1932. A SECA ERA MOTIVO DE PAVOR. Seus malefícios pareciam iminentes. Os açudes começavam a secar, a pastagem tornava-se cada vez mais escassa, ameaçando os animais. O estoque de víveres também chegava ao fim, ameaçando os que viviam da agricultura. Desde o ano anterior, a falta de chuvas atemorizava o sertão, fazendo com que muitas pessoas se deslocassem para outros lugares em busca de ajuda e trabalho.
Vendo agravar-se a situação e percebendo que já não havia esperança de chuva capaz de assegurar alguma colheita, meu avô começou a pensar onde poderia abrigar a família e fugir da fome com a qual já convivíamos.
De vez em quando, ele recorria à ajuda dos patrões, pois, em casa, já não havia o que comer. Valiamo-nos, principalmente, de algumas galinhas poedeiras cujos ovos eram cozidos juntamente com o feijão de corda e uma pequena talhada de jerimum servido com farinha de mandioca como refeição regular.
![]() |
| feijão de corda |
Os donos da terra mantinham uma pequena quitanda, em Patos, que fornecia mercadorias, mediante anotação em uma caderneta para pagamento futuro. Diante do agravamento da situação, eles já não vendiam dessa forma por temerem que as pessoas não pudessem saldar suas dívidas. Meu avô entrou em desespero.
Primo Delmiro, que residia próximo de nós e participava de nossa aflição, foi a Riacho Verde, no alto da Serra do Teixeira, visitar seu irmão Neco Felipe e lhe pediu que nos ajudasse, acolhendo-nos em suas terras.
![]() |
| Primo Delmiro |
Na manhã seguinte, meu avô foi à casa dos César comunicar que estava deixando São Pedro, indo para as terras de um sobrinho, em Teixeira. Eles não se mostraram muito receptivos à idéia, gostavam muito de nós, mas disseram que não interfeririam na decisão de meu avô, já que a situação na região era de calamidade e eles não tinham mais como nos ajudar.
As previsões se confirmaram. Naquele ano aconteceu uma das piores secas da história e muitos sertanejos desistiram do sertão.
Meu avô sofria com a ideia de ter que abandonar São Pedro, mas o desespero da seca o empurrava para outro lugar.
Sem demora, foi planejada a partida. Em lombo de jumentos foram arrumados os objetos da família, e o primo Delmiro nos conduziu. Seguimos a pé pela estrada esburacada e poeirenta, acompanhando o ritmo dolente dos animais. A esperança de estarmos indo para uma nova Canaã nos motivava de tal maneira que as sete léguas de viagem não seriam difíceis de vencer até o cair da noite.
O calor causticante tornava a viagem mais longa e cansativa. Na subida da serra eu demonstrei cansaço e meu avô me colocou no dorso de um dos animais. O cansaço, porém, não impedia que eu me deslumbrasse com a imensidão da paisagem. Parecia uma miragem, eu nunca tinha estado em um lugar tão alto!
O sol começava a descer quando chegamos ao cimo da Borborema e paramos junto a uma enorme pedra para descansar. O horizonte se tornou longínquo e a cor da terra, lá embaixo, acinzentou, mostrando-me um efeito que eu não conhecia. Meu avô não conseguia disfarçar a emoção e tentava nos indicar a localização da Fazenda São Pedro, tomando como referência o Serrote do Espinho Branco. O seu fascínio pela paisagem era tão evidente que por alguns minutos eu o senti menino como eu.
— Falta muito para chegar?
— Não, Chiquinho. Logo, logo, estaremos em Riacho Verde — falou meu avô, saindo daquele êxtase.
Retomamos a viagem.
Já era fim de tarde.
Ele demonstrava preocupação comigo, embora eu estivesse viajando no costado de um dos jumentos em meio a panelas, redes e toda a sorte de objetos, cochilando de vez em quando, embalado pelo passo cadenciado do jumento.
O sol já havia se escondido quando a caravana transpôs a cancela da propriedade de Neco Felipe. Ele nos aguardava ansioso. Era um lugar muito diferente daquele em que vivíamos. Meu avô e minhas tias se mostravam meio deslocados.
O primo Neco recebeu-nos cordialmente e nos indicou uma pequena casa, no alto de uma colina próxima de sua residência. Ele já havia reservado uma área cultivável para meu avô, conferindo-lhe irrestrito direito de uso de cultivo, sem qualquer exigência.
