelho e gostei da minha imagem. “Eu, soldado? Nunca me imaginei!” A cor da farda não favorecia a minha pele morena. O capacete encobria meus cabelos castanhos e crespos, bem aparados, e concedia à minha face afilada um tom sisudo, atenuado pelo brilho ainda infantil dos meus olhos miúdos. Ser militar nunca foi um desejo, e a farda, embora garbosa, deixava meu físico franzino, com um jeito meio engraçado, que lembrava o soldadinho de chumbo que ganhei, certa vez, do meu avô. Mas eu pensava que era assim mesmo e que com o tempo eu me adaptaria àquela vestimenta e à vida no quartel.
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| Francisco Nunes da Costa, acervo familiar. |
À noite, fui visitar minha mãe. Quando ela me viu, abriu um largo sorriso:
— Apolônio precisava ver como você está parecido com ele!
Pensei nele e concordei:
— Eu também gostaria que ele pudesse estar aqui, ao nosso lado, comemorando o meu novo momento. E continuei: — Não preciso mais pedir ajuda, nem mentir, nem fugir de ninguém. Agora tenho trabalho, salário, casa, roupa e comida. Posso estudar, fazer boas amizades, e, quem sabe, encontrar caminhos melhores — disse, abraçando minha mãe.
Depois de ouvir a minha declaração otimista num futuro que apenas começava, minha mãe suspirou lentamente e disse:
— Que Deus abra o teu caminho, meu filho!
Retornei ao quartel.
Todos os dias, a mesma rotina: pela manhã, um instrutor conduzia os recrutas nos cansativos exercícios de educação física e, à tarde, éramos submetidos a todo tipo de treinamento: da ordem-unida ao manejo das armas.
Depois de cumprir essa rotina durante seis meses, o recruta “passava a pronto”, isto é, era declarado habilitado, podendo cumprir outras tarefas.
Passei a entender melhor a relação entre as pessoas, a hierarquia, o cumprimento do dever, a disciplina militar rigorosa.
A minha vida mudava com muita velocidade, e eu percebia que essa nova maneira de enxergá-la estava me transformando em outra pessoa.
Eu dormia no quartel. Tinha direito ao rancho. Ganhava 50 mil réis. Minha mãe cuidava do meu fardamento com um carinho especial e eu lhe dava mensalmente 30 mil réis para ajudar nas despesas e recompensá-la pelos dias em que estive morando em sua casa. Todo final de semana eu a visitava, conversávamos e, antes de sair, trocava a farda usada por outra limpa.
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| retirada da internet |
Por sorte, assim que passei a pronto, fui escolhido para trabalhar na Casa das Ordens, setor do quartel onde eram publicadas as notícias da Polícia Militar, sob a direção de um oficial. Fui incumbido de operar o mimeógrafo na impressão do boletim diário, distribuído e lido em todas as unidades da Força, às 16 horas. O mimeógrafo era um aparelho antigo, “engasgava” o estêncil, e eu tinha que fazer alguns malabarismos para não atrasar o boletim. De qualquer forma, a despeito dessas dificuldades técnicas, era um privilégio trabalhar na Casa das Ordens.
Passei a servir na Companhia Extra, e, por ordem superior, só poderia dar guarda em prédios públicos, entre 18 e 6 horas da manhã, devido à minha atividade.
Dormia, excepcionalmente, num anexo da própria Casa das Ordens. No mesmo anexo, dormia também o cabo Lucena, responsável pelo material da Cia. Extra. Era um excelente companheiro, tinha bom papo e eu gostava muito de trocar ideias com ele.
Eu já era cabo quando Lucena adoeceu e foi internado com fortes dores de cabeça. Os exames indicaram um tumor no cérebro e a notícia surpreendeu todos no quartel. Foi operado com urgência, porém não resistiu. Então, eu, por ser o seu melhor amigo e companheiro de quarto, fui escalado para comandar a saudação fúnebre na entrada do cemitério, na hora do sepultamento. A emoção me dominou de tal forma que, com muita dificuldade, a minha voz de comando foi ouvida pelos comandados para executar a salva de tiro. Foi, sem dúvida, o pior momento vivido por mim na vida militar.
