VIVI A INFÂNCIA DE UM MENINO arredio e pouco comunicativo. Brincava sozinho. Não havia na vizinhança crianças da minha idade. Eu inventava minhas próprias brincadeiras: ossinhos viravam gado e outros animais vivos, ou cercadinhos e porteiras, que eu reunia transformando em fazendas de mentirinha. Eu me imaginava proprietário de uma terra, espalhando pelo cercado improvisado os animais-ossinhos. Conversava horas a fio com um personagem invisível criado para ser meu amigo. Ele me aconselhava a comprar mais gado, aumentar o meu rebanho, e eu saía à procura de esqueletos de pequenos animais, geralmente dizimados pela seca. Nós ficávamos um bom tempo escolhendo os mais bonitos para serem bois, vacas e cabras. Assim, eu não sentia passar os dias, vivendo esses momentos de total fantasia.
Meu avô e minhas tias quase nunca saíam de casa, exceto aos domingos quando íamos à igreja na cidade e à Fazenda Pilões, de meu padrinho Pedro de Oliveira, que ficava a pouca distância de Patos.
Esses momentos eu aguardava com muita ansiedade. Era quando eu aproveitava para me reunir com outras crianças e aprender outras brincadeiras. Minhas tias me soltavam um pouco mais, após severas recomendações de que não poderia correr, sujar ou rasgar a roupa. Se isso acontecesse, quando chegasse em casa, seria punido. Devido a essas limitações, enquanto demorasse a visita, eu ficava sempre atento aos olhares repreensivos de meu avô ou de minhas tias e quando alguma criança, na casa do anfitrião, me convidava para brincar um pouco mais distante, eu pedia que falasse com eles. Se permitissem, eu os acompanharia. Aí, eram renovadas as recomendações, desta vez incluindo para que tivesse muito cuidado, não me arriscasse, não subisse em árvores nem me aproximasse do açude da fazenda. De maneira alguma eu podia brincar agarrado, rolar no chão, ou gritar.
Eu percebia que meus amigos tinham uma vida diferente, eram criados com mais liberdade do que eu. Ninguém lhes recomendava nada e podiam subir nas árvores, ficar pendurados nos galhos, correr, andar sobre o bardo do açude e, se sujassem ou rasgassem as roupas, ninguém brigava com eles. Tudo eu observava, sem ousar desafiar as recomendações que recebia.
De vez em quando, ensaiava uma corridinha, desfilava em um cavalo de pau, entregava-me a um pega-pega, sem esquecer que estava sendo observado. Eu adorava correr em cavalo de pau. Em casa eu tinha vários, feitos por mim mesmo. Ficava de olho em qualquer galho roliço e sem nó que me permitisse amarrar um cordão na extremidade. O cavalo de pau era a minha brincadeira preferida e com ele eu trotava, imaginando-me um cavaleiro do sertão.
Na fazenda, quando chegava a hora do almoço, alguém surgia no alpendre e gritava:
— Está na hora de parar de brincar, venham almoçar!
Imediatamente obedecíamos e era iniciado o momento alto da visita para mim, vez que ali eu provaria uma comida diferente da que, costumeiramente, era colocada na mesa de nossa casa. Eu adorava quando serviam galinha à cabidela, arroz de leite, feijão comcarne-seca, farofa preparada com manteiga de garrafa. Nas fazendas, as visitas eram sempre recebidas com mesa farta.
Após o almoço, os anfitriões nos convidavam para uma caminhada pela propriedade, apreciando a plantação e o pomar. Isso era um procedimento comum nos sítios e fazendas daquela época. Na verdade, uma excelente oportunidade de mostrarem os seus domínios. No pomar de Pilões colhíamos pinha, goiaba, caju, umbu, oiti, que levávamos para casa como presente da visita.
Se o sol estivesse aconselhando uma parada, todos sentavam à sombra de um frondoso juazeiro e ficávamos contemplando o grande açude emoldurado pela beleza da paisagem.
![]() |
| caju |
| cajarana |
Se o sol estivesse aconselhando uma parada, todos sentavam à sombra de um frondoso juazeiro e ficávamos contemplando o grande açude emoldurado pela beleza da paisagem.
Meus padrinhos não tinham filhos e sempre demonstraram muito carinho por mim. Quando eu aparecia por lá, era recebido com grande alegria. Procuravam entender e satisfazer todas as minhas vontades, já que eu era tímido e não me manifestava muito. Mas percebiam que eu gostava de ir ali. Certa vez, numa dessas visitas, ele pediu ao meu avô que me deixasse em sua companhia, ele cuidaria de mim como se fosse meu pai e prometia que nada me faltaria.