Meu avô se reanimou e, no dia seguinte, capinou a relva e queimou arbustos para esperar a chuva e fazer o plantio. A chuva demorou a cair e, quando veio, mal deu para umedecer a terra. Não demorou muito e meu avô percebeu que a área naquela parte da propriedade não era tão fértil como achava o primo Neco, embora ficasse perto do riacho. Nela havia um grande pedregulho que dificultava até o uso das enxadas, sem chance de uma boa colheita. Meu avô, decepcionado, procurava mostrar-se satisfeito, para preservar a hospitalidade que o primo Neco lhe ofereceu.
A região da Borborema, pelo seu clima fresco, fora sempre favorável à agricultura. No entanto, o ano de 1932 também foi perverso para o lugar. No ano seguinte, outra vez, não choveu o suficiente para garantir uma colheita razoável, resumindo-se a umas poucas cuias de feijão e milho, que meu avô recomendava que fossem usadas de forma moderada para não faltar antes da próxima colheita.
De qualquer maneira, estávamos ali. De nada adiantava lastimar sobre a qualidade da terra que nos foi oferecida, ao contrário, deveríamos confirmar que o sertanejo é um forte, antes de tudo, e proceder como alquimistas, tirando do meio daquelas pedras o sustento da família.
Mas, em silêncio, meu avô já pensava na possibilidade de voltar para a São Pedro de suas grandes lembranças. Ali, poderia estar perto da sepultura do seu grande amor, a razão maior de sua vida, sua inesquecível Francisca.
A colheita, neste ano, não deu sequer para guardar um pouco. Já estávamos no segundo semestre, aproximava-se o ano de 1934. Então, meu avô reuniu a família e anunciou que iria falar com o primo Neco da sua decisão de retornar a São Pedro, pois recebera notícias de que, na região de Patos, a vida havia voltado ao normal e todos já acreditavam numa boa safra no ano que ia começar.
Assim sendo, os dois conversaram longamente e, por fim, combinaram que o primo Delmiro nos transportaria de volta.
Ao retornar da casa do primo, meu avô trazia em seu rosto a imagem da esperança. Puxou um tamborete, sentou-se encostado a um grande tronco de árvore e começou a preparar seu habitual cigarro de fumo picado, enrolado em palha de milho.
Olhou para mim e disse:
— Nós vamos voltar para São Pedro!
— Quando?
— Quando o Delmiro vier buscar — completou.
Dias depois, Delmiro chegou trazendo alguns burros para o transporte. As roupas e os objetos que possuíamos foram ensacados e arrumados nos costados dos animais. Junto à cancela, Neco nos aguardava para as despedidas.
Partimos.
Chegamos a São Pedro já era quase noite.
Pensávamos que seríamos bem recebidos, mas os ex-patrões, quando nos viram carregados com toda a tralha, foram logo dizendo que não havia mais lugar, a casa já estava ocupada e o terreno para o cultivo da lavoura já tinha sido dado ao novo morador. Em São Pedro, não podíamos mais ficar.
Anoiteceu e meu avô não sabia o que fazer. Então, o primo Delmiro nos abrigou em sua casa, dizendo que podíamos ficar até que meu avô encontrasse um lugar para se fixar com a família.
No dia seguinte, ele, desolado, procurou Xixi Cabral, proprietário da fazenda Jatobá, contígua à fazenda São Pedro. Expôs-lhe toda a aflição que sentia e pediu-lhe ajuda. Eles eram velhos conhecidos, e este, diante daquele homem em desespero, disse:
— A partir de amanhã, mestre Ezequiel, o senhor terá um lugar em Jatobá.
Eu estava com meu avô e pude participar de sua alegria. Com dificuldade, já que a emoção lhe fechava a garganta, ele agradeceu e retornamos para a casa do primo Delmiro. Eufórico, ele anunciou a sua ressurreição. Eu, sorridente, apenas balançava a cabeça confirmando as suas palavras.
Finalmente iríamos iniciar uma nova vida, agora com mais condições, pois Jatobá era uma fazenda grande e com muitos recursos. Fomos acomodados em uma pequena casa, num terreno elevado, a pouca distância de um riacho. No outro lado desse riacho, surpreendentemente, avistavam-se as duas cruzes que indicavam as sepulturas de vovó Francisca e seu filho Alfredo. Parecia um reencontro preparado pelo destino. Agora, dali, meu avô podia contemplar aquele lugar sempre vivo em sua memória.