EU JÁ NÃO ME LEMBRAVA mais do IBGE, quando fui procurado por um funcionário daquele órgão. Pediu-me que o acompanhasse até a pensão Pedro Américo, onde estava hospedado. Ali, ele me entregou a quantia de 80 mil réis referente ao meu trabalho em São Bento, já deduzidos os valores de minhas dívidas com a pensão e a loja do Sr. Pimenta, em Brejo do Cruz, aquela onde comprei o par de sapatos. Quanto ao muro, fiquei sabendo pelo inesperado senhor que o meu amigo mecânico, sentindo-se responsável, pagou o prejuízo, bem como o conserto do caminhão.
Fiquei feliz. O dinheiro que eu acabava de receber certamente me permitiria cumprir a promessa feita à minha mãe.
À noite, fui procurá-la. Encontrei-a sentada, junto à porta, pensativa. Ao me ver, demonstrou satisfação. Meu semblante revelava que eu tinha novidades. Mantendo o suspense, coloquei a mão em seu ombro e falei:
— Surpresa!!!
Ela arregalou os olhos, curiosa, e só então eu falei:
— Acabo de receber os atrasados do IBGE!
O telefonista do Corpo da Guarda do Batalhão foi à Casa das Ordens me chamar para atender a uma ligação externa. Do outro lado da linha, uma voz feminina com um timbre autoritário perguntou se eu era o cabo Nunes, filho de Severina. Surpreso, confirmei. Secamente, a pessoa se dizia portadora de um presente de minha mãe. Deu-me o endereço de sua residência e identificou-se como Dona Maria Fernandes. Voltei ao trabalho meio confuso e curioso e, sem aguentar esperar, pedi permissão para sair.
Abri a caixa e me deparei com um lindo relógio dourado, da marca Birma.
Olhava para o pulso a todo instante, orgulhoso de possuir agora um relógio. Era muito para um simples cabo da Polícia. No quartel, quando me perguntavam as horas, eu não respondia, apenas dobrava o braço e exibia o mostrador para que o próprio pudesse admirá-lo ao ver o horário. Somente eu e o cabo Cleuto Leal possuíamos relógio.
Dei-lhe 30 mil réis que ela segurou em silêncio enigmático.
Ultimamente eu já estranhava o comportamento de minha mãe. Andava evasiva, distante, sem assunto. Ela nunca reclamou da quantia que eu lhe dava todos os meses. Nunca demonstrou insatisfação, mas aproveitou o momento e disse que não poderia continuar cuidando de minha farda e que eu deveria procurar outra pessoa para fazê-lo. A sua voz soava como um pedido de desculpas. Concordei, imediatamente, tranquilizando-a. Seu olhar era súplice, penetrante.
Enquanto eu juntava as minhas roupas, pude perceber que sua companheira, Mirian, sorria para si mesma, como se ficasse livre de minha incômoda presença nos finais de semana. Ela dividia as despesas com minha mãe, há muito tempo, e se sentia no direito de fiscalizar tudo.
Fiz um sinal com a mão, querendo dizer que estava indo, e minha mãe arriscou:
— Ouça, meu filho, não vá sumir.
Dei um muxoxo e parti.
Enquanto caminhava rua afora, lembrei que, desde pequeno, tinha vivido sem pai e sem mãe. Tudo que conseguira deles fora em raros momentos de desespero e agora não seria diferente. Um profundo ressentimento aflorou-me.
Os laços afetivos que eu busquei nos meus pais estavam apenas na minha imaginação, e pouco a pouco se diluíam. Vi-me, pela segunda vez, fechando uma porteira. “Preciso cuidar da minha própria vida, sem vacilar”, concluí.
Sentia-me adulto e deveria caminhar sozinho.
Meu fardamento passou a ser cuidado pela esposa de um soldado do batalhão, mas não era a mesma coisa. Eu me sentia acariciado por minha mãe toda vez que vestia a farda lavada e passada por ela com tanto zelo.