— Ele será meu herdeiro, poderá estudar e terá um futuro tranqüilo.
Meu avô, ao ouvir essa proposta, arregalou os olhos, pigarreou, e disse assustado, levantando-se da cadeira:
— Não! Isso, não! Chiquinho é meu neto e nunca sairá da minha companhia.
Meu padrinho calou-se e deu por encerrado o assunto. O clima mudou naquele domingo na Fazenda. Despedimo-nos mais cedo que das outras vezes e demoramos para retomar a rotina de visitas.
Tempos depois, numa dessas visitas, meu padrinho nos apresentou José, dizendo todo orgulhoso:
— Este é meu filho!
José devia ter a minha idade. Era esguio e moreno. Tinha os dentes caninos acavalados e por isso ria pouco, o que lhe dava um ar de timidez. Assim que nos conhecemos, tornamo-nos amigos e companheiros de brincadeiras.
Outras vezes, aos domingos, visitávamos o velho Chico Anselmo, no Espinho Branco ou, então, Nicolau, ou ainda Ildefonso e Cândido, parentes de meu avô, que tinham propriedades nas proximidades de Jerimum, no sopé da Serra do Teixeira. Nessas casas, éramos também recebidos com mesa farta e muita cordialidade.
Eles tinham casa de farinha e engenho de moagem de cana. No fim do dia nos ofertavam: rapadura, mel de engenho, farinha, feijão e biju. Voltávamos para casa carregados daqueles agrados que rendiam até uma próxima visita. Eram visitas periódicas que ocorriam, num esquema de revezamento, principalmente quando a escassez de alimentos invadia nossa casa, o que era comum naqueles tempos não só para nós, como para muitas outras famílias.
Eles tinham casa de farinha e engenho de moagem de cana. No fim do dia nos ofertavam: rapadura, mel de engenho, farinha, feijão e biju. Voltávamos para casa carregados daqueles agrados que rendiam até uma próxima visita. Eram visitas periódicas que ocorriam, num esquema de revezamento, principalmente quando a escassez de alimentos invadia nossa casa, o que era comum naqueles tempos não só para nós, como para muitas outras famílias.
Durante a semana, minhas tias se dividiam entre os afazeres domésticos e os trabalhos da roça, na fazenda, ajudando meu avô a cumprir o compromisso com os proprietários da terra, os César.
Recordo-me da família César com o mais profundo respeito. Era uma gente maravilhosa e que muito nos ajudou. Eles cederam ao meu avô uma pequena área da fazenda para que ele plantasse algodão, milho, feijão e batata-doce. De tudo que se produzia, a terça parte era entregue ao dono da fazenda. Era comum esse tipo de parceria agrícola em que o proprietário da terra arca com as despesas do cultivo e recebe parte da colheita, cabendo a maior parte ao parceiro trabalhador.
Eu, embora criança, às vezes, acompanhava meu avô e minhas tias quando saíam para o cultivo da terra ou para a colheita. Eles levavam a comida, preparada de véspera. Para mim, levavam um pouco de mugunzá com leite de cabra, o que eu adorava. Meu avô recomendava para que eu ficasse brincando próximo de onde eles estivessem trabalhando, até a hora de voltar.
Quando chegava o ocaso, todos, de enxada ao ombro, tomavam o caminho de volta à casa. Na manhã seguinte, vivia-se tudo outra vez.
DURANTE O ANO, dois grandes momentos festivos eram aguardados com grande expectativa: as festas juninas e o Natal.
No dia 23 de junho, véspera de São João, todos viviam suas rotinas com as atenções voltadas para o anoitecer, quando seriam acesas as grandes fogueiras que arderiam a noite inteira, iluminando a porta de cada casa.
Embora a friagem das noites de junho desencorajasse um pouco, a animação do povo no coração do sertão era tanta que tornava a festa um acontecimento ímpar para os sertanejos.
Embora a friagem das noites de junho desencorajasse um pouco, a animação do povo no coração do sertão era tanta que tornava a festa um acontecimento ímpar para os sertanejos.
Era uma luminosidade belíssima aquela das muitas fogueiras, acrescida da beleza do espocar dos fogos no céu. As visitas traziam batatas-doces e espigas de milho para assar. Pamonhas, canjicas, bijus, enfim, todo tipo de guloseimas e comidas típicas, eram o ápice daquela noite de confraternização.