Próximo da casa, havia um extenso e alto bloco de pedra e, quando nos mudamos, minhas tias foram logo me prevenindo:
— Você não poderá subir lá!
Provocado por essa proibição, o lajedo passou a ser o meu parque de diversão, a minha brincadeira favorita. E sempre que podia uma de minhas tias me acompanhava até o alto daquelas pedras para que eu me divertisse mirando os calangos e as lagartixas com uma baladeira. Simples divertimento, perverso!
Perto de nossa casa havia três outras nas quais moravam os irmãos Antônio, Simplício e Lourdes e outras crianças que não lembro o nome. Agora eu tinha amigos com quem brincar, mas não podia me afastar para longe. Portanto, meus amigos se reuniam ali, comigo, próximo da nossa casa, e eu nunca podia ir para perto de suas casas. Estava sempre sob os olhares severos e controladores de minhas tias.
Nessa época, eu, que ia fazer nove anos, sofria terrivelmente com uma bronquite que me atormentava noite e dia. Todos se preocupavam com as minhas crises e, apesar de me administrarem toda espécie de chás caseiros, indicados por vizinhos curiosos que se sentiam doutores da flora, meu peito persistia chiando. Tio João reclamava. Nossas redes ficavam lado a lado e durante a noite seu sono era perturbado pela minha dificuldade em respirar. Assim, pela manhã, aborrecido, ele insistia e profetizava.
Naquele tempo, muito se falava em Padre Cícero, de Juazeiro, e nas suas curas com fórmulas milagrosas. Inocência acreditou e escreveu-lhe uma carta, em meu nome, pedindo ajuda de cura para o mal que me agoniava e que tirava o sossego de todos na casa. Dias depois, nos chegou, por romeiros, uma carta-resposta, em papel pautado, simples, acompanhada de uma foto de Padre Cícero, deixando todos muito alvoroçados e cheios de esperança.
Nela estava escrito:
Juazeiro, 1-11-33
Meu afilhado Francisco:
Deus lhe abençoe e aos seus.
Recebi sua cartinha e com atenção respondo.
Tome o cozimento do velame, com batata de purga e jarrinha.
Sem mais, disponha do padrinho amigo.
Pe. Cícero Romão Batista
Imediatamente, Inocência seguiu a fórmula indicada e, como num passe de mágica eu nunca mais tive as tais crises. Hoje, muito me orgulho em incluir esse episódio nas minhas lembranças. Faço parte daquela legião de “romeiros da fé” que viram seus pedidos atendidos, seus sofrimentos aliviados e foram abençoados pelo grande “Santo Nordestino”.

Cresci admirando quem possuía talento para tocar viola ou fazer poesias, já que a nossa casa era uma espécie de cais aonde chegavam e de onde partiam, com freqüência, poetas, repentistas e violeiros amigos da família. A todos eu ouvia e aplaudia, sem alentar qualquer desejo de me tornar um deles, talvez por conta de minha pouca idade ou por não me imaginar capaz de vir a dominar aquelas artes.
MEU TIO JOÃO, embora residisse conosco, nunca nos acompanhava nesses momentos de família ou quando visitávamos algum parente. Ele era muito independente, de pouca conversa. Estatura baixa, físico pouco volumoso, calmo, olhar penetrante. Ajudava na lavoura, mas a sua atividade principal era a marcenaria. Fabricava móveis simples, de madeira, como mesas, cadeiras, tamboretes e também malas de viagem, tão utilizadas pelas pessoas da região. Nos fundos da nossa casa, ele mantinha uma pequena oficina onde produzia suas peças. Quando estava de bom humor, permitia que eu ficasse assistindo, respondia às minhas perguntas curiosas e eu me detinha, observando a habilidade com que ele usava as ferramentas na fabricação daqueles objetos.
Sua cartinha, hoje manchada pelo tempo, encontra-se guardada nesta mesma caixa que reviro em busca de emoções mais longínquas.
VOVÔ ERA UM SERTANEJO imbuído de espírito romântico, apegado às tradições dos violeiros e dos poetas, que ele conservava com o mais profundo respeito. Possuía uma única herança: ser um dos filhos de Nicandro Nunes da Costa, de Teixeira, um dos maiores poetas do sertão, muito respeitado por seus repentes inteligentes.