Desapareci por algum tempo. Tinha uma desculpa bem real caso minha mãe me procurasse: estava estudando à noite, e nos finais de semana me preparava para ingressar no curso de cabo, no qual, afinal, fui aprovado.
Já com a divisa de cabo, algum tempo depois, fui visitar minha mãe. A mágoa havia diminuído. Ela reclamou da minha ausência, porém não deu muita atenção às minhas explicações. Minha mãe estava vivendo a expectativa de uma vida melhor. Havia recebido um convite para gerenciar uma pensão e ia morar, sozinha, em um cômodo da pensão destinado ao gerente. Fiquei feliz com a notícia e prometi visitá-la no novo emprego. Mostrava-se animada com essa nova perspectiva. Apesar de seus 45 anos, gesticulava como uma menina quando falava da oportunidade que uma antiga amiga estava lhe propiciando.
Depois disso, tornei a vê-la, dias depois, na tal pensão, na Rua Maciel Pinheiro. Nos fundos do prédio havia um depósito onde eram guardados os mantimentos e as bebidas e, anexo, uma pequena sala com uma mesa e duas cadeiras. Dali, minha mãe coordenava as atividades da casa. Conversamos demoradamente e notei que ela estava bastante envolvida com o novo emprego, mostrava desenvoltura e competência ao falar do seu dia-a-dia. De repente, a dona da pensão, amiga de minha mãe, entrou na sala. Era uma senhora loura, alta, elegante. Fui apresentado e ela me cumprimentou mecanicamente, retirando-se em seguida, sem me dar atenção. Sua fria e rápida aparição me levou a interrogar minha mãe:
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| cruzamento da rua da Areia com Maciel Pinheiro, retirada da internet |
— Desde quando conhece essa senhora?
E ela, cabeça baixa, rabiscando qualquer coisa em um papel, respondeu:
— Desde que me separei de seu pai e vim para João Pessoa.
— Em Jatobá, pensávamos que a senhora estivesse morando com sua família. Onde está ela?
— Ah, meu filho! Isso é uma longa história. Nunca lhe falei, mas tenho duas irmãs que moram aqui, em João Pessoa, e um irmão que mora no Rio. Meus pais já morreram. Minhas irmãs não me receberam bem quando voltei separada de seu pai e tive que batalhar sozinha. Sei que Dega é casada com um inspetor de trânsito que atua no Ponto Cem Réis. Ele é moreno, alto e chama-se Santino. Moram no Roger. A outra, Maria, é casada também e mora próximo ao Instituto de Educação. Mas, um dia te conto com mais detalhes tudo que passei. Temos muito tempo pela frente...
Ainda impressionado com o desdém da dona da pensão, lembrei-me do sorriso enigmático de Mirian quando minha mãe se libertou da incômoda tarefa de cuidar do meu fardamento. Então, ironicamente, perguntei:
— Libertou-se também de Mirian?
E ela, fingindo não entender o sentido de minha pergunta, disse:
— Ela, além de me fazer companhia, assumia parte das despesas. Durante muito tempo dividimos amarguras e decepções, mas, ultimamente, eu já não a suportava. Quando você apareceu, ela pensou que você poderia nos ajudar, assumindo as despesas da casa, mas, depois de saber que era você quem precisava de ajuda, passou a zombar de mim. Discutimos muito por esse motivo. Ela também teve uma vida difícil. Tentou viver um amor impossível e acabou sozinha, sem amor e sem família. Eu a adotei durante algum tempo. Agora, vou tocar a minha vida, sozinha.
Minha mãe parecia outra pessoa. Senti que ela estava vivendo uma nova fase em sua vida. Despedi-me prometendo retornar. Dias depois, recebi um recado, por telefone, dizendo que se mudaria para Recife. Fui me despedir. Ela estava ansiosa com a perspectiva de trabalhar em uma cidade mais desenvolvida, embora fosse gerenciar outra pensão.