Havia, ainda, o rito dos compadres, que criava um vínculo entre padrinhos e afilhados, levado a sério por toda a vida. Ele acontecia quando as fogueiras iam se apagando. Os escolhidos para aquele compromisso se reuniam em torno dela recitando:
— São João disse e São Pedro confirmou que a partir de agora somos compadres, que São João mandou.
E, para os afilhados, os padrinhos falavam:
— São João disse, e São Pedro confirmou que serei seu padrinho, que São João mandou.
E o afilhado respondia:
— São João disse e São Pedro confirmou, vou ser seu afilhado, que São João mandou. Bênção, meu padrinho!
Tudo isso constituía uma maravilhosa associação de sentimentos e ritos, com ingênua reciprocidade, difícil de se ver no ambiente urbano.
As crendices com os pratos com água ou os cortes nos galhos das bananeiras, onde as moças solteiras pediam para São João mostrar a silhueta ou a letra do nome do eleito, eram motivo de muito riso e zombaria, principalmente por parte dos rapazes.
Outro momento de grandiosidade era a dança da quadrilha seguida do “arrasta-pé”, que hoje chamamos de forró. As moças e os rapazes se enfeitavam com esmero para a encenação do casamento na roça com direito a padre, padrinhos e testemunhas. Esse teatro espontâneo se repetia ano após ano e era vivido por todos com seriedade e descontração.
Depois da cerimônia, os convidados para o “casório” formavam alas de moças e rapazes e a quadrilha evoluía, ao som da harmônica, do bumbo e do triângulo, com o coro e o aplauso dos presentes, para só então, ao final dessa dança, começar o arrasta-pé livre, por toda a madrugada. Muitos jovens aproveitavam essa oportunidade para se lançar no mundo da dança e dos romances, que muitas vezes culminavam em casamentos de verdade.Era assim a noite de São João no Nordeste, aguardada com expectativa e vivida com intensidade.
Outro momento de grandiosidade era a dança da quadrilha seguida do “arrasta-pé”, que hoje chamamos de forró. As moças e os rapazes se enfeitavam com esmero para a encenação do casamento na roça com direito a padre, padrinhos e testemunhas. Esse teatro espontâneo se repetia ano após ano e era vivido por todos com seriedade e descontração.
![]() |
| retirada da internet |
Nos festejos de São Pedro havia fogueira, mas sem grandes festas. Apenas cultuava-se o santo na missa e as famílias se reuniam à noite para a canjica e as pamonhas. Bá e madrinha Alice se esmeravam nesses quitutes.
Os festejos juninos, vividos hoje pelas pessoas do interior e da cidade, não têm mais a mesma beleza daquele tempo. Antes, tudo era feito seguindo uma tradição pura, ingênua, espontânea, sensível à alma. Hoje, mesmo nas cidades pequenas do interior, quebram a tradição e tentam inovar, acabando por embaçar o esplendor e entusiasmo dos festejos juninos. Mas acho que esta minha fala é apenas saudosismo de uma pessoa que não esquece a tradição nem as belezas de sua terra.
O NATAL ERA REVESTIDO de um profundo sentimento religioso e esperado com grande ansiedade em toda a região. No dia 24, cedo ainda, cada membro da casa do velho Ezequiel, vestindo a melhor roupa, enfileirava-se estrada afora, caminhando na direção da cidade.
À noite, distinguiam-se, ao longe, muitas luzes. Fogos de artifício desenhavam estrelas luminosas no céu, tal qual no texto bíblico, para festejar o nascimento do Menino Jesus.
As pessoas se reuniam nas casas da cidade para confraternizar e, como era próprio do povo do interior, falar de suas vidas e de suas esperanças.
Porém, os moradores das terras, apesar de convidados, aguardavam seus patrões do lado de fora das casas, até que terminasse a confraternização familiar, para, só então, ter acesso à ceia, quando comiam à vontade, do bom e do melhor.
Eu ficava acocorado, junto ao portão, esperando e rezando, pedindo que os ponteiros do relógio girassem rápido para que eu pudesse também me juntar às boas emoções daquelas criaturas, usufruindo a mesa farta, diferente daquela que eu conhecia na minha vida camponesa.
Muitas vezes recebíamos pequenos presentes e víveres que levávamos para casa com muita satisfação.
Dali, saíamos para assistir à banda que tocava no coreto em frente à Igreja de Nossa Senhora da Guia e visitar conhecidos com posses para pedir-lhes o “natal”, um velho costume da região.
Dali, saíamos para assistir à banda que tocava no coreto em frente à Igreja de Nossa Senhora da Guia e visitar conhecidos com posses para pedir-lhes o “natal”, um velho costume da região.