Quando falava de seu pai, Nicandro, o fazia com a mais pura veneração. Recordava-o para cada um de nós, sempre evocando episódios ou fatos de sua vida, que nos eram passados como se fossem exemplos de uma figura forte, respeitável e inteligente.
Falava sempre no rio Pajeú e seus mandins, São José do Egito, em Pernambuco, ou Riacho Verde, em Teixeira, lembrando-se da sua infância e dos tempos de mocidade, quando vivia na companhia de seu pai. Falava também do negro Galdino, escravo da família, seu amigo e protetor.
De vez em quando, ao apertar a saudade, ele ia buscar na memória alguma poesia de Nicandro — “o Poeta Ferreiro” — e a recitava com o mais profundo orgulho. Exaltava também a figura do tio, Hugolino Nunes da Costa. Hoje, sei que este, jovem ainda, deixou a casa paterna para levar uma vida de poeta e cantador, contrariando seu pai Agostinho.
Além do poeta Hugolino, ouvia minhas tias falarem em outros tios de nomes Agostinho Filho e Abílio, de maneira muito carinhosa, mas eu não cheguei a conhecê-los.
Em nossa casa, a poesia e a cantoria ao som da viola sempre foram valorizadas. Meu avô era um apaixonado tradicional da viola, por sinal um instrumento que ele dominava muito bem. Nas noites de luar, sempre a dedilhava como se estivesse falando de saudades.
Quando o primo Arthur aparecia com sua viola a tiracolo, a vizinhança era avisada de que à noite aconteceria um duelo. Para o enfrentamento, procurava-se outro violeiro nas cercanias, e, à hora combinada, com a sala cheia, começava o desafio. Meu avô mostrava-se o mais feliz de todos. Nada neste mundo o atraía mais do que um “pega” entre dois cantadores ou violeiros.
Quando o primo Arthur aparecia com sua viola a tiracolo, a vizinhança era avisada de que à noite aconteceria um duelo. Para o enfrentamento, procurava-se outro violeiro nas cercanias, e, à hora combinada, com a sala cheia, começava o desafio. Meu avô mostrava-se o mais feliz de todos. Nada neste mundo o atraía mais do que um “pega” entre dois cantadores ou violeiros.
Essa paixão marcante de meu avô pela cantoria fez com que, certa vez, não havendo encontrado outro cantador para enfrentar o primo Arthur, ele, em desespero, pegasse a viola. Depois de afiná-la, parou pensativo e, olhando para mim, voltou a dedilhar, ensaiando um mote, e disse:
— Chiquinho, senta ao lado de Artur e faça as vezes do cantador que não veio.
— Eu?
Fiquei atônito, sem entender o que se passava na cabeça dele, mas tomei a viola e, fazendo as posições que ele havia me ensinado, dei saída ao mote sem qualquer verve, sendo ao final bastante aplaudido pela platéia, talvez pela minha coragem.
Meu avô ficou radiante, mas, percebendo a minha dificuldade, ele próprio tomou a viola e continuou a cantoria daquela noite.
Achei que o havia decepcionado, pois ele certamente esperava que, ali, estivesse se revelando mais um poeta e violeiro na família Nunes da Costa.
Tinha eu apenas 10 anos.

Cresci admirando quem possuía talento para tocar viola ou fazer poesias, já que a nossa casa era uma espécie de cais aonde chegavam e de onde partiam, com freqüência, poetas, repentistas e violeiros amigos da família. A todos eu ouvia e aplaudia, sem alentar qualquer desejo de me tornar um deles, talvez por conta de minha pouca idade ou por não me imaginar capaz de vir a dominar aquelas artes.
MEU TIO JOÃO, embora residisse conosco, nunca nos acompanhava nesses momentos de família ou quando visitávamos algum parente. Ele era muito independente, de pouca conversa. Estatura baixa, físico pouco volumoso, calmo, olhar penetrante. Ajudava na lavoura, mas a sua atividade principal era a marcenaria. Fabricava móveis simples, de madeira, como mesas, cadeiras, tamboretes e também malas de viagem, tão utilizadas pelas pessoas da região. Nos fundos da nossa casa, ele mantinha uma pequena oficina onde produzia suas peças. Quando estava de bom humor, permitia que eu ficasse assistindo, respondia às minhas perguntas curiosas e eu me detinha, observando a habilidade com que ele usava as ferramentas na fabricação daqueles objetos.