Alguns meses se passaram sem que ela desse notícias. Nem um recado sequer.
Sem entender seu silêncio, fui até a pensão onde ela trabalhou. Ali, alguém me informou que ela estava bem, em Recife.
Na semana seguinte, janeiro de 1942, eu completaria 20 anos, na realidade, 18.
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| retirado da imternet |
Logo ao ser introduzido na sala da confortável casa, reconheci a amiga de minha mãe que descansava recostada em uma cadeira de balanço. Levantou-se, fez um gesto para que eu aguardasse, e foi até outro cômodo. Nem deu tempo de observar o ambiente ao meu redor e ela voltou trazendo uma pequena caixa que me entregou, dizendo:
— Isto é um presente de sua mãe pelo seu aniversário. Conserve-o com muito carinho. Ela o comprou com grande sacrifício.
— Gostou do presente?
— Foi o presente mais importante e mais lindo que já recebi na vida! — respondi, eufórico e cheio de felicidade.
A amiga de minha mãe era uma senhora de pouco mais de 40 anos, gesto e fala eletrizantes, como uma napolitana. Passava a imagem de uma pessoa dinâmica, atenta, sempre preocupada com alguma coisa. E, antes que eu lhe fizesse qualquer pergunta, ela se adiantou:
— Sua mãe é pessoa de minha inteira confiança e revelou-se uma grande gerente. Ela está bem e não precisará voltar para João Pessoa.
— Fico triste em não poder vê-la de vez em quando, sinto sua falta. Transmita-lhe, por gentileza, a imensa satisfação que estou sentindo, principalmente por ter se lembrado do meu aniversário, sempre esquecido por todos. Assim que eu terminar um curso que estou fazendo, do qual não posso me afastar, irei visitá-la em Recife.
Voltei para o quartel com um sorriso largo. “Pela primeira vez alguém se lembrou da data do meu aniversário! Eu mesmo aprendi a não dar importância ao significado dessa data. É claro que, para uma mãe, esse dia deve ser inesquecível!”, pensei falando sozinho.
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| retirada da internet |
Olhava para o pulso a todo instante, orgulhoso de possuir agora um relógio. Era muito para um simples cabo da Polícia. No quartel, quando me perguntavam as horas, eu não respondia, apenas dobrava o braço e exibia o mostrador para que o próprio pudesse admirá-lo ao ver o horário. Somente eu e o cabo Cleuto Leal possuíamos relógio.
Naquela época, ter relógio de pulso representava distinção, boa situação financeira. Só me faltavam, agora, os óculos escuros — objeto de consumo muito desejado por aqueles que se preocupavam com a aparência pessoal. E eu queria ser um deles. Era tão exigente com a minha aparência que colocava forro de papelão nas platinas para mantê-las armadas, lisas, sem qualquer ruga; borzeguins e perneiras, assim como o cinto, estavam sempre impecavelmente lustrados. O presente de minha mãe veio completar este zelo pessoal que eu cultivava.
Nunca mais tive qualquer notícia de minha mãe, até que, certo dia, início de 1943, depois do almoço, recebi no quartel a visita de uma jovem elegantemente vestida, que trazia a notícia do seu falecimento e informava que o sepultamento se daria naquela tarde, em Recife. Olhei para o relógio e vi que não chegaria a tempo para a despedida. Fiquei aturdido.
A moça se apresentou como Bete e dizia ser sua prima. Estranhei, pois tinha pele muito clara, cabelos muito louros, e nenhuma semelhança física com minha mãe. Além disso, pareceu-me de outro meio social, muito distante da nossa realidade, como, também, não demonstrou nenhuma vontade em me conhecer melhor. Despedimo-nos e nunca mais a vi.
Em mim restou uma imensa amargura, o arrependimento de ter vivido tão poucos momentos com minha mãe e a lembrança constante de suas palavras: “Temos muito tempo pela frente...”
Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com
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Muito empolgada e feliz ao ler o seu encontro com a mae, mas no final fiquei triste pela perda dela e pelo pouco convívio dos dois.
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