Entre as visitas, a principal era a que fazíamos ao gorducho Pedro Caetano, figura lendária do sertão patoense, cuja história era tão bem conhecida por meu avô.
— Trabalhamos juntos na enxada. Todo mundo ria dos pés dele. Eram duas lambadas desse tamanho, enormes! — dizia, jocosamente, separando as mãos para mostrar o tamanho dos pés daquele velho amigo, e completava explicando: ele ficou muito rico em uma certa época de seca, comprando feijão a preço baixo, estocando e o revendendo a preços significativos, multiplicando em muito a importância investida.
Depois, Pedro Caetano aplicou em outros negócios os muitos contos de réis ganhos. O progresso foi imenso, e ele tornou-se o homem mais rico da região. Comprou até uma usina de beneficiamento de algodão. Seu principal negócio, então, passou a ser a compra de algodão na folha. Fornecia antecipadamente dinheiro aos lavradores, para cuidarem do algodoal com o compromisso de lhe entregarem a safra pelo preço combinado, ainda que, à época da colheita, o algodão estivesse muito acima do preço que ele pagara. Aproveitava-se da necessidade dos lavradores. Lembro-me que fui algumas vezes, com meu avô, à casa de Pedro Caetano para lhe vender algumas arrobas de algodão, na folha. “O gordo” recebia todos na sala, sentado em uma rede, pitando um grande cachimbo. Estava sempre vestido de linho branco, camisa muito fina de mangas longas, abotoaduras de ouro e os pés abrigados em chinelos de pano colorido. À sua frente, uma mesa com alguns montes de dinheiro, preparados para entregar a quem o procurasse e com o qual fizesse negócio.
Pedro Caetano era um homem muito conhecido e também o mais procurado na noite de Natal. Cada um que ia cumprimentá-lo recebia uma única moeda, tirada daqueles montes que mantinha arrumados à sua frente, símbolo de sua ostentação e riqueza. O dinheiro foi sempre a razão de sua vida e, através da distribuição daquelas moedas, parecia se redimir de suas práticas ambiciosas, sentindo-se um justo, vestido da grandiosidade da noite natalina.
Pedro Caetano era um homem muito conhecido e também o mais procurado na noite de Natal. Cada um que ia cumprimentá-lo recebia uma única moeda, tirada daqueles montes que mantinha arrumados à sua frente, símbolo de sua ostentação e riqueza. O dinheiro foi sempre a razão de sua vida e, através da distribuição daquelas moedas, parecia se redimir de suas práticas ambiciosas, sentindo-se um justo, vestido da grandiosidade da noite natalina.
— Tremi o corpo todo quando entrei lá. O homem estava sozinho!
E eu, maldosamente, indagava-me: “Por que será que elas têm tanto medo?”
Saindo dali, íamos comprar mariola, chouriço, pão doce, pitombas, rolete de cana ou rodelas de abacaxi, enquanto aguardávamos a hora da missa do galo.
No largo da Igreja de N. S. da Conceição todos se reuniam. Do interior da matriz, o perfume ativo do incenso era sentido do lado de fora, misturado ao cheiro forte do “Royal Briar”, que todos usavam, ou do pó-de-arroz “Ladí” (Lady), usado pelas mulheres.
Com as mãos juntas em prece, o sacerdote chegava ao altar para celebrar a solene missa do galo. Como numa coreografia bem ensaiada, todos repetiam os gestos do sacerdote, e cantavam com ele. Ouvia-se o sermão e, ao final, voltávamos para casa abençoados. Seguíamos pela longa estrada escura, ao lado de outras pessoas, algumas de cara cheia e fala desengonçada. As tias riam, achando graça de tudo aquilo. E eu as acompanhava.
SEGUNDA-FEIRA era o dia da feira, o dia mais esperado pelas pessoas da roça. Todos paravam as atividades da lavoura e se encontravam no centro de Patos. Vestiam-se os melhores trajes e por lá passávamos o dia nas compras para a semana, nos bate-papos e nas visitas aos conhecidos que moravam na cidade.
Na cidade, o meu interesse maior se resumia na busca pelo meu padrinho, Pedro de Oliveira. Admirava-o e não me cansava de olhar para a sua linda bengala de cabeça dourada (ouro?), que orgulhosamente carregava e da qual não se separava, assim como uma grossa corrente de ouro que pendia da lapela, presa a um relógio de algibeira, também de ouro, que ele guardava no bolso do peito, no paletó, junto com o lenço. Esses dois objetos, que para mim eram muito valiosos, davam-lhe um ar de elegância e bom gosto. Ao pedir-lhe a bênção ele colocava a mão direita sobre a minha cabeça e, entoando grosso um “Deus te abençoe”, me entregava uma moeda de 500 réis que tirava do bolso da calça. Com ela, eu saía em disparada para comprar pão doce e mariola.