Apesar da pouca idade, comecei a criar as minhas próprias pecinhas, que eram miniaturas das que via serem produzidas: pequenas e delgadas camas, cadeiras, armários e mesas de casinha de bonecas que eu pacientemente finalizava e presenteava meus amigos e conhecidos. Depois de algum tempo de experiência, eu passei a levá-las para a feira, na cidade, expondo-as no chão, sobre uma esteira, ao lado das mercadorias de José Fogueteiro, nosso vizinho, que era uma espécie de camelô dos dias de hoje. Eu aproveitava o seu apoio e, em poucas horas, via meu esforço recompensado. Vendia todas as peças, voltando para casa com alguns trocados no bolso. Meu avô ficava exultante!
Nas segundas-feiras, tio João exercia, na cidade, a atividade de barbeiro, aproveitando-se da grande movimentação de pessoas que vinham de todas as localidades próximas, para a feira. Lembro-me do dia que sentei na sua cadeira de barbeiro, na cidade, e pedi-lhe:
Nas segundas-feiras, tio João exercia, na cidade, a atividade de barbeiro, aproveitando-se da grande movimentação de pessoas que vinham de todas as localidades próximas, para a feira. Lembro-me do dia que sentei na sua cadeira de barbeiro, na cidade, e pedi-lhe:
— João, corta meu cabelo?
Ele, dando-me um safanão, disse:
— Saia daí, não vê que está ocupando o lugar de um freguês? O seu cabelo eu corto em casa!
Saí triste e decepcionado. Eu queria me ver, através do enorme espelho, sentado na confortável cadeira giratória, de couro preto, como qualquer homem que entrava ali no salão. Porém, ele, rudemente, devolveu-me à realidade.
Aos sábados, meu tio se enfatiotava num terno de linho branco, bem engomado, colocava um chapéu de palhinha e uma gravata com laço bem ajustado, montava em seu cavalo alazão e partia em trote cadenciado em direção a algum lugar onde pudesse dançar e namorar. Tratava do cavalo com tanto zelo que seu pelo brilhava como seda. As rédeas e a sela, sempre polidas, se destacavam pelo reflexo de seus apliques prateados. O animal parecia assimilar o porte ereto e garboso do seu dono.
Depois de se cansar da vida de solteiro, já com trinta e seis anos, João apaixonou-se pela jovem Iraci, de apenas 13 anos, filha de Manoel Casadinho, que residia no Arranca-Toco, à beira da estrada que liga Patos a Teixeira. A moradia deles era usada como casa de arrancho, espécie de pousada onde as pessoas que vinham de longe para a feira, muitas da serra, guardavam suas compras e dormiam, para retornar no dia seguinte.
Antes de conhecer Iraci, João estava noivo de outra jovem e parava na casa de Manoel Casadinho para conversar. Iraci aproveitava os momentos de distração de João para brincar com o seu belo cavalo, fazendo-lhe trancinhas na crina e no rabo. Ao se despedir, João, embora irritado com a travessura da menina e com o trabalho que teria quando chegasse em casa, nada falava. E, assim, Iraci se fez notar e conquistou o coração daquele sertanejo que acabou terminando o antigo noivado, casando-se com ela.
Foi um casamento movimentado, promovido pelo pai da noiva, com mesa farta e muitos convidados. Poder-se-ia dizer que o casamento foi notícia nas redondezas. João construiu sua casa próxima à casa do sogro com a ajuda do meu avô Ezequiel, que era exímio pedreiro. Tiveram nove filhos.
TIO NICODEMOS, eu não conheci. Lembro, apenas, que minhas tias se referiam a ele como o “finado Nicodemos”. Anos depois, eu já adulto, fiquei sabendo que ele também fora vitimado pela varíola e, na ânsia de se curar, ingeriu querosene em excesso, vindo, por isso, a falecer ainda jovem.
Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com
Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com












Como já disse anteriormente: quanta riqueza de detalhes! Faz-nos viver aquela época em que eu nem sonhava ter nascido! Cada alegria e cada tristeza. Sinto-me honrada por poder conhecer a vossa história. Beijinhos da Malu
ResponderExcluir