A cidade era o meu mundo encantado. Ansiava pela segunda-feira como quem aguarda um dia de festa. O tempo era pouco para eu saciar a minha curiosidade: as lojas cheias de coisas bonitas e diferentes nas vitrines; as novidades baratas, quase sempre artesanais, diante das barracas dos feirantes; os trajes das pessoas e a maneira como se comportavam. Observava-as, tentava imitá-las, aprendia a me portar na cidade, acalentando a esperança de um dia ser como aquela gente. Achava a vida mais fácil, mais divertida, mais fascinante, porém, quando alguém me dirigia a palavra, eu escondia o rosto atrás do meu avô, ou das minhas tias, para não ter que responder e assumia a minha condição de bichinho-do-mato.
Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com
SEGUNDA-FEIRA era o dia da feira, o dia mais esperado pelas pessoas da roça. Todos paravam as atividades da lavoura e se encontravam no centro de Patos. Vestiam-se os melhores trajes e por lá passávamos o dia nas compras para a semana, nos bate-papos e nas visitas aos conhecidos que moravam na cidade.
A minha vontade de chegar à cidade era tanta que ao caminhar pela estrada eu tinha como “ponto de fuga”, lá distante, o sobrado de três andares do Dr. Alcebíades Parente, uma construção suntuosa, para a época, sobrepujando todos os outros prédios. Como criança, eu não conseguia disfarçar o fascínio que me causava aquele monstro branco.
Parar na casa do velho Manduri era quase um ritual para o meu avô. Eu nunca soube se eles eram parentes ou simplesmente amigos, mas consigo lembrar que a relação que existia entre eles era de muita intimidade e consideração. Segurando-me pela mão, meu avô chegava na calçada, embaixo da janela alta e gritava pelo seu nome:
— Manduri!!!
Imediatamente o velho surgia de dentro da casa, debruçava-se no parapeito e entabulava conversas que iam se esticando e enrolando até que um dos dois se desse por cansado e se despedissem. E eu, ali, louco para chegar no meio do burburinho do povo, na feira, para as compras da semana. Farinha, carne, café cru, açúcar mascavo, rapadura, azeite para lamparina, fósforo, sabão e fumo de rolo era o que meu avô comprava.![]() |
| fumo de rolo |
Na cidade, o meu interesse maior se resumia na busca pelo meu padrinho, Pedro de Oliveira. Admirava-o e não me cansava de olhar para a sua linda bengala de cabeça dourada (ouro?), que orgulhosamente carregava e da qual não se separava, assim como uma grossa corrente de ouro que pendia da lapela, presa a um relógio de algibeira, também de ouro, que ele guardava no bolso do peito, no paletó, junto com o lenço. Esses dois objetos, que para mim eram muito valiosos, davam-lhe um ar de elegância e bom gosto. Ao pedir-lhe a bênção ele colocava a mão direita sobre a minha cabeça e, entoando grosso um “Deus te abençoe”, me entregava uma moeda de 500 réis que tirava do bolso da calça. Com ela, eu saía em disparada para comprar pão doce e mariola.
Nesse dia, eu também tirava a barriga da miséria na casa de D. Ameriquinha César — feijão com jabá e um caprichado arroz de leite — antes de começarmos o caminho de volta, ao fim da tarde. Se não desse tempo de pegar a boia na casa dos César, meu avô fazia questão de me dar um lanche reforçado para que eu suportasse a caminhada. Deliciava-me com o aroma e o sabor do café e com o pedaço de pão fresquinho com queijo-manteiga, vendidos na birosca da feira, sob o toldo branco de algodão.
![]() |
| Rua do Prado |
Coloque seus comentários e caso você tenha alguma foto para postar ou história para contar, relativas ao episódio, envie para anamariaarnaud@gmail.com















Tantas lindas memórias, é curioso perceber que em estados tão distantes uns dos outros se encontravam as mesmas brincadeiras. Também muito brinquei com os ossinhos do gado na fazenda com os meus primos, chamavamos-lhes "tropa de isso". Mas ao contrário do seu Francisco a minha vida na estância se resumia às férias de verão, quando os meus avós reuniam todos os primos sob o mesmo teto. Também tenho muitas boas memórias daquele tempo♥️ beijinhos da Malu
ResponderExcluirTropa de osso* ☺️
ResponderExcluir